quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Sobre transexualidade, travestismo, mídia e polêmica


Ariadna Thalia Arantes.
Imagem retirada de Tudo sobre BBB.

Não fazia meia hora que terminara a primeira eliminação do Big Brother Brasil 11 e os fóruns de discussão já estavam repletos de postagens que ou lamentavam ou comemoravam a saída de Ariadna, a primeira transexual a participar da versão brasileira do reality show. A carioca, escolhida pelo voto de Cristiano, primeiro líder do jogo, saiu da casa com 49% dos votos. Ruim para ela, ruim para a Globo, ruim para a torcida de Ariadna e, talvez, para a comunidade LGBT, que (sem generalização, claro) tinha a permanência de Ariadna como propícia a reflexões sobre a questão da transexualidade. Não se trata de uma certeza, obviamente, mas acredito, sim, que a “convivência” dos telespectadores com tipos geralmente discriminados seja benéfica, uma vez que vê-los durante 24 horas, em seu estado natural, pode invalidar alguns mitos e estereótipos.

Desconheço se era positivo ou negativo o comportamento de Ariadna dentro da casa. Nas poucas “espiadinhas” que dei, interessado na presença dela, não percebi comportamento diferenciado em relação aos demais participantes. Ao menos nada realmente gritante, afinal, os telespectadores do BBB devem estar acostumados a obscenidades, sem falar naqueles que assistem o programa justamente à procura disso. Tudo isso, portanto, dá-nos alguma base para ponderar que, ao ser eliminada do reality show, Ariadna pode haver sido vítima da intolerância que reina em terras tupiniquins. Formado o paredão – através da escolha de Rodrigo, que, ao atender o Big Fone, escolheu Lucival; através dos seis votos que os demais participantes deram para Janaina e através da indicação do líder Cristiano, que escolheu Ariadna – Janaina fez uma observação válida: "Só os rejeitados pela sociedade". Dizendo isso, a moça contemplava apenas o fator racial e social, mas muitos de nós, aqui do lado de fora, consideramos também a presença de um homossexual e de uma transexual naquele trio de “rejeitados”. É mais que possível, sim, que a saída de Ariadna seja consequência de preconceito, afinal, num país onde os telespectadores se mostram apavorados diante da possibilidade de assistirem a um beijo gay em horário nobre, não surpreende que não queiram se deparar, diariamente, com um “ex-homem” trocando carinhos com os colegas de confinamento. Imaginem então permitir que esse participante seja o ganhador do prêmio de 1,5 milhão de reais...

Nádia Almada. Imagem retirada de Virgin Media.

Caso diferente ocorreu na versão inglesa do programa, no Reino Unido, que, em sua quinta edição, teve como ganhadora do prêmio a transexual portuguesa Nádia Almada, que, aos poucos, foi conquistando a simpatia dos telespectadores. Tal como Ariadna parecia pretender fazer, Nádia nada contou sobre sua condição aos demais participantes do reality show, de modo que a mesma fosse sabida apenas pelos telespectadores. Não sei o que aconteceu por aquelas bandas, mas sei que por aqui muito se especulou sobre se Ariadna devia ou não contar que, em um passado distante, fôra Thiago. É, de fato, um assunto complexo. Embora por um lado contar pudesse ser interessante e até mesmo o mais honesto – dado que, enquanto para muitos rapazes da casa provavelmente não fizesse diferença, outros, sabendo, poderiam preferir evitar certos contatos físicos –, por outro lado, sabe-se que o transexual é aquele que, independente de cirurgia de redesignação sexual, desde sempre sabe-se do sexo oposto àquele com o qual nasceu. Logo, não entrar na casa espalhando isso aos quatro cantos pode haver sido uma decisão natural da cabeleireira Ariadna.

Há quem diga, porém, que o silêncio sobre o assunto, mais que uma decisão de Ariadna, foi uma imposição da Globo. Alguns consideram que a moça haja assinado um contrato com a emissora comprometendo-se a não contar sobre sua transexualidade. Bom, não creio que a emissora chegue a tanto, mas tenho como certo que a sua preferência fosse que a carioca permanecesse no programa chegando a se envolver com algum/alguns dos rapazes. Objetivo: gerar polêmica, deixar os outros em maus lençóis, ganhar audiência. Duvido que haja quem não saiba que os participantes desse tipo de programa são escolhidos a dedo, de modo a termos em todas as suas edições o belo rapaz, a linda moça, o gay, o ex-ator pornô, o sem sal etc. Nada melhor que a diversidade confinada para gerar uma boa polêmica. Programas como BBB nada ensinam, em nada contribuem para o desenvolvimento cultural dos telespectadores, apelando sempre para a vulgaridade. Se programas como esse, no entanto, são tudo o que temos como líderes de audiência, a saída de Ariadna pode, sim, ser uma perda lamentável. Como bem disse Adriana Galvão, presidente do Comitê da Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da Ordem dos Advogados de São Paulo, a permanência de Ariadna no programa, tal como as situações provocadas pelo seu silencio em relação a sua transexualidade, podiam revelar como as pessoas lidam com a diversidade sexual. "Isso pode mostrar até que ponto as pessoas são homofóbicas ou não", disse a advogada.

De uma forma ou de outra, talvez a breve estadia de Ariadna tenha nos dado já uma boa base para saber da profunda ignorância das pessoas sobre o tema da transexualidade e deduzir “até que ponto as pessoas são homofóbicas”. Enquanto alguns brothers da casa juram não ter percebido nenhuma saliência na peça inferior do biquíni da moça e outros acreditam que a mesma se chame Ariel na “vida real”, devido a uma metáfora utilizada por Pedro Bial durante o discurso de eliminação, João Gabriel, o ex-marido da transexual, é alvo de preconceito na rede social Orkut, em uma comunidade oficial de uma torcida organizada do Vasco, da qual faz parte. A revolta dos torcedores se deve ao fato de João Gabriel haver assumido para a imprensa haver vivido um relacionamento com a ex-BBB, o que, na visão deles, mancha a imagem do time. Bom, isso reproduz bem o que é o preconceito: ou você se adéqua à maioria para fazer parte do grupo ou você está fora do grupo.


Andréia Albertine. Imagem retirada de Val Cabral.

Aliás, essa coisa de futebol e transexualidade me faz lembrar nada menos que o caso Ronaldinho, hoje esquecido, para a sorte dele, mas nunca realmente esclarecido de modo a não deixar dúvidas, o que agora pouco importa, já que a grande maioria nem se lembra mais do assunto e dado que o próprio travesti Andréia Albertine – morto na madrugada do dia 9 de julho de 2009, vítima de uma meningite que complicou-se com uma pneumonia – retirou todas as acusações que fizera contra Ronaldo uma semana após a confusão. Obviamente, isso pouco ou nada tem a ver com Ariadna, que, vale ressaltar, é transexual e não travesti. Não obstante, esse e tantos outros casos servem para discutir o imenso atraso cultural e intolerância de muitos dos brasileiros. Recordo-me de, quando do ocorrido, haver participado de conversas sobre o tema, fosse em fóruns virtuais ou rodas de amigos, e haver me deparado com torcedores angustiados. E a angústia, bem me lembro, se dava não pela possibilidade de o jogador ser um desonesto e haver se negado a pagar o que havia combinado com Andréia, mas pelo fato de o seu jogador, outrora chamado fenômeno, haver mantido relações com um travesti, como se isso anulasse os seus méritos como grande futebolista.

Assuntos como homossexualidade, transexualidade, travestismo e correlatos precisam ser abordados de maneira realmente séria e não estereotipada pela mídia. O portal Hora de Santa Catarina, aproveitando o caso Ariadna, chegou até mesmo a disponibilizar em sua página uma breve explicação sobre essas e outras terminologias. Entender as coisas é um bom passo para não termos preconceito. Até então, porém, travestis e transexuais – salvo raras exceções como Fernanda Carraro e Letícia Venturini, que deram um show de interpretação, dublagem, beleza e criatividade no programa Gente que brilha, exibido pelo SBT entre outubro de 2004 e abril de 2005 – só tiveram destaque na mídia devido a polêmicas.


Miguel Falabella.
Imagem retirada de Canal da Notícia.

Foi Miguel Falabella quem, criativo e revolucionário como sempre (ou quase sempre), promoveu uma discussão interessante na aparentemente extinta série A Vida Alheia, referindo-me aqui ao episódio “O direito de cada um”, que foi ao ar em 13 de maio de 2010. Nesse episódio, o jogador de futebol Balu (Dudu Pelizzari) é visto entrando em um motel com o travesti Doris (Bruno Kimura), tornando-se, assim, alvo da revista de celebridades “A Vida Alheia”, que estampa em sua capa a sensacionalista chamada “Balu flagrado no motel com travesti”. O interessante nesse episódio – ou o “surpreendente”, como bem disse Falabella em entrevista à Folha – é o fato de o fictício jogador Balu, em entrevista a um estranho programa (aparente programa de fofocas comumente exibido à tarde), dizer que é maior de idade, faz bem o seu trabalho como jogador e está no direito de escolher quem bem lhe interesse para levar ao motel. Nesse episódio, o travesti Doris termina ganhando fama, sendo novamente capa da “A Vida Alheia”, dessa vez de forma positiva. Assim, a revista acabou sendo digna dos cumprimentos do jogador.

Quando perguntado se o episódio era uma referência clara ao “Ronaldo Fenômeno”, Falabella responde que “Não é o Ronaldinho, é apenas uma inspiração como várias inspirações que a gente pega e mistura. Mesmo porque os nossos escândalos não chegam nem perto dos ingleses e dos americanos. Isso de originalidade é uma bobagem. Todas as histórias já foram contadas. O negócio é como contá-las e o frescor de diálogo, por isso que a gente aposta no diálogo que traga um ruído novo da TV aberta. Pelo menos é a proposta”.

Bianca Soares e Alexandre Frota. Imagem retirada de Quem Acontece.

Programas mais sofisticados como A Vida Alheia, porém, continuam perdendo para programas como BBB ou versões mal sucedidas como Casa dos Artistas, reality show exibido pelo SBT entre 2001 e 2002. Em sua quarta e última edição, intitulada “Casa dos Artistas 4: Protagonistas de Novela” e que não tinha muito a ver com as edições anteriores, o programa teve como participante a travesti Bianca Soares, o que, penso, não gerou grande polêmica devido à baixa audiência do programa. Bianca, porém, foi a segunda eliminada do programa, por razões que não conheço bem, mas penso ser pelo seu desempenho ruim nos testes. É uma pena, pois a proposta do programa era lançar um novo talento que protagonizaria uma telenovela do SBT, e seria inovador ver uma travesti protagonizando uma novela. Por outro lado não há muito problema, já que nem a “grande ganhadora” Carol Hubner chegou a protagonizar a novela que lhe fora prometida...

Bom – tomando emprestada a expressão usada por Ariadna, que disse ontem em entrevista no Projac que deseja que “as portas se abram” para ela – parece que poucas portas se abriram para Bianca Soares além das portas da Brasileirinhas, produtora brasileira de filmes pornográficos, que se escancararam para ela. A moça, além de protagonizar alguns filmes da produtora, chegou a fazer cenas de gosto duvidoso com o brutamontes Alexandre Frota.

Acabamos por falar de pessoas bem diferentes entre si, mas que, infelizmente, na minha opinião, têm algo em comum: tanto Ariadna como Nádia e Bianca chegaram a se prostituir antes da "fama". Foi essa, aliás, uma das revelações “bombásticas” feitas por Ariadna durante a sua estadia na “casa mais vigiada do Brasil”, o que, talvez, pode haver sido desfavorável a sua permanência no programa. É difícil tocar em temas como a prostituição, até porque estamos em uma sociedade dividida entre aqueles que a condenam e aqueles que a defendem com o argumento de ser ela uma profissão como qualquer outra, e uma profissão digna. Será? Bom... complexo, e isso envolve inúmeras questões, inclusive questões morais, as quais não mencionarei aqui para não parecer um moralista chato, até porque não é esse o tema desta postagem. Enfim, desconheço as razões que levaram as pessoas mencionadas a recorrerem à prostituição, pois são casos específicos. Mas é certo – e lamentável – que, em sua maioria, os transgêneros recorram a esse tipo de trabalho não por prazer, mas pela falta de oportunidades. No contexto brasileiro temos visto alguns tímidos avanços nesse sentido, mas a falta de entendimento sobre a condição dos transgêneros ainda os condena ao comércio do corpo.


Roberta Gambine Moreira, a Roberta Close. Imagem retirada de Veja.

Obviamente, um artigo sobre transexualismo, mídia e polêmica não poderia deixar de mencionar a musa Roberta Close, pessoa a quem eu tenho cá críticas a fazer, mas que é, a meu ver, digna de grande admiração pela luta de décadas pelo seu reconhecimento legal como mulher. Ao lado dela, temos tantos outros “transexuais e transgêneros que de algum modo trouxeram benefícios para a sociedade [LGBT}, seja lutando em favor das minorias, seja como pessoas públicas que se destacam artística, cultural, científica ou politicamente”, conforme o disposto no site Wikipédia, que apresenta uma lista bem completa de transexuais e transgêneros publicamente conhecidos.

Resta-nos agora torcer pelo futuro de Ariadna – que, esperamos, montará seu centro de estética a despeito de não haver recebido o premio – e por tantas outras pessoas que, como ela, têm um histórico de luta, exclusão e intolerância. E, claro, torçamos por mídias melhores, que contribuam de fato para que futuras Ariadnas, Biancas, Nádias, Robertas e tantas outras tenham uma vida mais digna e com mais e melhores oportunidades nessa sociedade brasileira que, amedrontada e preconceituosa, insiste em permanecer na ignorância sobre temas que, como esse, vivem a lhe bater à porta.



Referências:

Anônimo. Anexo: Lista de transexuais e transgêneros publicamente conhecidos. In: Wikipédia. S.d.

ANÔNIMO. Curiosidades sobre Big Brother. In: O guia dos curiosos. S.d.

ANÔNIMO. E Deus criou a mulher. Ou quase. In: JC OnLine. Recife, 19 jun. 1998.

ANÔNIMO. Morre travesti que se envolveu em polêmica com Ronaldo. In: FOLHA.com. 09 jul. 2009, 23h46.

ANÔNIMO. No embalo da Ariadna, entenda o que é um transexual. In: Hora de Santa Catarina. 19 jan. 2011, 13h11.

BRANDÃO, Lívia. Papo sobre Ariadna, saída do armário e pegação no 'BBB 11'. In: BigBlog. 19 jan. 2011, 12h30.

CIMINO, James. "A realidade é bem mais dura", diz Miguel Falabella sobre "A Vida Alheia". In: FOLHA.com. 18 jul. 2010, 07h44.

MAIA, Maria Carolina. Eliminação de Ariadna coloca o BBB11 no paredão. In: Veja. 19 jan. 2011, 17h32.

MIRZEIAN, Clarissa. Primeiro Paredão do BBB 11 contempla a diversidade. In: E-Band. 17 jan. 2011, 13h55.

REDAÇÃO. “BBB 11": "Só os rejeitados pela sociedade", diz Jana sobre Paredão. In: JC Online. 18 jan. 2011.

S.C.C. com agências. Nádia Almada enfrenta grave depressão. In: Correio da Manhã. 05 set. 2005.

SANTOS, Eliane. Ex-marido de Ariadna, do 'BBB 11', sofre retaliação de torcida de futebol no Orkut. In: ego. 12 jan. 2011, 21h26.

SOUZA, Richard; AMARAL, Luiz Cláudio; COSTA, Fabrício. Ronaldo: confusão com travesti no Rio. In: globoesporte.com. 29 abr. 2008, 08h46.

VALLADARES, Ricardo. Estranho no ninho. In: veja on-line. Edição 1868. 25 ago. de 2004.

ZYLBERKAN, Mariana. Globo na mira de polêmica. In: Diário de S. Paulo. 13 jan. 2011, 18h02.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Shakespeare Apaixonado

Título original: Shakespeare in Love
Ano: 1998
Direção: John Madden
Roteiro: Tom Stoppard, Marc Norman
Gênero: Romance
Origem: Estados Unidos/Inglaterra
Duração: 122 minutos


Quero poesia em minha vida. E aventura. E amor. Acima de tudo amor. Não a atitude simulada do amor... mas o amor que avassala a vida. Incontido, desgovernado, como um motim no coração. Que nada possa deter. Nem a tragédia nem o êxtase.


São esses os apaixonados dizeres – enunciados pela doce personagem de Gwyneth Paltrow – com os quais o telespectador é brindado ainda nos primeiros minutos de Shakespeare Apaixonado, filme vencedor de sete óscars no ano de 1999. Nesse ponto, devo confessar a minha provável inaptidão para comentar essa obra de John Madden, tal é a variedade de opiniões por mim identificadas nas tantas pesquisas que fiz na internet. Os sete óscars a ela cedido – em especial no tocante às categorias Melhor Filme, Melhor Atriz (Gwyneth Paltrow) e Melhor Atriz Coadjuvante (Judi Dench) são alguns dos pontos nevrálgicos dos críticos ao comentarem a obra, que, a princípio, eu defino como belíssima, reconhecendo, porém, o fato de a mesma deixar o telespectador com a sensação de haver-lhe faltado algo.


Nesse âmbito, se eu quisesse (e pudesse) listar o que falta a Shakespeare Apaixonado, eu colocaria, como primeiro elemento da lista, a consistência. Embora ciente da possibilidade de estar eu equivocado, parece-me ser inconcebível ao telespectador moderno uma história de amor – estória, para este caso – alicerçada em uma premissa inverossímil, como é o caso do romance entre Will (Joseph Fiennes) e Viola (Gwyneth Paltrow). Esta última, antes mesmo de conhecer o seu amado, já era, de alguma forma, apaixonada pelo mesmo, tal era o seu encantamento diante das peças que assistia no magnífico The Rose Theatre, onde, na vida real, Shakespeare realizou os seus primeiros trabalhos, acredita-se. O personagem de Fiennes, por sua vez, apaixona-se pela heroína à primeira vista, deslumbrando-se com a sua imagem ao conhecê-la durante uma valsa. E aí temos um outro problema: enquanto Will descreve para seu companheiro a bela mulher que contempla diante de si, a sua descrição não corresponde ao que o telespectador vê de fato.


Aqui, vale tecer alguns comentários sobre a atuação de Paltrow em Shakespeare Apaixonado. Dela, pode-se dizer, em primeiro lugar, que é uma mulher de aparência comum, dando vida a uma personagem talvez doce demais para o que um homem com o perfil psicológico do personagem Will pudesse esperar de uma mulher. Isso, porém, o telespectador releva sem dificuldade. Em segundo lugar, menciona-se o fato de que a interpretação afetada de Paltrow nas manifestações do exacerbado amor de sua personagem soa como sarcástica, o que, a despeito de tratar-se de uma comédia, não me parece ser a intenção de Madden. O amor ali, penso, era para parecer sincero. Tudo isso, creio, deve-se muito à inadequação de Paltrow para o papel, o que me leva a lamentar o fato de Kate Winslet – a Rose DeWitt Bukkater, de Titanic (1997) – haver recusado o papel. Não sejamos, porém, assim tão duros com Gwyneth Paltrow. Ela tem lá os seus momentos de brilho no filme, e, apesar dos pontos negativos, acaba por defender bem a sua Viola. A sua atuação, porém – e disso eu estou certo – não a torna digna de desbancar concorrentes como Fernanda Montenegro e Maryl Streep, como aconteceu.


Ainda focando as atrizes, prefiro não entrar no mérito da premiação com o óscar à Judi Dench, não podendo negar, todavia, que as três ou quatro aparições da atriz como a imponente Rainha Elizabeth, somando algo próximo de seis ou sete minutos, são o suficiente para que o telespectador perceba que Dench não está ali a passeio. Acredito haver uma certa tendência a exaltarmos a atuação de atores idosos no cinema, não sei se por respeito ou se pelo brilhantismo que o tempo, naturalmente, atribui a esses atores, mas isso nem me parece lá de grande relevância. A personagem de Dench, com sua fala incisiva, sua expressão lacônica, dividida entre a consciência da dureza de ser mulher e a necessidade de fazer a justiça dos homens, coloca a atriz em alto patamar, rendendo-lhe, sim, muitos merecimentos.


Quanto a Fiennes, não resistirei a mencionar que o mesmo não está, infelizmente, tão, digamos, “exposto” como estaria quatro anos mais tarde em Mata-me de Prazer (2002). A despeito dessa lástima, porém, o ator defende bem o seu papel, dando vida a um Shakespeare romântico, engraçado, o que fica difícil de imaginarmos sobre o dramaturgo à leitura de tragédias como Otelo, Hamlet e mesmo Romeu & Julieta. A meu ver, Fiennes aparenta ter a idade certa para o papel (tinha apenas 28 anos na ocasião das gravações, mas o personagem aparentava estar na casa dos trinta) e a aparência pertinente ao que o diretor pretendia: sedutor, com um olhar que, de acordo com a necessidade, se alterna entre o frio, o piedoso e o apaixonado. Isso, porém, ainda não o torna digno do óscar e fico feliz que a Academy of Motion Picture Arts and Sciences não haja cometido em relação a ele o mesmo erro que cometeu ao premiar Paltrow. Já a indicação do mesmo na British Academy of Film and Television Arts, na categoria Melhor Ator, e no MTV Movie Awards, na categoria Melhor Revelação Masculina (e que revelação...!) parecem-me justas.


Talvez pela mescla de romance, comédia e fatos e personagens reais, Shakespeare Apaixonado chegue ao final como uma obra inacabada, ou mesmo como uma obra que tinha às mãos tudo o que lhe era necessário para ser ainda maior, não sabendo aproveita-lo, contudo. Isso, porém, está longe de reduzi-la a um filme ruim. Muito pelo contrário, tratamos aqui de uma obra bastante corajosa por apresentar um Shakespeare sensível e “gente boa” quando tanto especula-se acerca do caráter, sexualidade e religiosidade do verdadeiro William Shakespeare. Uma bela direção de arte, um impecável figurino e texto apaixonado. Tudo isso coloca o filme em merecido destaque, efetivando-o como aquela estória que a gente pode assistir por repetidas vezes com o mesmo encantamento. Enfim, um bom filme. Um bálsamo para almas, tal como a minha, apaixonadas...


(...)


– Queres partir? Ainda não amanheceu. Do rouxinol – não da cotovia – era a voz que te feriu o ouvido. Canta assim todas as noites. Ouve, amor, é o rouxinol.


– Foi a cotovia... anunciando o sol... não o rouxinol. Olhe, amor, o rubor das luzes invejosas que tinge as nuvens no levante. As velas noturnas se apagaram. A aurora pousa os pés na crista das montanhas. Devo partir para viver... ou ficar e morrer.


– Não é a luz do dia que vês. É um meteoro, talvez, que o sol exala para guiar-te esta noite como uma tocha a caminho de Mântua! Fica mais um pouco. Ainda é cedo.


– Que me prendam. Que me matem. De bom grado teu desejo vou cumprir. Prefiro ficar. Não quero partir. Oh morte, és bem-vinda! Julieta assim o quer.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Considerações sobre o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência e a sua luta de todo dia


Esta imagem, comumente vista em páginas de discussão online sobre a temática da deficiência, eu retirei do blog da vereadora Edileuza (Tucuruí/PA), do PSC.

Uma breve consulta à internet foi o suficiente para proporcionar-me, há pouco, algum contentamento, visto que a mesma me notifica, em inúmeros resultados de uma busca ao Google, sobre ações promovidas pelo mundo afora em comemoração ao 3 de dezembro, escolhido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para mais intensa conscientização acerca da condição e demandas da pessoa com deficiência. Assim, temos o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, em 3 de dezembro, e o Dia Nacional de Luta da Pessoa Portadora de Deficiência (sic), em 21 de setembro, celebrado nesta minha pátria amada. Dezembro, aliás, consta de inúmeras datas comemorativas que, de algum modo, se relacionam dentro dessa temática inclusiva. Dentre elas, parece-me pertinente destacar ainda o Dia da Criança Defeituosa (sic), em 9 de dezembro, o Dia da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 10 de dezembro, e o Dia do Deficiente Visual, em 13 de dezembro.


Essas, diferentemente de datas comemorativas como o Natal, não existem para o culto a uma grande personalidade ou a um grande feito, constituindo-se, sim, como dias para a reflexão acerca do quanto há ainda por fazer no âmbito da inclusão e respeito concreto à cidadania do outro que não enxerga; que se locomove com dificuldade; que aprende/assimila as informações em tempo mais longo que os demais, ditos comuns; que não escuta; enfim, de todos aqueles que, por apresentarem-se física, mental e/ou sensorialmente fora do padrão de normalidade socialmente estabelecido, carecem de terem atendidas as suas peculiaridades, promovendo-se, assim, a concretização do ideal de igualdade e respeito à diferença. Essa, aliás, é a mais complexa e bela dualidade não raro trazida à baila nos contextos de discussão/estudo em inclusão social.


Pensar a luta cotidiana, todavia, é pensar, também, as histórias de sucesso; os bons resultados; os pontos de chegada alcançados por tantos indivíduos que, com suas cadeiras, bengalas e afins, perseguiram, obstinados, por anos a fio. Daí a pertinência de chamarmos de “data comemorativa” esse 3 de dezembro. Histórias de sucesso, conheço muitas, o que coloca-me na condição de um ser humano privilegiado enquanto colaborador de uma instituição que, a despeito das barreiras que se lhe apresentam nesse sentido, segue firme no seu propósito inclusivo. Assim, me vejo, todos os dias – seja no trabalho seja na vida pessoal –, premiado pela convivência com o ator surdo, com o jornalista com paralisia cerebral, com o cientista social cego, a psicanalista com baixa potência visual, o lingüista com limitações locomotoras e tantos outros.


Esses, no entanto, não devem ser tomados como modelos de pessoas com deficiência, o que, se ocorre, só faz ocasionar maiores preconceitos e promoção dos estereótipos. No contexto inclusivo há ainda gente – e gente bem intencionada, aliás – presa às concepções estereotipadas de indivíduos com limitações, defendendo, assim, a noção de que esses vivem em constante processo de superação. Não raro me chegam relatos de pessoas que, ao cumprirem com uma mera obrigação – como apresentar um bom trabalho acadêmico ou cumprir com seus horários no trabalho – tiveram suas ações exaltadas por trazerem consigo o estigma da deficiência. Assim, a deficiência se nos apresenta, ainda, como algo negativo a ser superado, por exemplo, por uma notável inteligência, uma inquestionável índole ou um generoso dom para as artes.


Promover as minorias por via de sua exaltação parece-me não ser um bom caminho, uma vez que, no contato com a realidade, não raro gera frustrações, além de ofuscar os impasses ainda existentes nesse contexto. Nesse 3 de dezembro, o Estadão noticiou que países desfavorecidos concentram 80% de incapacitados (sic), fazendo uma explanação sintética de dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o Estadão, dos 65 milhões de pessoas que necessitam de cadeira de rodas, apenas um número irrisório tem sua demanda atendida nas regiões mais pobres. A notícia apresenta ainda números alarmantes em se tratando de empregabilidade e políticas de acesso para pessoas com deficiência. Partindo do contexto mundial para a minha vida pessoal, apresenta-se-me a irmã de uma amiga que, fisicamente limitada por ocasião de uma paralisia cerebral, só recentemente, aos 40 anos de idade, conseguiu a cadeira de rodas, a qual, finalmente, proporciona maior conforto para si e sua família. Família essa, aliás, que, não resignada com o diagnóstico médico de que a criança recém-nascida, hoje mulher, não suportaria por muitos dias, enveredou-se por uma constante luta para oferecer-lhe a qualidade de vida da qual é digna, dispondo apenas das deploráveis condições do SUS e de um e outro programa.


Como se vê, as histórias de sucesso trazem consigo ou atrás de si uma longa e dificultosa jornada, sobre a qual todos os setores sociais devem ter plena ciência para que se trabalhe mais arduamente pela atual e pelas próximas gerações de pessoas com deficiência. Avançamos muito, é verdade. De uma época em que usuários da Língua de Sinais eram tidos como criminosos e crianças com deficiência eram sacrificadas, passamos a uma época em que se discute a educação prioritariamente inclusiva, a acessibilidade, a inclusão digital e as tecnologias assistivas. Urge, porém, que avancemos muito ainda, cientes da não equivalência entre “histórias de sucesso” e “vitórias”, dado que uma vitória, no contexto da inclusão, deve significar a aceitação, o respeito e a acessibilidade plena, e para chegar a tanto, o Brasil e o mundo têm ainda um bom caminho a percorrer.


Quanto ao trabalho com pessoas com deficiência, devo dizer do mesmo enquanto um trabalho extremamente humanizador e inquestionavelmente generoso, uma vez que, mais que uma remuneração, proporciona um constante aprendizado e me forma como um ser humano mais humano, envolvido e solidário. Assim, apenas hoje, à beira dos 30 anos, fico a me perguntar onde eu estava, o que estava eu fazendo durante todo esse tempo para não haver me envolvido antes com o edificante trabalho em prol desse grupo do qual eu faço parte. Assim, me torno mais humano a cada vez que, por exemplo, ajudo o meu amigo com limitações locomotoras a se virar no banheiro ou oferecer-lhe o braço para descer uma escada, enquanto o mesmo, fazendo uso da visão perfeita da qual não disponho, fica atento ao atravessarmos uma avenida ou ao aguardarmos o meu ônibus. Assim, agimos um pelo outro e ambos pela construção de uma sociedade mais tolerante, igualitária e inclusiva.
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sem título

Bem me lembro. Foi em 1996. Estava eu na sexta série e uma professora de português – a Prof.ª Aparecida Fulanete – apresentou-nos uma proposta de atividade: a criação de um poema. Não recordo os detalhes, mas me lembro bem da minha inaptidão para esse tipo de coisa. Arriscava contos, mas não arriscava versos como hoje arrisco. Deu-se que minha irmã socorreu-me ditando-me este belo e singelo poema, criado por ela assim, de supetão, enquanto estávamos nós à mesa da copa fazendo nossas atividades escolares. E dá-lhe a inspiração dos amores adolescentes, lembrados por toda a vida...



[Sem título]
Patrícia Silva

Quantas vezes me vi amando
e acordado me vejo sonhando.
Sonhando com um verdadeiro amor...
E, cruelmente, sou despertado de dor.
Dor, ao perceber que me engano,
pois, quando me vejo amando,
descubro a ilusão.
Pobre deste coração,
que, ao pensar que ama,
é consumido nas chamas
e padece.
Às vezes, pobre de mim,
que, por um amor sem fim,
vivo à procura constante.
Um dia, de tão distante,
com certeza cansarei.
Quem sabe então esquecido
ele se torne vivo.
Quem sabe não seja engano
e este desejo insano
de amar se torne real.


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Poema deboriano

E não é que, durante uma excelente aula de Língua Portuguesa, o deus da inspiração acertou em cheio a minha amiga Débora e ela, inventando de arriscar uns versos, acabou por dedicar a mim esta bela e singela poesia? E assim eu, dado a dedicar meus versinhos a outrem, foi finalmente poetizado também... Obrigado, amiga! Quero fazer felicidade...


Alex Gabriel da Silva.
Nascido no Brasil.
Criado em Parságada.

Poeta brasileiro.
Amante das palavras.
Sem medo de ser feliz.

Comprou um cantinho.
Foi morar sozinho.
Foi fazer felicidade.

Da sua amiga!
Débora

11/09/2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Sobre formaturas, aprendizados e saudades...

Há alguns dias – no dia 11 de julho, para ser mais preciso – fez um ano que me formei em Letras. Devo dizer que dois dias antes da ‘comemoração’ desta data, me fiz presente na cerimônia de colação de grau de uma pessoa muito querida, vendo-me às voltas com as lembranças da minha formatura. Há quem diga que toda cerimônia de colação de grau é a mesma coisa, que todas seguem o mesmo ritual etc. É verdade. Já assisti a inúmeras delas e percebo que todas são exatamente a mesma coisa. A diferença – e que diferença! – existe apenas para quem se forma; para quem, naquela ocasião, segura, vitorioso, o canudo como um troféu pelos anos de dificultosa lida...


Bons tempos aqueles...


Da faculdade, eu trouxe poucos, mas bons amigos! Alguns ‘inimigos’, contra a minha vontade; boas e más lembranças; bastante pendências, e muito, mas muito aprendizado. Bom, opto por não falar muito sobre, pois temo acabar caindo naquela pieguice sobre “o quanto aprendemos na faculdade” etc. e tal. Talvez até pudesse fazê-lo, mas falta-me, neste momento, inspiração para tanto. Sendo assim, limito-me a dizer que, na ocasião da cerimônia de colação de grau a qual assisti recentemente, vi-me tocado não só por ver a conquista de uma pessoa querida, mas também por ver uma outra pessoa querida – o patrono da turma – proferir um belíssimo discurso, durante o qual ele versava sobre superação, solidariedade e valores humanos. Belas palavras...


Assim, impossibilitado de postar aqui tão belo discurso, perguntei-me por que não postei aqui o meu discurso de formatura há mais tempo. Não que, livre de toda modéstia, eu esteja a dizer que o meu discurso é uma verdadeira obra-prima. Nada disso. Ocorre apenas que o mesmo foi aplaudido, foi elogiado e, principalmente, foi redigido com todo o meu afeto e orgulho por ser orador daquela turma. Só eu sei o quão significativos foram para mim os quatro anos de graduação. Aliás, apenas quem vive é quem sabe, e não me refiro apenas à cerimônias de colação de grau...


Sendo assim, posto a seguir o meu discurso, que me traz agora a lembrança daqueles intensos anos de faculdade, os quais eu não gostaria de vivenciar de novo, confesso, mas que serão para sempre lembrados como bons e saudosos tempos.



Discurso


Em primeiro lugar eu gostaria de agradecer a Deus, pedindo a Ele que abençoe o representante do reitor, assim como os demais à mesa: nossa paraninfa Profa. Vera, nossa patronesse Profa. Arabie, e professores Clézio, Raquel e Pedro, que por razões pessoais não pôde se fazer presente, embora assim se faça em nosso pensamento. Aproveito para agradecer à turma por me haver escolhido como seu orador. E, já que a turma me escolheu, eu lhes peço licença para esquivar-me do discurso pra lá de clichê que eu ouço em toda colação de grau. Falam da inocência que tinham ao ingressar na Universidade, do processo de conhecimento, das brigas e das festas que serviram sempre para manter unidos os colegas. Não! Recuso-me a dizer isso. Não porque nossa turma haja sido especial a ponto de não vivenciar o que vivenciaram todos os que nos antecederam. A minha recusa justifica-se tão somente pelo fato de eu, e creio que meus colegas hão de concordar comigo, estar levando desse curso algo que está muito além de ocorrências corriqueiras, panelinhas, amizades, festinhas... Nós estamos levando aquilo no que nos tornamos ao longo do curso.


Numa aula de Sociologia, no 2º período do nosso curso, chegamos a ouvir da nossa Professora Adriana Penzim que nós nos transformamos a cada segundo em algo novo e jamais, em circunstância alguma, nos será possível voltar a ser o que fomos há um segundo, como bem diz também uma canção de Lulu Santos...


Nós que nos encontramos aqui, vestidos de beca, tão bonitos, não somos aqueles que ingressaram na PUC Minas, tão tímidos, sem grandes opiniões formadas, de fato; curiosos em conhecer as mediações da Universidade. Desta Universidade da qual tanto desejamos sair... Sim, porque nem tudo foram rosas durante o Curso de Letras.


Em verdade eu penso que foram os espinhos os protagonistas da nossa trajetória. Não digo isso porque tivemos trabalhos em excesso, até porque quando se entra em uma Universidade, está-se propondo a isso. Os espinhos foram devido à turbulência na nossa mente diante do espetáculo do conhecimento. E como desejamos, inocentemente, que isso acabasse logo, pois, como bem diz a professora Vera Lopes, nossa tão querida paraninfa, “quem tem consciência, sofre.”.


O próprio orador que lhes fala chegou a afirmar, quando se viu, enfim, no 8º período, que o tão esperado canudo nada mais é do que a nossa carta de alforria. Sim! Não que tenhamos concebido a Universidade como uma prisão. Não!... Acreditamos, porém, que muitos de nós, se não todos, vimos a Universidade como o lugar que nos tirou da passividade, da indiferença perante o mundo, convidando-nos a ser sujeitos que questionam, que se posicionam, que opinam, que pensam. Eis a retirada dos grilhões da ignorância e, contraditoriamente, a colocação dos grilhões da dúvida, do questionamento constante e da inquietação permanente.


O.K.! Deixamo-nos transformar, e não mais voltaremos a ser o que éramos. Portanto, se isso não tem volta, que tenhamos nos tornado pessoas conscientes do próximo; pessoas mais humanas; pessoas capazes de entender que a diversidade, um emaranhado de línguas, culturas e raças, é a coisa mais maravilhosa da criação; que tenhamos compreendido de fato que, com uma só palavra, se fez o mundo; que tenha se eternizado em nós aquele menino que, em Manoel de Barros, “exagerava o azul”, ou aquele personagem que, por Guimarães Rosa, tem em um único parágrafo a expressão de toda a sua solidão; que tenhamos aprendido, com as aulas de Cultura Religiosa, que Deus é muito, mas muito humano, e é isso que Ele quer que sejamos; que tenhamos aprendido, com as aulas de Sociolingüística, que a língua de um povo expressa muito do que ele é e, com as aulas de Lingüística Românica, que essa história já é antiga e complexa... E que tenhamos aprendido, principalmente, que é preciso ter um olhar poético sobre a vida, vivendo-a com força, com firmeza, com caráter, mas sempre com delicadeza...


Meus caros colegas, cuja presença me será tão saudosa, que no exercício de nossa profissão, a qual é denominada de tantas formas – mestres, professores, educadores, formadores – tenhamos sempre como lema as palavras de Moysés Maimonides, proferidas pelo Grande Guimarães Rosa em seu discurso de formatura, no ano de 1930:


“Senhor, enche a minha alma de amor pela arte e por todas as creaturas. Sustenta a força do meu coração, para que esteja sempre prompto a servir ao pobre e ao rico, ao amigo e ao inimigo, ao bondoso e ao malvado. E faz com que eu não veja sinão o humano, naquelle que soffre!...”


E, se não pode faltar a poesia, eu não vou mais me estender, encerrando o meu discurso com uma poesia, pois poesia diz tudo. Faço minhas, então, as palavras de Cora Coralina:


“Não sei... se a vida é curta ou longa demais pra nós, Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser: Colo que acolhe, Braço que envolve, Palavra que conforta, Silêncio que respeita. Alegria que contagia, Lágrima que corre, Olhar que acaricia, Desejo que sacia, Amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja curta, nem longa demais Mas que seja intensa Verdadeira, pura ... Enquanto durar.”


Obrigado a todos. Um grande beijo.


Alex Gabriel

Belo Horizonte, 11 de julho de 2009.



Discurso proferido em ocasião da Solenidade de Colação de Grau da turma do Curso de Letras da PUC Minas, unidade São Gabriel (2º/2005 – 1º/2009).


sábado, 10 de julho de 2010

"Educação não é mercadoria"

Há muito eu vinha planejando postar neste meu diário virtual o meu texto “A educação pelo viés capitalista: mero produto mercadológico ou direito do cidadão?”, premiado no I Concurso de Redação do Sindicato dos Auxiliares de Administração Escolar de Minas Gerais (SAAEMG). Inflar o meu ego está, obviamente, entre os meus objetivos ao publicar aqui o meu texto. Não é esse, porém, o meu objetivo primeiro. A grande verdade é que não tive ainda a oportunidade de fazer, mais formalmente, os meus agradecimentos as tantas pessoas que contribuíram e/ou que comemoraram comigo esta conquista.


Parece-me válido fazer os meus agradecimentos seguindo a ordem dos acontecimentos, começando, portanto, pela minha querida amiga Rosimária Ruela, colega de trabalho e a mais nova mamãe, por me haver contado sobre o concurso, incentivando-me a produzir o meu texto e enviar. Agradeço a minha querida amiga Débora Silva e ao meu caro (e charmosíssimo) ex-professor Clézio Roberto, por haverem lido, opinado e revisado o meu texto. Agradeço às pessoas do Núcleo de Apoio à Inclusão do Aluno com NEE da PUC Minas (NAI) – representados aqui pelo nome da Prof.ª Maria do Carmo Menicucci –, pelo tamanho afeto que me foi dado no dia da entrega do prêmio. Agradeço, de coração, aos membros do SAAEMG – aqui representados pelo nome de seu presidente Carlúcio Kleber Borges –, tanto pelo prêmio quanto pela presença no dia da entrega. Ao meu pai, por haver ido até o meu trabalho e levado o meu prêmio para casa (risos). Ao Paulo Cruz, designer e ilustrador, que produziu a caricatura abaixo, publicada no Informativo No Ponto junto à notícia da premiação. A todos os membros da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (CONTEE), pelo carinho e cordialidade com a qual nos receberam no XIV CONSIND da CONTEE. Agradeço ao Sérgio Messias Guimarães e à Andréia Pereira – 1º e 2º lugares do concurso – por me haverem dado a oportunidade de conhece-los, partilhando comigo as idéias acerca do cenário educacional brasileiro.


Enfim, é muita gente boa. Impressiona-me como alguns, ao serem ovacionados, inflam-se de auto-estima e esquecem-se de imediato das tantas pessoas que têm parte significativa em sua conquista. Que muitas vitórias venham ainda, e que, com a mão Dele sobre mim, eu siga valendo-me da palavra para brigar pelo respeito, pela inclusão, pela igualdade e pela vida de todo e qualquer ser humano. Um grande beijo.



A educação pelo viés capitalista: mero produto mercadológico ou direito do cidadão?


A educação - ao lado da saúde, do emprego, da habitação e do meio ambiente – figura no campo das necessidades básicas do ser humano. Verifica-se, porém, que, desde a nossa colonização, a educação apresenta-se deficiente, uma vez que marcada pela seletividade ao estabelecer modelos educacionais específicos para cada classe social, a saber: um modelo “acadêmico”, voltado para a burguesia, e outro mais primário, destinado às classes menos privilegiadas, sendo isso nada mais que uma cópia dos modelos educacionais europeus de então. Em uma sociedade acentuadamente hierarquizada, esforçava-se para manter como nula qualquer possibilidade de mobilidade social, oferecendo-se um sistema de ensino privado, isto é, dispendioso, o que já pressupunha o seu caráter seletivo e exclusivo, e ministrando, nesse modelo educacional burguês, conteúdos desprovidos de finalidades práticas para o dia-a-dia, o que levava à desistência o indivíduo pobre que por ventura ingressasse em uma escola inerente ao referido modelo.


A manutenção desse modelo educacional em detrimento às classes menos favorecidas, teve sucesso até a década de 20, quando começa a se proliferar no Brasil a chamada classe média. O surgimento dessa nova classe provoca o enfraquecimento do então modelo educacional voltado para atender apenas duas parcelas da população – a elite e o povo. A educação, então, vai se “deselitizando” e distanciando-se dos traços europeus, uma vez que era por via dela, a educação, que a classe média buscava ascensão social. Isso, todavia, não alterou em grande parte o cenário que se apresentava à classe desfavorecida de fato, uma vez que as políticas educacionais nesse âmbito não mudaram e o modelo educacional voltado aos indivíduos de baixa renda não era via de acesso a outros níveis de ensino.


A meu ver, esse quadro pouco ou nada mudou na atualidade, o que se confirma na explanação feita pela filósofa Marilena Chauí, em aula de inauguração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, em palestra intitulada “Educação: direito do cidadão e não mercadoria” (20 de fevereiro de 2003). Chauí denuncia a resignação do povo brasileiro diante da existência de um ensino privado dito de qualidade e um ensino público dito ruim. Com base em Chauí, é possível afirmar que nossos atuais modelos educacionais permanecem trabalhando na manutenção da desigualdade e da exclusão, haja vista que, tal como ocorrido antes da década de 20, um modelo educacional dito de qualidade continua a ser restrito à classe média alta e superiores. Em outras palavras, a educação de qualidade é privatizada, ao passo que o ensino público, nos níveis fundamental e médio, é precário e de baixa qualidade, o que leva Marilena Chauí à conclusão de que a educação reduziu-se à mera mercadoria, quando devia ser efetivamente direito do cidadão.


No que concerne ao Ensino Superior, não me parece exagerado dizer que cursar uma faculdade passou a fazer parte da tão enaltecida moda, sendo, assim, equivalente à preocupação com a beleza e a estética. Em minha opinião, aliás, os cursos pré-vestibulares – que abrem e fecham todo dia – deviam promover, um pouco, a reflexão acerca do que o mundo espera de jovens universitários. Aposto todas as fichas em que, desta forma, dar-se-ia uma boa “peneirada” antes da data dos exames, diminuindo-se, assim, a má qualidade nas salas de aula do Ensino Superior. Até então, porém, tudo o que se tem é a fraca ressonância de uma militância universitária de outrora.


Um ex-professor da faculdade, a quem eu tenho como o eterno mestre Pedro Perini-Santos, bem soube denunciar a concepção de educação como mercadoria, quando escrevia para o Caderno de Cultura do Jornal Hoje em Dia. Munido da característica ironia desses escritos, Perini-Santos (Hoje em Dia, 06 de março de 2000) questionava a absurda banalização a qual foi submetido o conceito de educação, sendo que professores e alunos deixaram de sê-lo, para tornarem-se “funcionários e clientes”. Nesse âmbito, ainda segundo o autor, a educação – outrora sinônimo de humanização, de formação de sujeitos aptos a atuar sobre o mundo em que vivem – regride à mera condição de produto, cuja qualidade é avaliada pelo grau de “facilidades” que o professor oferece ao aluno, durante o processo que devia ser de aprendizagem.


Note-se o pertinente emprego da palavra “relação”, a qual, lamentavelmente, informa que não parte apenas do aluno a concepção equivocada de educação, mas também dos próprios diretores, educadores, enfim!, do grupo que tem o poder de reverter essa situação. E não me parece nada edificante que a própria educação, esperança da humanidade, perdendo apenas para a família, reproduza em si as relações de um mundo capitalista que ela tanto deve denunciar. Ora, eu sei o quanto essas relações são complicadas, sei que as instituições de ensino privadas precisam manter-se, sei o quão arraigadas estão na mente dos brasileiros concepções equivocadas de educação... Enfim. Isso, porém, não anula a minha consciência de que, no que toca a educação, as coisas estão, grosso modo, um tanto esquisitas! Poesia parece-me sempre uma boa pedida nessas horas, tanto que, nas minhas considerações finais, recorro aos versos do outrora polêmico poeta Neimar de Barros, que, “no vento livre do seu arbítrio”, questionava veementemente o leitor: “Quantos anos você tem? / Você tem idade para tomar vergonha / Ou a vergonha se consumiu na sua sociedade de consumo?”.


É, Neimar... Parece-me que a vergonha já se deixou absorver pela tal sociedade de consumo, sim. E junto dela se foram o caráter, a dignidade e, até, a educação... Mas há esperança, e, assim como eu, há quem não duvide disso.



Disponível em: I Concurso de redação do SAAEMG.