segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Obrigado, Leonardo!

 

 

Imagem gerada por IA.

O motorista mal havia dado partida quando começou a me relatar a divertida experiência que tivera com o passageiro anterior. Ligeiramente frustrado – pois estava nos meus planos apenas sacar o Kindle da bolsa e dedicar os próximos cinquenta minutos de viagem a uma boa leitura – atentei-me à narrativa daquele homem de nome composto um tanto peculiar.

Não recordo em qual momento Leonardo Felipe – era o nome do motorista – conectou o seu relato com uma situação que estava vivendo. Segundo ele, ao não ceder às investidas de uma moça deveras apaixonada, esta vinha pleiteando ao menos à sua amizade, ao que ele também tem resistido. Ao ser questionado quanto à razão de tal atitude, Leonardo argumentou que uma pessoa apaixonada nunca estará satisfeita com uma mera amizade, vendo sempre nessa aproximação uma oportunidade de conquista. E, do alto de sua admirável responsabilidade afetiva, arrematou dizendo: “Eu compreendo que ela possa me julgar frio pelo meu comportamento de agora, mas ela não sabe que, dessa forma, eu estou fazendo o melhor que eu posso por ela. Eu não quero que ela desperdice o tempo com expectativas irreais.”

O comentário de Leonardo me remeteu à recente mensagem que recebi de um antigo amor em resposta a mais uma de minhas tentativas de aproximação. Lembrei que, diante do tom glacial da mensagem, refleti sobre o quão injusto é o comportamento da pessoa que, ao não poder corresponder ao interesse romântico, fecha as portas até mesmo a uma boa amizade.

Escutando o relato de Leonardo, porém – e percebendo-me no mesmo lugar da jovem nele interessada – dei-me conta de que ele tinha razão, pois não existe amizade possível com alguém com quem, no fundo, você quer viver uma outra história. A não ser, claro, que se tenha muita maturidade para tal. Eu não tenho, restando-me, portanto, regozijar-me com o caráter libertador da frieza alheia e até dos silêncios que, se não me agridem, tampouco criam esperanças em torno de algo sem futuro.

Saí do veículo agradecendo ao Universo em uma silenciosa prece pela resposta às minhas recentes e equivocadas reflexões. E antes de fechar a porta, olhei para Leonardo e disse um sonoro “obrigado”. Ele não sabia, mas não era pela corrida que eu estava agradecendo...