
Eu não sei. É isso mesmo que você leu. “Não
sei” é a melhor e mais sensata resposta para a pergunta que subjaz ao título
deste artigo. E eu peço que, por favor, não acredite em uma resposta contrária,
a não ser que ela ressoe na parte mais íntima dentro de você. E é justamente a
partir disso que nos cabe tecer uma longa e sincera discussão.
Ok, entendo que você deve estar se perguntando
a que se propõe um artigo sobre “a verdadeira religião” que já de início afirma
não saber dizê-la. E tal questionamento, por mais compreensível que seja, me
leva a percepção de que você está, muito provavelmente, a cometer o equívoco
que por vezes eu já cometi e ainda cometo na busca da Verdade, isto é, do
verdadeiro caminho para Deus. A propósito, afirmar que se trata de um equívoco
que eu “ainda cometo” é deveras relevante aqui, vez que deixa bem claro que
este que vos escreve não é um ser evoluído que cá está para lhe dar
direcionamento. Não, não... sou apenas alguém que segue na busca, obstinado,
encontrando uma resposta aqui, uma luz ali, mas sempre buscando, tal como você.
Mas que equívoco é esse ao qual me referi? Nada
menos que a busca de algo espiritual por uma via intelectual. E aqui é
importante que não se faça confusão:
entenda que nada há de errado no estudo, na leitura de obras com
temática espiritualista, religiosa e afins. Até porque se temos um cérebro, se
somos dotados de intelecto, é muito improvável que tal capacidade nos tenha
sido dada à toa ou que não a possamos utilizar para fins espirituais. Então,
sim, o estudo é bem-vindo; a leitura é, sim, um excelente instrumento na busca
pela Verdade, e você não deve nunca deixar de buscar conhecimento.
O problema se dá é quando sobrepomos o
intelecto a todos os outros meios dos quais a Inteligência Universal se utiliza
para nos dar direcionamento. E é aí que a gente corre o risco de se converter
naquelas figuras excêntricas que surgem na internet falando sobre temas de
extrema complexidade – os chakras, as leis herméticas, a alquimia etc. e tal –
mas parecem pouco espirituais de fato. Sobrepor o intelecto a todo o resto é
tornar as coisas de Deus algo puramente acadêmico, no que vale lembrar que que
por vezes foram grandes intelectuais que cometeram as maiores atrocidades “em
nome de Deus”, Mas um Deus ao qual só se conhecia de forma intelectual e
egoica.
Ademais, buscar o conhecimento de algo tão
complexo como “o verdadeiro caminho para Deus” por via do intelecto já é
equivocado por si só. Afinal, será mesmo que existe alguma doutrina que careça
de bons e bem fundamentados argumentos na defesa de si? Imagine, por exemplo,
se fosse promovido um grande evento como nunca visto na humanidade. Um evento
no qual se reunissem os grandes nomes de cada doutrina: o Papa, o nome mais
expoente do espiritismo, a figura mais importante do budismo, a maior
autoridade no protestantismo etc. Olha, quase posso garantir que ninguém sairia
vencedor ou fracassado desse debate, e muito provavelmente todos, em algum
momento, cairiam naquela famigerada ideia das “verdades de fé”, isto é, aquilo
em que se acredita não com base em argumentos bem embasados, mas por meio da
tradição, da crença e correlatos (e não há nenhum problema nisso).
Certo. Então, se concordamos que um buscador
sincero e dedicado ao estudo encontraria bom fundamento em toda e qualquer
religião, como conhecer o caminho correto, como encontrar a Verdade se não por
meio do intelecto. E é neste ponto que eu, que adoro listas, vou deixar algumas
dicas para você com base na minha própria experiência. Vamos nessa?
1 – Colocando
o ego de lado
Há uma frase bonita que diz que “aquilo que
você busca também está buscando por você. Ok, eu concordo, mas também concordo
que aquilo que você está buscando da maneira errada e com as intenções
inapropriadas está se afastando de você. E aqui cabe uma pergunta: a sua busca
por respostas tem Deus como objetivo final ou tem apenas você, com a sua
necessidade de desvendar segredos do Universo só para se sentir melhor consigo
e superior aos outros, ou para gozar de mais conforto neste mundo material? Não
estaríamos nós apenas substituindo a desesperada busca por títulos acadêmicos
(também muito bem-vindos) pela busca de experiências metafísicas e poderes
sobrenaturais que nos elevem acima dos demais, colocando-nos em evidência entre
esses meros mortais?
Colocar o ego de lado (metaforicamente falando,
é claro, pois isso soaria absurdo para qualquer profissional sério da
psicologia ou da psicanálise) e estabelecendo Deus como um fim me parece um
excelente exercício, por mais árduo que seja (e, acredite, é beeem árduo). O
livro Imitação
de Cristo, escrito por Tomás de Kempis, é um livro extremamente querido
entre os cristãos católicos e um excelente aliado nesse processo de abandonar-se
em Deus, esquecendo-se de si e dando espaço para que a Verdade ocupe o palco de
nossa mera existência. Fica a dica.
2 –
Perguntando a quem tem a resposta
Este tópico é tão óbvio, mas tão óbvio que eu
não vejo necessidade de me demorar muito nele. Pense bem: na escola, quando
você tem dúvida, você pergunta ao professor. Em casa, quando você ainda é criança,
você recorre aos seus pais quando precisa de permissão para algo ou de algum
esclarecimento ou ajuda. Então me responde, criatura: por que cargas d’água, em
se tratando da natureza de Deus, você recorre ao pastor, ao padre, ao
pai-de-santo, ao terapeuta e até ao presidente da república em lugar de
recorrer... a Deus?
Nada contra essas figuras que eu mencionei,
certo? A questão aqui é que, se você quer uma resposta certeira, um
direcionamento verdadeiro, não faz sentido recorrer a alguém que – na melhor
das intenções – vai lhe oferecer uma resposta obviamente enviesada! Talvez você
não acredite que pode ter esse diálogo direto com Deus; talvez você não se
considere digno(a) ou – pior! – talvez acredite que não deva se dirigir a Ele
questionando-Lhe a própria natureza. Mas eu vou lhe dizer uma coisa: você pode,
sim! Pode e deve.
Deus muito se agrada do filho sincero que recorre
a Ele e fala com sinceridade. E digo mais: as minhas orações mais benéficas
foram aquelas em que eu “quebrei o pau”. Claro, você não precisa e nem deve
faltar com respeito com quem lhe concedeu a vida, mas não tema ter uma conversa
espontânea, de filho(a) para Pai, de criatura para Criador.
E, claro, fique atento(a), pois a resposta
virá. Seja por meio de uma coincidência bizarra, de uma música, uma mensagem,
um sonho... Não sei como, mas sei que ela virá, a um só tempo clara e sutil. Então,
por favor, não se distraia.
3 –
Lembrando que uma coisa não exclui a outra
Veja bem: eu já passei por várias religiões.
Segui a fundo apenas o catolicismo, mas já transitei com certa dedicação pelo
espiritismo e o universalismo, bem como já frequentei a umbanda, o budismo, o
hinduísmo etc. Dadas essas minhas incursões por diferentes filosofias, se tem
uma coisa que me incomoda é escutar alguns líderes religiosos afirmarem que “a
filosofia X é a verdadeira” ou “a igreja Y é a igreja de Cristo”. Algumas
denominações religiosas, mais radicais, até mesmo acrescentam que tudo o que é
contrário a elas é obra do inimigo, “o pai da mentira”.
Tal discurso me incomoda porque eu estou muito
certo de haver encontrado Deus em cada uma dessas experiências, e sei que você,
que também já esteve em vários lugares na sua jornada rumo ao sagrado, também
já O encontrou em cada um deles. Ademais – e espero não estar sendo blasfemo ao
dizê-lo – me parece muito sacana a imagem de um Deus que, ao mirar uma casa
espírita, por exemplo, afirme algo como: “Tem uma galera ali me buscando,
falando de mim e tentando se pautar em meus ensinamentos, mas esse povo é
espírita, ali eu não entro”. A propósito, se bem me lembro, é justamente o
contrário disso que o Divino Mestre nos diz em Mateus 18,19-20: “Pois onde dois
ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estou no meio deles”.
É
insano acreditar que um Deus que é todo amor e misericórdia faça acepção de
pessoas com base em suas doutrinas em vez de considerar a busca sincera de cada
um.
O Deus verdadeiro é um Deus de amor, e não de arrogância; não um Deus que olha
a religião e “não se junta com essa gentalha” (e eu nunca pensei que recorreria
ao Chaves para refletir sobre o Criador...).
E é aqui que pode vir a pergunta: “Ah! Então
quer dizer que eu posso frequentar qualquer religião?!”. E a minha resposta é
SIM!, você pode, maaas... – e eu preciso que você preste muita atenção ao que
direi em seguida – o fato de não haver a religião verdadeira não significa que
Deus não o(a) queira em uma em particular.
É isso mesmo que você leu. Pois acima da
diversidade religiosa, existe a vontade do Criador. E, nessa perspectiva, o
discurso tão em voga de que “Jesus era contra as religiões, então vamos buscar
Deus apenas dentro de nós” pode ser tão prejudicial quanto a afirmação de que
“a minha doutrina é a correta”. As religiões, doutrinas e filosofias existem no
mundo, de modo que, se nós concordamos que Deus se faz presente em cada uma
delas, é natural que concordemos também que Ele precisa de pessoas específicas
exercendo um papel em cada uma delas.
É por isso que existe gente desenvolvendo um
trabalho maravilhoso na doutrina de Kardec, é por isso que existem pessoas com
vibração tão elevada na umbanda, é por isso que existe gente cheia do Espírito
Santo na igreja evangélica... A grande maioria das pessoas ainda sente que
precisa e recorre às religiões e, portanto, Deus lá sempre estará, sempre
designando pessoas para determinadas tarefas. Beleza, neste ponto você vai me
dizer algo como: “Aihn, mas tem um monte de gente enganando os outros dentro
das igrejas e blá blá blá”. Pois então... eu disse que Deus designa pessoas
para certas tarefas e não que executa Ele mesmo as tarefas. Nós, em nossa
inconstância, estamos invariavelmente nos afastando de Deus, sendo, portanto,
suscetíveis ao erro... E, sim, isso dá margem para uma outra conversa bem complexa
que nós não teremos aqui, tá bom?
4 –
Vivendo a vida
Certo, vimos que as muitas abordagens oferecem a
possibilidade de conexão com o sagrado, estando aí a importância e valor de
todas elas. A nossa falha, porém, pode estar também nessa arraigada ideia de
que demandamos um momento, uma reunião e/ou um ritual específico para tal
conexão. Convém repetir que a adesão a uma filosofia ou algo do tipo é, sim, de
imenso valor, mas a gente precisa cuidar para que aquele momento da missa, da
gira, do passe ou do louvor não seja o nosso ÚNICO momento dedicado a Deus ao
longo da semana.
E não, eu não estou dizendo que você precisa
reservar mais momentos para Deus ou que precisa orar três vezes ao dia em vez
de apenas uma etc. Eu estou dizendo que, se você coloca Deus como um fim em si,
cada movimento, cada ação sua deve ser por e para Ele.
Buscar desesperadamente uma doutrina na qual se
encaixar pode ser um sinal de que você só se acredita em contato com Ele dentro
de um conjunto de dogmas, quando, na verdade, Deus é tudo o que há. Nem que
você quisesse, você não estaria fora ou longe Dele. Em meio a essa luta
cotidiana que nos consome o tempo, a energia e a atenção, ter um momento
dedicado exclusivamente a Ele é super importante. Viver a vida, porém – sem se
cobrar, sem se julgar em débito porque faltou à missa na semana passada – pode
lhe proporcionar insights maravilhosos.
Experiências como o satsang (“encontro com a Verdade”, em sânscrito), mindfulness (atenção plena) e a vertente
filosófica voltada para a não-dualidade exploram muito e de forma bastante
experiencial essa ideia de que Deus já é aqui e agora, e jamais poderia deixar
de ser. Não permita que a busca desesperada por uma Verdade intangível ao
intelecto o distraia, desviando a sua atenção de uma Verdade que já está dada,
de um Deus que jamais lhe ocultou a Sua face.
Esteja inteiro(a) no que faz. Faça o seu
trabalho não apenas pelo sustento, mas também na certeza de que Deus o(a)
designou para fazê-lo em prol de alguém que talvez você nem conheça e nunca
venha a conhecer, mas que precisa do seu trabalho. Seja gentil e abençoe a
todos. Diante de cada situação, se pergunte como agiria Jesus (ou Buda ou
Sócrates ou quem quer que seja) em seu lugar. Dialogue com o próximo como quem
dialoga com uma manifestação do Divino (aliás, SURPRESA!, é exatamente isso que
o próximo é). Sacralize a tudo e a todos, pois, como bem diz o título de um
livro do Pe. Fábio de Melo, sagrado é
viver.
5 –
Entendendo que Deus é grande
Você já deve ter visto aquela imagem tão
singela, mas tão profunda que apresenta dois peixes dentro do mar, um deles
livro e outro no interior de um aquário. No aquário há a inscrição “com
religião”, ao passo que no peixe que nada livremente há a inscrição “com Deus”.
Na minha interpretação, essa ilustração não
desrespeita e nem descredibiliza a religião, mas apenas a define como algo que
capta um aspecto específico de Deus, o que a torna limitada. O peixe que nada
livremente parece menos limitado, pois, ao se ver livre de uma doutrina em
especial (o aquário), tem o privilégio de navegar por todas as águas,
estabelecendo contato com as diversas facetas do Divino. Mas não se engane...
pois o oceano, por maior que seja, também tem os seus limites, e ninguém pode
conhecer ou captar o Todo...
E o que eu quero dizer com isso? Bom, estou
dizendo que, aderindo ou não a uma religião, a sua compreensão do Criador será
limitada, pois Ele é incognoscível, inefável. Pôxa, Ele é Deus uai (e me perdoe
pelo mineirês). Muito me agrada uma busca livre da religião, entrar em contato
com outras maneiras de crer, ritualizar e professar a própria fé; conhecer
outros aspectos do Altíssimo e me dar conta do quão pouco ainda sei sobre Ele. Todavia,
também compreendo que, ao fazer tal escolha, perco a oportunidade de vivência coletiva
da espiritualidade, da identidade, sensação de pertencimento e propósito
proporcionadas pela forma como é estruturada uma doutrina. E bem sei das tantas
vezes em que, ávido por respostas, me confundi, me perdi e me coloquei em
experiências que não eram pra mim...
Perceba, portanto, que uma coisa não é melhor
que a outra. O que existem são abordagens distintas e, claro, as nossas
escolhas, que sempre trazem consigo vantagens e desvantagens. A arrogância de
quem crê haver compreendido o Criador – o que é mais comum dentro das
religiões, mas também presente entre os espiritualistas – nos afasta Dele, ao
passo que o humilde reconhecimento de Sua grandeza e de nossa pequenez e
ignorância tende a nos propiciar um contato mais íntimo com Ele.
Conclusão
Lembro de, em criança, ir à missa com minha
mãe, quando era sempre cantada uma música assim: “Senhor, quem entrará no
santuário pra te louvar? / Quem tem as mãos limpas e o coração puro / Quem não
é vaidoso e sabe amar”. Só quando adulto descobri que essa música tem
inspiração no Salmo 24.
Perceba que o salmista afirma que só entrará no
santuário – isto é, só estará na presença de Deus – quem for honesto, bom,
humilde e amoroso. Em nenhum momento ele diz algo como “quem for evangélico” ou
“quem for maçom”. Mas ele também não disse “só entrará quem zombar, criticar e
fugir das religiões”. Tanto o salmo como diversos outros trechos bíblicos
revelam que Deus espera de nós comportamentos, atitudes e ações, e não adesão ou
repúdio a esta ou àquela doutrina.
Afinal, estar preso a um aquário, sem a
possibilidade de experienciar a imensidão do oceano é ruim. Igualmente ruim,
porém, é ficar à mercê dos perigos das águas, sem o devido amparo e instrução,
quando do gozo de nossa liberdade... O bom disso tudo é que Deus, em Sua
infinita misericórdia, nos dá a possibilidade de escolha, expressa na palavra livre-arbítrio.
Portanto, segue buscando, mas não permita que o
seu coração se aflija por questões que nunca foram prioridade para Deus. Apenas
seja sincero e persistente no desejo de seguí-Lo, de agir conforme a vontade
Dele. Vontade essa que há de ser revelada no âmago de todo buscador sincero.
Eu espero que este artigo o tenha ajudado de
alguma maneira, trazendo-lhe paz e clareza quanto aos seus próximos passos.