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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Sombras


Você não sabe,
mas às vezes a minha casa assume uma atmosfera soturna
e eu sou assombrado por fantasmas que me perseguem
e me ameaçam com o fim que levaram outros como eu.
Os mais sádicos, porém,
apenas me mostram o espelho
no qual eu vejo refletido o menino da minha infância
a encolher-se diante dos risos da classe.
Você não sabe,
mas me firo diariamente com os espinhos
das rosas das quais ousei desejar a fragrância..
Apenas pare
e ouça os gritos abafados de quem não tem como fugir.
Tomado pelo medo,
corro desesperado pelas ruas,
bebo veneno,
desmaio na sarjeta e me embebedo
de prazeres marginais.
E se às vezes lhe destino palavras confusas
é porque, querendo morrer,
eu preciso sobreviver a mais uma noite.
Quem sou eu em plena madrugada?
Quem é você que já não sei se existe?
É possível que haja se apercebido do desvalor
da vida que eu lhe quis oferecer.
Era pouco,
mas era tudo o que eu tinha.
Será que não entende que eu temo
que o vento espatife as vidraças?
Será que não sabe que eu passo noites em vigília
de modo a impedir que eles entrem aqui.
Não...
Você não sabe
porque se negou a reconhecer o humano em mim.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

A oportunidade na adversidade


Que bênção é a dor,
Que nos dá a coragem para atravessá-la.
Que bênção é a ausência de amor-próprio,
Que nos revela a urgência de adquiri-lo.
Que bênção é a depressão,
Que nos pode servir de impulso em direção à luz.
Que bênção é a indiferença alheia,
Que nos ensina, dia após dia, a criarmos raízes profundas em nós mesmos.
Que bênção é a vida,
A despeito de todos os sobressaltos.
Que oportunidade é viver!

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Vigília


Lustrei os móveis,
limpei a poeira das grades,
pus tapete com dizeres frente à porta.
Eu sei que um dia ele vem...
O café ainda esfria sobre a mesa
servido na porcelana que herdei da minha avó.
Fiz bolo de cenoura
e queimei um palo santo
para neutralizar as energias,
só pra que se sinta em paz.
O forro de mesa barato,
eu comprei numa liquidação,
junto da capa do liquidificador.
Meu amor
é o mesmo, ontem, hoje,
triste,
desesperançado,
mas em vigília
e não se cansa de esperar.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Filho da Luz


Desperto cheio de gratidão à vida pela sublime dádiva de experienciá-la.
Viver é uma oportunidade!
Reconheço em cada alegria, uma bênção;
em cada sobressalto, uma lição.
Bênção inda maior travestida de fracasso.
Sigo a lançar mão do meu direito de escolha,
mas solto, confiante na Suprema Inteligência do Universo,
superior aos presunçosos saberes acumulados durante a caminhada.
Não mais me revolto contra o curso das coisas,
ciente de que a vida me ama e sabe o que é melhor para mim.
Não mais me rendo à ilusória necessidade de controle
e me permito fluir
tal como as folhas do outono ao sabor da brisa.
Filho da Luz que sou,
sou dotado do poder de iluminar a minha própria existência.
Imagem e semelhança do Criador.
Não mais espero de fora.
Não mais delego a supostos heróis
a tarefa de minha felicidade ou salvação.
Basto-me e, a um só tempo, necessito do outro para existir,
livre da arrogância dos que são cheios de si.
Amo sem projetar, sem exigir,
Mas amo primeiro a mim
e à inigualável beleza de existir.
Cada dia é recomeço.
Nada me para, me impede ou me limita,
e sigo confiante no Infinito Poder que me ampara.
Apenas escolho, confio e solto,
atento aos sinais,
pronto para viver os melhores dias da minha vida!
Apaixonado.
Cheio de amor por mim.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Luxo


Ao beijar pela primeira vez,
pensou-se já desvirginado,
passando a ver em tal preliminar
o ápice dos encontros sexuais
que se seguiram.
Beijar lhe parecia a coisa
mais erótica do mundo,
razão pela qual tinha hora e lugar.
Um dia contratou um rapaz e,
pouco dado ao uso do imperativo,
surpreendeu-se com a própria voz:
"apenas beije-me".
E mergulhou.
Pouco habituado aos afetos,
beijar lhe parecia um luxo.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Descaminhos


A alma da rua me chama a trilhar os seus descaminhos.
Não sei aonde vai me levar.
Há tantos lugares aonde ir e tão poucos onde ficar.
Há um moleque soltando pipa nas proximidades do despenhadeiro.
Há uma mulher que amamenta e um cão que arfa
enquanto observa os transeuntes.
E tudo parece ser tão natural para eles.
Sem dúvidas, sem necessidade de questionamento,
sem o anseio por uma felicidade que só se conhece por ouvir falar...
Eu também queria ter assim todo esse sentido de vida.
Uma existência cheia de significado e contentamento por ser o que é,
sem medos, sem expectativas, sem aflições,
sem um desejo de morte a seguir-me como uma sombra.

Será que existe Deus em meio à tempestade?
Haverá soberania que me salve do perigo que sou?
Ninguém sabe, mas eu posso destruir ou salvar a humanidade
em uma questão de segundos.
Eu mesmo ainda não sei.
Portanto, pouco importa agora...
Me lembrei da minha infância na favela.
Do sorvete no sábado à tarde que mais parecia um evento.
Da alegria de quando a luz voltava
e a gente podia assistir Tieta,
pois não havia mais nada a fazer...
Me lembrei do Snoopy à beira da porta da sala
e de eu brincando de bonecas com a minha irmã.
Hoje, quando eu olho para o homem que amo,
é como se de alguma forma estivesse tudo ali.
Aquele desejo insaciável.
Aquele misto de alegria e ausência.
Aquela força.

Eu poderia dizer se tratar de um
"tempo bom que não volta mais".
Mas haverá a possibilidade de tempo bom
durante o tempo em que sou o que sou?
Haverá espaço para a fraqueza nesse curto espaço de tempo?
E por que querer que o tempo volte se tudo vai dar sempre no mesmo lugar?

A vida é como uma nau à deriva...
Parece poético, mas são apenas palavras,
tais como aquelas que sempre dizem para ajudar.
Palavras... De palavras se faz o mundo.
Será? Não sei...
Sei que estou uma bagunça, uma desordem.
Preciso abrir as janelas, arejar os cômodos, aspirar os móveis.
Preciso limpar a sujeira há muito varrida para baixo do tapete.
Então depois – só depois – talvez eu possa me matar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Declaração Amorosa - Sarau Brasil 2014



A poesia que apresento a seguir foi por mim escrita em 5 de março de 2012, mesma data em que a postei aqui e no Facebook. Na ocasião, fui contemplado com as afetuosas curtidas e comentários de muitos de vocês, que receberam positivamente o meu texto.

Bom, o tempo passou, uma oportunidade surgiu e eu resolvi arriscar... E eis que "Declaração amorosa" foi uma das poesias selecionadas no Concurso Nacional Novos Poetas, Prêmio Sarau Brasil 2014, rendendo-me a publicação em uma coletânea, da qual recebi dez exemplares nesta semana.

Sinto-me feliz e grato à vida por essa publicação. Publicar literatura, mais do que mera vaidade (o que, dentro de um limite, é perfeitamente positivo), é uma realização para quem escreve. Quando se tem um texto literário publicado, está-se compartilhando mais do que um simples texto. Compartilha-se sentimento e inquietações. Compartilha-se uma forma de conceber o mundo. Compartilha-se, não raro, toda uma história de vida,

Portanto, agradeço a todos que seguem comigo este caminho rodeado de verso e prosa. Caminho esse que, tenho certeza, só pode dar em um mundo muito melhor! Grande beijo.

Declaração Amorosa
Alex Gabriel

Você é meu escapulário, meu remédio,
minha cura.
Você é o luar da minha noite mais escura.
Você é o meu presente,
meu anel de formatura.
Você é um ser alado
desprovido de candura.

Você é cada versículo que compõe
a Escritura.
Você é a heroína da mais tenra aventura.
O alicerce estruturado,
minha infraestrutura.
Você é ao mesmo tempo
liberdade e ditadura.

Você é seio que acolhe eu criança
prematura.
O traço mais fatal da minha firme assinatura.
Você é ambiguidade:
sanidade e loucura.
De todas as relíquias,
você é a mais impura.

Você é trama, epopeia.
Você é verso e partitura.
Você é mulher amada.
Só você, Literatura.

RAMOS, Isaac Almeida (Org.). Antologia Poética, Prêmio Sarau Brasil 2014. Cabedelo: Vivara Editora Nacional, 2014, p. 37.


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sem título

Bem me lembro. Foi em 1996. Estava eu na sexta série e uma professora de português – a Prof.ª Aparecida Fulanete – apresentou-nos uma proposta de atividade: a criação de um poema. Não recordo os detalhes, mas me lembro bem da minha inaptidão para esse tipo de coisa. Arriscava contos, mas não arriscava versos como hoje arrisco. Deu-se que minha irmã socorreu-me ditando-me este belo e singelo poema, criado por ela assim, de supetão, enquanto estávamos nós à mesa da copa fazendo nossas atividades escolares. E dá-lhe a inspiração dos amores adolescentes, lembrados por toda a vida...



[Sem título]
Patrícia Silva

Quantas vezes me vi amando
e acordado me vejo sonhando.
Sonhando com um verdadeiro amor...
E, cruelmente, sou despertado de dor.
Dor, ao perceber que me engano,
pois, quando me vejo amando,
descubro a ilusão.
Pobre deste coração,
que, ao pensar que ama,
é consumido nas chamas
e padece.
Às vezes, pobre de mim,
que, por um amor sem fim,
vivo à procura constante.
Um dia, de tão distante,
com certeza cansarei.
Quem sabe então esquecido
ele se torne vivo.
Quem sabe não seja engano
e este desejo insano
de amar se torne real.


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Poema deboriano

E não é que, durante uma excelente aula de Língua Portuguesa, o deus da inspiração acertou em cheio a minha amiga Débora e ela, inventando de arriscar uns versos, acabou por dedicar a mim esta bela e singela poesia? E assim eu, dado a dedicar meus versinhos a outrem, foi finalmente poetizado também... Obrigado, amiga! Quero fazer felicidade...


Alex Gabriel da Silva.
Nascido no Brasil.
Criado em Parságada.

Poeta brasileiro.
Amante das palavras.
Sem medo de ser feliz.

Comprou um cantinho.
Foi morar sozinho.
Foi fazer felicidade.

Da sua amiga!
Débora

11/09/2010