quinta-feira, 23 de maio de 2019

O abraço dele

Idealista, expressa suas utopias nas rodas de amigos, prevalecendo sempre a calma e o jeito de menino que lhe é peculiar. Nunca o vi levantar a voz, a não ser em ocasião de uma pilhéria ou coisa que o valha.

Às vezes ele me cumprimenta, num aperto de mão firme que, com um pouco de sorte, traz de brinde um afago nas costas, o máximo a que dois homens têm direito de chegar. As mais próximas, vejo-o envolve-las em um abraço terno, daqueles demorados, durante os quais já se inicia uma conversa repleta de afetos. Nada há nele da masculinidade tóxica que ainda tanto nos vitima.

Apenas observo, imaginando-me dentro do seu abraço de vinte segundos.

Se me deixo levar pela distração, pego-me a imaginá-lo na intimidade, sobre a qual ele, discreto e avesso a vulgaridades, mantém o doce mistério. Imagino-o cuidadoso no toque. Não cheio dos melindres típicos daqueles que têm medo de amar. Refiro-me ao cuidado de quem caminha na ponta dos pés a fim de não despertar traumas adormecidos. Ele não é homem de remexer baús empoeirados ou de cutucar feridas. Portanto, há de explorar cuidadosa e minuciosamente o templo de sua peregrinação. 

Sobressaltado, procuro desviar o pensamento, como que receoso de ser pego em meus devaneios. Não quero que ele me veja dessa forma, como alguém que tem sobre ele esse tipo de pensamento. Para ele, quero ser apenas o nerd esquisito com o qual o máximo a que se pode chegar em termos de relacionamento é o cumprimento amistoso. Ver-me como sou equivaleria a ter-me em baixa conta, e, diante de tal opção, eu prefiro continuar a ser ninguém.

Um dia eu o abraço no Natal, o presenteio com um livro e, quem sabe, se eu tiver coragem, teço uns versos falando de todo o meu amor...

terça-feira, 21 de maio de 2019

Bandeiras que desvirtuam

Quando vejo gente pedir tolerância e se tornar agressiva diante do contraditório, quando vejo estudantes e professores se valendo de expressões do tipo “vai tomar no **” durante uma manifestação pela Educação ou quando vejo o nosso país – e o mundo – seguirem sendo o que são a despeito das tantas experiências vividas e tantos modelos políticos experimentados, me pego refletindo sobre o quanto permitimos que ideologias prevaleçam em detrimento de reais valores e princípios.

Compreendo o quanto se tem mostrado arriscado falar de moral e valores atualmente, dada a conotação negativa que, com o recente avanço conservador, esse conceito pode ter para muitos. Aqui, no entanto, não falo de valores com a ideia de privação das liberdades individuais – das quais sou também fervoroso defensor –, mas, sim, dos valores que verdadeiramente exaltem o ser humano de modo incondicional, e não apenas enquanto ele pensa como nós ou enquanto vota em X ou Y.

Quando a empatia, em lugar de uma realidade interior, restringe-se a nada mais que a reprodução de um discurso ideológico, é comum que se saiam pelas ruas empunhando-se bandeiras e bradando-se expressões como “mais amor por favor” e afins, mas tocando o terror na vida dos outros na realidade do dia a dia. Quando temos um senso ético profundamente arraigado, não somos seletivos em nossa indignação, apontando a corrupção de uns e fazendo vista grossa para a de outros. Quando temos a verdadeira liberdade como ideal, não nos enveredamos pelo debate acerca da ditadura mais camarada.

E neste ponto me parece válido exaltar a importância da Educação enquanto um direito fundamental, desde que bem aplicado. Sujeitos expostos a uma Educação embasada na autorresponsabilidade, no autoconhecimento e no real compromisso com toda e qualquer criatura humana – independentemente de raça, gênero, classe social, inclinações ideológicas e afins – alcançam a vida adulta sem enaltecer mitos e sem se prender a homens que se fizeram grandes com o bem realizado no passado, mas desvirtuados com o curso do tempo.

E por falar em virtude, é inevitável que me venha à lembrança as palavras da saudosa Elke Maravilha (1945 – 2016), que – apesar da natureza profundamente humanitária que a fez madrinha dos gays, dos presidiários, dos portadores de hanseníase e das prostitutas – criticava firmemente as bandeiras. Não por intencionar oprimir, mas por julgar que quaisquer valores, quando saídos do coração, subidos à cabeça e convertidos em bandeiras, se desvirtuavam.

Essa pode parecer uma opinião simplista para muitos, mas facilmente verificada na triste realidade da hipocrisia nossa de cada dia... Realidade essa na qual se fala de tolerância para em seguida excluir pessoas queridas das redes sociais em razão de escolhas políticas. Realidade essa na qual “homens de bem” defendem o partido Brasil, mas desde que alguns, com peculiaridades indesejáveis, não estejam sob os holofotes desse Brasil.

E, assim, resistindo à necessária e urgente viagem ao nosso interior, seguimos à direita, à esquerda, mas todos, sem exceção, em marcha vertiginosa para a beira do abismo, que é onde, finalmente, gozaremos da tão aclamada igualdade. Só que negativamente orientada...

quarta-feira, 15 de maio de 2019

O professor que me habita

Eu trago comigo um desejo – quase um sonho, pode-se dizer – que, devido aos rumos que eu permiti que a minha carreira profissional tomasse após a conclusão da licenciatura, bem como a limitações pessoais que eu ainda não tive culhões para ultrapassar, eu não pude ainda tornar concreto. O que esse sonho tem de simples, ele pode ter também de absurdo aos olhos de qualquer pessoa minimamente informada quanto ao estado da Educação brasileira. Mas, afinal, que p**** de sonho é esse? É muito simples: ir para a sala de aula. Abraçar de vez essa profissão para a qual, desde os idos tempos de graduação, eu sentia um chamado, mas desde então negligenciava-lo, vencido por uma timidez e por uma exacerbada autocrítica que pouco ou nada me têm ajudado.

Recém-saído de uma dengue que me deu uma boa derrubada e às voltas com reflexões políticas que me deixam um tanto incomodado, optei por não ir para a rua neste dia de luta. A minha ausência na rua, no entanto, não me privou do contentamento diante das ruas tomadas em prol de uma causa que, que não raro, é negligenciada pelo próprio povo (isso pra não mencionar parte considerável dos servidores da própria Educação...).

A opção por não ir às ruas também não me privou da lamentável experiência de ouvir o nosso presidente classificar como “idiotas” os manifestantes, num incontestável desrespeito não só contra os seus concidadãos, mas também contra um princípio democrático que, ao menos por ora, torna válida, necessária e bem-vinda a livre manifestação.

Não, eu não fui às ruas, mas espero, num futuro não tão distante, compensar essa ausência com uma presença garantida e definitiva em sala de aula, no exercício do magistério e na plena expressão daquilo que, talvez, eu tenha vindo para ser: PROFESSOR.

Enquanto não me faço digno de tamanha responsabilidade, sigo ao lado dos que realmente acreditam em nossa tão vilipendiada Educação, vendo nela o caminho principal para a concretização de uma sociedade mais justa, mais empática, mais igualitária e, em todos os aspectos, mais próspera.

Obs.: 

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A pedra drummondiana

A busca pela Verdade, pela felicidade, pela paz ou seja lá como se chame implica a disposição para desafiar as próprias crenças. Crenças essas que não raro se configuram como o obstáculo maior à nossa autorrealização, a maldita pedra eternizada por Drummond em sua singela poesia. Se me assumo como um buscador sincero, preciso estar disposto a colocar as minhas verdades em xeque, tendo por mim sempre o devido respeito para não ir além dos meus limites. Pois essa busca envolve honestidade, mas, definitivamente, não envolve violência contra mim mesmo.

Contudo, vale ter sempre em mente que – da mesma forma que não esperar nada de ninguém é mais saudável do que criar expectativas, vez que, assim, nos prevenimos de grandes frustrações e nos mantemos abertos a gratas surpresas – viver de acordo com nossas crenças sem, no entanto, tornarmo-nos obcecados por elas nos previne da estagnação e nos mantém abertos a novas possibilidades.

Eu acho lindo quando o Pe. Fábio de Melo trata a dúvida como elemento confirmador da fé. Todavia, objetivando evitar o previsível uso de uma personalidade pop como exemplo, retomarei as palavras de um ex-professor em um tempo muito remoto, durante a aula de Cultura Religiosa lá na minha amada PUC: “Gente, eu acredito em Deus, mas eu não tenho certeza de que existe não, tá?”

Muitos dos meus colegas não entenderam, mas eu, particularmente, vislumbrei naquele professor uma fé e uma abertura para a vida que eu jamais lograra alcançar! O tipo de sujeito que, decerto, chegaria facilmente a Deus...

Talvez seja por demais filosófico tudo isso. Basta, porém, que reflitamos nisto: os nossos apegos, as nossas crenças de estimação, as nossas verdades absolutas podem, não raro, ser a única pedra em nosso caminho. O único obstáculo entre nós e uma vida de suprema fe-li-ci-da-de...

quarta-feira, 17 de abril de 2019

A beleza triste das coisas

Madrugada. É sempre madrugada por aqui. Nariz congestionado e vozes na minha mente que não me deixam dormir. Tenho em mim escuridão suficiente para tornar nublado o mais belo dia de sol. Às cegas, tateio o pequeno criado ao lado da cama, na esperança de encontrar no smartphone entretenimento melhor do que a programação que minha abjeta existência é capaz de oferecer. Chegado à teledramaturgia desde a mais tenra idade, vejo nas vidas de mentira das redes sociais um passatempo necessário não necessariamente agradável.

Mergulhado em um estado deplorável no qual nada tenho a perder, acesso o seu perfil e o vejo lá. Em um vídeo – algo raro entre os seus stories, comumente dedicados à frases motivacionais e imagens de deuses indianos – ele pede desculpas pela “cara toda amarrotada” e define como “linda” a manhã chuvosa de então, adjetivo incomum para dias sem sol. Gesto típico de quem, grato pela vida, vê beleza em algo triste como um temporal.

A beleza triste das coisas...

Mais à diante, pede a um vira-latas, encolhido sobre uma almofada, que deseje um bom dia ao “pessoal”. De imediato, passo a invejar o cachorro, cuja existência lhe é, certamente, mais valiosa que a minha, já esquecida entre os tantos e tantos personagens que já contracenaram com ele neste interminável drama da existência. Na vida dele, tal como na minha própria, fui mero coadjuvante.

As emoções provocadas pelo cão tão notoriamente amado me trazem à memória os versos que escrevi há alguns anos, quando a poesia ainda era saída e possibilidade de expressão.

Como deve ser feliz a brisa que te toca.

Quão alegre deve ser o seio que o compraz.
Grande é o desejo e a saudade que sufoca.
Do seu beijo eu sou mendigo.
Um poeta pertinaz.

Escrevi, na lousa da memória, bem como em algum papel que já não tenho mais.

Olho, pela última vez, a face serena do recém-desperto homem-de-meu-mesmo-nome, antes de deixar o aparelho de lado. Uma punheta tão desesperada quanto ligeira impede a lágrima que se anuncia. Respiro. Três da madrugada. É sempre madrugada por aqui... O que começou como garoa se intensifica lá fora. Os meus cães, igualmente amados, estão também em segurança. Diferente de mim, que, arfante e prestes a cair no sono, juro pra mim mesmo que, um dia – no fatídico dia em que eu virar gente – ainda hei de compartilhar uma manhã contigo...


quarta-feira, 27 de março de 2019

A semente do presente

O sincero afã por progredir em aspectos diversos deve existir em equilíbrio com uma profunda aceitação da realidade atual. Havemos que evitar os extremos, não devendo um se converter em arrogância e o outro se transformar em conformismo.

É fato que muitos de nós estamos a protagonizar histórias difíceis, com recursos escassos, direitos negligenciados, doenças crônicas, perdas irreparáveis e feridas na alma que parecem nunca cicatrizar. Nesse sentido, compreendo que seja difícil olhar todos esses reveses com condescendência e gratidão. Não obstante, o verdadeiro amadurecimento, o crescimento interior, a conquista de si mesmo passa pelo reconhecimento do momento presente como parte fundamental de nossa jornada.

Urge, portanto, portarmo-nos como atentos discípulos, encarando as difíceis circunstâncias de agora como valiosas lições de uma vida que nunca nos desampara. Nesse contexto, a tão aclamada gratidão, portanto, não revela masoquismo e tampouco conformismo, mas, pelo contrário, profunda compreensão de uma Lei Invisível que nos dá exatamente aquilo de que carecemos para a nossa vitória.

Portanto, não nos contentemos com uma existência medíocre, reconhecendo-nos como herdeiros de uma Força Criadora que é toda Amor, Abundância e Prosperidade. Diante dos sobressaltos comuns à experiência humana, não nos comportemos como pobres vítimas, mas como jovens aprendizes que passam por provas diante das quais têm uma escolha... Que optemos, então, por tirar o melhor de todas as experiências, fazendo de cada uma delas não um abismo, mas um degrau rumo a uma vida extraordinária.

Que o Deus Supremo, todos os Mestres, benfeitores espirituais e anjos guardiões abençoem a nossa caminhada.

segunda-feira, 11 de março de 2019

O outro, espelho de mim

 


Ele gozou e ficou mexendo no celular. Tá certo que eu queria abraço, conversa, olhar ou até mesmo um comentário engraçado, daqueles típicos das relações em que há intimidade. Mas nada disse, e ele seguiu atento ao celular... E, por mais que tenhamos permanecido ali por bom tempo, na prática bastou uma gozada para que eu me visse sozinho naquele quarto de motel barato. Mas tudo bem... Eu, com a minha carência, estava sempre a fantasiar romances, ignorando o fato de que na vida real aquela frieza era, provavelmente, o normal nessas situações. Permiti-me, portanto, ser vencido pelo celular.

Sem quaisquer sinais de afeição, descemos pelo elevador, acertamos a conta, e ele, alegando não querer perder o metrô, precipitou-se em direção a porta e saiu. Não queria ser visto saindo daquele local na companhia de outro homem, por mais bem resolvido que fosse no âmbito discursivo. Mas tudo bem... Eu, com a minha carência, esquecia que as pessoas têm as suas limitações e é preciso compreendê-las. E foi diante de tal reflexão que, por mais que desejasse companhia até o ponto de ônibus e despedida com abraço apertado, permiti-me ser vencido pela hipocrisia de outrem.

Embarquei no primeiro ônibus, dirigi-me ao assento mais próximo e fui tomado pela sensação de que alguma coisa faltava. Mas tudo bem... a necessidade básica havia sido relativamente atendida e aquilo devia ser o bastante.

Mas não era.

E eu me vi pensando que às vezes a experiência de ser bem tratado é tão rara que a gente, lamentavelmente, se acostuma com os abusos, buscando sempre uma justificativa para a indiferença do outro. Nesse sentido, por mais positiva que seja essa onda de “agradecer pelo que se tem”, a gente precisa ter muito cuidado para não cair na resignação, sobretudo no que tange aos relacionamentos, sejam eles efêmeros ou duradouros.

Ser maltratado não é normal e esperar respeito, afeto e empatia não é e nunca será um luxo. É bem verdade que as pessoas têm lá as suas dificuldades, mas como é que a gente fica nessa história? Estamos mesmo sendo compreensivos e tolerantes ou estando apenas nos deixando vencer pela nossa baixa autoestima, nos contentando com as migalhas de quem nunca nos proporcionará a real experiência de sermos amados?

Convém sermos, sim, gratos a esse outro que nos ignora, que nos trata como opção e nos relega a um lugar de menos valia, mas essa gratidão é por ele nos mostrar em que frequência estamos vibrando e o tipo de coisas que nós temos atraídos para a nossa vida. Pois é sempre sobre nós, certo? Nunca é sobre o outro.

Desejar companheirismo não necessariamente revela carência. Desejar para si alguém que caminhe contigo de mãos dadas e mostre o dedo médio para o primeiro que fizer um insulto não é superexigir da vida. Tolice é buscar isso no lugar errado. A pessoa que te respeita te enxerga por detrás das curvas ou da ausência delas e permanece contigo depois de saciados os instintos. A pessoa que te valoriza te toca a alma, para além dos toques previsíveis de quem só vê um corpo para satisfações imediatas. A pessoa que te ama te assume, te envolve, te esclarece. Supera ou ao menos se esforça para superar as dificuldades que impedem a construção de uma relação plena contigo.

É bom, porém, lembrar que encontrar essa pessoa está diretamente condicionado a ser, antes de mais nada, amado, respeitado e valorizado por uma pessoa em especial, que é, justa e coincidentemente, a mesma pessoa que chega às palavras finais desta mensagem. Respeite-se, valorize-se, seja para si mesmo aqui que tanto busca no outro. É clichê, eu sei, mas o conselho continua a ser super atual: seja o amor de sua vida, antes de mais nada. Antes de tudo! Seja por si próprio a pessoa mais amada. Não esquece disso.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Sobre castelos de areia


Às vezes a gente põe tanta expectativa em uma coisa que, quando a vida real nos golpeia e a inevitável frustração acontece, custamos a enxergar um sentido para a nossa existência. Isso é especialmente comum quando se tem uma vida vazia e autoestima abalada: a gente tende a tentar compensar na busca desesperada por um relacionamento, no trabalho excessivo, no álcool, no consumismo etc. Sim, porque os excessos, comumente, escondem uma falta, por mais que não se perceba isso conscientemente.

Tudo isso pode até nos preencher durante um tempo, mas só por um tempo, e não raro demasiadamente curto.

A frustração diante de algo no qual havíamos alicerçado toda uma vida – um amor, uma conquista profissional, um smartphone etc. – é perfeitamente comparável a perder o emprego e se dar conta de nunca haver feito economias. Se nos é sugerido ter prudência e fazermos uma reserva para tempos de crise econômica, desemprego e afins, a mesma sugestão vale para a vida em um sentido mais amplo. Uma boa dose de amor-próprio, autoconfiança e força interior são fundamentais para que uma “crise” não nos pegue desprevenidos e, assim, nos tire o chão.

Por vezes a minha vida foi um bocado vazia. Costuma ser ainda. E, dessa forma, eu sempre me peguei vislumbrando em coisas e pessoas a possibilidade de uma transformação que me abalasse as estruturas e me trouxesse, finalmente, a tão falada felicidade. É claro que eu me frustrava e, pouco ou nada havendo semeado no fértil solo do meu interior, eu não tinha mais do que me alimentar. E a consequência era depressão, vazio, desejo de morrer...

As pessoas fortes são aquelas que se reconhecem como a peça fundamental de sua própria vida. Criar expectativa e se frustrar é humano e acontece com todo mundo. A grande questão é se, durante a crise, a gente vai ter para onde voltar... 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Você merece!


Em setembro de 2017 o Universo me concedeu a grata oportunidade de realizar um sonho antigo: visitar o Templo Zu Lai, na cidade de Cotia, em São Paulo. Haver passado um sábado inteiro no templo está, sem sombra de dúvidas, na minha lista de planos concretizados. Não obstante, até o dia 15/09/2017, isso era apenas um plano. E, para além disso, em 2004, quando eu tomei conhecimento da existência do templo e passava horas a fio vendo as fotos do local, ir ao Zu Lai não chegava nem mesmo a ser um plano, não passando de um sonho cuja possibilidade de realização me parecia muuuito remota.

O curioso é que, muito embora eu tenha levado mais de dez anos para realizar aquele sonho, lembro-me de ter, antes disso, as condições necessárias para fazê-lo. A certeza de não ser merecedor e capaz de tanto, porém, estava tão arraigada em meu interior que eu custei a enxergar que eu podia e que era digno, sim, de ir àquele templo que, sem conhecer, eu já tanto amava.

Hoje me bateu saudade de lá, mas não é para falar de saudade que escrevo, mas para propor uma reflexão sobre as nossas limitações. As reais e as imaginárias (que são a maioria delas...). Olhar as minhas dificuldades, bem como a minha aparente impotência diante de determinadas situações, me deixa, geralmente, desanimado, intensificando o meu estado depressivo e me esmorecendo de vez.

Contudo, direcionar o foco para o que eu conquistei em lugar de me concentrar, masoquistamente, nas minhas aparentes limitações e fracassos (pois tem coisas que a gente não consegue mesmo, e está tudo bem...) tem se me apresentado como um bom exercício. Ora!, a faculdade, a viagem, o concurso, a publicação... são tantas coisas alcançadas que, há alguns anos, habitavam a minha mente como meras fantasias, figurando hoje num passado de realizações! Meditar nisso pode não ser o suficiente para que eu deixe de me considerar um merda, mas, sem sombra de dúvida, me fortalece e anima diante dos desafios da vida.

Porque a vida é assim, né, minha gente... Está sempre a nos desafiar. Mas não é pra nos sacanear, mas, sim, para nos manter em movimento...

E você? Qual é o objetivo que você VAI alcançar? Qual é o grande sonho que você VAI realizar? Conta pra mim!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Sobre ser o suficientemente bom


Eu não sou bom o suficiente. Descobri isso há tempos. Moleque ainda. Primeiro, quando me senti inadequado nas minhas brincadeiras da infância, quando bola e papagaio me eram impostos como padrão enquanto eu só gostava de casinha e bonecas. Alvo de tantas comparações, descobri-me insuficiente na mais tenra idade. Fosse em casa ou na escola, sempre havia o menino mais esperto, o primo mais masculino, a criança mais ideal. Tirava boas notas, é verdade, mas mesmo isso não me fazia bom o suficiente, até que desagradei de estudar. Não havia quem me dissesse que as boas notas eram importantes para mim, e não para o agrado de quem quer que fosse.

Depois, na adolescência, quando, arredio e tímido em demasiado, percebi-me esquisito por demais. O cara de poucos amigos. O garoto bonzinho e educado, mas que só servia pra ser colega. O alvo de chacota dos garotos mais velhos. Elementos que, em conjunto com os primeiros sinais de uma sexualidade dita inadequada, faziam-me cabisbaixo e melancólico.

E foi ainda na adolescência que, buscando refúgio na religião, descobri-me insuficiente para Deus e indigno do Céu, destino que jamais seria o meu enquanto eu “teimasse” em ser o que era. Dessa forma, a fé que me serviu de alento me foi também tormento por anos a fio.

Depois, adulto, resolvi entrar na onda e ir atrás da tal felicidade, coisa que eu nem sabia que existia. E foi quando vieram os amores, o trabalho, a faculdade e as redes sociais e me mostraram que que eu também não era bonito o suficiente, badalado o suficiente, rico o suficiente, inteligente o suficiente, popular o suficiente, culto o suficiente... enfim. Eu não era o suficiente.

E foi tarde demais que descobri que o “suficiente” que eu nunca me vi capaz de alcançar era ditado por padrões de outros que sempre estariam a me cobrar mais e mais, mas que nunca estariam na minha pele e tampouco curariam a minha dor quando buscar ser “o suficiente” me parecesse doloroso demais. E, assim, já mergulhado no desalento e na depressão, vi-me diante da urgência de experieciar um tal “amor-próprio”, cuja mera ideia se me apresenta como uma utopia, mas que muitos dizem existir de fato. 

Assim, espero e persigo esse ideal, que, como os primeiros raios de sol da manhã, eu espero ver invadir o breu da minha existência, feito um milagre, desejoso de que eu ao menos seja forte o suficiente para, um dia, conseguir sair dessa.