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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Obrigado, Leonardo!

 

 

Imagem gerada por IA.

O motorista mal havia dado partida quando começou a me relatar a divertida experiência que tivera com o passageiro anterior. Ligeiramente frustrado – pois estava nos meus planos apenas sacar o Kindle da bolsa e dedicar os próximos cinquenta minutos de viagem a uma boa leitura – atentei-me à narrativa daquele homem de nome composto um tanto peculiar.

Não recordo em qual momento Leonardo Felipe – era o nome do motorista – conectou o seu relato com uma situação que estava vivendo. Segundo ele, ao não ceder às investidas de uma moça deveras apaixonada, esta vinha pleiteando ao menos à sua amizade, ao que ele também tem resistido. Ao ser questionado quanto à razão de tal atitude, Leonardo argumentou que uma pessoa apaixonada nunca estará satisfeita com uma mera amizade, vendo sempre nessa aproximação uma oportunidade de conquista. E, do alto de sua admirável responsabilidade afetiva, arrematou dizendo: “Eu compreendo que ela possa me julgar frio pelo meu comportamento de agora, mas ela não sabe que, dessa forma, eu estou fazendo o melhor que eu posso por ela. Eu não quero que ela desperdice o tempo com expectativas irreais.”

O comentário de Leonardo me remeteu à recente mensagem que recebi de um antigo amor em resposta a mais uma de minhas tentativas de aproximação. Lembrei que, diante do tom glacial da mensagem, refleti sobre o quão injusto é o comportamento da pessoa que, ao não poder corresponder ao interesse romântico, fecha as portas até mesmo a uma boa amizade.

Escutando o relato de Leonardo, porém – e percebendo-me no mesmo lugar da jovem nele interessada – dei-me conta de que ele tinha razão, pois não existe amizade possível com alguém com quem, no fundo, você quer viver uma outra história. A não ser, claro, que se tenha muita maturidade para tal. Eu não tenho, restando-me, portanto, regozijar-me com o caráter libertador da frieza alheia e até dos silêncios que, se não me agridem, tampouco criam esperanças em torno de algo sem futuro.

Saí do veículo agradecendo ao Universo em uma silenciosa prece pela resposta às minhas recentes e equivocadas reflexões. E antes de fechar a porta, olhei para Leonardo e disse um sonoro “obrigado”. Ele não sabia, mas não era pela corrida que eu estava agradecendo...


segunda-feira, 9 de junho de 2025

A Esquina dos Afetos

A loja de produtos esotéricos deu lugar a uma unidade da Pastelândia. Soube disso tão logo atravessei o largo quarteirão do Minascentro. E lá estava, cheirando à fritura a esquina que outrora cheirava a incenso. Enquanto esperava para atravessar a Rua Curitiba, no cruzamento com a Avenida Augusto de Lima, detive-me a pensar no poder que têm os odores sobre os nossos desejos e emoções.

Em um tempo anterior à pandemia, passar ali em frente me despertava o afã de elevação espiritual, vontade de meditar e ler autores da Nova Era. Hoje sinto me abrir o apetite, sendo imediatamente impelido a adentrar o estabelecimento e escolher logo uma promoção que me permita experimentar, de uma só vez, os pastéis de queijo, carne e frango (o meu preferido).

Pensei na transitoriedade das coisas externas e internas, em como as coisas à nossa volta mudam como forma de atender a demandas que, por sua vez, são também oriundas de mudanças outras, criando um ciclo de transformações que se retroalimentam.

Recordo-me de ter adentrado o ambiente nos tempos da Índia Central – nome da loja que lá havia – sendo atendido por um simpático rapaz que, percebendo-me fascinado pelas saias indianas, generosas em suas cores e tecidos, disse-me, solícito, que eu podia ficar à vontade para experimentar, se assim quisesse. Não havia escárnio em sua oferta. E digo-o como alguém bem experimentado no que tange a dizeres e atos homofóbicos. Havia, pelo contrário, um tal acolhimento e naturalidade em sua voz que, de repente, eu me sentia como que autorizado a ser quem era, a ponto de, se quisesse, experimentar uma saia, mandando às favas os conceitos de gênero, as opiniões alheias e afins.

Sobre a loja, havia o chamado “Santuário da Igreja Forte Ninho das Águias”, formando um conjunto que só se faz possível neste país e, sobretudo, aqui em BH: uma igreja protestante sobre uma loja indiana na qual um homem experimenta saias... Tem algo mais brasileiro do que isso? A igreja, aliás, segue lá até hoje, pois, como costuma acontecer, igrejas prevalecem sobre lojas e pastelarias...

No espaço que antes servia de loja de roupas indianas ora servem uma variedade de pastéis e caldo de cana, o que não é demérito algum. Continua sendo bom. Continua havendo afeto. Se outrora me eram supridas demandas afetivas ou espirituais, ora me são supridas as necessidades do corpo, expressas naquela vontadezinha de forrar o estômago depois de muito caminhar pelo Centro.

Seja de dentro do ônibus ou passando a pé em um dia corrido, jamais serei indiferente àquela esquina, que sempre me recordará dos anseios de ontem e de hoje, e da necessidade genuinamente humana de ser aceito, acolhido e amado, seja em forma de uma saia ou de um pastel.


quinta-feira, 15 de maio de 2025

A carona da Bia

Dia desses, ao encerrar expediente, dei-me com a balbúrdia típica dos adolescentes ao final da aula. Para quem não sabe, eu trabalho dentro de um campus no qual estão situadas duas escolas: uma infantil, da rede municipal, e outra estadual, sendo esta o cenário do tumulto juvenil supracitado.

Encaminhando-me para a saída do campus, avistei uma jovem embarcando em um veículo sob o olhar atento de um colega, que, (falsamente) impressionado, se dirigiu a uma outra colega. “A Bia vai embora nesse carro?” E em seguida, fazendo coro com alguns outros colegas, gritou “Dá carona, Bia!”, enquanto o veículo se afastava.

Tal situação trouxe à tona uma situação similar da qual há muito não me recordava, mas que permanecia aqui, arquivada nos recônditos da memória. O ano era 1993. Eu cursava a terceira série e os meus pais foram me apanhar de carro na escola, o que, por ser desnecessário, era raro. Já dentro do automóvel – um Corcel branco que o meu pai teve nos anos 90 – ouvi o Renato gritando, animado: “Que carrão hein Alex!” Renato era um colega com o qual devo ter estudado entre 91 e 94. Tinha sobrancelhas espessas e, certa vez, rapou a cabeça, tornando-se alvo da zombaria dos colegas. Enquanto escrevo, fico me perguntando se Renato se recorda de mim e do meu nome tal como, por algum motivo, me recordo dele, embora nunca tenhamos sido amigos...

Fique claro que minha família morava em uma favela à época. Mamãe, que já lavara e passara para fora a fim de ajudar o papai com as despesas, começara a se arriscar como revendedora de roupas e afins, enquanto minha irmã e eu atravessávamos uma linha de trem diariamente para irmos à escola. Ou seja: a minha situação socioeconômica em nada era melhor que a dos meus colegas de turma. Fingir surpresa para constranger um colega pelos seus “privilégios”, porém, era regra naquele tempo e parece ser ainda hoje.

Fiquei pensando nessas coisas que nunca mudam: nesse espaço de 32 anos, o mundo testemunhou conquistas inimagináveis em 93. Hoje temos redes sociais, Inteligência Artificial e todas essas coisas nas quais a Bia e seus amigos são decerto mais habilidosos do que Renato e eu. A despeito disso, porém, continua a ser divertido fazer troça sobre o “carrão” do colega, o que é inofensivo. Diferentemente do bullying, da homofobia e afins, que deviam, sim, fazer parte de um passado distante...

Atravessei a avenida e fui para o meu ponto de ônibus tomado pela nostalgia, bem como pelo desejo de que a Educação de agora – a familiar e a formal – não falhe em formar seres humanos melhores, mais conscientes e empáticos do que a Educação do meu tempo, apesar dos seus muitos êxitos, logrou formar. Tomara que a Bia – além de se tornar uma adulta generosa que ofereça muitas caronas aos amigos – viva em um mundo cheio de possibilidades, que saiba votar, que entenda o valor do trabalho e do estudo, e, sobretudo, que leve consigo um profundo respeito por toda forma de vida.

“Dá carona, Bia!”, ainda ecoava na minha mente, enquanto eu me recostava no assento do ônibus e colocava os fones nos ouvidos. Enquanto isso, o carro da Bia se afastava, ligeiro, rumo a um futuro melhor. Rumo à vida extraordinária que ela tem pela frente...

 

 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Uma matuta na "zoropa", por Francisca Gomes

 

O texto de hoje é de autoria não apenas de uma escritora admirável, mas também de uma amiga querida. Autora de obras como Fragmentos: vidas, amores e verdades (Travassos, 2018) e Assim como a fênix (IDE, 2018) – que, vale o registro, já ganhou resenha por aqui – Francisca Gomes nos brinda hoje com o seu olhar atento, poético e – por que não dizer? – “matuto” sobre uma viagem de intercâmbio. Havendo recebido a honra de postar aqui no blog a crônica* de autoria dela, convido você, leitor, a embarcar com a autora cearense em uma aventura pelas “zoropa”. Afinal, não é justamente esta a função da literatura: proporcionar-nos viagens nas quais o texto é o único passaporte necessário? Então, se assim é, aperte o cinto e vamos nessa!

 

Lá estava meu nome na lista dos selecionados para o intercâmbio na Irlanda pelo Programa Professores sem Fronteiras da Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza, com mais 24 colegas de profissão. Exultante, contei a novidade à família e aos amigos. Oh, my God! Dali a um mês eu pisaria em terras europeias. Durante esse período, providenciar passaporte, casacos, luvas, gorro, “doleira”, ficar de olho no valor do Euro e atualizar o vocabulário básico do inglês se converteu em minha nova rotina.

Passar horas voando sobre o Atlântico seria a parte assustadora daquela novidade gigantesca, mas nem um friozinho na barriga senti durante as nove horas de voo a bordo de um Airbus da TAP Air Portugal com destino à Lisboa, ponto de conexão. Lá, passamos doze horas.

O primeiro detalhe impressionante, captado pelos meus sentidos aguçados, foi a mistura de idiomas das pessoas na fila da área de imigração. Lá estava eu, brasileiríssima, com cidadãos de diversas etnias e culturas.

À medida que avançava na fila enorme, que dava voltas e voltas dentro de um salão, discretamente observava os traços, gestos, trajes e vozes de homens, mulheres e crianças de vários países. Como Deus é criativo, pensei. A obra humana é magnífica! Somente neste orbe, quanta variedade étnica. Alguns exemplares estavam ali.

Chegada a Lisboa.

Sair do aeroporto com um pequeno grupo de colegas, aproveitando o bônus que a conexão de 12 horas nos favoreceu, foi eletrizante. Caminhar em solo europeu, pelos pontos turísticos de Lisboa, com a possibilidade fácil de comunicação, foi um presente da vida. Lá me senti uma turista internacional.

Na chegada ao aeroporto de Dublin, depois de uma viagem de quase três horas, meu corpo experimentou a temperatura baixa pela primeira vez. No mês de setembro, em pleno outono, o frio não era tão incômodo, mas para uma nordestina do sertão cearense, qualquer friozinho exige um agasalho. Precavida, lá experimentei a utilidade de uma segunda pele térmica.

Nosso destino era Limerick, 214 quilômetros distante da capital irlandesa. O percurso até à cidade universitária foi feito durante a madrugada num ônibus fretado e durou duas horas e meia. Logo que entrei no veículo, observei imediatamente o volante do lado direito. Que confuso para o meu juízo essa tal mão inglesa.

Acordar num hotel de uma cidade europeia parecia uma cena cinematográfica. Foi exatamente naquele momento, quando abri os olhos para aquele novo cotidiano, que tive a sensação de estar dentro de um filme. Enquanto eu acordava às 7h na Irlanda, minha família estava dormindo em fase REM total no Brasil. A legítima matuta que sobrevive em mim, a poetisa de nascença ou essas duas personalidades juntas, trataram de observar as peculiaridades daquele lugar em que nunca havia pensado visitar, muito menos com status de intercambista. Nos meus sonhos de menina que morou no interior do Ceará, da Bahia e do Piauí, não cabia a cidade interiorana de Limerick, sequer tinha conhecimento daquele lugar no planeta.

No Clayton Hotel.

Os sonhos turísticos de uma pessoa nascida no sertão são aqueles que comumente vemos na TV: Paris, Londres, Hong Kong... Comecei a assistir filmes gravados nessas metrópoles com 10 anos de idade, na tela em preto e branco de uma televisão pequena, na sala da minha modesta casa, na companhia dos meus pais e irmãos. Três décadas depois, naquele setembro de 2024, com 53 anos de idade, tinha à minha frente uma janela que dava para um rio de nome Shannon, que cruza o centro de uma cidade irlandesa, a 6.865 quilômetros da minha casa em Maracanaú, no meu Ceará. Aqui cabe um “orraaaaaaaaaa” bem cearense, mas eu expressei um “Uhuuuuuuu” quando abri as cortinas e me deparei com tamanha belezura e senti orgulho da minha conquista, que não veio tarde, pois acredito que tudo chega no tempo certo.

Antes de viajar, na arrumação das malas, duas amigas me ajudaram a organizar os looks de cada um dos 12 dias que passaria em Limerick, pois uma matuta como eu, que nunca havia “turistado”, e para tão longe de casa, estava deveras insegura nesse quesito. E, quando me vi no espelho do hotel, com um tipo de roupa que nunca tinha vestido, só senti vontade de rir. Eu estava muito elegante para os padrões cearenses. Já para o padrão europeu, era apenas uma estudante vestida adequadamente para ir à faculdade.

Chique demais para os padrões brasileiros. 😊

Caminhar pelas ruas da bonita Limerick com meu grupo de colegas, do Clayton Hotel à Mary Immaculate College, foi uma experiência encantadora em cada um daqueles dias, pois me extasiei com o design das casas com portas coloridas, a diversidade de roseiras em cada jardim, o silêncio cortado somente pelo grasnar dos corvos. Ver essa ave de pertinho é uma das saudades que sinto, pois é um dos animais que desejava conhecer antes de morrer. Para mim, os corvos não simbolizam maus presságios em razão de sua cor ou hábitos necrófagos, mas astúcia, sabedoria e cura. Seu corvejar é um som agradável, me proporcionava genuína alegria. Se era matutice cumprimentá-los cada vez que os via, sou matuta com muito “goxto”!

Os corvos.

Percorrer os corredores da MIC carregando uma mochila nas costas, assistir aulas com professores irlandeses, em salas de estrutura clássica e ainda almoçar no refeitório com universitários “gringos”, me transportava para uma daquelas séries de streaming boas de maratonar. E tenho certeza de que não era apenas eu que tinha essa sensação.

Na Faculdade.

Entrar em igrejas católicas de estilo gótico, era uma cena de filme épico. Conhecer a St. Mary's Cathedral, com sua arquitetura medieval, construída no coração de Limerick e inaugurada em 1.168, fez meu coração bater mais forte com a sensação de voltar a uma época em que certamente vivi.

Na igreja.

Já a sensação de subir à torre do King John’s Castle, construído em 1200, ao lado do rio Shannon, em Limerick, e participar da encenação turística de um banquete medieval no Bunratty Castle, construído em 1425, trouxe à minha mente a lembrança dos contos de fadas que lia na infância e dos filmes em desenho animado da Sessão da Tarde.

Por trás da beleza fascinante desses lugares que constituem o patrimônio cultural de Limerick, existe a história das batalhas, das conquistas sangrentas, da evolução daquele povo, cujos registros estão também nos museus e nas bibliotecas, mas ainda impregnados nas paredes e na energia dos ambientes mais sombrios. “Matutice braba” seria considerar apenas a superfície.

Com Megg.

Minha personalidade matuta vinha à tona principalmente no horário das refeições. Preferia apontar minha escolha no cardápio, para não passar vexame na pronúncia estrangeira e sempre depois de uma consulta ao Google para verificar se o prato escolhido não tinha pimenta e curry, temperos incompatíveis com meu paladar e fortemente presentes em quase todos os pratos da culinária irlandesa. Depois de muitos dias comendo batata, ingrediente usado em quase todas as receitas, senti falta do cuscuz e do baião de dois, típicos da minha terra.

King John's Castle.

O choro de emoção só veio com o contato mais íntimo com a natureza, quando visitei os Cliffs of Moher; quando fiz um passeio na Slea Head Drive, em Dingle, rota cênica que fez parte de muitos filmes; quando percorri o Lago Derg de barco; quando pisei na areia da praia de Lahinch; quando colhi pedrinhas na península, pétalas de rosas caídas das roseiras no People Park e folhas secas das árvores de plátano nas ruas de Limerick; e, muito especialmente, quando acariciei a crina de Megg, égua da raça Tinker, nas andanças pelos arredores do castelo de Bunratti, e a pelagem dos cães da raça Old English Sheepdog, quando seus tutores gentilmente me deram permissão. Nesses momentos, fui matuta sem cerimônia, sem vergonha, fui só a neta do Seu “Ontõi Gomi”, fui só uma filhinha de Deus com o coração transbordando de gratidão, diante da beleza exuberante que vi em outro ponto do planeta e que só o Autor da Vida foi capaz de criar.

Nos Clifs.

Durante as aulas na MIC e visitas a escolas, aplaudi o que tem qualidade excelente, reconhecendo a sorte daquele povo. A Irlanda é um país de economia altamente desenvolvida, com alto padrão de vida. Lá “professor tem valor”. Em contrapartida, senti orgulho dos professores que tive, da professora que me tornei, da aluna que fui e dos alunos que tenho. Intercâmbios profissionais servem para impulsionar reflexões e ideias. Voltei com a bagagem cheia de muitas.

Foram 15 dias consumindo em Euro. Lá não passei nenhum perrengue chique. Retornar ao Brasil e voltar a pagar as contas em Real me lembra a fala de João Grilo na obra de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida: “fica rica, fica pobre”. Mas também vi gente aperreada do juízo, pedintes e viciados. Esses males emocionais levam muitos deles a se despedirem da vida, mergulhando nas águas do rio Shannon.

Turistando...

Quando saímos do nosso mundo para visitar outras partes do Mundo, é que temos noção do nosso tamanho, do nível em que estamos, do que realmente já alcançamos, do quanto mais podemos crescer, do tanto que temos que agradecer.

O melhor de tudo, é que a viagem mais importante, aquela que ganhamos de bônus, é, na verdade, a viagem que fazemos para dentro de nós, algo que acontece espontaneamente e, quando nos damos conta, estamos nos vendo na perspectiva do outro, pois a todo momento analisamos a nós mesmos.

Nesse intercâmbio, fui mais criança do que adulta, senti-me mais professora do que aluna, fui mais matuta do que culta, fui muito mais eu.

Voltei dizendo sorry por qualquer besteirinha, muito mais educada pedindo please para tudo, acho que dizer excuse me parece muito mais elegante, é charmoso agradecer dizendo thank you very much. Mas, é só uma fase. Vou morrer dizendo “oxente”.


Francisca Gomes
Professora, escritora e poetisa
*Esta crônica faz parte do livro Farofa Nordestina, do grupo de escritores Os Tramaturgos.


quarta-feira, 17 de maio de 2023

Cristo contra a LGBTfobia

De acordo com o livro do Gênesis, em diálogo com Noé, Deus estabeleceu o arco-íris como símbolo da eterna aliança entre Ele e o homem. Bilhões e bilhões de anos mais tarde, porém, as cores do arco-íris se tornariam, graças ao designer Gilbert Baker, símbolo da comunidade LGBTQIA+. À primeira vista, parece não haver nenhuma relação entre uma coisa e outra, né? A verdade, porém, é que tem tudo a ver.

Jesus, aquele a quem tantos de nós escolheram como Senhor e Mestre, é o exemplo máximo de combate à LGBTfobia. Com as suas incontáveis lições de amor, duras críticas à hipocrisia dos fariseus e convites ao autoconhecimento, Cristo se nos apresenta como a conexão entre esses dois sentidos atribuídos às cores do arco-íris em tempos tão distintos.

A máxima “ame ao próximo como a si mesmo”, afinal, nada mais é que uma forma de dizer “ame ao próximo e, para tanto, ame a si mesmo o bastante para não precisar descontar no outro as suas frustrações, medos e indecisões”. Com Jesus a gente aprende que o amor-próprio não dá lugar ao egoísmo, que nada mais revela senão uma autoapreciação que, por exacerbada que pareça, é demasiadamente frágil. É por isso que ora se diz que a polaridade do amor não é o ódio, mas sim o medo.

E foi ele, o medo, que pregou o nosso Mestre na cruz. O medo daqueles que, avessos a quaisquer mudanças na ordem das coisas, temiam aquele que ousava chamar a Deus de “Pai”, exaltar a humanidade dos desvalidos, adentrar a sinagoga e anunciar a Boa-Nova, dizendo: “As escrituras já se cumpriram”.

Que o Mestre Jesus, encarnação do mais puro amor, nos conduza para essa tão necessária jornada para dentro de nós, fortalecendo-nos o suficiente para que o outro, com as suas verdades e idiossincrasias, não represente para nós uma ameaça.

Que vejamos em todos a Face de Deus, sempre cientes de que o arco colorido que corta os céus contempla a todos; de Noé aos dias atuais, abraça a TODOS.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Sobre livros e tevê

Embora bem-intencionada, esta ilustração sempre me deixa pensativo.

Vamos por partes, começando pelo fato de ela estar desatualizada, vez que hoje melhor seria substituir a imagem da tevê pela de um smartphone devidamente conectado a todas as redes sociais possíveis. Não obstante, ignoremos esse pormenor, até por ser a tevê algo ainda muito presente em nossa rotina.

Outro ponto que me parece problemático é a vilanização da tevê e a exaltação do livro, como se este fosse por si só a solução para tudo e aquela fosse uma maldição, um veículo do qual não se possa fazer bom uso.

Nesse ponto, eu fico pensando nas novelas mexicanas que eu tanto adoro (risos) e nas boas opções que há na programação televisiva, mas que precisam ser garimpadas, vez que, por não atraírem as massas, estão sempre fora do horário nobre. Fico pensando também em homens de incontestável inteligência, como Adolf Hitler, e sua nefasta atuação sobre o mundo.

E é daí que me vem a reflexão de que o bem ou o mal nem sempre estão nas coisas em si, mas no uso que dela fazemos, por mais clichê que isso soe. Ademais – por mais bem-vinda, necessária, útil, importante e indispensável que seja a leitura – há que se desconstruir a romântica e pouco pragmática ideia de que os problemas do mundo cessariam a partir do momento em que todos aderissem ao hábito de ler.

Isso não é verdade, pois mesmo o hábito de leitura precisa ser precedido por políticas que a tornem acessível. E, aqui, nós estamos falando de educação, de inclusão social e de uma série de coisas que devem se dar não a partir da leitura, mas antes dela; para conduzir a ela, e não o contrário.

Ademais, havemos que pensar também na qualidade da leitura. De que leitura estamos falando, afinal? Seja lá o que for, é ótimo que as pessoas estejam lendo, mas seria desonesto ignorar o abismo existente entre “Dom Casmurro” e “Os segredos da mente milionária”, certo?

Enfim, em suma, a mensagem aqui é: incentivemos a leitura, sim, mas sem romantiza-la, pois opiniões estanques são, não raro, problemáticas, e o mundo, por mais cruel que isto pareça, está longe de ser assim tão quadradinho.


segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Não existe relacionamento fracassado!

“Não deu certo”. Eis uma afirmação comumente utilizada como referência a um relacionamento encerrado. Afirmações desse tipo partem da equivocada ideia de que as coisas precisam ser eternas. Caso contrário, é porque “não deu certo”. Ora!, não existe relacionamento fracassado. Existe é relacionamento terminado. Relacionamento que, quando se tornou disfuncional, foi prudentemente interrompido.

Neste ponto, você pode estar questionando: “Mas isso não faz sentido! Por uma lógica antonímica, se uma coisa parou de dar certo, é incontestavelmente óbvio que ela passou a dar errado!” Calma... e atente-se para o fato de que a abordagem aqui não se dá no campo semântico, mas, sim, na perspectiva que temos de relacionamentos e términos, comumente oriunda do mito do amor romântico.

O tão famigerado “final feliz” ainda é para nós sinônimo do “e viveram felizes para sempre”. Se nos fosse revelado que, alguns meses após o conhecido final, Cinderela se cansou daquela monotonia, pegou a sua parte da grana e resolveu dividir apartamento com as meias-irmãs, todo aquele amor vivido entre ela e o Príncipe perderia o valor para nós, pois só vale se for “para sempre”, embora nem a própria vida o seja. Não raro, um namoro terminado é lembrado (e avaliado) pelo desfecho trágico e não pelos anos bem vividos. E, nesse sentido, o fato de a história haver tido um fim nos leva a considerar todo o resto como tempo perdido, como se, para valer a pena, as coisas precisassem ser eternas.

É óbvio que ninguém embarca num relacionamento pensando no dia em que ele vai terminar. Da mesma forma, ninguém começa em um novo emprego pensando algo do tipo “quero dar o fora daqui em seis meses” ou se muda para uma casa nova afirmando “vou permanecer nesse imóvel só até ano que vem”. A princípio, a gente investe nas coisas objetivando que elas durem, e isso é natural e até saudável em certa medida. Mas fato é que um dia somos demitidos ou recebemos uma proposta de emprego melhor; um dia o aluguel fica muito salgado e a gente precisa procurar por outro imóvel; um dia os estilos de vida, os sonhos, os comportamentos, as visões de mundo não mais se alinham... e a gente precisa pôr fim a certos relacionamentos.

É claro que há aqueles relacionamentos que já começam “errados”, por assim dizer, mas esses são casos à parte, e mesmo eles, de alguma forma, também cumprem com o seu papel em nossa jornada. De um modo geral, porém, relacionamentos não dão errado. Eles apenas param de dar certo ou nos proporcionam algo distinto do que deles esperávamos.

Errada é a falsa ideia de eternidade que, comumente, nos leva a jogar na lata de lixo tudo aquilo que, embora haja chegado ao fim, foi maravilhoso enquanto durou (ou que, mesmo nunca havendo sido maravilhoso, ao menos nos ensinou a nunca mais nos colocarmos em uma situação afim). É triste ver pessoas definirem como “fracassado” um relacionamento que gerou até filhos! Meu Deus! Se há filhos, então deu certo. Se houve amor ou mesmo tesão, deu certo, sim. Se foi legal durante dois ou três dias, já deu super certo! Se nos ensinou a fazermos melhores escolhas, deu certo. Se proporcionou aprendizado, amadurecimento e autoconhecimento, então valeu, cumpriu com o seu propósito, deu certo...

Essa falsa ideia de eternidade é muito comum nos relacionamentos, fazendo-se presente desde a tatuagem com o nome do companheiro até a vida completamente alicerçada naquela parceria. Mas não é só nos relacionamentos que essa ideia se faz presente. Veja você que o nosso modo de viver pressupõe uma ilusão de que a própria vida neste plano é eterna. Nós, simplesmente, não somos suficientemente treinados ou maduros para lidar com a finitude das coisas. Mas fato é que as coisas são transitórias, sendo esta uma verdade incontestável. E penso eu que, quanto mais conscientes formos da inconstância das coisas, mais propensos estaremos a estabelecermos bases firmes em nós mesmos, sem construirmos castelos sobre alicerces de areia.

Sabe aquela frase que diz “foi bom enquanto durou”? Pois é... Ela é clichê, mas expressa uma verdade equivocadamente contrariada por afirmações do tipo “o relacionamento não deu certo”, “o romance fracassou” e afins. As pessoas estão em constante mutação, e é inteligente e até mesmo saudável reconhecer quando as discrepâncias, comuns em todo e qualquer encontro, estão fazendo a relação ruir; quando os interesses já não são os mesmos, inviabilizando, assim, a manutenção de algo que já não faz sentido.

Ou seja: até mesmo a concordância entre ambas as partes quanto a haver chegado a hora de cada um seguir o próprio rumo é sinal de um relacionamento saudável e bem-sucedido. Pôr fim a uma relação por vezes se revela como um verdadeiro ato de amor, pois não raro acontece de haver amor, mas não haver possibilidade de alinhar os objetivos, valores, expectativas e afins. É quando chega o momento de, por amor – amor pelo parceiro e amor-próprio – libertar o outro e libertar a si mesmo.

A intenção aqui, no entanto, não é induzi-lo a adotar a efemeridade como modo de vida a partir de então. Pelo contrário, o que pretendo é convidá-lo a seguir embarcando nas experiências com a intensidade que elas comumente exigem e merecem. Mas, se porventura tais experiências chegarem ao fim, não as rotule como fracassadas, pois isso seria enveredar por uma inverdade que só traz tristeza e sensação de perda de tempo. Pelo contrário, comprometa-se, a partir de então, a modalizar a sua fala sempre que se referir ao relacionamento passado, substituindo “não deu certo” por “foi super legal e produtivo, mas tivemos que descontinuar” ou “deu certo, mas, quando começou a não funcionar, a gente achou por bem terminar”.

Mas é para dizer isso a você mesmo, e não para os outros, que não têm absolutamente nada com a sua vida. Não se trata de provar nada a ninguém, mas de saber isso internamente, sempre ciente de que, humanos que somos, por vezes a gente vai sofrer, por vezes a gente vai chorar, sentir raiva, mágoa... E está tudo bem, pois eu sei que é difícil... É difícil encarar de maneira tão inspirada um relacionamento pelo qual estamos ainda enlutados. É difícil conceber dessa maneira um relacionamento abusivo (pelo qual ninguém deveria passar e que de maneira alguma pretendo romantizar aqui). Atribuir sentido, porém, pode ressignificar e amenizar a dor de uma experiência dolorosa. Trata-se de uma mudança de paradigma que denota gratidão à vida pela experiência vivida e, sobretudo, ao outro, que atravessou conosco uma fase que, por alguma razão desconhecida, se fez tão necessária ao nosso processo de aprendizagem. Esse, sim, interminável.

Nesse sentido, não entremos em um relacionamento tendo a eternidade como meta, mas, sim, para fazer dar certo, para evoluir, para ser feliz e fazer feliz enquanto possível for, sem nunca esquecer as palavras do poeta: “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”.

***

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna nos portais O Segredo e Eu Sem Fronteiras.


quinta-feira, 24 de junho de 2021

Uma fase chamada Danielle Steel


Era um início de tarde cinzento de 2002. Chuviscava, é verdade, mas aquele sábado estava cinzento mesmo porque, só pra variar um pouquinho, eu estava apaixonado pelo professor de História do pré-vestibular (aliás, quem não estava?). Assim, saindo da cursinho por volta do meio-dia, fui à banca de livros usados que havia lá na Rua dos Tamoios, em frente à antiga Telemar. Naquele tempo, a prefeitura não havia ainda proibido os camelôs.

Nessa banca, sempre havia livros da Danielle Steel, escritora do gênero Chick-Lit que me havia sido apresentada pela Irani, querida amiga da época. E foi nesse dia que eu comprei o meu primeiro livro, “Momentos de paixão”, por exatos R$5.

Irani e eu costumávamos cabular aula no pré-vestibular só pra ir até a biblioteca pública lá na Praça da Liberdade, onde ela, cega, pegava de empréstimo aqueles enormes volumes em braile. Antes de “Momentos de paixão”, aliás, eu já havia lido outras obras da Danielle Steel disponíveis no acervo da biblioteca. “Vale a pena viver” foi a primeira. Depois vieram outras tantas: “Uma só vez na vida”, “Um amor conquistado” (belíssimo...), “Acidente” etc.

Mas o que eu queria ler mesmo era um sobre o qual a Irani sempre mencionava como sendo maravilhoso – “Segredo de uma promessa” – mas que não existia no acervo da biblioteca. E eis que o mesmo me veio pelas mãos da minha irmã Patrícia, que, de tanto eu falar do livro, fez peregrinação pelas livrarias-sebo de Belo Horizonte e o encontrou, me dando de presente de Natal junto a outros dois: “Casa forte” e “Meio amargo”. O curioso é que “Segredo de uma promessa” foi o pior livro da Danielle Steel que eu já li. Ironias da vida... (risos)

Eu gostava de ler as estórias daquelas norte-americanas de classe média alta. Não sei por quê. Acho que o feminino em mim se identificava. Gostava de vê-las lutando pela família, se dando uma nova chance no amor, indo contra as convenções sociais e, claro, entregando-se ao amor de suas vidas...

Todavia, à medida que a vida real foi se impondo, o gosto pelas obras da Danielle Steel foi se esvaindo também. Mas sou sempre tomado de ternura quando os avisto aqui na estante, vez que tanto contam da minha história...

Contam da trajetória do leitor que eu sou; contam do amor fraterno que levou Patrícia a sair em busca do livro que eu tanto desejava; contam das paixões de um cara que, nas décadas seguintes, ainda quebraria muito a cara por isso; contam de uma amizade que se perdeu no tempo; e contam, sobretudo, dos primeiros raios de liberdade.

E veja só: se um dia eu encontrasse a Danielle Steel, eu pediria um autógrafo e também diria a ela que, finalmente, o dia não está mais cinzento...

quinta-feira, 3 de junho de 2021

O gozo do envelhecer


Sobressaltado, praticamente saltei do sofá ao toque do interfone. 10h30. Os malditos cinco minutos! O plano era simples, mas infalível: havendo ido para a cama quase às três da manhã e cheio de compromissos para este dia, programei o despertador para as sete e deitei-me no sofá, certo de que a ausência de conforto me impulsionaria a não permanecer em repouso quando raiasse o dia. Ledo engano... Despertado pelo alarme do smartphone cuidadosamente colocado a uma distância que me obrigaria a me levantar, o que fiz foi confiar nos famigerados “cinco minutos” a mais que, depois de certa idade, se tornam a nossa perdição. “Só mais cinco minutos”. E esses viraram horas, que, por sua vez, alteraram todo o curso do dia.

É curioso como eu ainda idealizo em mim aquele Alex dos tempos de faculdade, que, diante da necessidade de conciliar trabalho e estudo, virava a noite diante do computador, saía às seis para uma jornada de oito horas para, em seguida, ir direto para a universidade por tanto tempo sonhada. Aquele Alex dava conta disso. Ficava sonolento, é verdade, mas dava conta do recado.

O Alex de agora, porém, a três primaveras dos quarenta anos, pode até varar madrugadas, mas a conta, fatalmente, vem durante o dia. O Alex de então, ainda não desapegado do jovem de outrora, ainda faz planos mirabolantes, matriculando-se em cursos e sobrecarregando a agenda de tarefas, ignorando, porém, que sua energia não mais suporta a sobrecarga de outros tempos. O Alex de então carece de pausa, de fins de semana com descanso e oito horas de sono diárias. O Alex de agora já começa a preferir a escada rolante aos degraus comuns; o Uber ao ônibus que não vai deixa-lo na porta; o prazer solitário ao sexo casual que, possivelmente, vai causar desgaste emocional.

Sinto que – apesar das linhas de expressão, dos cabelos rareados e dos pelos brancos na barba – ele ainda se cobra o desempenho dos vinte e poucos anos. Não tanto por resistência ao envelhecimento em si, mas por exigir de si a compensação dos anos perdidos para a depressão e escolhas equivocadas.

O Alex de então se cobra, aos 37 anos, uma realização que justifique todo o investimento feito pelos pais ao longo de anos. O Alex quase quarentão se cobra aquelas conquistas que a grande maioria dos amigos fez aos vinte. O Alex de então quer correr atrás do prejuízo.

O corpo, porém, é implacável em pedir pausa e readaptação. Não me refiro a abrir mão de sonhos e ambições, elementos tão necessários à manutenção da vida. Refiro-me a uma nova dinâmica, adequada às possibilidades de então. Quem sabe uma alimentação mais consciente? Atividades físicas regulares, talvez (com certeza)? Terapia? Cursos EAD em lugar dos presenciais? Uma nova organização em termos de horários e afins? Enfim, uma dinâmica que acompanhe o não raro intransitivo verbo envelhecer.

Isso me faz lembrar daquelas atrizes belíssimas que, outrora interpretando mocinhas nas telenovelas, com presença frequente nas tramas do horário nobre, ora são convidadas aos papeis de mães das mocinhas do momento. Vale o mesmo para os galãs de outrora, que agora são o pai, o médico da família, o padre etc. E, a despeito dos procedimentos estéticos possibilitados pelo trabalho, o próprio trabalho é infalível em fazê-los lembrar da inexorável passagem do tempo.

A vida faz assim com os artistas globais, mas o faz também com os anônimos, com os Alex do mundo afora, que não estão sob os holofotes, mas também experimentam o democrático processo de envelhecimento.

Mas se as tramas televisivas relegam a maturidade a um papel de coadjuvante, restringido a beleza da existência humana a uma única fase, não precisamos e nem devemos reproduzi-lo em nossa vida real.

E é nesse sentido que, no final das contas, esse Alex dos quase quarenta, em perfeita comunhão com o jovem idealista dos vinte, aprende a entender esse processo que é viver não como a corrida do ouro, mas como um constante convite a cuidar de si para, então, estar apto a cuidar dos demais.

Aos poucos, ele entende que desapegar-se da vitalidade e das possibilidades dos vinte tem a ver, sobretudo, com saber viver, que, por sua vez, equivale a saber morrer.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

O porteiro do dia


Saber que as pessoas sempre vão embora pode tornar um pouco desanimadora a tarefa de estreitar os laços. Ao menos é o que eu pensava quando da substituição de todos os porteiros do meu condomínio, ocorrida sem prévio aviso ou justificativa. Aqui, porém, cabe uma ressalva: sem justificativa ao menos para mim, o típico condômino que não participa das assembleias e pouco ou nada se envolve com as questões aqui ocorridas, as quais também me dizem respeito.

Assim, surpreendi-me com as caras novas repentinamente surgidas na portaria, e o que parecia ser férias coletivas era, na verdade, conforme me foi explicado por um dos novos trabalhadores, um remanejamento, prática talvez comum no contexto da empresa que nos terceiriza os serviços de portaria e correlatos.

E, assim, ia-se um dos porteiros do dia, com o qual eu trocava dicas de leitura e, infringindo uma regra estabelecida pelo síndico, ficava a papear nas horas de pouco movimento. Aquele por quem eu era chamado de amigo quando interfonado e a quem eu já havia convidado para um happy hour.

Assim, segui não trocando mais que um cumprimento cordial com os novos responsáveis pela portaria, sem, no entanto, me interessar por lhes saber os nomes. Ressalto não haver neste caso nada daquilo de “ter faculdade e não cumprimentar o porteiro”, prática que soaria ainda mais ridícula num complexo de condomínio periférico e cercado por aglomerados. Eu apenas não queria me interessar por nomes por saber que, num piscar de olhos, esses poderiam dar lugar a outros e assim sucessivamente.

Hoje, porém, depois de novamente acordar tarde em consequência dos péssimos hábitos que me têm conduzido, desci até a portaria para apanhar uma encomenda: mais um livro para a minha coleção de leituras pretendidas, mas nunca concretizadas. O porteiro da ocasião, cujo nome eu ainda desconheço, era justamente o que eu, nas minhas breves passagens pela portaria, já havia identificado como o mais simpático. Ao menos é assim que eu adjetivo quem me cumprimenta com um bom-dia entusiasmado, afirma estar bem “graças a Deus” e me chama de ‘meu querido”.

E, feitos os procedimentos de praxe – entrega da encomenda, assinatura do caderno de controle etc. –, veio a inesperada pergunta do homem: “E qual livro é esse?”. Pego de surpresa – tanto pela pergunta como pelo fato de alguém querer puxar conversa comigo –, detive-me a responder que era um livro de filosofia que eu havia pedido na Estante Virtual, julgando que o meu interlocutor não se interessaria em saber que se tratava de uma obra do Huberto Rohden, pensador que, não recordo como, eu havia descoberto há pouco menos que um ano e por cuja obra eu estou aficionado.

Foi então que o meu interlocutor, aparentemente desejoso de compartilhar um pouco de si, me contou haver trabalhado por anos na Editora Vozes, quando ganhou diversos livros, tendo a oportunidade de conhecer, em especial, a obra Felicidade, que, segundo ele, narra a jornada de um monge e de um homem urbano comum em busca da paz interior. Notoriamente saudoso dos seus tempos de editora, o porteiro relembrou o seu ex-chefe, filósofo com o qual tanto apreciava conversar.

Questionei-o quanto aos seus atuais hábitos de leitura, ao que ele me respondeu que, no atual momento, lê assiduamente sobre os temas pertinentes ao concurso que pretende fazer, esforço que se faz necessário, vez que quer “passar na polícia”.

Subi os oito pequenos lances de escada de volta ao meu apartamento, pensativo. De alguma maneira, a breve conversa com o simpático porteiro me inspirou, trazendo claridade sobre as questões com as quais tenho estado às voltas: a falta de perspectiva; os hábitos que me têm prejudicado tão significativamente; o sentimento de solidão; o emprego que me garante o sustento e pelo qual sou grato, mas que não me faz feliz; o sentimento de menos valia...

É curiosa a ideia que criamos do outro. Ao puxar conversa com o condômino careca e de óculos que está sempre recebendo livros, é possível que o porteiro imaginasse estar em contato com um tipo intelectual, e não com um sujeito que ainda emerge de uma profunda depressão e que ora se vê engolido por um sentimento de mediocridade. De igual modo, eu não via naquele cara alguém que já tivesse tido contato tão íntimo com os livros, que fizesse reflexões profundas e que ora se dedica a realização de um sonho.

É bem verdade o que ouvi recentemente de uma professora a quem muito admiro: cada ser humano que deixamos de conhecer é um mundo novo com o qual deixamos de travar contato.

Aconcheguei-me no meu pequeno escritório e olhei em volta, desanimado ante à carência de limpeza. Abri o embrulho e me dediquei à leitura da contracapa e das orelhas do livro, cujas páginas amarelecidas tanta história guardam. “Deus” – estava estampado na parte superior da modesta capa, que, logo abaixo, apresentava um fragmento d’A criação de Adão, de Michelangelo.

Deus... E, de repente, eu soube que seria este mesmo Deus que me capacitaria aos esforços equivalentes aos quais ora se dedica o meu já tão caro porteiro no alcance de suas metas. O mesmo Deus que me tiraria do marasmo e me salvaria de mim mesmo. O mesmo Deus para o qual eu quero e preciso urgentemente voltar, sendo essa a única meta realmente válida, legítima e necessária. Deus...

Ainda hei de vencer a timidez e perguntar o nome do porteiro.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

"O grande sonho"

Há pouco mais de 25 anos, a EMABH - Escola Municipal Aurélio Buarque de Holanda, onde cursei da 5ª à 8ª série, lançava o jornalzinho anual do colégio. O ano era 1995, quando internet, para aqueles pré-adolescentes periféricos e com uma vida inteira pela frente, não passava de algo do qual se ouvia falar. Logo, não havia a possibilidade da criação de um informativo virtual com publicação mensal, algo tão comum hoje em dia.

O “Geração Estudantil” – nome escolhido dentre as dezenas de sugestões feitas pelos discentes – se pretendia instrumento de integração entre alunos, professores, direção e comunidade escolar, bem como um estímulo à revelação de talentos.

Se por um lado era um instrumento desdenhado por boa parte dos discentes, por outro havia os que reconheciam-lhe a importância, participando ativamente da edição do jornal. Ali havia entrevistas, piadas, charadas, informações sobre datas comemorativas, textos dos alunos, recadinhos e outras coisas que a gente podia deixar como sugestão na caixinha de metal verde que ficava presa à parede ao lado da sala dos professores.

Era o primeiro ano do jornal. Era também o meu primeiro ano naquela escola e naquele bairro. O ano em que fiz os meus primeiros amigos. O ano em que a gente teve o nosso primeiro telefone lá em casa! O ano em que experimentei os meus primeiros conflitos com relação à minha sexualidade ao ver o Arnold Schwarzenegger pelado nas cenas iniciais de “O exterminador do futuro 2”. Foi, portanto, um ano de grandes transformações...

Foi na 2ª edição do informativo, em 1996, que tive publicado o meu primeiro texto, inspirado em uma situação que de fato havia ocorrido à minha família poucos meses antes. E não precisa ser um expert para perceber que criatividade e habilidade textual não eram exatamente o meu forte (risos).

Talvez, porém, não fosse essa a opinião da Cida Fulanete, que foi a minha professora de português na 6ª e 7ª séries, sendo precedida pela Maria Tereza e sucedida pela Marília. Foi por sugestão da Aparecida, se bem me lembro, que, pela primeira vez, li um livro na íntegra. Era “Ana e Pedro – Cartas”, de Vivina de Assis Viana e Ronald Claver.

Minha Nossa... como é louco perceber o quanto ainda trago daquele Alex de 11/12 anos de idade. Não em termos comportamentais, mas de personalidade. E, embora seja inevitável me deparar com uma dorzinha aqui e ali ao rememorar a trajetória dos meus últimos 25 anos, é gratificante perceber que, se o Alex de agora segue sendo um tolo sonhador, ao menos ele cultiva hoje sonhos um pouquinho mais elevados do que uma premiação na loteria... o que também não seria mal...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Uma quase mulher

Ela era uma bicha alta, imponente. As pernas eram bem torneadas, próprias de um bailarino com carreira na Europa e Estados Unidos. A pela era de um negro reluzente, como bem disse, certa vez, a igualmente saudosa (e desbocada) Dercy Gonçalves. Dadas as limitações de uma sociedade que celebra as debilidades e desdenha os êxitos, muito se conheceu de suas polêmicas, mas pouco de sua humanidade e cultura irretocável.

A primeira lembrança que eu tenho do Jorge Lafond (1952 – 2003) é de uma participação sua no programa do Gugu Liberato – mais um que nos deixou recentemente –, onde uma jovem realizava o sonho de desenhar, com batom, um coração em sua cabeça lustrosa.

Foi na Vera Verão, personagem mais famosa desse grande artista, que eu tive, desde a infância, uma referência de homossexual. Eram outros tempos... Tempos em que homossexuais, se apareciam na tevê, era apenas para fazer rir por via do estereótipo do gay espalhafatoso e sexualizado.

Isso, porém, em nada o desabonava. Eu, em algum nível já ciente da minha homossexualidade, gostava daquela liberdade de ser, ainda que não refletisse – como ainda não reflete – a realidade. Gostava de quando a Vera Verão adentrava o cenário da praça, causando alvoroço e chamando a atenção de todos. Gostava das vezes em que, no final do esquete, ela ficava com o bofe da inimiga, só mais tarde vindo a entender que aquilo me proporcionava uma espécie de catarse.

Veja bem: se a Vera Verão – um gay negro e cheio de trejeitos – acabava conquistando um homem comum ou sendo escolhida como a musa do clipe do Paulo Ricardo, decerto que eu, um gay fora do padrão (porque o meio gay também tem os seus preconceitos), teria também a minha chance. Desse modo, a vitória da Vera Verão, mesmo que uma vitória boba (pois, convenhamos, conquistar um boy magia não é lá uma grande realização na vida), também era, de alguma forma, a vitória daquela criança tímida lá da periferia, que, com os seus medos e óculos enormes, já se entendia como homossexual.

Pois é... eu sou do tempo em que havia a Vera Verão, que – muito antes de qualquer Pitty Bicha ou Valéria Vasquez (personagens de Tom Cavalcante e Rodrigo Sant’Anna, respectivamente) – já causava estardalhaço e, mesmo que de maneira estereotipada, já ocupava o seu espaço e exercia o seu direito de ser no mundo e em um país racista e homofóbico.

A Vera Verão – que, junto de tantos outros artistas que já partiram, habita a memória desta bicha quase quadragenária que vos escreve – eu envolveria num abraço e diria, se tivesse uma única oportunidade:

Muito obrigado, Lafond.

Texto que transbordou de mim numa manhã de quarta.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Clô para os íntimos

Uma vez, concedendo uma entrevista para a maravilhosa Bruna Lombardi, o saudoso Clodovil narrou uma situação em que foi ridicularizado em razão de sua sexualidade. Ele conta que – no calor do momento e como qualquer pessoa mediana – chegou a traçar vários planos de vingança, chegando mesmo a pensar que só se sentiria bem ao ver desempregado o sujeito que o humilhara.

E foi então que Clodovil, ao contar para a Bruna o diálogo que, de repente, se viu fazendo consigo mesmo na ocasião, disse uma das coisas mais bonitas que já escutei:

“Clodovil, isso está acontecendo para que você entenda que a vida não é tão linda quanto você está pensando. Essas coisas são para que você aprenda a se desapegar daqui. Esse moço está apenas cumprindo o papel de te mostrar que você precisa ir embora daqui. Se todo mundo fosse maravilhoso, aqui seria o Céu! Ele não fez nada de mal para você. É você que está preocupado em fazer mal para ele agora.”

Meu Deus... Isso é mais profundo do que aquele velho clichê de “não criar expectativas para não se frustrar” ou mesmo do que aquela sábia filosofia de que a ação do outro nos revela o que devemos curar em nós. Trata-se de algo mais bonito do que tudo isso.

O nosso sofrimento diante das adversidades típicas desta existência revela uma promessa de Deus para nós; revela que não pertencemos a este mundo, e que uma existência mais luminosa nos espera, livre do sofrimento que nos desagrada por mais resilientes que sejamos.

O meu desejo para hoje é que possamos tirar das frustrações a mesma lição que esse artista incomparável tirou de uma situação dolorida: aqueles que nos decepcionam são os nossos “professores do não ser”, e passam por nós como forma de nos oferecer uma escolha: a de darmos vazão aos apelos do nosso ego, cedendo à mágoa e desejo de vingança, ou a de tomarmos a nossa frustração como uma degrau rumo à nossa melhor versão.

Só uma dessas escolhas nos conduz ao mundo que está reservado para nós. Aquele mundo ao qual de fato pertencemos...

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Motorista apaixonado

Ainda sofrendo as dores de uma história mal resolvida com o homem de meu mesmo nome, sentia os meus olhos marejarem ante as breguices de Gian e Giovani que se sucediam no rádio. E foi procurando conter as lágrimas que eu disse ao motorista – o meu quase xará –, em tom de pilhéria.

– Alexandre, eu estou achando que você está apaixonado, hein?

Estranhamente, recebi do cara que há pouco interagia tão descontraidamente comigo uma resposta séria, típica de quem tem a mente a quilômetros do momento presente.

– É... pior que eu estou mesmo. – Ele disse, reflexivo.

Versado na estúpida arte de me apaixonar, empolguei-me, pronto para bombardeá-lo com os conselhos que eu nunca segui. E eis que Alexandre me interrompeu antes que eu desatasse a fazê-lo.

– Mas não é o tipo de paixão que você está pensando, não.

– Não? – Perguntei, buscando na memória algum outro tipo de paixão que levasse as pessoas a escutarem músicas melodramáticas.

– Não. – Alexandre prosseguiu. – É que eu perdi o meu pai há quarenta dias e estou tentando me habituar a escutar as músicas que ele gostava.

Engoli em seco, receoso de falar alguma bobagem e novamente às voltas com a minha dificuldade em encontrar o que dizer diante de uma situação tão dolorida como a morte. Alexandre continuou, visivelmente emocionado.

– É que eu sempre choro ao escutar as músicas preferidas dele, e por isso estou tentando me acostumar com elas para parar de chorar na frente dos outros.

Estas últimas palavras foram ditas quando o carro já estacionava em frente ao meu condomínio. Pensei no meu pai, que neste mesmo dia, pela manhã, estivera em minha casa, resolvendo com o zelador questões não resolvidas por mim no espaço de um ano de moradia. Pensei em todas as razões – das utilitárias às não utilitárias – que tornam tão difícil a perda de um pai ou de uma mãe.

Não sei o que levou a óbito o pai de Alexandre. Talvez ele haja sido vítima do maldito vírus que se alastrou por toda a humanidade. Talvez haja sido a idade ou as doenças comuns ao seu avanço.

Enfim... Não sei e nem vou saber.

Lamentei, porém, não haver encontrado algo de significativo para dizer ao Alexandre, bem como o fato de haver passado a maior parte da viagem contendo as lágrimas por um outro Alex tão indigno de ser lembrado, enquanto o motorista continha as suas pela triste ausência do pai; um Alex que, além de ignorar a minha existência, provavelmente nem curte Gian e Giovani.

Não há muito o que fazer – nem por mim e nem pelo motorista –, a não ser fazer desta tentativa de prosa poética o meu minuto de silêncio pelo pai do Alexandre.