Mostrando postagens com marcador Autoconhecimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Autoconhecimento. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Trem de Maio


Eram 22h03 quando consultei o relógio. Na companhia de um querido amigo, eu voltava de metrô para casa depois de mais uma incursão pela Bienal Mineira do Livro. Falávamos sobre a necessidade de dizer “sim” à vida, encontrando um ponto pacífico entre a manutenção dos vínculos que nos são caros e o cultivo de nossa introspecção, privacidade e solitude.

Um repentino silêncio se havia estabelecido quando ele adentrou o vagão com a sua bicicleta, que, de costas para nós, acomodava contra a parede do trem. Trajava uma camiseta simples, bermuda e boné, sendo, portanto, um sujeito de uma simplicidade a despeito da qual fui imediatamente tomado de curiosidade a seu respeito.

Foi o gesto seguinte, porém, que mais me impactou: sem cerimônia, ele se sentou no chão, como quem já não tem pressa nem medo do olhar alheio, sabendo que o mundo é seu, sem script rígido a seguir. Havia leveza ali. Um tipo raro de liberdade que, de tão serena, quase me constrangeu.

Era só um rapaz com uma bicicleta. Mas naquele instante, ele parecia conter tudo o que me falta: espontaneidade, presença, um jeito de viver livre de amarras imaginárias.

Fiquei ali, dividido entre a admiração e a melancolia, dada a consciência do quanto engomo minha própria vida, privando-me dessa liberdade. Não a liberdade épica, grandiosa, mas a liberdade miúda — de pedalar à noite, voltar quando der vontade, sentar no chão do metrô se assim quiser.

Pouco mais que uma hora depois, já no terminal de ônibus – pois muita baldeação é necessária entre as regiões nordeste e sudoeste de BH – vi outro rapaz. Sentado na plataforma, bem onde os ônibus passam, ele não se moveu nem quando da aproximação do veículo – que, aliás, precisou frear a centímetros dos seus pés, como se o moço demarcasse o ponto exato em que o ônibus deveria parar.

Tal imagem também me atravessou, criando um inevitável contraste com a cena anterior. Enquanto o rapaz da bicicleta me despertara admiração e desejo de liberdade, aquele na plataforma me alertou quanto às possíveis consequências da irresponsabilidade. O primeiro me inspirou pela leveza; o segundo, me assustou pela falta de zelo consigo mesmo. Um sentou-se no chão como quem confia na vida; o outro, como quem a desafia sem medida.

Percebi, então, que, antes de romantizar qualquer gesto, vale reconhecer a linha tênue entre liberdade e descuido, sendo a consciência a divisa entre esses dois extremos.

Talvez seja isso que eu busque: um despojamento lúcido. Uma entrega que não seja imprudente, mas libertadora. E que comece, quem sabe, com um simples “sim”, ou com o gesto inesperado de sentar no chão e — entre o silêncio do vagão e o ronco ritmado dos trilhos — me perceber inteiro e cheio de vontade de viver.


segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

A verdadeira religião

 

Eu não sei. É isso mesmo que você leu. “Não sei” é a melhor e mais sensata resposta para a pergunta que subjaz ao título deste artigo. E eu peço que, por favor, não acredite em uma resposta contrária, a não ser que ela ressoe na parte mais íntima dentro de você. E é justamente a partir disso que nos cabe tecer uma longa e sincera discussão.

Ok, entendo que você deve estar se perguntando a que se propõe um artigo sobre “a verdadeira religião” que já de início afirma não saber dizê-la. E tal questionamento, por mais compreensível que seja, me leva a percepção de que você está, muito provavelmente, a cometer o equívoco que por vezes eu já cometi e ainda cometo na busca da Verdade, isto é, do verdadeiro caminho para Deus. A propósito, afirmar que se trata de um equívoco que eu “ainda cometo” é deveras relevante aqui, vez que deixa bem claro que este que vos escreve não é um ser evoluído que cá está para lhe dar direcionamento. Não, não... sou apenas alguém que segue na busca, obstinado, encontrando uma resposta aqui, uma luz ali, mas sempre buscando, tal como você.

Mas que equívoco é esse ao qual me referi? Nada menos que a busca de algo espiritual por uma via intelectual. E aqui é importante que não se faça confusão:  entenda que nada há de errado no estudo, na leitura de obras com temática espiritualista, religiosa e afins. Até porque se temos um cérebro, se somos dotados de intelecto, é muito improvável que tal capacidade nos tenha sido dada à toa ou que não a possamos utilizar para fins espirituais. Então, sim, o estudo é bem-vindo; a leitura é, sim, um excelente instrumento na busca pela Verdade, e você não deve nunca deixar de buscar conhecimento.

O problema se dá é quando sobrepomos o intelecto a todos os outros meios dos quais a Inteligência Universal se utiliza para nos dar direcionamento. E é aí que a gente corre o risco de se converter naquelas figuras excêntricas que surgem na internet falando sobre temas de extrema complexidade – os chakras, as leis herméticas, a alquimia etc. e tal – mas parecem pouco espirituais de fato. Sobrepor o intelecto a todo o resto é tornar as coisas de Deus algo puramente acadêmico, no que vale lembrar que que por vezes foram grandes intelectuais que cometeram as maiores atrocidades “em nome de Deus”, Mas um Deus ao qual só se conhecia de forma intelectual e egoica.

Ademais, buscar o conhecimento de algo tão complexo como “o verdadeiro caminho para Deus” por via do intelecto já é equivocado por si só. Afinal, será mesmo que existe alguma doutrina que careça de bons e bem fundamentados argumentos na defesa de si? Imagine, por exemplo, se fosse promovido um grande evento como nunca visto na humanidade. Um evento no qual se reunissem os grandes nomes de cada doutrina: o Papa, o nome mais expoente do espiritismo, a figura mais importante do budismo, a maior autoridade no protestantismo etc. Olha, quase posso garantir que ninguém sairia vencedor ou fracassado desse debate, e muito provavelmente todos, em algum momento, cairiam naquela famigerada ideia das “verdades de fé”, isto é, aquilo em que se acredita não com base em argumentos bem embasados, mas por meio da tradição, da crença e correlatos (e não há nenhum problema nisso).

Certo. Então, se concordamos que um buscador sincero e dedicado ao estudo encontraria bom fundamento em toda e qualquer religião, como conhecer o caminho correto, como encontrar a Verdade se não por meio do intelecto. E é neste ponto que eu, que adoro listas, vou deixar algumas dicas para você com base na minha própria experiência. Vamos nessa?

1 – Colocando o ego de lado

Há uma frase bonita que diz que “aquilo que você busca também está buscando por você. Ok, eu concordo, mas também concordo que aquilo que você está buscando da maneira errada e com as intenções inapropriadas está se afastando de você. E aqui cabe uma pergunta: a sua busca por respostas tem Deus como objetivo final ou tem apenas você, com a sua necessidade de desvendar segredos do Universo só para se sentir melhor consigo e superior aos outros, ou para gozar de mais conforto neste mundo material? Não estaríamos nós apenas substituindo a desesperada busca por títulos acadêmicos (também muito bem-vindos) pela busca de experiências metafísicas e poderes sobrenaturais que nos elevem acima dos demais, colocando-nos em evidência entre esses meros mortais?

Colocar o ego de lado (metaforicamente falando, é claro, pois isso soaria absurdo para qualquer profissional sério da psicologia ou da psicanálise) e estabelecendo Deus como um fim me parece um excelente exercício, por mais árduo que seja (e, acredite, é beeem árduo). O livro Imitação de Cristo, escrito por Tomás de Kempis, é um livro extremamente querido entre os cristãos católicos e um excelente aliado nesse processo de abandonar-se em Deus, esquecendo-se de si e dando espaço para que a Verdade ocupe o palco de nossa mera existência. Fica a dica.

2 – Perguntando a quem tem a resposta

Este tópico é tão óbvio, mas tão óbvio que eu não vejo necessidade de me demorar muito nele. Pense bem: na escola, quando você tem dúvida, você pergunta ao professor. Em casa, quando você ainda é criança, você recorre aos seus pais quando precisa de permissão para algo ou de algum esclarecimento ou ajuda. Então me responde, criatura: por que cargas d’água, em se tratando da natureza de Deus, você recorre ao pastor, ao padre, ao pai-de-santo, ao terapeuta e até ao presidente da república em lugar de recorrer... a Deus?

Nada contra essas figuras que eu mencionei, certo? A questão aqui é que, se você quer uma resposta certeira, um direcionamento verdadeiro, não faz sentido recorrer a alguém que – na melhor das intenções – vai lhe oferecer uma resposta obviamente enviesada! Talvez você não acredite que pode ter esse diálogo direto com Deus; talvez você não se considere digno(a) ou – pior! – talvez acredite que não deva se dirigir a Ele questionando-Lhe a própria natureza. Mas eu vou lhe dizer uma coisa: você pode, sim! Pode e deve.

Deus muito se agrada do filho sincero que recorre a Ele e fala com sinceridade. E digo mais: as minhas orações mais benéficas foram aquelas em que eu “quebrei o pau”. Claro, você não precisa e nem deve faltar com respeito com quem lhe concedeu a vida, mas não tema ter uma conversa espontânea, de filho(a) para Pai, de criatura para Criador.

E, claro, fique atento(a), pois a resposta virá. Seja por meio de uma coincidência bizarra, de uma música, uma mensagem, um sonho... Não sei como, mas sei que ela virá, a um só tempo clara e sutil. Então, por favor, não se distraia.

3 – Lembrando que uma coisa não exclui a outra

Veja bem: eu já passei por várias religiões. Segui a fundo apenas o catolicismo, mas já transitei com certa dedicação pelo espiritismo e o universalismo, bem como já frequentei a umbanda, o budismo, o hinduísmo etc. Dadas essas minhas incursões por diferentes filosofias, se tem uma coisa que me incomoda é escutar alguns líderes religiosos afirmarem que “a filosofia X é a verdadeira” ou “a igreja Y é a igreja de Cristo”. Algumas denominações religiosas, mais radicais, até mesmo acrescentam que tudo o que é contrário a elas é obra do inimigo, “o pai da mentira”.

Tal discurso me incomoda porque eu estou muito certo de haver encontrado Deus em cada uma dessas experiências, e sei que você, que também já esteve em vários lugares na sua jornada rumo ao sagrado, também já O encontrou em cada um deles. Ademais – e espero não estar sendo blasfemo ao dizê-lo – me parece muito sacana a imagem de um Deus que, ao mirar uma casa espírita, por exemplo, afirme algo como: “Tem uma galera ali me buscando, falando de mim e tentando se pautar em meus ensinamentos, mas esse povo é espírita, ali eu não entro”. A propósito, se bem me lembro, é justamente o contrário disso que o Divino Mestre nos diz em Mateus 18,19-20: “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estou no meio deles”.

É insano acreditar que um Deus que é todo amor e misericórdia faça acepção de pessoas com base em suas doutrinas em vez de considerar a busca sincera de cada um. O Deus verdadeiro é um Deus de amor, e não de arrogância; não um Deus que olha a religião e “não se junta com essa gentalha” (e eu nunca pensei que recorreria ao Chaves para refletir sobre o Criador...).

E é aqui que pode vir a pergunta: “Ah! Então quer dizer que eu posso frequentar qualquer religião?!”. E a minha resposta é SIM!, você pode, maaas... – e eu preciso que você preste muita atenção ao que direi em seguida – o fato de não haver a religião verdadeira não significa que Deus não o(a) queira em uma em particular.

É isso mesmo que você leu. Pois acima da diversidade religiosa, existe a vontade do Criador. E, nessa perspectiva, o discurso tão em voga de que “Jesus era contra as religiões, então vamos buscar Deus apenas dentro de nós” pode ser tão prejudicial quanto a afirmação de que “a minha doutrina é a correta”. As religiões, doutrinas e filosofias existem no mundo, de modo que, se nós concordamos que Deus se faz presente em cada uma delas, é natural que concordemos também que Ele precisa de pessoas específicas exercendo um papel em cada uma delas.

É por isso que existe gente desenvolvendo um trabalho maravilhoso na doutrina de Kardec, é por isso que existem pessoas com vibração tão elevada na umbanda, é por isso que existe gente cheia do Espírito Santo na igreja evangélica... A grande maioria das pessoas ainda sente que precisa e recorre às religiões e, portanto, Deus lá sempre estará, sempre designando pessoas para determinadas tarefas. Beleza, neste ponto você vai me dizer algo como: “Aihn, mas tem um monte de gente enganando os outros dentro das igrejas e blá blá blá”. Pois então... eu disse que Deus designa pessoas para certas tarefas e não que executa Ele mesmo as tarefas. Nós, em nossa inconstância, estamos invariavelmente nos afastando de Deus, sendo, portanto, suscetíveis ao erro... E, sim, isso dá margem para uma outra conversa bem complexa que nós não teremos aqui, tá bom?

4 – Vivendo a vida

Certo, vimos que as muitas abordagens oferecem a possibilidade de conexão com o sagrado, estando aí a importância e valor de todas elas. A nossa falha, porém, pode estar também nessa arraigada ideia de que demandamos um momento, uma reunião e/ou um ritual específico para tal conexão. Convém repetir que a adesão a uma filosofia ou algo do tipo é, sim, de imenso valor, mas a gente precisa cuidar para que aquele momento da missa, da gira, do passe ou do louvor não seja o nosso ÚNICO momento dedicado a Deus ao longo da semana.

E não, eu não estou dizendo que você precisa reservar mais momentos para Deus ou que precisa orar três vezes ao dia em vez de apenas uma etc. Eu estou dizendo que, se você coloca Deus como um fim em si, cada movimento, cada ação sua deve ser por e para Ele.

Buscar desesperadamente uma doutrina na qual se encaixar pode ser um sinal de que você só se acredita em contato com Ele dentro de um conjunto de dogmas, quando, na verdade, Deus é tudo o que há. Nem que você quisesse, você não estaria fora ou longe Dele. Em meio a essa luta cotidiana que nos consome o tempo, a energia e a atenção, ter um momento dedicado exclusivamente a Ele é super importante. Viver a vida, porém – sem se cobrar, sem se julgar em débito porque faltou à missa na semana passada – pode lhe proporcionar insights maravilhosos.

Experiências como o satsang (“encontro com a Verdade”, em sânscrito), mindfulness (atenção plena) e a vertente filosófica voltada para a não-dualidade exploram muito e de forma bastante experiencial essa ideia de que Deus já é aqui e agora, e jamais poderia deixar de ser. Não permita que a busca desesperada por uma Verdade intangível ao intelecto o distraia, desviando a sua atenção de uma Verdade que já está dada, de um Deus que jamais lhe ocultou a Sua face.

Esteja inteiro(a) no que faz. Faça o seu trabalho não apenas pelo sustento, mas também na certeza de que Deus o(a) designou para fazê-lo em prol de alguém que talvez você nem conheça e nunca venha a conhecer, mas que precisa do seu trabalho. Seja gentil e abençoe a todos. Diante de cada situação, se pergunte como agiria Jesus (ou Buda ou Sócrates ou quem quer que seja) em seu lugar. Dialogue com o próximo como quem dialoga com uma manifestação do Divino (aliás, SURPRESA!, é exatamente isso que o próximo é). Sacralize a tudo e a todos, pois, como bem diz o título de um livro do Pe. Fábio de Melo, sagrado é viver.

5 – Entendendo que Deus é grande

Você já deve ter visto aquela imagem tão singela, mas tão profunda que apresenta dois peixes dentro do mar, um deles livro e outro no interior de um aquário. No aquário há a inscrição “com religião”, ao passo que no peixe que nada livremente há a inscrição “com Deus”.

Na minha interpretação, essa ilustração não desrespeita e nem descredibiliza a religião, mas apenas a define como algo que capta um aspecto específico de Deus, o que a torna limitada. O peixe que nada livremente parece menos limitado, pois, ao se ver livre de uma doutrina em especial (o aquário), tem o privilégio de navegar por todas as águas, estabelecendo contato com as diversas facetas do Divino. Mas não se engane... pois o oceano, por maior que seja, também tem os seus limites, e ninguém pode conhecer ou captar o Todo...

E o que eu quero dizer com isso? Bom, estou dizendo que, aderindo ou não a uma religião, a sua compreensão do Criador será limitada, pois Ele é incognoscível, inefável. Pôxa, Ele é Deus uai (e me perdoe pelo mineirês). Muito me agrada uma busca livre da religião, entrar em contato com outras maneiras de crer, ritualizar e professar a própria fé; conhecer outros aspectos do Altíssimo e me dar conta do quão pouco ainda sei sobre Ele. Todavia, também compreendo que, ao fazer tal escolha, perco a oportunidade de vivência coletiva da espiritualidade, da identidade, sensação de pertencimento e propósito proporcionadas pela forma como é estruturada uma doutrina. E bem sei das tantas vezes em que, ávido por respostas, me confundi, me perdi e me coloquei em experiências que não eram pra mim...

Perceba, portanto, que uma coisa não é melhor que a outra. O que existem são abordagens distintas e, claro, as nossas escolhas, que sempre trazem consigo vantagens e desvantagens. A arrogância de quem crê haver compreendido o Criador – o que é mais comum dentro das religiões, mas também presente entre os espiritualistas – nos afasta Dele, ao passo que o humilde reconhecimento de Sua grandeza e de nossa pequenez e ignorância tende a nos propiciar um contato mais íntimo com Ele.

Conclusão

Lembro de, em criança, ir à missa com minha mãe, quando era sempre cantada uma música assim: “Senhor, quem entrará no santuário pra te louvar? / Quem tem as mãos limpas e o coração puro / Quem não é vaidoso e sabe amar”. Só quando adulto descobri que essa música tem inspiração no Salmo 24.

Perceba que o salmista afirma que só entrará no santuário – isto é, só estará na presença de Deus – quem for honesto, bom, humilde e amoroso. Em nenhum momento ele diz algo como “quem for evangélico” ou “quem for maçom”. Mas ele também não disse “só entrará quem zombar, criticar e fugir das religiões”. Tanto o salmo como diversos outros trechos bíblicos revelam que Deus espera de nós comportamentos, atitudes e ações, e não adesão ou repúdio a esta ou àquela doutrina.

Afinal, estar preso a um aquário, sem a possibilidade de experienciar a imensidão do oceano é ruim. Igualmente ruim, porém, é ficar à mercê dos perigos das águas, sem o devido amparo e instrução, quando do gozo de nossa liberdade... O bom disso tudo é que Deus, em Sua infinita misericórdia, nos dá a possibilidade de escolha, expressa na palavra livre-arbítrio.

Portanto, segue buscando, mas não permita que o seu coração se aflija por questões que nunca foram prioridade para Deus. Apenas seja sincero e persistente no desejo de seguí-Lo, de agir conforme a vontade Dele. Vontade essa que há de ser revelada no âmago de todo buscador sincero.

Eu espero que este artigo o tenha ajudado de alguma maneira, trazendo-lhe paz e clareza quanto aos seus próximos passos.


quarta-feira, 17 de maio de 2023

Cristo contra a LGBTfobia

De acordo com o livro do Gênesis, em diálogo com Noé, Deus estabeleceu o arco-íris como símbolo da eterna aliança entre Ele e o homem. Bilhões e bilhões de anos mais tarde, porém, as cores do arco-íris se tornariam, graças ao designer Gilbert Baker, símbolo da comunidade LGBTQIA+. À primeira vista, parece não haver nenhuma relação entre uma coisa e outra, né? A verdade, porém, é que tem tudo a ver.

Jesus, aquele a quem tantos de nós escolheram como Senhor e Mestre, é o exemplo máximo de combate à LGBTfobia. Com as suas incontáveis lições de amor, duras críticas à hipocrisia dos fariseus e convites ao autoconhecimento, Cristo se nos apresenta como a conexão entre esses dois sentidos atribuídos às cores do arco-íris em tempos tão distintos.

A máxima “ame ao próximo como a si mesmo”, afinal, nada mais é que uma forma de dizer “ame ao próximo e, para tanto, ame a si mesmo o bastante para não precisar descontar no outro as suas frustrações, medos e indecisões”. Com Jesus a gente aprende que o amor-próprio não dá lugar ao egoísmo, que nada mais revela senão uma autoapreciação que, por exacerbada que pareça, é demasiadamente frágil. É por isso que ora se diz que a polaridade do amor não é o ódio, mas sim o medo.

E foi ele, o medo, que pregou o nosso Mestre na cruz. O medo daqueles que, avessos a quaisquer mudanças na ordem das coisas, temiam aquele que ousava chamar a Deus de “Pai”, exaltar a humanidade dos desvalidos, adentrar a sinagoga e anunciar a Boa-Nova, dizendo: “As escrituras já se cumpriram”.

Que o Mestre Jesus, encarnação do mais puro amor, nos conduza para essa tão necessária jornada para dentro de nós, fortalecendo-nos o suficiente para que o outro, com as suas verdades e idiossincrasias, não represente para nós uma ameaça.

Que vejamos em todos a Face de Deus, sempre cientes de que o arco colorido que corta os céus contempla a todos; de Noé aos dias atuais, abraça a TODOS.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Sobre se jogar na vida



No último sábado, aventurando-me em mais uma trilha guiada, fui presenteado com as belas paisagens no trajeto entre a Serra da Moeda e Marinho da Serra – que fazia parte do percurso feito pelo ouro de Minas Gerais com destino aos portos do Rio de Janeiro. Todavia, se por um lado fui privilegiado pelas belezas do caminho – a envolvente neblina do início, o Pico do Itabirito, os pequenos vilarejos, a charmosa cachoeira etc. – por outro, tive a contemplação prejudicada pelas minhas próprias limitações.

Eis que na segunda metade da caminhada, quando já percorridos cerca de 4km, a minha limitação visual, unida à falta de equilíbrio e ao cansaço físico, se apresentou como um obstáculo real à atividade. Caí pela primeira vez, sem imaginar que as dificuldades ainda por vir me levariam a cair pela segunda, terceira etc.

O constrangimento era um fato, sobretudo quando, observando as minhas dificuldades, participantes com os quais eu ainda não caminhara me perguntaram se aquela era a minha primeira vez naquele tipo de atividade. Todavia, se havia o constrangimento, havia também a solidariedade e a gentileza típicas de quem costuma participar dessas atividades, sempre a me amortecerem as quedas (pois a caminhada é individual, mas nunca solitária...).

Se nas experiências anteriores eu chegara ao fim da caminhada feliz e orgulhoso pelas dificuldades transpostas, o prazer não se fazia presente desta vez, quando – assentado no restaurante da simpática Pousada Estalagem Moeda Real – eu me percebia certo de não mais querer passar por experiências como aquela.

Não obstante, havia também algumas certezas e aprendizados que nem mesmo o meu cansaço, vergonha e joelho ralado podiam abafar, quase como uma vitória subjacente a um aparente fracasso. A saber: a cada queda, eu me levantara imediatamente (ou quase); não me faltara ajuda em nenhuma das dificuldades (e aqui destaco o nosso guia Marcelo, pessoa de um raro senso de humanidade, e o Eurico, participante que, sem querer, mas com imensa boa-vontade, acabou por se tornar meu guia em alguns momentos).

E, acima de tudo, a conclusão que me veio – à custa de muito esforço, mas como que um profundo suspiro de liberdade – foi a de que não se trata de vencer ou fracassar, de se sair bem ou mal, mas, sim, de viver as experiências. É na experiência que a gente se percebe, detectando as nossas forças e fraquezas e, por conseguinte, realizando ajustes, decidindo-se quanto ao que evitar ou repetir.

Mais do que malogros e êxitos, a experiência nos proporciona o autoconhecimento, acompanhado daquela doce sensação de que, a despeito dos resultados, nós encaramos mais um desafio. Perceber-se, porém, só vem de uma disposição e abertura para a vida, com as dádivas e reveses que lhes são próprios.

Eu desejo que você se jogue na vida, e que, em cada mergulho, conheça um pouco mais deste que será o único a acompanha-lo até o final dessa longa e imprevisível caminhada: você mesmo.


sexta-feira, 2 de julho de 2021

Os iluminados da Zona Sul

Como vivem? De que se alimentam? Como se reproduzem?

Bom, as variações são muitas, na verdade, mas, em sua expressão mais estereotipada, eles são tipos curiosos com uma serenidade falsamente afetada, similar à Monja Coen no início da fama (eu gosto muito da Monja Coen, ok?). A voz de veludo é, aliás, um recurso necessário ao convencimento (dos outros e deles próprios) de que transcenderam todas as vicissitudes humanas.

Mas cuidado! Quando confrontados com questões da vida real, é comum que eles sejam dominados pelo instinto animal que habita todos nós, extravasando toda a sua ira por meio da crueldade, dos insultos e de toda a sorte de agressões.

Em razão de uma dieta extremamente restritiva, dado o seu rígido estilo de vida vegano, alguns deles têm uma aparência subnutrida, o que costuma fazer parte do pacote que lhes permite jogar na cara da sociedade o elevado patamar no qual se encontram na escala evolutiva.

Outros, porém, preferem sobrecarregar as suas redes sociais com fotografias ostentando asanas (posturas de yoga) com uma perícia impecável, ou cliques nos quais eles se exibem em posição de lótus (a despeito da baita incoerência que há no fato de querer se exibir em um momento teoricamente voltado à introspecção e à desconexão com o mundo externo).

São brancos em sua maioria, e os “núcleos ascensionais” que costumam frequentar se localizam na zona sul em sua quase totalidade. Até porque não é qualquer um que dispõe de 300 ou 400 reais para investir nas suas dispendiosas terapias. Portanto, lamento informar, mas se você vive na periferia e “vende o almoço para comprar a janta”, não há muita chance pra você, pois a evolução espiritual está incontestavelmente condicionada ao seu poder aquisitivo (sim, contém ironia...).

Existe, aliás, uma incoerência neles (a incoerência é, por sinal, a sua marca registrada). É quase consensual a sua admiração por pessoas como Buda, Jesus e afins. Os Iluminados da Zona Sul, porém, não parecem nada propensos a adotar o estilo de vida abnegado e miserável escolhido por esses mestres que eles tanto dizem admirar.

Alguns deles, ditos “terapeutas”, obtêm um rendimento superior a renda média da população, e surfam no vazio existencial de uma classe média perdida, imediatista e por vezes desacreditada nos métodos cartesianos.

É comum não gostarem de pobre, o que está sutilmente implícito em um discurso aparentemente inofensivo. Falam de autorresponsabilidade (conceito muito válido e bem-vindo, aliás) como apologia à meritocracia e negação às estruturas sociais segregacionistas dentro das quais eles são privilegiados; dizem que “a energia não mente” como forma de justificar, de uma maneira mui espiritualizada, os próprios preconceitos; defendem que “somos todos um”, mas “confundem” amor-próprio com egoísmo e individualismo quando isso lhes convém.

A sua filosofia (de fachada) é embasada em frases soltas de Chico Xavier, Sidarta Gautama, Gibran e afins, sempre defendendo o amor como a solução para o mundo (como de fato é). Acontece, porém, de você não ser acolhido com toda essa amorosidade ao recorrer a eles fora do contexto “terapêutico”. O que se justifica pelo fato de que a sua dignidade só lhes é notada enquanto você lhes estiver oferecendo algum lucro.

Eles alegam que o Reiki pode ser eficaz na diminuição do estresse e da ansiedade; defendem que a terapia tântrica, o ThetaHealing e o diabo a quatro podem amenizar quadros de depressão e oferecem, por meio das Constelações Familiares, respostas para todos os problemas existentes em sua vida! Curiosamente, porém, ignoram condenação por fraude ou mesmo discursos homofóbicos e machistas que envolvem essas práticas.

Nada é mais surpreendente e complexo que os Iluminados da Zona Sul, os quais, creio, só perdem para os militantes que clamam por liberdade e empatia, mas se convertem no demônio quando confrontados com opiniões divergentes das deles.

Eu fico me perguntando qual será o destino desses nobres conquistadores do nirvana. E se de repente a humanidade fosse visitada pelo bom senso, esvaziando os seus sofisticados espaços terapêuticos? Por quanto tempo duraria o seu “estado alterado de consciência”?

Bom, eu não sei. Tudo o que sei é que entre esses tantos ególatras travestidos de espiritualistas, há pessoas de fato comprometidas com o próprio aprimoramento, conscientes do próximo e empenhadas na elevação da humanidade a um novo patamar de consciência. Sim, tais pessoas existem, mas é premente ressaltar que, infelizmente, elas não são uma maioria, mas, sim, uma exceção. Em vez de procura-las, porém, eu sugiro algo melhor: que você procure se tornar uma delas.

P.S.: enquanto eu preparava este artigo para postagem, vi-me dominado pelo intenso receio de que o mesmo causasse incômodo ou mesmo ofendesse a quem, definitivamente, não pertence ao grupo que eu pretendia apontar aqui. Por “apontar”, aliás, entende-se não um ataque desmotivado e meramente recreativo, mas, sim, por chamar a atenção para um problema real que tem causado danos à vida de pessoas.

Nesse sentido, ao reproduzir no texto um estereótipo extremado, o meu objetivo não passa por atacar pessoas, mas, sim, por trazer à tona uma questão social, a saber, a reprodução de preconceitos e práticas excludentes no contexto espiritualista.

Como esclarecido no parágrafo final, não há generalizações aqui, havendo, sim, a consciência de que, mesmo dentre aqueles que se enveredam pelos comportamentos aqui descritos, há os que o fazem sem intenção vilanesca, mas, sim, por falta de consciência social.

Este artigo, portanto, se configura como um convite à tal consciência, da qual nenhum espiritualista é privado. Muito pelo contrário, inclusive. Configura-se, também, como uma crítica à hipocrisia nossa de cada dia.

Enfim, dada a fragilidade que se faz presente em todos no momento atual, bem como o meu receio em soar ofensivo (ou ao menos gratuitamente ofensivo), se fez necessário este post scriptum, que, espero, se faça suficiente para a compreensão do que se pretendeu aqui.

Texto originalmente publicado em minha coluna no Eu Sem Fronteiras.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo...

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo...

Talvez eu sinta raiva por haver me desculpado quando eu não tinha culpa, por haver tentado me explicar quando o outro simplesmente não se importava ou por haver me humilhado, dando, assim, razão ao agressor.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver passado o maior pano para quem não se fez digno de tanto; por haver tratado como livro de cabeceira gente que, quando muito, me tinha como folheto descartável; por haver expressado profunda gratidão a quem, com ar de generosidade, fez o mínimo quando podia fazer tanto.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por me haver regozijado com migalhas; por havê-las tomado como banquete quando não estava em condições de discernir altruísmo de esmola ou falsa empatia.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver sido diplomático e não-violento quando devia ter tocado o foda-se; por haver ofertado a outra face quando o outro acreditava que “o mundo é dos espertos”; por haver me preocupado em ser bom quando o outro, ao desferir contra mim golpes em forma de palavras, se mostrava indigno de meu respeito e cordialidade.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver insistido na escuta negada; por haver me preocupado em acertar as coisas com quem há muito se afastara emocionalmente; por haver pagado pelo que eu tanto almejava que me fosse humanamente concedido.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por não haver sabido ou tido a coragem para dizer o que eu de fato desejava; por haver permitido ou mesmo colaborado para que regateassem o meu valor como ser humano; por haver aceitado uma entrega parcimoniosa e condicionada quando sabia que só uma entrega total, espontânea e desinteressada me traria verdadeiro alento.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver mendigado atenção quando sabia que o preço era alto; por haver me contentado com a humanidade distorcida como quem aceita a bebida que, em lugar de matar a sede, desidrata.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por também ter culpa; por haver me metido em determinadas situações ou, pior, por não haver saído delas quando era tempo, quando tudo apontava para um fim trágico.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver buscado respostas onde só encontrei mais perguntas; por haver me afastado de mim para buscar no outro a cura para os meus males.

Talvez eu tenha raiva por haver me colocado em contextos aos quais eu não pertencia, por haver erguido castelos sobre alicerces de areia, por haver me colocado nas mãos de gente que tão pouco pode fazer por si mesma.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por me haver guiado por expectativas alheias, por não haver corrido o risco de quebrar a cara em busca da concretização dos meus sonhos, por haver dito sim ou dito não quando queria dizer o contrário.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por não haver chegado “lá” aos 30; por não haver atendido, aos 33, aos quesitos necessários para ser digno do amor deste ou daquele; por não haver conquistado, aos 37, aquelas coisas que não me interessam, mas que caracterizam o estereótipo do vencedor; por ser medíocre ou, pior, por julgar medíocre aquilo que eu genuinamente sou...

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver perdido tempo em demasiado, por haver perdido vida...

É verdade... Talvez eu tenha raiva de mim mesmo, e, se assim é, essa raiva evidencia a necessidade de perdoar aos demais, mas aponta, antes de mais nada, para a urgência de perdoar a mim mesmo, de fazer as pazes com esse outro que me habita e me faz companhia...

Que você possa se curar de si; saber-se vítima, mas saber-se algoz; perdoar-se e perdoar a todos; olvidar o passado e seguir em frente.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

O gozo do envelhecer


Sobressaltado, praticamente saltei do sofá ao toque do interfone. 10h30. Os malditos cinco minutos! O plano era simples, mas infalível: havendo ido para a cama quase às três da manhã e cheio de compromissos para este dia, programei o despertador para as sete e deitei-me no sofá, certo de que a ausência de conforto me impulsionaria a não permanecer em repouso quando raiasse o dia. Ledo engano... Despertado pelo alarme do smartphone cuidadosamente colocado a uma distância que me obrigaria a me levantar, o que fiz foi confiar nos famigerados “cinco minutos” a mais que, depois de certa idade, se tornam a nossa perdição. “Só mais cinco minutos”. E esses viraram horas, que, por sua vez, alteraram todo o curso do dia.

É curioso como eu ainda idealizo em mim aquele Alex dos tempos de faculdade, que, diante da necessidade de conciliar trabalho e estudo, virava a noite diante do computador, saía às seis para uma jornada de oito horas para, em seguida, ir direto para a universidade por tanto tempo sonhada. Aquele Alex dava conta disso. Ficava sonolento, é verdade, mas dava conta do recado.

O Alex de agora, porém, a três primaveras dos quarenta anos, pode até varar madrugadas, mas a conta, fatalmente, vem durante o dia. O Alex de então, ainda não desapegado do jovem de outrora, ainda faz planos mirabolantes, matriculando-se em cursos e sobrecarregando a agenda de tarefas, ignorando, porém, que sua energia não mais suporta a sobrecarga de outros tempos. O Alex de então carece de pausa, de fins de semana com descanso e oito horas de sono diárias. O Alex de agora já começa a preferir a escada rolante aos degraus comuns; o Uber ao ônibus que não vai deixa-lo na porta; o prazer solitário ao sexo casual que, possivelmente, vai causar desgaste emocional.

Sinto que – apesar das linhas de expressão, dos cabelos rareados e dos pelos brancos na barba – ele ainda se cobra o desempenho dos vinte e poucos anos. Não tanto por resistência ao envelhecimento em si, mas por exigir de si a compensação dos anos perdidos para a depressão e escolhas equivocadas.

O Alex de então se cobra, aos 37 anos, uma realização que justifique todo o investimento feito pelos pais ao longo de anos. O Alex quase quarentão se cobra aquelas conquistas que a grande maioria dos amigos fez aos vinte. O Alex de então quer correr atrás do prejuízo.

O corpo, porém, é implacável em pedir pausa e readaptação. Não me refiro a abrir mão de sonhos e ambições, elementos tão necessários à manutenção da vida. Refiro-me a uma nova dinâmica, adequada às possibilidades de então. Quem sabe uma alimentação mais consciente? Atividades físicas regulares, talvez (com certeza)? Terapia? Cursos EAD em lugar dos presenciais? Uma nova organização em termos de horários e afins? Enfim, uma dinâmica que acompanhe o não raro intransitivo verbo envelhecer.

Isso me faz lembrar daquelas atrizes belíssimas que, outrora interpretando mocinhas nas telenovelas, com presença frequente nas tramas do horário nobre, ora são convidadas aos papeis de mães das mocinhas do momento. Vale o mesmo para os galãs de outrora, que agora são o pai, o médico da família, o padre etc. E, a despeito dos procedimentos estéticos possibilitados pelo trabalho, o próprio trabalho é infalível em fazê-los lembrar da inexorável passagem do tempo.

A vida faz assim com os artistas globais, mas o faz também com os anônimos, com os Alex do mundo afora, que não estão sob os holofotes, mas também experimentam o democrático processo de envelhecimento.

Mas se as tramas televisivas relegam a maturidade a um papel de coadjuvante, restringido a beleza da existência humana a uma única fase, não precisamos e nem devemos reproduzi-lo em nossa vida real.

E é nesse sentido que, no final das contas, esse Alex dos quase quarenta, em perfeita comunhão com o jovem idealista dos vinte, aprende a entender esse processo que é viver não como a corrida do ouro, mas como um constante convite a cuidar de si para, então, estar apto a cuidar dos demais.

Aos poucos, ele entende que desapegar-se da vitalidade e das possibilidades dos vinte tem a ver, sobretudo, com saber viver, que, por sua vez, equivale a saber morrer.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

A dona da vida real



Se, assim como eu, você adora um dramalhão mexicano, é provável que conheça essa clássica cena de Soy Tu Dueña (2010) – se não me engano, a quinta adaptação do texto venezuelano de 1972. A trama acompanha uma jovem da alta sociedade que, após ser abandonada no altar pelo homem que, como se não bastasse, a traia com a sua prima, decide se mudar para a fazenda que herdara dos pais.

Convertida em uma mulher fria e rancorosa, a jovem – Valentina Vilaça, na versão estrelada por Lucero – não confia mais nos homens, e esta cena antológica marca a sua decisão por assumir as rédeas de seu destino, trazendo à tona uma nova mulher.

Se isso, porém, não foi fácil para a personagem, imagine para nós, pessoas comuns, que não dispomos de uma fazenda para onde fugir e tampouco estamos podendo jogar um carro no abismo com um vestido de noiva dentro (sim, a personagem fez isso, e só para se livrar do vestido...).

Na vida real, a gente precisa lidar com a dor em meio a uma série de outros problemas, não raro compartilhando o mesmo ambiente com aquele que nos magoou. Na vida real, depois de ter o coração partido, não nos deparamos com um Fernando Colunga a nos oferecer todo o seu amor e disposto a curar as nossas feridas. Pelo contrário, é provável que permaneçamos por muito tempo sozinhos, isso quando não nos deparamos com um novo idiota. E, sim, a gente ainda está no lucro caso o nosso algoz haja sido o David Zepeda.

Na vida real, costuma doer por um longo tempo, tanto por ser difícil esquecer como pelo nosso apego ao que nos machuca, o que acaba por render um bocado de autossabotagem. É que na vida real, a gente quer dar a volta por cima, mas às vezes a gente tem recaídas, não raro nos enveredando por pequenas ações que colocam em risco semanas, meses ou até mesmo anos de trabalho de superação.

Esse texto, porém, não pretende lhe desanimar e tampouco criticar a teledramaturgia, da qual sou fervoroso fã. A propósito, que felicidade a nossa termos a ficção como uma possibilidade de catarse.

Este texto é, portanto, um convite a ter paciência consigo mesmo. Que o drama mexicano, o filme, o livro ou seja lá o que for lhe tragam alento enquanto você atravessa a dor, mas que você não se culpe ou se subestime se não tem a força da heroína da trama ou se sua história não transcorre como a dela.

E agradeça por isso, pois, se lhe falta a fazenda, a governanta amorosa e o mocinho bonito que lhe curará as feridas, é sinal de que você já tem em si tudo do que necessita para superar o que se passou. Trata-se daquela velha dor que muito nos honra, pois, se nos foi dada, é porque é do mesmo tamanho que nós.

Você não precisa se arriscar a pegar um resfriado indo para a chuva bradar que é “a dona do seu destino”. Basta que você reconheça que – em lugar de um capataz mau caráter e de uma prima que é melhor ter bem longe – os obstáculos ao final feliz de nossa trama são as nossas próprias debilidades, as nossas fragilidades, a nossa resistência diante do novo, o nosso medo do vazio.

E é aí que você percebe que, somente ao substituir o apego pela aceitação e comprometimento consigo mesma, é que você se torna a dona. A dona de sua vida real.


domingo, 14 de março de 2021

Somos todos tóxicos

A necessidade de expressar de maneira mais exata os nossos sentimentos, emoções, opiniões e afins é o que comumente nos leva ao uso de metáforas, que, em suma, são figuras de linguagem que produzem sentidos figurados por meio de comparações. É daí que surgem expressões como “saúde de ferro”, “fulano é um gato” e outras mais sutis como “fazer amor”, por exemplo.

O adjetivo “tóxico”, quando aplicado a uma pessoa, é também metafórico, vez que, na prática, uma substância venenosa, que produz efeitos nocivos ao organismo, pode ser tóxica, mas não uma pessoa.

Esse uso do termo é mais um modismo – como falar de empatia ou escrever “gratidão” nas redes sociais sem que haja real sentimento por trás disso –, e veio na mesma leva de expressões que, se por um lado revelam uma maior tomada de consciência, por outro evidenciam o quão profundamente fragilizada é a geração atual.

Vez que tudo é dual no mundo da matéria, o uso do adjetivo “tóxico” como qualificação de pessoas tem, naturalmente, o seu lado positivo. Perceba que, se partimos do princípio de que sofisticação de linguagem está diretamente ligada à sofisticação de pensamento, o uso de expressões como “tóxico”, “abusivo” e afins tem um potencial empoderador.

Por outro lado, porém, ao qualificar alguém como “tóxico” não raro estamos a nos colocar no supostamente cômodo e privilegiado lugar da vítima: se o outro é tóxico, logo, eu sou um poço de virtude, encarnação da própria empatia, “alecrim dourado que nasceu no campo...”

Entenda que em momento algum pretendo culpabilizar as reais vítimas de relacionamentos abusivos, manipulação e demais ardis narcisistas. O que faço aqui, e com a devida cautela, é um convite a investigar o uso metafórico do termo “tóxico”, o que é, de certa forma, também um convite ao autoconhecimento.

A quem estamos a chamar de tóxico? O abusador que intimida e nos faz reféns em relacionamentos doentios ou o sujeito que simplesmente não atendeu às nossas expectativas? Quantas vezes qualificamos o outro como tóxico após o fim de um relacionamento no qual nos mantivemos por pura imaturidade e/ou carência? Quantas vezes a vilanização do outro se nos apresenta como recurso para lidarmos com a nossa frustração.

Certa vez o Pe. Fábio de Melo disse: “Às vezes é preciso inventar um ódio, uma mágoa, um menosprezo, para que o amor não correspondido se torne suportável”.

Fato é que muitas vezes tomamos por tóxica a pessoa que não nos dá o que desejávamos ou que traz à tona questões sobre nós mesmos. Não raro a carência nos leva a ignorar, voluntariamente, os sinais que estavam ali desde o início, e, quando a coisa explode e a gente se magoa, o outro é tóxico, o outro é desumano e vil.

Em tempos em que existe todo um culto à vitimização travestido de empoderamento e todo um projeto segregacionista disfarçado de luta pela igualdade, é necessário que haja da parte de cada um muita sobriedade e disposição para encarar a si próprio.

Nós também somos tóxicos quando insistimos depois de um não. Nós também somos tóxicos quando nos agarramos a uma ilusão diante da evidente incompatibilidade de interesses. Nós também somos tóxicos quando nos impomos na vida de quem nem sequer faz parte da nossa. Nós, por muitas vezes, somos vítimas, mas não raro também somos algozes na vida de alguém.

Ademais, o relacionamento com pessoas tóxicas é, comumente, um convite a encarar as nossas próprias sombras projetadas no outro. E insistir na posição da vítima não raro equivale a negar os nossos defeitos. É doloroso ser a vítima, mas é preferível à dor de enxergarmos a nossa parte feia, é mais cômodo se comparado à necessidade de assumirmos a responsabilidade sobre nossa vida.

Como bem diz um texto atribuído a Shakespeare, “as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos”.

Textos sobre autoconhecimento costumam ser ilustrados com a bela e imponente imagem do Buda, o que não raro nos conduz a uma ideia equivocada de autoconhecimento como perfeição, iluminação ou coisa que o valha, mas é justamente o contrário! Autoconhecimento tem a ver com aceitar-se falível por condição e, a partir daí, se dedicar a cada aspecto que carece de cura.

Eu sei que às vezes as pessoas nos machucam. Sei que há os que praticam o mal e nos vitimam, nos magoam e nos destroem por dentro. Eu sei e lamento por isso. Mas eu sei também que pessoas e situações são por nós atraídas por afinidade, de modo que, quanto mais nos conhecermos, menos tóxicos serão os que estiverem à nossa volta.

E menos tóxicos seremos nós, sobretudo para nós mesmos.

quarta-feira, 10 de março de 2021

As sutilezas do autoamor

O amor-próprio é dado a sutilezas... Mais do que isso: o amor próprio é muito mais um processo do que um fim, algo pronto e acabado.

Naturalmente, “tem gente que se ama e tem gente que não se ama”, como bem disse alguém deveras mais sábio do que eu. Há, porém, aqueles cujo amor-próprio é apenas perpassado por um equívoco conceitual.

Há amor quando há empenho para sobreviver aos movimentos da própria mente; há amor quando há dedicação para acertar depois de um novo erro; há amor quando se procura ajuda e quando se luta para vencer os conflitos internos; há amor quando você não se deixa sucumbir.

Porque autoamor nada tem de perfeição, passando, sim, pelo constante ânimo de aperfeiçoamento. Trata-se de encarar as próprias debilidades, por vezes numerosas, e acolhê-las como um aspecto digno de cura, e não de retaliação.

Equiparar-se aos rostos sorridentes, corpos fitness e espíritos evoluídos do Instagram é a receita certa para o fracasso rumo ao amor-próprio.

É que amor-próprio é processo e não lugar aonde se possa chegar e relaxar. É meta diária ante os diferentes desafios da vida. É munição para agir contra as nossas próprias sombras, aquelas que hão de nos acompanhar ao longo de toda a vida na terra (e talvez depois dela...).

Até recentemente eu pensava que amar a mim mesmo tinha a ver com alcançar um estado no qual eu me perceberia totalmente blindado, imune às ofensas, indiferenças, preconceitos e afins. Até o dia em que compreendi que tal estado me retiraria da condição humana, e não há autoamor quando não há o reconhecimento e aceitação de si como “humano, demasiado humano”.

Pretender-se impassível aos reveses da existência humana é querer elevar-se à condição de anjo ou descer à condição de pedra. Enquanto humanos dotados de amor-próprio, tudo o que havemos de desejar é a sabedoria diante dos sobressaltos, a vontade cada vez mais firme rumo à realização dos sonhos, a autorresponsabilidade e o reconhecimento do próprio poder para tornar sublime a própria vida.

Você se ama quando se dá o direito ao descanso após um dia de trabalho. Você se ama quando faz pipoca e assiste a sua série predileta na Netflix. Você se ama quando sai para malhar porque sabe que precisa de cuidados. Você se ama quando aprende a dizer não, quando aprende a dizer sim e quando aprende a permanecer calado, pois autoamor também tem a ver com se poupar. Você se ama quando se permite ser amado, sem abusos, sem condições que o diminuam, pois o verdadeiro amor nos deve sempre elevar...!

Você se ama quando se sabe falível, quando aceita que é o que é e está tudo bem... E se dedica a trabalhar a partir daí.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Trilhas

“Sempre pode haver alguém que precise”. Foi a desculpa que inventei para mim mesmo quando, havendo arrumado a mochila, me apercebi do meu exagero ao preparar o lanche para a caminhada. Eu e o meu excesso de zelo... Vesti a calça que, ainda naquela manhã, estaria coberta de grama e o novo par de tênis que, em menos de uma hora, seria estreado numa areia branca e fofinha.

E lá estava eu, às oito em ponto, na portaria do Parque Estadual da Serra do Rola-Moça, cujo nome – se não procede a lenda da moça que se acidentou por ali enquanto cavalgava com o noivo – é um bocado machista para os padrões atuais.

Mas não era apenas eu: havia ainda os dois amigos queridos, os estranhos sorridentes – alguns dos quais habituados às caminhadas –, o cara que me chama a atenção, mas que dificilmente se envolveria comigo e, claro, o guia para o qual não há tempo ruim. Dentro em pouco eu me certificaria da veracidade daquela máxima segundo a qual “sozinhos nós vamos mais rápido, mas em grupo nós vamos mais longe”.

A gratidão veio na companhia do medo ao me deparar com as trilhas que eu não teria encarado se estivesse de sobreaviso. Gratidão porque, ao me poupar do desafio, eu não viveria a grata oportunidade de vencê-lo como eu venci.

E foi assim – entre aclives e declives, subidas e descidas íngremes interrompidas por raros momentos em trilha plana, arranhões e picadas de marimbondo – que vi na caminhada a metáfora perfeita para a condição humana, perpassada pelas quedas, subidas, descidas, solidão, ajuda, arranhões e, claro – como bem disse o amigo Anderson Martins – momentos de plenitude (ou “planitude”) que a gente sabe serem breves, mas que são necessários à tomada de fôlego.

O curioso é que, no meio de uma montanha, não importando o quase esgotamento de suas energias, você não tem a opção de voltar, tomar um atalho ou chamar um táxi aéreo que te tire dali e te deixe no seu destino poupando-lhe das dificuldades do caminho.

E a vida, assim como a caminhada ecológica, exige movimento, e a gente não tem outra alternativa senão continuar caminhando...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Quando chego aos 37...

Há algum tempo, a polêmica (e adorável) Antonia Fontenelle – naquele velho bate-bola comum ao encerramento das entrevistas – pediu ao igualmente polêmico (e divertidíssimo) Danilo Gentili que lhe contasse um medo.

Depois de refletir um pouco, chegando mesmo à quase conclusão de não ter nenhum medo, o comediante disse algo que muito me impactou.

“Eu tenho medo de uma coisa: tenho medo de ficar muito distante do que Deus quer que eu seja.”

Esta resposta me deixou um bocado pensativo, vez que encerra o que devia ser o único anseio do ser humano: cumprir com o propósito divino de sua alma.

Chegado aos 37 anos, eu olho para trás e vejo que já desejei muitas coisas, seja em termos materiais, afetivos, profissionais e afins. E, havendo tido a graça de conquistar alguns desses objetivos e falhado no alcance de muitos deles (o que, a propósito, também costuma ser uma graça...), desejo no dia de hoje o que gostaria de haver aprendido a desejar lá atrás, mais jovem, quando são gritantes os anseios do ego.

Estar cada vez mais próximo dos planos de Deus para mim.

O curioso é que, se há alguns anos desejar algo assim me parecesse falta de ambição ou até fanatismo religioso ou coisa que o valha, hoje entendo-o como o que de mais nobre e genuíno um homem pode querer para si.

Isso me faz lembrar de uma frase bíblica muito cantada nos meus tempos de católico: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça, e tudo mais vos será acrescentado”.

E eu acredito sinceramente que, a despeito de crença, isso tem a ver com termos como meta, como objetivo primeiro, nos tornarmos mais humanos, o que talvez seja o que de melhor podemos fazer por nós e por aqueles que nos cercam: sermos verdadeiramente humanos.

Resta-me, portanto, agradecer ao Criador pela oportunidade a mim concedida até aqui, pedindo a Ele, aos meus mestres amados e benfeitores espirituais sabedoria e inspiração para fazer o melhor dos anos que vêm pela frente.

Gratidão imensa...

domingo, 10 de janeiro de 2021

Quando você entender...

Um dia você vai entender... Não agora, não no seu tempo, mas no tempo certo, no tempo Daquele que tudo sabe, depois de aprendidas todas as lições.

Um dia você vai entender, e quando entender, verá que não foi vítima ou injustiçado, e compreenderá que as privações foram livramento, que as frustrações foram uma bênção e que os dissabores foram, em geral, necessários ao enfrentamento dos desafios que se seguiriam.

Quando você entender, verá que a vida, como um personal trainer, lhe destina os treinos necessários, mas adequados ao seu estágio atual. E, assim, cada sobressalto lhe vai ajudando a criar musculatura e resistência, permitindo ao Grande Instrutor aumentar o peso dos halteres. Não para te sacanear, mas para te fazer mais forte; para te proporcionar a consciência do poder que você tem.

Um dia você vai entender. Não no tempo da sua ansiedade, mas depois que cessarem todas as perguntas, depois de atravessadas as etapas de uma natureza que nunca dá saltos. E, quando entender, verá a inutilidade das mágoas, a pequenez dos preconceitos, o vazio das posses e excessos.

Um dia você vai entender. Ah, se vai...! E quando entender, verá que a vida, pedagógica como é, lhe destinou as maiores bênçãos justamente quando você se percebeu em pleno desamparo. Pois o maior presente que um pai pode dar a um filho é tomar uma certa distância, observando enquanto ele caminha com as próprias pernas, entre tropeços e avanços.

Um dia você vai entender. Eu sei que vai. Não sei se na semana próxima ou dentro de algumas décadas. Pouco importa... Importa é que, enquanto o entendimento não chega, você tome a vida como um pai que, ciente da dor que lhe impinge em razão de sua imatura consciência, lhe aplica as mais duras lições por saber o que é melhor pra você.

Respira... Não tenha pressa. Apenas dá o máximo de si em cada momento, perdoando-se naqueles dias em que sair da cama é difícil demais.

Pois um dia você vai entender, e quando entender, verá que foi como tinha que ser, verá que o que houve foi o melhor que podia acontecer, e não desejará mudar uma só vírgula no enredo da sua trama.

Um dia você vai entender, e nesse dia, ao contemplar toda a maravilha que a vida lhe reservava, será grato, pleno e feliz como jamais ousou imaginar ser possível.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Sobre fé e escuta

O céu de fim de tarde é pura poesia com o tom azul-marinho que assume antes de se converter em completa escuridão. Em pensar que em algumas horas ele será, de novo – e se não chover – de um azul-celeste límpido como a água das nascentes! Mas veja que interessante: mesmo no breu a poesia reside, talvez por haver nele a promessa da manhã. E se a gente aplicasse em nossa vida essa lição da natureza, compreendendo que tudo tem a sua contraparte?

Sentado na pracinha enquanto descansava da minha caminhada, me pus a observar uma pequena, que – após se alternar, alegremente, entre os brinquedos e aparelhos de ginástica – correu de volta para o interior do condomínio. Decerto os pais lhe haviam imposto um tempo limite fora de casa. E foi pensando nas mil possibilidades da menina, ainda alheia às dores do amanhã, que me peguei pensando nas minhas.

Interlocutora atenta que é, a vida é infalível em oferecer respostas, e foi nas primeiras sombras que cobriam o dia que pude contemplar as respostas das quais carecia. Convém não hesitar em fazer perguntas e, em seguida, ficar atento aos sinais, que virão não envoltos em uma aura sobrenatural, mas nos movimentos simples da vida.

Porque o desejo supremo do Divino não é chegar causando – porque, diferente de nós, Deus não carece de palcos e holofotes –, mas, sim, estar mais próximo de nós. Por isso Ele se utiliza do trivial para estabelecer conosco uma comunicação.

Portanto, calma, tenha fé, escute... Essa dor vai passar. É horrível enquanto ela perdura, eu sei bem, mas é igualmente gratificante quando a gente olha para trás e vê o quanto ela era pequena e até desnecessária!

Apenas vá para a janela e mira o horizonte. O manto escuro que que o Criador lançou sobre a terra envolve também aquele que, dentro em pouco, será o responsável pela sua contratação. É o mesmo manto que cobre o médico que vai tratar aquele parente tão querido ou aquele amigo que amanhã vai lhe dar uma excelente notícia! É o manto sob o qual está também aquele que virá a ser o amor da sua vida! Não é maravilhoso? Veja como vocês estão próximos...

Respire, se acalme, preste atenção. A vida não é uma grande vilã. E, em lugar de se revoltar contra ela, convém vive-la com dignidade e coragem, sem nunca fazer ouvidos moucos para as suas lições.

É bom ficar atento, pois, tal como a menina do meu condomínio, a gente também tem um tempo limite pra brincar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Da paciência consigo

“Fiz tudo errado de novo!”

Ao menos foi esse o pensamento que me veio tão logo abri os olhos pela manhã. Passados alguns dias de vitória sobre um comportamento do qual estou lutando para me desvencilhar, lá estava eu de novo, desanimado, decepcionado comigo mesmo, debatendo-me para sair da cama e culpando-me pela nova recaída.

Passaram-se alguns minutos até que eu me refizesse, fizesse o sinal da cruz e fosse tomar o café.

Por favor, tenha um pouco mais de paciência com você. A cura é processual, e as oscilações são comuns ao longo da jornada. Ninguém é feito só de força, e há que se ter paciência na desconstrução de hábitos arraigados, talvez, há vinte ou trinta anos.

Há os que conseguem dar a volta por cima em questão de dias? Talvez haja, mas esse é o funcionamento deles, não o seu. Amar a si mesmo passa, sobretudo, por acolher as próprias debilidades. Não para perpetuá-las, claro, mas para reconhece-las como uma parte sua. Uma parte que você não quer mais que o governe, mas, ainda assim, uma parte sua.

Seja firme, mas pega leve. Parece paradoxal, mas não é! E vai ficar mais fácil à medida que você direcionar o foco da autocrítica exacerbada para o compromisso com a reforma íntima.

Comprometa-se, sim, com a autotransformação, mas tenha em mente que você vai falhar de vez em quando, e, quando menos esperar, estará enviando uma mensagem, estalqueando aquele ex, falando mal dos outros, assistindo à pornografia, apelando para as drogas, cultivando pensamentos sombrios etc.

Acontece. Por que você é fraco? Não! É só porque você é humano, e, como humano que é, tem dentro de si o potencial para sucumbir e para superar. As sementes da vitória e do fracasso estão abrigadas em você. Faça de si uma terra fértil para que germine aquela que vai fazê-lo sair do lugar.

Você é um ser humano... Não queira ser mais do que isso. Não pretenda-se um super-herói, mas, simplesmente, um ser que luta diariamente para vencer a si mesmo, “sem pressa e sem pausa”, pois é um dia de cada vez.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Um amor em construção

Amor-próprio é uma construção. Nenhum ser é pronto e acabado.

Por muito tempo, eu admirei (ou invejei) aqueles que eu julgava terem amor-próprio, sempre dividindo as pessoas entre as que se amavam e as que não se amavam. Somente depois de muitas situações que me renderam muita dor e bastante desgaste foi que percebi que aprender a se amar é um processo contínuo ao qual ninguém escapa.

Há, naturalmente, os que avançaram mais nesse processo. Há aqueles cujo amor-próprio atingiu um extremo, convertendo-se no mais profundo egoísmo. Há também aqueles tão perdidos de si mesmo que tudo aceitam dos outros, que pouco ou nada se cuidam, que pouco ou nenhum valor se atribuem...

Todos, porém, estão no caminho rumo a si mesmos, aprendendo, com o curso da vida, o que lhes acrescenta e o que lhes subtrai, o que os eleva e o que os diminui.

Alguém que pouco se ama pode, de repente, se surpreender com um elogio, uma promoção no trabalho, um reconhecimento etc., ao passo que alguém já mais avançado nesse processo pode sofrer uma perda, ganhar uma cicatriz, receber uma crítica etc.

Enfim, a vida é sempre mestra em nos ensinar a moderação na apreciação de nós mesmos. Porque somos algo ínfimo diante da imensidão que nos rodeia, mas nem por isso somos desprovidos de valor; pensamos ser mais esclarecidos em comparação a alguém, mas ignorantes perante a sabedoria que rege o mundo; estamos longe de ser Deus, mas a Ele nos assemelhamos e somos herdeiros do Seu poder...

Autoamor é, entre tantas acepções, equilíbrio entre a autocomiseração e o narcisismo. Enxergar a si sem se deixar cegar para o outro e vice-versa. Gostar de quem somos, mas ainda dedicados ao auto-aperfeiçoamento, à criação de uma versão 2.0, ainda mais avançada.

Você se ama quando cuida de si, quando se retira de contextos e situações que só lhe causam dor, quando deixa de mendigar atenção, quando não mais insiste em bater em portas fechadas e, sobretudo, quando se perdoa por fazer ou haver feito tudo isso.

O meu desejo é que, em lugar de ser cheio de si, você seja tomado de verdadeiro amor por si, acolhendo-se e superando-se a cada adversidade que vier desafiar esse romance.

Eu desejo que você se ame para poder amar, e, podendo amar, poder servir. É o mesmo que eu desejo pra mim.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Ser feliz é uma obrigação!

Você tem obrigação de vencer na vida. Não se trata de uma escolha, de algo do qual você possa abdicar sem pensar nas consequências que isso trará para você e para o outro. Você tem obrigação de, a cada dia, dar um passo rumo à sua felicidade. 

Eu vejo as pessoas dizendo coisas como “quero dar uma vida mais confortável para os meus pais”, “preciso oferecer algo aos meus filhos” etc. Não resta dúvida de que tudo isso seja de extrema relevância. Tenho convicção, porém, de que o que de melhor podemos oferecer ao mundo foge aos limites da matéria. 

Em nada contribuímos adquirindo uma cobertura no edifício mais alto do Leblon, do Alphaville ou do Belvedere. Muito fazemos pelo outro, porém, quando edificamos a nós mesmos, seja pela prática das virtudes, seja pelo exercício do bem, seja pelo inabalável empenho em tornar-se humano. 

Sabe aquele mito platônico no qual o cara escapa da caverna e, ao contemplar o dia lindo lá fora, retorna às sombras a fim de avisar aos demais? Perceba a beleza disso... É nos aproximando da luz – ou seja, nos tonando verdadeiramente humanos – que podemos mostrar aos outros o caminho. 

Vencermos a nós mesmos, nos elevarmos sobre as adversidades, é o que de melhor podemos fazer em prol da humanidade. 

Eu vi diminuírem drasticamente os meus pensamentos de morte quando me dei conta de que, ao me lançar no abismo, eu não iria sozinho. E foi aí que sair da depressão se tornou para mim não algo para o meu próprio benefício, mas um compromisso real com os que me rodeiam. Pois, ao sair de uma depressão, você tem a possibilidade de compartilhar com os outros o trajeto. 

É louvável quando a busca pela própria cura envolve um profundo comprometimento com a dor humana como um todo. Portanto, se o seu próprio bem-estar não é razão suficiente para provocar uma reação de sua parte – e eu bem sei o quanto o sentimento de menos valia pode nos conduzir a tal raciocínio – talvez lhe seja útil lembrar que, ao conseguir se curar, você também dá a milhares de pessoas a possibilidade de cura.

Naturalmente, você não precisa – e não vai – conquistar para si todas as medalhas. Importa, no entanto, que jamais lhe falte o ânimo de vitória, pois é a sua resiliência, persistência e garra – e não as suas posses – que inspiram os demais a também seguirem em frente. 

Atente-se para o fato de que, ao pensar sobre felicidade, você imediatamente recorre a seres que se fizeram grandes em profunda pobreza, sem nada deixar em termos materiais: Buda, Jesus, Sócrates, Epicteto e tantos outros. Obviamente, ninguém lhe está sugerindo aderir a uma vida ascética, o que seria um tanto estúpido. A sugestão é que as coisas sejam encaradas como meios, e não como fins, estando no horizonte aquilo que realmente há de nos elevar e nos fazer felizes. 

Eu quero que você não desista de você e que tenha consciência de que, ao vencer a luta diária, você leva consigo toda a humanidade. Essa batalha, sim, será o seu maior legado. 

Fique firme. 

E fica combinado que, quem chegar primeiro, avisa ao outro como se faz. 

Bom outubro.