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quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Pânico (Scream, 2022)


Foi num remoto ano de 1997, quando as vídeolocadoras nem sequer sonhavam com a sua extinção, que tive o privilégio de assistir, por meio de uma fita VHS, àquele que inaugurou uma nova fase no gênero terror. Cinema era um luxo para a minha realidade de então, de modo que eu só vim a adentrar uma sala pela primeira vez no ano seguinte, quando Titanic (Titanic, 1997) convenceu a minha mãe a, numa tarde aleatória, surpreender a mim e à minha irmã com um “meninos, vamos ao cinema?”.

Não haver conhecido o ghostface no cinema, porém, em nada prejudicou a minha experiência com Pânico (Scream, 1996), que, alguns meses antes, virara até matéria de alguns telejornais. Era noite. Estávamos eu e minha mãe – grande companheira para filmes de terror e afins – nos primeiros minutos daquele filme tão esperado quando acabou a energia elétrica, frustrando a nossa experiência. Em instantes, porém, a luz retornou, nos permitindo acompanhar as desventuras de Sidney Prescott (Neve Campbell) e companhia.

Neste ponto é possível que você, leitor, esteja a se questionar: “Mas por que diabos esse cara não para de divagar e parte logo para a discussão do novo filme, que é o que de fato importa?” E eu respondo justificando o meu relato intimista pela palavra que mais me vem à mente quando penso em Pânico (Scream, 2022), informalmente chamado de Pânico 5: nostalgia.

Sim, pois, para cinéfilos da minha geração, que tiveram a grata oportunidade de assistir ao nascimento dessa franquia em uma conturbada adolescência, falar desse novo filme é falar de nostalgia, homenagem, recordações. É, enfim, uma experiência certamente distinta daquela vivida pelos que ora são apresentados à franquia.

O retorno de alguns personagens – além dos óbvios Sidney, Dewey (David Arquette) e Gale (Courteney Cox) – é um entre os muitos elementos da homenagem que se pretende Pânico 5. Judy Hicks (Marley Eve Shelton), sobrevivente de Pânico 4 (Scream 4, 2011) e desafeto de Gale naquela ocasião, retorna aqui como xerife de Woodsboro e mãe de Wes (Dylan Minnette), cujo nome, por sua vez, homenageia o saudoso Wes Craven (1939 – 2015), criador da franquia.

Martha Meeks (Heather Matarazzo), que tem breve aparição em Pânico 3 (Scream 3, 2000) como irmã de Randy (Jamie Kennedy) – sobrevivente do primeiro filme que não durou muito no segundo – é aqui mãe dos gêmeos Mindy (Jasmin Savoy Brown) e Chad (Mason Gooding). A propósito, são fantásticas as conexões que o filme estabelece entre Mindy e o falecido tio Randy... Uma curiosidade: o pôster de divulgação de O Albergue 2 (Hostel: Part II, 2007) é estampado por Heather Matarazzo, cuja personagem, muito embora apenas coadjuvante no longa, é a que tem a morte mais assustadora...

Outro que reaparece, proporcionando-nos uma grata surpresa, é Billy (Skeet Ulrich), assassino do primeiro filme e o único que realmente merece o título de galã em toda essa franquia. Se tivemos a mãe do rapaz em Pânico 2 (Scream 2, 1997), agora temos a sua própria filha Samantha (Melissa Barrera), que ora divide com Sidney o papel de mocinha.

E, naturalmente, não podemos cometer o absurdo de esquecer Roger L. Jackson, ator de voz que interpreta o Ghostface em todos os filmes da franquia. Quem assiste a Pânico 5 no idioma original tem a oportunidade de escutá-lo.

E por falar nisso, atentemo-nos para o cuidado presente até mesmo na dublagem brasileira, que nos trouxe Marisa Leal dublando Sidney, Marco Antônio Costa dublando Dewey, Andrea Murucci dublando Gale e Tatá Guarnieri dublando o ghostface, tal como em Pânico 4. Temos também Wendel Bezerra novamente dublando o Billy, vinte e cinco anos após o primeiro filme...

São muitas as semelhanças e discrepâncias com os demais filmes da franquia. Em se tratando de diferenças, me chamou a atenção o fato de Pânico 5 ter maior apelo emocional (seria exagerado dizer “dramático”), trazendo um bom número de jovens destinados a morrer – como em todo bom e velho filme de terror –, mas nos levando a nos importarmos com eles. Aqui, os personagens parecem menos aleatórios, o que nos leva, por exemplo, a sofrer pela morte de Judy e do filho Wes, bem como a torcer pela Mindy etc. Penso que um conjunto de coisas contribui para tanto: o valor afetivo da franquia, a boa construção dos personagens e, claro, os requintes de crueldade presentes em cada morte, devidamente compensados ao final. Pois, sim, o filme soube nos proporcionar uma catarse (melhor assim...).

Importante lembrar que – tanto por ser esse um filme em que tudo é possível como pelo absurdo da inabalável sorte dos três grandes protagonistas da franquia – um deles precisa morrer aqui, o que foi bastante ousado. Dewey, lembrando-se tardiamente da valiosa dica dada pela Sidney ao final do terceiro filme (“Atire na cabeça!”), acaba por se colocar nas mãos do assassino, proporcionando a qualquer fã da franquia uma cena deveras dolorida. Não surpreenderia, porém, se o personagem retornasse numa provável continuação, revelando-se sobrevivente ao massacre de Pânico 5.

A propósito, a chamada “suspensão da descrença” configura-se como algo deveras necessário em todos os filmes da franquia e neste de modo especial. Afinal, temos o personagem que “vai dessa pra uma melhor” com uma única punhalada do ghostface, enquanto outros, depois de uma série delas, se recupera em questão de minutos; temos uma adolescente/jovem (Mikey Madison) nocauteando um homem adulto e ex-xerife; temos uma policie pra lá de ineficiente e um hospital ermo e sem nenhum tipo de segurança. Enfim, todos os absurdos favoráveis ao roteiro, o que torna totalmente viável o retorno do personagem tão querido que é Dewey.

Vale dizer, aliás, que ele, assim como Sidney e Gale, parecem não haver sido tão explorados aqui, o que nem de longe significa que não hajam recebido a devida importância. Ocorre que, além de ser esse um filme ágil, há nele a intenção de apresentar uma nova protagonista. Diante disso, os realizadores parecem haver feito um bom trabalho ao se dedicar aos veteranos sem diminuir as irmãs Samantha e Tara (Jenna Ortega), em torno das quais gira toda a trama.

Do trio sobrevivente sabemos pouco, mas o suficiente: Sidney, tal como no terceiro filme, reside em outra cidade, agora com filhos (tomara que frutos de um relacionamento com o detetive interpretado pelo Patrick Dempsey em Pânico 3...), retornando para Woodsboro em razão da morte de Dewey. Ele, por sua vez, é um xerife aposentado vivendo em um trailer. Ele e Gale (assim como os seus intérpretes na vida real) não estão mais juntos, o que tem como causa a carreira de Gale. A química entre os atores, porém, permanece quase palpável.

Enfim, Pânico 5 se sai bem em todos os seus objetivos: prestar uma homenagem aos fãs e ao criador da franquia, ressuscitá-la e contar uma boa história. Parece-me, porém, haver sido dedicada demasiada atenção à metalinguagem e às conexões com os filmes anteriores e pouca atenção ao desfecho, que nos revela assassinos irrelevantes com motivações nada criativas. Todavia, considerando que a própria Sidney caçoa de tais motivações, penso que isso talvez seja intencional, vez que nesse longa importa muito mais o durante do que a revelação final. Ademais, trata-se de um roteiro que, ao abraçar com força a metalinguagem, brinca com o telespectador por meio da subversão, surpreendendo com o diferente quando se espera o óbvio e oferecendo o óbvio quando se espera a novidade. Um bom exemplo disso é a insinuação de uma morte a la Psicose (Psycho, 1960) que não acontece.

Outro ponto é que, embora há quem diga ser possível uma boa experiência com Pânico 5 sem conhecimento dos demais filmes da franquia, considero isso um tanto improvável. E digo-o porque, por mais que o próprio filme ofereça uma contextualização, penso se tratar de muita informação para um telespectador não iniciado na franquia. O primeiro filme me parece essencial. Há ainda as muitas referências a Stab – filme de terror existente no universo de Pânico, estabelecido a partir do segundo filme da série – que tende a dificultar a experiência.

Enfim, Pânico 5 – ao menos a meu ver – não decepciona os fãs da franquia, a despeito das falhas comuns a qualquer obra (sobretudo aquelas com forte apelo comercial). Embora o filme possa soar como despedida, o bom senso nos leva a considerar Pânico 5 como um novo fôlego para a franquia, que, a depender do resultado nas bilheterias, obviamente ganhará uma continuação (a não ser, claro, que optemos pela ingenuidade de acreditar que os produtores valorizam a arte acima dos lucros).

Resta-nos, então, aguardar o desenrolar dessa história, por ora detendo-nos ao sentimento de gratidão ao estranho ruído e à janela assustadoramente aberta que, há vinte e cinco anos, amedrontou Kevin Williamson, inspirando-lhe o roteiro do longa de 1996. No mais, espero que isto não aconteça, mas, se porventura a vida imitar a arte e estranhos acontecimentos lhe perturbem numa calada e solitária noite, atente-se a estas dicas: não atenda ao telefone, não abra a porta, não tente se esconder, não entre em... pânico.



sexta-feira, 9 de abril de 2021

A dona da vida real



Se, assim como eu, você adora um dramalhão mexicano, é provável que conheça essa clássica cena de Soy Tu Dueña (2010) – se não me engano, a quinta adaptação do texto venezuelano de 1972. A trama acompanha uma jovem da alta sociedade que, após ser abandonada no altar pelo homem que, como se não bastasse, a traia com a sua prima, decide se mudar para a fazenda que herdara dos pais.

Convertida em uma mulher fria e rancorosa, a jovem – Valentina Vilaça, na versão estrelada por Lucero – não confia mais nos homens, e esta cena antológica marca a sua decisão por assumir as rédeas de seu destino, trazendo à tona uma nova mulher.

Se isso, porém, não foi fácil para a personagem, imagine para nós, pessoas comuns, que não dispomos de uma fazenda para onde fugir e tampouco estamos podendo jogar um carro no abismo com um vestido de noiva dentro (sim, a personagem fez isso, e só para se livrar do vestido...).

Na vida real, a gente precisa lidar com a dor em meio a uma série de outros problemas, não raro compartilhando o mesmo ambiente com aquele que nos magoou. Na vida real, depois de ter o coração partido, não nos deparamos com um Fernando Colunga a nos oferecer todo o seu amor e disposto a curar as nossas feridas. Pelo contrário, é provável que permaneçamos por muito tempo sozinhos, isso quando não nos deparamos com um novo idiota. E, sim, a gente ainda está no lucro caso o nosso algoz haja sido o David Zepeda.

Na vida real, costuma doer por um longo tempo, tanto por ser difícil esquecer como pelo nosso apego ao que nos machuca, o que acaba por render um bocado de autossabotagem. É que na vida real, a gente quer dar a volta por cima, mas às vezes a gente tem recaídas, não raro nos enveredando por pequenas ações que colocam em risco semanas, meses ou até mesmo anos de trabalho de superação.

Esse texto, porém, não pretende lhe desanimar e tampouco criticar a teledramaturgia, da qual sou fervoroso fã. A propósito, que felicidade a nossa termos a ficção como uma possibilidade de catarse.

Este texto é, portanto, um convite a ter paciência consigo mesmo. Que o drama mexicano, o filme, o livro ou seja lá o que for lhe tragam alento enquanto você atravessa a dor, mas que você não se culpe ou se subestime se não tem a força da heroína da trama ou se sua história não transcorre como a dela.

E agradeça por isso, pois, se lhe falta a fazenda, a governanta amorosa e o mocinho bonito que lhe curará as feridas, é sinal de que você já tem em si tudo do que necessita para superar o que se passou. Trata-se daquela velha dor que muito nos honra, pois, se nos foi dada, é porque é do mesmo tamanho que nós.

Você não precisa se arriscar a pegar um resfriado indo para a chuva bradar que é “a dona do seu destino”. Basta que você reconheça que – em lugar de um capataz mau caráter e de uma prima que é melhor ter bem longe – os obstáculos ao final feliz de nossa trama são as nossas próprias debilidades, as nossas fragilidades, a nossa resistência diante do novo, o nosso medo do vazio.

E é aí que você percebe que, somente ao substituir o apego pela aceitação e comprometimento consigo mesma, é que você se torna a dona. A dona de sua vida real.


sexta-feira, 10 de abril de 2020

Special



Nos meus tempos de faculdade, eu me interessei (o que, no meu caso, é sinônimo de “me apaixonei”, “escrevi poesias”, “enviei extensos e-mails e cartas” e “bati uma infinidade de punhetas”) por um cara que, em linhas gerais, alegou não me corresponder porque teria vergonha de ser visto comigo, o que se justificava pela minha condição socioeconômica de então, da minha aparência, da minha deficiência visual e do fato de eu ser estudante de Letras – faculdade que, diga-se de passagem, ele também cursava... E isso tudo com direito à imitação do meu nistagmo e tudo mais.

Decorridos mais de dez anos, é claro que eu superei, o que nada tem a ver com esquecer e tampouco perdoar. Afinal, se você está pleiteando o Nobel da Paz, eu lamento muito, mas eu não estou...

Naquela época, embora a luta pela diferença fosse já algo estabelecido na política, no meio acadêmico e na mídia, era ainda maciço o preconceito contra os diferentes no meio gay, tema esse raramente discutido, vez que é bem mais cômodo se dizer vítima de um preconceito do que agente do mesmo. Embora isso ainda se faça presente nesse meio, era mais, digamos, gritante nele o culto a um padrão, o que comumente envolvia um corpo forjado na academia, roupas de marca, frequência – e, se possível, moradia – na Zona Sul etc.

Era, portanto, o tempo em que a própria mídia – e, aqui, leia-se “telenovelas” -, ao procurar promover esse grupo minoritário, optava por exaltá-lo, o que significava retratar sempre o estereótipo do homossexual bonito, bonzinho e bem comportado. Portanto, não se engane, pois houve muito caminho andado até que chegássemos às produções que ora apresentam o gay que, como qualquer ser humano comum, trai, sacaneia os outros, gosta de sexo e tem outras questões para lidar além da própria sexualidade.

É óbvio, porém, que não chegamos ainda a um nível ideal de representatividade, vez que a mídia, compreensivelmente resistente a escancarar a realidade tal como ela é (pois tem como função entreter, e não deprimir o telespectador), ainda não tem culhões – só pra utilizar uma expressão machista – para apresentar o gay da periferia, o gay com transtornos emocionais, o gay com deficiência e afins. Infelizmente, ainda é “necessário” dar a esse sujeito tons que o tornem mais digestível, por assim dizer (e sem maldade).

Talvez por isso eu tenha me impressionado tanto com a série Special, disponível na Netflix há um ano. Escrita e protagonizada por Ryan O'Connell, a série é baseada na autobiografia desse, intitulada I'm Special: And Other Lies We Tell Ourselves, nos apresentando um jovem Ryan que encara os conflitos de ser gay e ter paralisia cerebral (PC). E isso a série coloca livre de uma dramatização exacerbada e sem significativa preocupação em tornar tudo isso mais agradável aos olhos.

Assim, temos o protagonista com seus preconceitos; a melhor amiga bem resolvida quanto ao seu peso, mas mal resolvida com outras questões; a mãe super protetora que vê na liberdade do filho uma ameaça ao próprio modo de vida; a chefe politicamente incorreta (e adorável) que diz todo tipo de absurdo impunemente; os amigos, gays ou não, que não veem na deficiência de Ryan um problema e os tantos outros personagens que vão ditando a forma de o protagonista se colocar no mundo.

Não foi, porém, apenas a positiva e realista retratação do sujeito gay e com deficiência que me cativaram, mas também a imensa identificação que eu – que tenho uma deficiência visual talvez até mais leve que a leve PC do ator e personagem – tive com a história.

As questões de autoestima, o fascínio pelos corpos perfeitos para os quais eu me percebia invisível, o desafio de lidar com o fato de ser duplamente “diferente”, o início da vida sexual com um profissional, as meias não retiradas em meio à empolgação da primeira vez (mas os óculos eu tirei!), o envolvimento com um cara surdo, a busca por uma r... ops!... por um amor no Grindr, a conquista da independência e de tudo que dela advêm (de bom e de mau). Tudo estava ali, não como forma de confirmar que eu sou de fato esquisito, mas como forma de me dizer que eu não estou sozinho no meu modo de ser e de viver e que está tudo que as coisas sejam assim.

“Ele não é um babaca se não quiser namorar comigo. Ele só sabe como o mundo funciona”. São as palavras do protagonista em um certo momento da trama. Curioso é que a própria série por vezes joga na nossa cara que, tendo a visão obnubilada pelos preconceitos que não raro temos contra nós mesmos, costumamos nos enganar ou talvez generalizar demais a nossa ideia acerca de “como o mundo funciona”.

Como bem disse o próprio O'Connell em entrevista a um site, “a série não vai falar para todas as pessoas com deficiência”, pois “não dá para falar com todo mundo”. É fato, porém, que “Special” se mostra uma produção bem intencionada e corajosa ao apresentar a pessoa com deficiência com a sua vida real, com suas falhas humanas e com as dificuldades impostas por um mundo pensado para um padrão de pessoas.

E vale reverenciá-la ainda pelo fato de ir na contramão de uma mídia na qual virou moda retratar sujeitos homossexuais, mas que ainda ignora a existência de pessoas com deficiência.

Mais do que isso, a série está sempre a mostrar que todo mundo – e ninguém – é de fato “especial”. E isso... pode ser libertador!

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Deus Não Está Morto


Título original: God's Not Dead
Ano: 2014
Direção: Harold Cronk
Roteiro: Hunter Dennis, Chuck Konzelman, CarySolomon
Gênero: Drama
Origem: Estados Unidos
Duração: 113 minutos
 

sábado, 31 de maio de 2014

Carrie - A Estranha


Título original: Carrie
Ano: 2013
Direção: Kimberly Peirce
Roteiro: Stephen King (romance), Roberto Aguirre-Sacasa (roteiro)
Gênero: Drama/Terror
Origem: Estados Unidos
Duração: 100 minutos


Numa definição bastante simplória, podemos dizer que uma das características que define um clássico é a sua atemporalidade. Ou seja: um clássico se mostra atual a despeito do tempo em que se tenha acesso a ele. Tal conceito é constantemente abordado no âmbito das artes, em especial em se tratando da literatura e, naturalmente, da Sétima Arte. É claro que estou aqui reduzindo consideravelmente o vasto conceito de clássico. Não obstante, me parece o bastante para a explanação do tema que me traz aqui.

Pode-se dizer que Carrie (1974), primeiro romance do escritor Stephen King, dispõe do elemento atemporalidade que o aproxima de um clássico, não chegando a ser um porque, naturalmente, não se trata de nenhuma obra-prima da literatura norte-americana. Trata-se de uma boa obra, convincente, bem escrita e sempre trazida à tona pela indústria cinematográfica justamente pela força que exerce nas gerações de jovens. A história da adolescente vítima de bullying por ser diferente dos demais e que, chegando ao limite da humilhação em seu baile de formatura, se vinga de todos os seus algozes (inclusive da sua severa e fanática mãe) é sempre atual, visto ser o bullying e a repressão sofrida por alguns filhos algo presente em todos os tempos. A cena da humilhação durante o baile de formatura tanto mexe com as emoções do telespectador que já foi aproveitada até mesmo em telenovelas globais (Rainha da Sucata, 1990; Chocolate com Pimenta, 2003).

Foi Sissy Spacek, nas mãos do diretor Brian De Palma, a primeira atriz a dar vida à personagem de king em 1976 no filme homônimo (Carrie, a estranha no Brasil), ao qual se sucedeu o absurdo The Rage: Carrie 2, uma sequência de qualidade duvidosa dirigida por Katt Shea em 1999 (A maldição de Carrie no Brasil); e as regravações de 2002 e 2013, dirigidas, respectivamente, por David Carson e Kimberly Peirce. Opto por trazer aqui alguns breves comentários sobre cada uma dessas produções a fim de fundamentar a minha opinião sobre essa última, de 2013, estrelada por Chloë Grace Moretz, que já adianto, me parece pretensiosa e desnecessária, apesar de seus méritos.

A decisão por regravar um clássico só pode ser motivada por uma das seguintes razões: i) fazer uma releitura do material original, proporcionando ao telespectador um novo olhar sobre determinado conteúdo, ou ii) lucrar encima de algo construído a partir de um material outrora bem-sucedido. Neste último caso, oferecer um produto de qualidade está longe de ser prioridade. O importante é atrair a atenção de multidões, não importando se essas sairão do cinema praguejando. O lucro, afinal, já estará ganho. Acredito, com pesar, que Peirce haja se guiado por essas duas razões.

Vejamos: uma das principais críticas a esta última regravação de Carrie (2013) foi quanto à escolha de Chloë Grace Moretz como protagonista. Consideraram-na bonita demais e estranha de menos para o papel. Também pudera: a Carrie de 1976, como já dito, foi vivida por Sissy Spacek, uma atriz comum com aparência comum, mas com um porém: ela tinha 25 anos na época, sendo, portanto, uma mulher na pele de uma adolescente hostilizada no colégio. Isso, naturalmente, foi proposital. Desde o início, Brian De Palma decidira entregar a personagem à uma jovem adulta com o objetivo de tornar notória a estranheza da personagem. O mesmo recurso foi utilizado para a versão de 2002, sendo escolhida para o papel a Angela Bettis, conhecida do público por haver interpretado no cinema outras personagens tanto ou mais estranhas quanto a Carrie e que já se aproximava dos 30 anos durante a produção. Ao meu ver, acertou-se em cheio na escolha das atrizes, unindo-se talento, idade superior à da personagem e, por que não dizer?, aparência fora dos padrões.

Confesso me haver parecido imatura a crítica à escolha da atriz para esta versão de 2013, pois, ao contrário o que disse a maioria, tal escolha me pareceu desafiadora, havendo aumentado as minhas expectativas quanto ao filme. Afinal, sendo Moretz bonitinha, novinha e normalzinha demais para o papel, pressupunha-se que o sucesso da personagem estava na exclusiva dependência do talento da atriz e de uma boa direção. Resultado: Moretz tem se mostrado uma boa atriz em seus últimos papéis, mas, infelizmente, a sua Carrie não convenceu inteiramente. Penso, porém, que tal insucesso não se deu devido à boa aparência da atriz e tampouco por falta de talento, de modo que, neste ponto, devo culpar a direção, o roteiro e tudo mais. A grande verdade é que o filme ficou carente de recursos que levassem o telespectador a de fato ver estranheza em Carrie. A personagem, que nas mãos de Peirce pareceu apenas uma menina meio tímida e pouco atualizada no quesito moda, tem poucas falas e é forçada demais, sobretudo no tocante aos seus poderes telecinéticos, exagerados e difíceis de serem digeridos por qualquer telespectador.

Outra frustração se dá pela presença de Julianne Moore no longa como a fanática e louca Margaret White, que, se a princípio contribuiu para as expectativas em relação ao filme – afinal, Moore é, incontestavelmente, uma atriz e tanto! –, acabou por frustrar o telespectador, tão sem graça e apagada está. Enquanto a Margaret White de 1976, vivida por Piper Laurie, assustava, metia medo e despertava o ódio do telespectador, a de agora não desperta emoção alguma. E também pudera: em todos os embates entre mãe e filha, Carrie acaba por render a mãe com um movimento de mãos (o que, aliás, ficou bastante forçado, afinal, trata-se de uma garota com poderes telecinéticos, e não de uma espécie de uma personagem com superpoderes saída de uma atração adolescente). Moore foi bastante desperdiçada neste filme, chegando a sua personagem a ser quase tão apagada quanto a Margaret Wtihe vivida por Patricia Clarkson na regravação de 2002.

Outro ponto negativo do filme, talvez o principal responsável pelo seu fracasso, é o fato de que ele não se decide se quer ser uma adaptação do livro ou uma cópia mal feita do longa de Brian de Palma. Se não fosse por alguns pequenos elementos, aliás, seria possível desconfiar de que nem diretora nem roteirista chegaram a ler a obra de Stephen King. O longa de Peirce é, em grande parte, uma cópia do filme original, desde as vestimentas e cabelos de Margaret White ao desabamento da casa da protagonista ao final do filme. Pareço injusto? Vejamos: a morte da mãe de Carrie nesta nova regravação é praticamente uma reprodução da cena da morte da mesma personagem no filme de 1976. Quem leu a obra sabe que Margaret Whithe não morre daquela forma, embora, claro, devamos considerar que a ideia ficou mais adequada para a telinha do que ficaria a cena original do livro, onde Carrie “comprime” o coração da mãe com o poder da mente (a versão de 2002 está aí para provar a inadequação de tal cena para o vídeo). Lembremos, porém, que a ideia de matar Margaret White com os utensílios de cozinha é de Brian De Palma e não de Peirce, que só demonstrou uma total falta de criatividade ao reproduzir tal cena. O mesmo se dá quanto à cena em que Sue (Amy Irving e Gabriella Wilde, respectivamente) vai dar uma espiadinha no baile, e talvez haja outras que me tenham passado despercebidas.

Finalmente, no que se refere à tão esperada cena do baile, essa sofre as consequências do mal do qual o filme vinha sofrendo ao longo de sua projeção: a falta de tensão. Os momentos mais tensos que antecedem ao da humilhação no baile não dão conta de preparar o telespectador para tanto, de modo que este, ao chegar àquilo que deveria ser o clímax, se depara apenas com uma projeção apressada e uma enxurrada de efeitos isenta de qualquer tensão. Em seguida, a vingança de Carrie contra os seus principais algozes, Chris Hargensen (Ivana Baquero) e Billy Nolan (Alex Russell) novamente frustra a demanda catártica do telespectador, que, diante de uma cena lenta e exagerada, se vê ansioso pelo fim da projeção. Todavia, antes de chegar ao fim, o telespectador precisa, ainda, suportar o já comentado embate final entre mãe e filha e a descoberta de que, além dos poderes telecinéticos, Carrie possui ainda o dom da clarividência (!!!).

Ok, muitos são os que gostaram do filme e argumentam serem inapropriadas as comparações. Elas, no entanto, são inevitáveis, visto se tratar da adaptação de uma obra que já teve a sua versão para o cinema. Adaptação essa que se tornou um clássico, de modo a dispensar uma regravação inferior. Peirce tinha um belo material em mãos: a obra de King, a atual discussão do Bulliyng, a tecnologia do mundo contemporâneo. Ela utiliza tais recursos, mas não de modo a fazer um filmão, se é que era essa a intenção dela... Sejamos justos, claro: a cena da gestação de Carrie, que abre o filme, é fantástica; os efeitos sonoros são bons e não passam despercebidos aos ouvidos do telespectador atento; o uso dos aparelhos celulares para fotografar Carrie em total desespero devido a sua primeira menstruação, bem como a exibição do vídeo no telão no momento da humilhação final (surpresa até mesmo para o telespectador!), foram excelentes ideias. Diferente daquela Carrie de 1976, que apanhava pilhas de livros na biblioteca da escola para se inteirar sobre a telecinesia, a Carrie de agora também pesquisa sobre o tema na internet, tal como a Carrie de 2002. Não posso, porém, deixar de fazer um questionamento: na era da internet e em tempos em que adolescentes discutem (e até vivem) livremente a sexualidade, seria possível que uma jovem se mantivesse alheia às transformações do seu corpo? Seria possível que uma adolescente não soubesse nada sobre a menstruação? Talvez a obra de King não seja assim tão atual, ao menos neste aspecto...

No que toca à fidelidade à obra, não há dúvida de que a versão de 2002 é a que sai na frente nesse sentido, embora os últimos cinco minutos hajam destruído toda a obra, que já não era nenhuma maravilha (um filme bom, e só). Naturalmente, caso fosse perguntado sobre qual a melhor versão, eu responderia de pronto ser a de De Palma. Consideremos, porém, que se tratam de três filmes diferentes, produzidos com objetivos e olhares distintos. Além disso, é preciso que os críticos (mesmo os de beira de estrada, como eu) procurem um equilíbrio entre a precisão e maturidade de sua crítica e a nostalgia. Assistindo a Carrie (2013) pela primeira vez, considerei-o um fiasco, é verdade. Tal opinião, porém, não foi a mesma quando o vi uma semana depois. Agora, para mim, esta obra de Peirce é apenas um filme legal, suportável, desses que a gente assiste para passar o tempo e não o vê nunca mais. Infelizmente, um filme que não atende às expectativas geradas por toda a publicidade que o antecedeu e que chega a decepcionar os adoradores da obra de King e de De Palma. Mas fazer o quê?

Recomendo, sim, que todos vão ao cinema para conferir esta nova Carrie, mas recomendo, também, conhecer aquela que inaugurou esta trágica história no cinema. Nostalgia ou não, continuará a ser inesquecível para mim aquela estranha de 1976, com os seus cabelos de piaçava contrastando com os volumosos cabelos de suas colegas de turma; com a sua assustadora Margaret White e sua crueldade quase palpável; com o seu sensual banho de ducha e seu desfecho assustador; com os seus arregalados olhos azuis e sua merecida revanche; com a sua lição de como o fanatismo e a intolerância podem destruir a vida de um ser humano.

***

Publicado originalmente em CinePlayers.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Félix e Niko: sinal de um tempo bom



Quando ouço alguém dizendo algo do tipo "Argh!, agora toda novela da Globo vai ter relacionamento gay..." recebo a informação com um tal estranhamento que, a título de teste, faço questão de, intimamente, trocar a palavra "gay" por, por exemplo, "negro". Tal recurso, devo dizer, só me leva a uma conclusão: sim, toda novela da Globo e de qualquer outra emissora deve abordar relacionamentos homoafetivos. É tema obrigatório, tal como o é o racismo ainda presente, a pobreza, a deficiência, a terceira idade e afins.

São temas obrigatórios por se tratar de esferas sociais nas quais se fazem presentes minorias que nem de longe o são em termos numéricos. Gays, pessoas com deficiência, negros etc. devem, sim, estar presentes nas tramas tal como estão em nossa vida, em nosso dia a dia, em nosso local de trabalho, em nossa família etc.

Por mais divertido que seja assistir às telenovelas, não podemos negar que, quando nos colocamos diante da tevê, o que nos é apresentado ali é um mundo irreal. Um mundo com uma grande maioria de pele branca, circulando pela rua, pela universidade e pelos demais núcleos da trama. No tocante às pessoas com deficiência nem se fala! Elas raramente existem. E, assim, nos é apresentado na telinha um mundo à parte, um mundo fora do mundo. Um mundo de pessoas branquinhas (com empregados negros, naturalmente), perfeitas e casais heterossexuais em sua maioria. Histórias mirabolantes, grandes reencontros e terríveis mistérios, mas poucos vivendo conflitos reais.

Essas pessoas precisam estar presentes na trama, e nem se faz necessário que se crie polêmica em torno delas. Basta que estejam lá, tal como estão em nossa lida diária. Elas precisam estar ali porque fazem o mundo acontecer e, principalmente, porque também recebem a programação televisiva goela abaixo diariamente, de modo que merecem, no mínimo, serem retratadas na ficção, uma vez que esta se pretende narrativa baseada na vida real.

Eu espero, sim, que, a partir dos recentes avanços, a questão da homossexualidade siga sendo amplamente abordada nas tramas, com muitos beijos gays, mas também com a infinidade de aspectos da homossexualidade ainda por serem levados à telinha. No âmbito da teledramaturgia global estamos diante de uma grande mudança de tempo: abandona-se o estratégico enaltecimento das minorias, onde se perpetuava, por exemplo, o estereótipo do gay bonzinho e inteligente, para abraçar o cara da vida real, que trai a esposa com jovens rapazes; que mantém um casamento de aparências com o intuito de esconder a sua verdadeira identidade sexual; que, além de amar, também sente puro e simples desejo; que desestabiliza a relação com o parceiro por se aventurar na cama da melhor amiga do mesmo.

Enfim, adentramos um tempo em que a teledramaturgia, embora muito de qualidade tenha perdido ao longo dos anos, está mais aberta a mostrar esses atores sociais e suas histórias, às vezes bonitas, às vezes não. A diversidade e inconstância da vida real com os seus tons ficcionais.

É tempo de a teledramaturgia tirar essas pessoas dos seus armários, pois, na vida real, faz tempo que elas saíram de lá...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Valente


Título original: The Brave One
Ano: 2007
Direção: Neil Jordan
Roteiro: Roderick Taylor (argumento e roteiro), Bruce A. Taylor (argumento e roteiro), Cynthia Mort (roteiro)
Gênero: Ação/Drama/Policial/Suspense
Origem: Austrália/Estados Unidos
Duração: 119 minutos
 

“Sou Erica Bain e, como vocês sabem, eu ando pela cidade. Eu me queixo, reclamo, mas eu ando, observo e escuto. Sou testemunha de toda beleza e feiura que está desaparecendo da nossa adorada cidade.” Erica Bain, personagem de Jodie Foster em The Brave One (2007).

Não se trata de uma leitura que eu tenha feito recentemente, mas bem me lembro que, no imortal romance de Jostein Gaarder – cujas vendas somam mais de 30 milhões de exemplares pelo mundo –, a jovem personagem Sofia Amundsen se exalta quando o seu misterioso tutor lhe questiona sobre a possibilidade de tirarmos do nosso caminho aqueles que, por ventura, nos façam mal (com perdão por eu apresentar a minha memória como única referência). Não é pra menos. Vivemos em uma sociedade na qual o famigerado “olho por olho, dente por dente” foge aos seus princípios éticos. Não obstante, a “vida real” consta de uma miríade de casos em que esse princípio ético é posto de lado, ocorrendo, dessarte, o prejuízo ou mesmo a morte àqueles que outrora hajam ou não atuado como algozes do seu então “vingador”. Valente – sofrível tradução de The Brave One (2007), de Neil Jordan – nos proporciona uma boa trama para a discussão deste tema.

Erica Bain (Jodie Foster) é locutora do programa “Street Walk”, na fictícia rádio WNKW. Ela leva uma vida comum, gostando do que faz e amando o enfermeiro David Kirmani (Naveen Andrews), com quem está prestes a se casar. Os planos e a vida comum de Erica, no entanto, sofrem um baque quando ela e o noivo são gratuita e brutalmente agredidos por três marginais, ocorrência que põe fim à vida de David e marca decisivamente a de Erica, que, o telespectador bem sabe, jamais será a mesma. O telespectador de Valente, aliás, sabe de muita coisa. Lendo a sinopse do filme antes de assisti-lo, ele já sabe, por exemplo, que ali não há nada realmente novo: uma mulher, tendo abaladas as suas estruturas, alimenta uma sede de vingança que, ao longo do filme, levará às últimas consequências.

Valente, no entanto, pode e deve ser qualificado como um bom filme, a despeito dos clichês e por inúmeras razões, sendo a principal delas o fato de Neil Jordan haver sido um mestre em contar uma velha estória dando-lhe ares de inédita, utilizando-se de elementos simples, porém significativos, como, por exemplo, a excelente trilha sonora da qual Dario Marianelli ficou incumbido. As cenas de suspense, de violência e de profundas reflexões de Erica acerca do ocorrido e daquilo em que está se tornando são embaladas por instrumentais que levam o telespectador às sensações provavelmente pretendidas por Jordan. As mencionadas reflexões de Erica, aliás, são um importante elemento: não temos aqui apenas um filme de violência – embora seja ela, naturalmente, o seu ponto forte –, mas, também, um filme sobre a profunda transformação de uma mulher, que, após um ataque brutal, não mais consegue adaptar-se à trivialidade; tampouco, e com razão, consegue ver o mundo – e, em especial, Nova Iorque – como um lugar seguro. Nesse âmbito, vale ressaltar que a mudança pela qual Erica passa não é assim tão brusca – o que, caso contrário, o seria em detrimento do senso de realidade da obra –, visto que, já no início do filme, nos é apresentada uma personagem de natureza reflexiva, introspectiva e censora; uma personagem inconformada com as estimáveis características que estão desaparecendo de sua “adorada cidade”. O que temos, portanto, é uma Erica acostumada a reagir à própria insatisfação – a princípio, com sua expressiva escrita; mais a diante, com a violência.

Destaque para a cena da abordagem dos bandidos, que exigem nervos de aço do telespectador que, até então guiado por uma estória leve, experimenta agora a desumanidade de três desconhecidos que, por diversão, agridem impetuosamente dois jovens de bem, cheios de vida, amor e planos. Naturalmente, levar o espectador ao asco com esse tipo de cena não é mérito de Jordan, visto que qualquer tabloide consegue isso, todos os dias, na vida fora das telas. Tal estratégia é, no entanto, pertinente ao objetivo do diretor, que é, naturalmente, justificar as atitudes posteriores da mocinha, levando o telespectador a manter-se do lado dela. Destaque também para as cenas que vemos na sequência, que são uma alternação entre as imagens dos cuidados ao corpo ferido de Erica no hospital e as cenas de David distribuindo carícias pelo mesmo corpo. Isso poeticamente embalado por “Answer”, de Sarah Mclachlan.

Outro momento que merece destaque é quando a heroína, disposta a tentar continuar a seguir com sua rotineira vida, faz, em seu programa de rádio, uma narração que se faz interessante por refletir, com fidelidade, o sentimento de inúmeras vítimas e familiares de vítimas da violência nas grandes cidades, e isso é mais um ponto que “avisa” ao telespectador que, ao assistir a Valente, ele não está, definitivamente, diante de nada surreal, mas palpável, bem próximo de si.

“Nova York, a cidade grande mais segura do mundo. Mas é horrível... temer o lugar que um dia você amou. E ver uma esquina que você conhecia tão bem e ter medo de sua sombra. Ver degraus familiares e ser incapaz de subir. Nunca entendi como as pessoas podiam viver com medo. Mulheres com medo de ir para casa sozinhas. Pessoas com medo de pó branco em suas caixas de correio, da escuridão e da noite. Pessoas com medo de pessoas. Sempre achei que eram os outros que sentiam medo. Pessoas mais fracas. O medo nunca me atingia. E então, ele atingiu. E quando ele atinge, você descobre que ele estava lá o tempo todo, esperando, sob a superfície de tudo aquilo que você amava. Você sente a pele formigando, seu coração adoece e você olha para a pessoa que um dia você foi, descendo a rua, e você se pergunta se um dia voltará a sê-la.” Erica Bain, personagem de Jodie Foster em The Brave One (2007).

Erica agora dorme ao lado do túmulo de seu amante, implorando-lhe uma palavra, e se envereda por uma rotineira caminhada noturna, na qual visita, armada, os pontos mais recônditos da cidade. À certa altura – anterior, aliás, à aquisição ilegal da arma – Erica chega a procurar a polícia, pensando em deixar nas mãos dela a solução para o seu caso. É quando nos é apresentada mais uma espécie de justificativa para o que ela fará logo em seguida: a ineficiência da polícia, da qual temos como pista a frase que o policial repete, religiosamente, a todos que, desolados, recorrem a ele: “Certo, Sei que é difícil, mas se puder ter um pouco de paciência e sentar ali. Logo mais, um policial virá ajudá-la.” Erica, no entanto, não quer que a justiça seja feita por um processo moroso e que, aliás, não lhe ira saciar a ira. Ela quer “fazer justiça com as próprias mãos”, o que nos é reafirmado por duas cenas que veremos no decorrer do filme: i) quando Erica desiste quando, na delegacia, está prestes a entregar-se à polícia como a autora dos (merecidos?) assassinatos que estão acontecendo na cidade e ii) quando colocada frente a frente com um dos assassinos, mesmo reconhecendo-o, ela prefere não dizer à polícia, para poder realizar ela mesma a sua vingança.

Vale ressaltar que o telespectador-alvo do filme anseia por ver a mocinha – culturalmente concebida como frágil e levada ao extremo do sofrimento após tornar-se vítima da violência e perder o seu amado –, tomar ares de vilã e sair pela cidade a fazer com que os algozes dos cidadãos de bem provem do seu próprio veneno. A plena satisfação, no entanto, fica apenas para o telespectador, uma vez que Erica – embora, provavelmente, experimente também uma espécie de prazer ao cometer os assassinatos – sente-se cada vez mais vazia e culpada pelo “mal” que vem provocando. Esta natureza controversa da obra nada mais é, no entanto, do que uma estratégia – muito boa, por sinal – utilizada por Jordan para que o telespectador chegue a uma reação catártica sem, no entanto, deificar a heroína pelos seus atos, o que seria, penso, como legitimar a própria violência.

Destaque, neste ponto, para um diálogo entre Erica e a aparentemente dura – porém compreensiva e conhecedora da dor e conflito interno vividos pela protagonista – Josai (Ene Oloja), quando essa se depara com Erica assentada nos degraus à frente da sua casa, fumando angustiada e disparadamente.

“– Não devia fumar. Isso vai matar você.
– Não me importo.
– Há muitas formas de morrer. Mas é preciso achar uma forma de viver. E... isso é difícil.” The Brave One (2007).

É quando Erica encontra uma forma não de viver, mas, sim, de suportar a vida de agora, carente de Jason e da paz de outrora, “porque, quando você ama algo, toda vez que um pedacinho dele se vai, você perde um pedacinho de si próprio.” Erica, então, havendo-se perdido por inteiro, agora anda pela cidade colocando em sua mira todos aqueles que perturbam a paz alheia, se fazendo algozes de outrem.

Neste ponto da trama, já temos a presença do Detetive Mercer (Terrence Howard), que investiga as misteriosas mortes na cidade, desconhecendo, a principio, que o temido – ou adorado – “justiceiro” está por trás de toda a simpatia daquela mulher. Essa dupla, aliás, é a responsável por grande parte das reflexões sobre justiça, ética e assassinato do filme. Tomemos como exemplo a sena em que, cedendo uma entrevista à Erica, o detetive lhe conta sobre o Sr. Murrow, dono dos estacionamentos da Ilha Roosevelt. Ao ser questionado por ela se nada havia a ser feito quanto a isso, o detetive, arrependendo-se em seguida, responde não haver nenhuma solução que fosse legal. Na sequência, Erica pergunta ao detetive se suas mãos haviam tremido nas ocasiões em que teve que matar alguém e esse responde negativamente, colocando isso como a vantagem de estar do lado certo.

Temos aí a explanação de dois lados com algo importante em comum. Ou seja: o hábito de executar o outro como forma de fazer justiça. Não obstante, defende-se haver um lado certo e um lado errado, embora ambos existam em prejuízo à vida humana. Jordan nos traz tal reflexão de maneira magistral. Havendo levado o telespectador-modelo a torcer pelo sucesso da protagonista em seu plano de vingança, leva-o, em seguida, a questionar a atitude da mesma e adentrar, a partir disso, numa série de questionamentos: se não seria correto torcer pela protagonista, dever-se-ia de fato torcer pelo detetive? Haveria mesmo alguma circunstância em que tentar contra a vida humana fosse uma atitude legítima? Será que a polícia age mesmo eticamente, e, se sim, em que se baseia esta ética?

Entre os ouvintes do programa “Street Walk”, as opiniões a respeito se dividem tal como entre os telespectadores de Valente. Um primeiro defende a ação do “vingador” como um favor à sociedade. Um segundo defende que, ao decretar a morte de outrem sem julgamento, o justiceiro se iguala às pessoas que ele mata. Um terceiro menciona o prazer que nos proporciona ver os algozes da sociedade serem punidos com a morte.

Enfim, esses e outros debates surgem na tela enquanto vemos Valente, o que, nas mãos de Jordan, não anula a possibilidade de um desfecho razoável para a mocinha, possibilitado, naturalmente, por Mercer, que parece haver cultivado um certo fascínio pela moça. Assim, ao final da trama, o afeto, o cuidado e a compreensão da dor alheia se sobrepõem a qualquer ética, tornando-se o último bandido restante objeto de um combinado entre Erica e Mercer. Seria certo? Não sabemos, mas sabemos que estamos tratando de um filme, que encontrou neste final um quase equilíbrio entre a satisfação do expectador e o comprometimento com a ética. Digo isso porque, mesmo havendo um final favorável à protagonista, não se pode falar ainda em “final feliz”, visto sabermos que, a despeito de qualquer coisa, Erica seguirá carregando as marcas da violência sofrida e da perda do noivo, tal como ela própria avisa no encerramento da trama. “Não há como voltar a ser aquela outra pessoa. Voltar àquele outro lugar. Essa coisa, essa pessoa estranha... é só o que você é agora.”

É isso. Apesar de algumas falhas, Valente é um excelente filme, principalmente por não se embasar tão somente no objetivo de levar o telespectador à saciedade, enfatizando, também, questões éticas inquietantes. Bem diferente do violento e raso Doce Vingança (2010) – regravação de A vingança de Jennifer (1978) chegado às telas três anos após Valente –, a trama de Jordan é uma estória que faz pensar.


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Publicado originalmente em CinePlayers.


domingo, 27 de janeiro de 2013

De pernas pro ar 2


Título original: De Pernas Pro Ar 2
Ano: 2012
Direção: Roberto Santucci
Roteiro: Paulo Cursino, Ingrid Guimarães, Marcelo Saback
Gênero: Comédia
Origem: Brasil
Duração: 95 minutos


O prazer não tem limites! E Alice Segretto (Ingrid Guimarães), vai levar isso ao pé da letra e expandir os negócios da “Sex Delícia” à capital cultural do mundo: Nova Iorque. E aí está boa parte da graça de De pernas pro ar 2. Quem, ao assistir o trailer, previu muita risada diante das trapalhadas de Alice em Nova Iorque, não vai se decepcionar. Aliás, uma das muitas verdades que têm sido ditas sobre o longa é o fato de ser ele um dos raros casos em que a sequência supera o original. É isso mesmo. Esta sequência do filme de Roberto Santucci – que conta, inclusive, com a própria Ingrid Guimarães na produção do roteiro – potencializa os acertos do anterior, cria novas piadas e comete novos erros, totalmente perdoáveis a meu ver. Vamos a tudo isso.

Antes de chegar à América, Alice vai passar um mau bocado, desmaiando sobre um bolo bem peculiar no lançamento da centésima loja da “Sex Delícia”; sendo colocada no chinelo pela linda, bem-sucedida e faz-tudo Vitória (Christine Fernandes) e cometendo loucuras em uma reunião com investidores após ingerir seu calmante com champanhe. E como se não bastasse, a pobre ainda vai parar em um spa dirigido pela severa Regina (Alice Borges). Nada disso, porém, é suficiente para parar Alice, que, para escapar do spa e continuar tocando o seu voluptuoso negócio, recorre aos serviços do hacker e contrabandista de eletrônicos Leozinho (Wagner Santisteban), além de proporcionar um orgasmo à “sargentona” Regina. No spa, aliás, todas essas figuras – com destaque para o Mano Love (Luiz Miranda), antipático, mas cômico – são hilárias. Tanto quanto o orgasmo alcançado por Alice, ao som de Byafra, por via do estranho objeto de oito tentáculos – ou testicles (trocadilho infame, porém engraçadíssimo, utilizado no filme) – que viria a ser a chave para o sucesso da “Sex Delícia” em Nova Iorque.

Contudo, devem ser considerados pontos que eu nem chamaria de falhas, visto que surtem efeito (o riso) e não prejudicam o filme. Um deles é aquela espécie de reformulação da cena de Alice à mercê de um “brinquedinho”, desta vez não controlado pelas ondas sonoras durante o jogo de futebol do filho (João Fernandes, no primeiro filme), mas pelo controle remoto, manuseado, involuntariamente, por João (Bruno Garcia). Outro ponto é a previsível cena do restaurante, exibida à exaustão em produções norte-americanas e até em novelas do SBT. Me recordo de haver visto algo do tipo, pela primeira vez, em Uma babá quase perfeita (1993). Conforme já dito, porém, são pontos que, embora representem um pequeno pecado em termos de criatividade, surtem o efeito esperado e estão bem onde estão.

Ademais, quaisquer falhas são compensadas pelo brilhante elenco. Ingrid Guimarães continua a nos surpreender com o seu talento. Cristina Pereira ganha maior destaque e a sua personagem Rosa mostra que não está ali a passeio, tal como a perfeita Denise Weinberg, para quem parece não haver tempo ruim. Maria Paula, muito criticada desde o primeiro filme (críticas com um quê de exagero, a meu ver), continua defendendo bem a sua Marcela. E até o Paulinho (Eduardo Melo, nesta sequência) se sai bem em suas raras falas. E, havendo mencionado a cena do restaurante no parágrafo anterior, não se pode desconsiderar a rápida, porém intensa, participação de Rodrigo Sant’Anna, que, em sua última cena, até utiliza um dos bordões de sua personagem Valéria Vásquez. A referência a bordões do pretenso humorístico Zorra Total, aliás, não é uma novidade em filmes nacionais. A diferença é que, enquanto soou como uma patética estratégia em Xuxa Gêmeas, ficou funcional e dentro de contexto em De pernas pro ar 2. Quanto a Ricardo (Eriberto Leão) – que também se sai bem como possível cara-metade de Alice –, fico pensativo quanto ao beijo que apenas quase rolou entre ele e a protagonista, mas que rolou pra valer entre João e a “Mulher Maravilha”. Não se trata de uma apologia à traição, mas fico me questionando sobre esta mulher moderna, empreendedora e independente que, contraditoriamente, não se atreve nem a um beijinho com uma bela figura como Ricardo (Eriberto Leão) à quilômetros de distancia de sua cidade e de sua família. Machismo enrustido em um filme tão libertário ou estratégia do diretor para mostrar que Alice, apesar de sua compulsão pelo trabalho, é fiel à sua família? Vai saber...

Aliás, no tocante ao mencionado aspecto libertário do longa, isso, a meu ver, lhe rende muitos pontos. De pernas pro ar 2 segue provocando o riso sem precisar apelar para o palavreado chulo ou fazer piadas sexistas. O sexo ali é para todos, sem que isso tenha aquele famigerado arzinho de escárnio.

E falando em mulher moderna, merece destaque a criança que interpreta Alice na infância, relatando, para uma câmera, os sonhos que, de um jeito ou de outro – embora de uma maneira bastante torta – se realizam na vida adulta da personagem. Neste ponto, vale fazer uma analogia entre esta Alice, obstinada na busca pela concretização de um sonho – única e exclusivamente para fins de realização pessoal – e aquela outra Alice, personagem de Lewis Carroll. É óbvio que são estórias totalmente distintas, mas ambas estão envoltas em sonhos e fantasias, e são justamente essas fantasias (num sentido malicioso, no caso de De pernas pro ar 2) que as conduzem ao amadurecimento. Aliás, em ambas as estórias, um coelho é o grande responsável por tudo... Em se tratando de filmes e, principalmente, obras literárias, nomes nem sempre são casuais. A personagem de Christine Fernandes, por exemplo, não se chama Vitória devido a uma escolha arbitrária, mas, sim, para reforçar para o telespectador a representação que aquela mulher tem para Alice. Ou seja: a mulher vitoriosa por dar conta do recado em todos os âmbitos de sua vida.

E foram justamente os sonhos de menina da protagonista os responsáveis por uma rápida solução para o final do filme. Uma solução que, na verdade, deixa muita coisa mal resolvida, vista a lógica de que Alice não vai mudar, continuando isso a ser prejudicial a si mesma, ao seu casamento e, em especial, ao seu filho. Por outro lado, não sei se esse tipo de exigência cabe a uma comédia. E, além disso, esse desfecho meio vago vem a ser positivo se for sinal de uma possível continuação. Então, enquanto o terceiro filme não vem, vamos ao cinema rir a valer com as brejeirices da protagonista e dos que a acompanham, e, se tivermos que tirar uma lição do filme, que seja a de que o bom é que vivamos a nossa vida de pernas pro ar...

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Publicado originalmente em CinePlayers.