domingo, 10 de janeiro de 2021

Quando você entender...

Um dia você vai entender... Não agora, não no seu tempo, mas no tempo certo, no tempo Daquele que tudo sabe, depois de aprendidas todas as lições.

Um dia você vai entender, e quando entender, verá que não foi vítima ou injustiçado, e compreenderá que as privações foram livramento, que as frustrações foram uma bênção e que os dissabores foram, em geral, necessários ao enfrentamento dos desafios que se seguiriam.

Quando você entender, verá que a vida, como um personal trainer, lhe destina os treinos necessários, mas adequados ao seu estágio atual. E, assim, cada sobressalto lhe vai ajudando a criar musculatura e resistência, permitindo ao Grande Instrutor aumentar o peso dos halteres. Não para te sacanear, mas para te fazer mais forte; para te proporcionar a consciência do poder que você tem.

Um dia você vai entender. Não no tempo da sua ansiedade, mas depois que cessarem todas as perguntas, depois de atravessadas as etapas de uma natureza que nunca dá saltos. E, quando entender, verá a inutilidade das mágoas, a pequenez dos preconceitos, o vazio das posses e excessos.

Um dia você vai entender. Ah, se vai...! E quando entender, verá que a vida, pedagógica como é, lhe destinou as maiores bênçãos justamente quando você se percebeu em pleno desamparo. Pois o maior presente que um pai pode dar a um filho é tomar uma certa distância, observando enquanto ele caminha com as próprias pernas, entre tropeços e avanços.

Um dia você vai entender. Eu sei que vai. Não sei se na semana próxima ou dentro de algumas décadas. Pouco importa... Importa é que, enquanto o entendimento não chega, você tome a vida como um pai que, ciente da dor que lhe impinge em razão de sua imatura consciência, lhe aplica as mais duras lições por saber o que é melhor pra você.

Respira... Não tenha pressa. Apenas dá o máximo de si em cada momento, perdoando-se naqueles dias em que sair da cama é difícil demais.

Pois um dia você vai entender, e quando entender, verá que foi como tinha que ser, verá que o que houve foi o melhor que podia acontecer, e não desejará mudar uma só vírgula no enredo da sua trama.

Um dia você vai entender, e nesse dia, ao contemplar toda a maravilha que a vida lhe reservava, será grato, pleno e feliz como jamais ousou imaginar ser possível.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Sobre fé e escuta

O céu de fim de tarde é pura poesia com o tom azul-marinho que assume antes de se converter em completa escuridão. Em pensar que em algumas horas ele será, de novo – e se não chover – de um azul-celeste límpido como a água das nascentes! Mas veja que interessante: mesmo no breu a poesia reside, talvez por haver nele a promessa da manhã. E se a gente aplicasse em nossa vida essa lição da natureza, compreendendo que tudo tem a sua contraparte?

Sentado na pracinha enquanto descansava da minha caminhada, me pus a observar uma pequena, que – após se alternar, alegremente, entre os brinquedos e aparelhos de ginástica – correu de volta para o interior do condomínio. Decerto os pais lhe haviam imposto um tempo limite fora de casa. E foi pensando nas mil possibilidades da menina, ainda alheia às dores do amanhã, que me peguei pensando nas minhas.

Interlocutora atenta que é, a vida é infalível em oferecer respostas, e foi nas primeiras sombras que cobriam o dia que pude contemplar as respostas das quais carecia. Convém não hesitar em fazer perguntas e, em seguida, ficar atento aos sinais, que virão não envoltos em uma aura sobrenatural, mas nos movimentos simples da vida.

Porque o desejo supremo do Divino não é chegar causando – porque, diferente de nós, Deus não carece de palcos e holofotes –, mas, sim, estar mais próximo de nós. Por isso Ele se utiliza do trivial para estabelecer conosco uma comunicação.

Portanto, calma, tenha fé, escute... Essa dor vai passar. É horrível enquanto ela perdura, eu sei bem, mas é igualmente gratificante quando a gente olha para trás e vê o quanto ela era pequena e até desnecessária!

Apenas vá para a janela e mira o horizonte. O manto escuro que que o Criador lançou sobre a terra envolve também aquele que, dentro em pouco, será o responsável pela sua contratação. É o mesmo manto que cobre o médico que vai tratar aquele parente tão querido ou aquele amigo que amanhã vai lhe dar uma excelente notícia! É o manto sob o qual está também aquele que virá a ser o amor da sua vida! Não é maravilhoso? Veja como vocês estão próximos...

Respire, se acalme, preste atenção. A vida não é uma grande vilã. E, em lugar de se revoltar contra ela, convém vive-la com dignidade e coragem, sem nunca fazer ouvidos moucos para as suas lições.

É bom ficar atento, pois, tal como a menina do meu condomínio, a gente também tem um tempo limite pra brincar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Da paciência consigo

“Fiz tudo errado de novo!”

Ao menos foi esse o pensamento que me veio tão logo abri os olhos pela manhã. Passados alguns dias de vitória sobre um comportamento do qual estou lutando para me desvencilhar, lá estava eu de novo, desanimado, decepcionado comigo mesmo, debatendo-me para sair da cama e culpando-me pela nova recaída.

Passaram-se alguns minutos até que eu me refizesse, fizesse o sinal da cruz e fosse tomar o café.

Por favor, tenha um pouco mais de paciência com você. A cura é processual, e as oscilações são comuns ao longo da jornada. Ninguém é feito só de força, e há que se ter paciência na desconstrução de hábitos arraigados, talvez, há vinte ou trinta anos.

Há os que conseguem dar a volta por cima em questão de dias? Talvez haja, mas esse é o funcionamento deles, não o seu. Amar a si mesmo passa, sobretudo, por acolher as próprias debilidades. Não para perpetuá-las, claro, mas para reconhece-las como uma parte sua. Uma parte que você não quer mais que o governe, mas, ainda assim, uma parte sua.

Seja firme, mas pega leve. Parece paradoxal, mas não é! E vai ficar mais fácil à medida que você direcionar o foco da autocrítica exacerbada para o compromisso com a reforma íntima.

Comprometa-se, sim, com a autotransformação, mas tenha em mente que você vai falhar de vez em quando, e, quando menos esperar, estará enviando uma mensagem, estalqueando aquele ex, falando mal dos outros, assistindo à pornografia, apelando para as drogas, cultivando pensamentos sombrios etc.

Acontece. Por que você é fraco? Não! É só porque você é humano, e, como humano que é, tem dentro de si o potencial para sucumbir e para superar. As sementes da vitória e do fracasso estão abrigadas em você. Faça de si uma terra fértil para que germine aquela que vai fazê-lo sair do lugar.

Você é um ser humano... Não queira ser mais do que isso. Não pretenda-se um super-herói, mas, simplesmente, um ser que luta diariamente para vencer a si mesmo, “sem pressa e sem pausa”, pois é um dia de cada vez.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Um amor em construção

Amor-próprio é uma construção. Nenhum ser é pronto e acabado.

Por muito tempo, eu admirei (ou invejei) aqueles que eu julgava terem amor-próprio, sempre dividindo as pessoas entre as que se amavam e as que não se amavam. Somente depois de muitas situações que me renderam muita dor e bastante desgaste foi que percebi que aprender a se amar é um processo contínuo ao qual ninguém escapa.

Há, naturalmente, os que avançaram mais nesse processo. Há aqueles cujo amor-próprio atingiu um extremo, convertendo-se no mais profundo egoísmo. Há também aqueles tão perdidos de si mesmo que tudo aceitam dos outros, que pouco ou nada se cuidam, que pouco ou nenhum valor se atribuem...

Todos, porém, estão no caminho rumo a si mesmos, aprendendo, com o curso da vida, o que lhes acrescenta e o que lhes subtrai, o que os eleva e o que os diminui.

Alguém que pouco se ama pode, de repente, se surpreender com um elogio, uma promoção no trabalho, um reconhecimento etc., ao passo que alguém já mais avançado nesse processo pode sofrer uma perda, ganhar uma cicatriz, receber uma crítica etc.

Enfim, a vida é sempre mestra em nos ensinar a moderação na apreciação de nós mesmos. Porque somos algo ínfimo diante da imensidão que nos rodeia, mas nem por isso somos desprovidos de valor; pensamos ser mais esclarecidos em comparação a alguém, mas ignorantes perante a sabedoria que rege o mundo; estamos longe de ser Deus, mas a Ele nos assemelhamos e somos herdeiros do Seu poder...

Autoamor é, entre tantas acepções, equilíbrio entre a autocomiseração e o narcisismo. Enxergar a si sem se deixar cegar para o outro e vice-versa. Gostar de quem somos, mas ainda dedicados ao auto-aperfeiçoamento, à criação de uma versão 2.0, ainda mais avançada.

Você se ama quando cuida de si, quando se retira de contextos e situações que só lhe causam dor, quando deixa de mendigar atenção, quando não mais insiste em bater em portas fechadas e, sobretudo, quando se perdoa por fazer ou haver feito tudo isso.

O meu desejo é que, em lugar de ser cheio de si, você seja tomado de verdadeiro amor por si, acolhendo-se e superando-se a cada adversidade que vier desafiar esse romance.

Eu desejo que você se ame para poder amar, e, podendo amar, poder servir. É o mesmo que eu desejo pra mim.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Ser feliz é uma obrigação!

Você tem obrigação de vencer na vida. Não se trata de uma escolha, de algo do qual você possa abdicar sem pensar nas consequências que isso trará para você e para o outro. Você tem obrigação de, a cada dia, dar um passo rumo à sua felicidade. 

Eu vejo as pessoas dizendo coisas como “quero dar uma vida mais confortável para os meus pais”, “preciso oferecer algo aos meus filhos” etc. Não resta dúvida de que tudo isso seja de extrema relevância. Tenho convicção, porém, de que o que de melhor podemos oferecer ao mundo foge aos limites da matéria. 

Em nada contribuímos adquirindo uma cobertura no edifício mais alto do Leblon, do Alphaville ou do Belvedere. Muito fazemos pelo outro, porém, quando edificamos a nós mesmos, seja pela prática das virtudes, seja pelo exercício do bem, seja pelo inabalável empenho em tornar-se humano. 

Sabe aquele mito platônico no qual o cara escapa da caverna e, ao contemplar o dia lindo lá fora, retorna às sombras a fim de avisar aos demais? Perceba a beleza disso... É nos aproximando da luz – ou seja, nos tonando verdadeiramente humanos – que podemos mostrar aos outros o caminho. 

Vencermos a nós mesmos, nos elevarmos sobre as adversidades, é o que de melhor podemos fazer em prol da humanidade. 

Eu vi diminuírem drasticamente os meus pensamentos de morte quando me dei conta de que, ao me lançar no abismo, eu não iria sozinho. E foi aí que sair da depressão se tornou para mim não algo para o meu próprio benefício, mas um compromisso real com os que me rodeiam. Pois, ao sair de uma depressão, você tem a possibilidade de compartilhar com os outros o trajeto. 

É louvável quando a busca pela própria cura envolve um profundo comprometimento com a dor humana como um todo. Portanto, se o seu próprio bem-estar não é razão suficiente para provocar uma reação de sua parte – e eu bem sei o quanto o sentimento de menos valia pode nos conduzir a tal raciocínio – talvez lhe seja útil lembrar que, ao conseguir se curar, você também dá a milhares de pessoas a possibilidade de cura.

Naturalmente, você não precisa – e não vai – conquistar para si todas as medalhas. Importa, no entanto, que jamais lhe falte o ânimo de vitória, pois é a sua resiliência, persistência e garra – e não as suas posses – que inspiram os demais a também seguirem em frente. 

Atente-se para o fato de que, ao pensar sobre felicidade, você imediatamente recorre a seres que se fizeram grandes em profunda pobreza, sem nada deixar em termos materiais: Buda, Jesus, Sócrates, Epicteto e tantos outros. Obviamente, ninguém lhe está sugerindo aderir a uma vida ascética, o que seria um tanto estúpido. A sugestão é que as coisas sejam encaradas como meios, e não como fins, estando no horizonte aquilo que realmente há de nos elevar e nos fazer felizes. 

Eu quero que você não desista de você e que tenha consciência de que, ao vencer a luta diária, você leva consigo toda a humanidade. Essa batalha, sim, será o seu maior legado. 

Fique firme. 

E fica combinado que, quem chegar primeiro, avisa ao outro como se faz. 

Bom outubro.

sábado, 12 de setembro de 2020

A natureza pedagógica

Se você passar os olhos pela Mitologia Grega, verá algo interessante: jamais vemos um herói julgando-se azarado ou injustiçado. Até mesmo diante das mais terríveis tribulações, eles seguem firmes, pois têm ciência de que o objetivo primeiro dos deuses é o crescimento do ser humano.

Tudo tem uma razão se visto pela ótica pedagógica da natureza, pela lição que ela pretende nos proporcionar. A própria crise tem em si uma grande beleza, pois é um sinal de que trilhamos todo um caminho, esgotando uma experiência anterior para, então, vivermos algo novo.

Se o nosso mundo desmoronou, é porque está na hora de construirmos outro mundo, e uma sabedoria mais elevada nos julgou dignos e capazes de viver a crise para, então, construir o que precisa ser construído. Em algum lugar, alguém sabe que nós temos cacife para encarar o que se impôs em nossa vida. E qualquer semelhança com a frase “Deus não dá um fardo que não possamos carregar” não é mera coincidência...

Em geral, a vida nos aplica a pedagogia da escada: alcançamos uma estabilidade, mas já com uma parede diante de nós. O homem progride pulando de catástrofe para catástrofe, de degrau em degrau. E sacralizar a própria existência é dar sentido a esses sobressaltos.

Bendita seja a dor que muito nos honra, pois é sinal da existência de uma Inteligência Superior que nos sabe capazes, fortes, homens e mulheres o suficiente para darmos conta.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Motorista apaixonado

Ainda sofrendo as dores de uma história mal resolvida com o homem de meu mesmo nome, sentia os meus olhos marejarem ante as breguices de Gian e Giovani que se sucediam no rádio. E foi procurando conter as lágrimas que eu disse ao motorista – o meu quase xará –, em tom de pilhéria.

– Alexandre, eu estou achando que você está apaixonado, hein?

Estranhamente, recebi do cara que há pouco interagia tão descontraidamente comigo uma resposta séria, típica de quem tem a mente a quilômetros do momento presente.

– É... pior que eu estou mesmo. – Ele disse, reflexivo.

Versado na estúpida arte de me apaixonar, empolguei-me, pronto para bombardeá-lo com os conselhos que eu nunca segui. E eis que Alexandre me interrompeu antes que eu desatasse a fazê-lo.

– Mas não é o tipo de paixão que você está pensando, não.

– Não? – Perguntei, buscando na memória algum outro tipo de paixão que levasse as pessoas a escutarem músicas melodramáticas.

– Não. – Alexandre prosseguiu. – É que eu perdi o meu pai há quarenta dias e estou tentando me habituar a escutar as músicas que ele gostava.

Engoli em seco, receoso de falar alguma bobagem e novamente às voltas com a minha dificuldade em encontrar o que dizer diante de uma situação tão dolorida como a morte. Alexandre continuou, visivelmente emocionado.

– É que eu sempre choro ao escutar as músicas preferidas dele, e por isso estou tentando me acostumar com elas para parar de chorar na frente dos outros.

Estas últimas palavras foram ditas quando o carro já estacionava em frente ao meu condomínio. Pensei no meu pai, que neste mesmo dia, pela manhã, estivera em minha casa, resolvendo com o zelador questões não resolvidas por mim no espaço de um ano de moradia. Pensei em todas as razões – das utilitárias às não utilitárias – que tornam tão difícil a perda de um pai ou de uma mãe.

Não sei o que levou a óbito o pai de Alexandre. Talvez ele haja sido vítima do maldito vírus que se alastrou por toda a humanidade. Talvez haja sido a idade ou as doenças comuns ao seu avanço.

Enfim... Não sei e nem vou saber.

Lamentei, porém, não haver encontrado algo de significativo para dizer ao Alexandre, bem como o fato de haver passado a maior parte da viagem contendo as lágrimas por um outro Alex tão indigno de ser lembrado, enquanto o motorista continha as suas pela triste ausência do pai; um Alex que, além de ignorar a minha existência, provavelmente nem curte Gian e Giovani.

Não há muito o que fazer – nem por mim e nem pelo motorista –, a não ser fazer desta tentativa de prosa poética o meu minuto de silêncio pelo pai do Alexandre.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

O dinossauro na autoestrada

Se você tem mais de duzentos e vinte e sete anos, certamente conhece este quadro (risos). Tal como os misteriosos “quadros das crianças chorando”, ele era comumente encontrado em casas mais humildes.

Recordo de, em criança, ficar observando-o em nossa casa lá no bairro Itaipu, onde morei até os meus dez anos de idade. A sensação que ele me causava, porém, não era boa, visto que – inocente que eu era –, concebia-o como uma fotografia, e não como a pintura que de fato é. Lembro de perguntar aos meus pais se aquilo havia acontecido por perto ou em outro país, sendo essa última possibilidade tranquilizadora para mim.

A vulnerabilidade dos motoristas – confirmada pelo veículo capotado – diante da criatura gigantesca me assustava, provocando um misto de pavor e piedade.

Não sei que fim teve aquele quadro. Apenas sei que o mesmo não nos acompanhou quando nos mudamos no final de 1994.

E hoje sei também que se trata de um quadro de 1980, intitulado “Dinosaurier auf der Autobahn" (O dinossauro na autoestrada) e de autoria do suíço Giuseppe Reichmuth. Parece-me que o pintor nasceu em 1944, mas não sei o que anda fazendo ou se ainda vive. É possível que haja sido engolido por um dinossauro...

domingo, 28 de junho de 2020

Do Orgulho à Liberdade



Há exatos 51 anos, um atrito entre a polícia de Nova Iorque e frequentadores de bares locais – sobretudo no contexto do Stonewall Inn, localizado no bairro de Greenwich Village, em Manhattan – marcou o dia 28 de junho como o Dia do Orgulho LGBT+.

A expressão Orgulho LGBT+, ainda pouco compreendida por muitos que lhe criticam o uso por não considerar digna de orgulho a condição homossexual e afins, surge como o oposto à “vergonha” e à “culpa” que a sociedade insistia (e ainda insiste) em tentar incutir no sujeito que escapa aos padrões da heterormatividade.

No meu entendimento, o substantivo “orgulho” não pressupõe que haja alguma vantagem em ser LGBT+. Até porque, convenhamos, não há vantagem alguma nisso, assim como não há vantagem alguma em ser heterossexual. A condição humana – e não a orientação sexual, identidade de gênero e afins – é o que nos coloca em vantagem em relação aos outros animais, vez que, caracterizada pelo uso da razão, nos dá a possibilidade (comumente pouco aproveitada) de empreendermos alguma ação em prol da humanidade.

A expressão me parece válida, porém, como forma de se expressar o amor-próprio que deve reger a existência do sujeito LGBT+ “apesar de”, como diria Clarice Lispector. Nesse sentido, cabe ao indivíduo LGBT+ reconhecer o seu valor como ser humano e lutar pela sua dignidade e exercício da liberdade “apesar de”: apesar da homofobia, apesar dos insultos, apesar das agressões físicas, apesar da resistência da família, apesar da condenação da igreja, apesar da depressão. Sempre “apesar de”.

No meu entendimento, porém, é preciso que, enquanto LGBT+, reconheçamos uma responsabilidade tanto ou mais relevante que a luta por direitos, que é o cuidado para que – ao enveredarmos pelo caminho da militância e da excessiva identificação com uma condição/orientação no contexto da sexualidade e/ou do gênero – não acabemos por oferecer combustível ao preconceito personalístico, que é a raiz de todos os preconceitos.

O preconceito personalístico, caracterizado pela supervalorização do “eu” em detrimento de tudo que dele difere e, por conseguinte, da humanidade, tem por base o egoísmo, que, se você parar para pensar, é o que jaz por trás de todo e qualquer problema pessoal e social.

O Orgulho LGBT+, portanto, deve nos conduzir ao degrau seguinte, levando-nos não a estacionarmos nesse rótulo – que é um dentre os tantos que nos são colocados quando chegamos a este mundo –, mas a nos colocarmos acima dele, reconhecendo-nos, primeiro, como integrantes da vida e da humanidade, tornando-nos, assim, eficientes em cumprir com o objetivo de buscar a Unidade, como defendia Platão.

Pedagógica como a vida é, parece-me válido tomarmos o isolamento social, que ora impede as Paradas do Orgulho LGBT+ mundo afora – evento esse que, ao meu ver, não raro contribui negativamente para a luta da referida comunidade –, como uma oportunidade para refletirmos a respeito; para nos perguntarmos se a excessiva militância não seria um subterfúgio a nos isentar do contato com a nossa sombra; para refletirmos no quanto a nossa luta contra o preconceito está embasada em preconceitos da mesma espécie; para pensarmos a massificação, comumente travestida por um ideal de liberdade, como um plano perverso contra o reconhecimento de nossa verdadeira natureza.

O exercício do autoamor, expresso na expressão Orgulho LGBT+, é útil à elevação a um outro nível, no qual, ao nos identificarmos tão somente com a condição humana, percebemo-nos prontos para amarmos a toda a humanidade, livres dos rótulos e bandeiras que tomamos como armaduras quando, na verdade, não passam de grilhões; livres das amarras e, finalmente, munidos da fraternidade, metaforizada na espada do grande guerreiro Jorge da Capadócia.

E isso, eu bem sei, exige muita coragem, ação guiada pelo coração (do latim coraticum = cor + agis). Coragem para encararmos a nossa sombra, coragem para abrirmos mão dos nossos preconceitos, coragem para sermos livres e felizes, coragem para nos reconhecermos como Um.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O que arrasta é o exemplo



“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. São dizeres que, se por um lado denotam hipocrisia, por outro podem revelar certo altruísmo, ainda que distorcido, quando vindos de alguém que pretenda poupar o outro dos caminhos por ele percorridos.

De qualquer forma, porém, não me parece uma pedagogia lá muito eficaz, sendo ela severamente criticada, inclusive, no texto bíblico, seja quando Jesus desaprova o comportamento dos “mestres da lei e os fariseus” em razão da incoerência entre suas ordens e ações (Mateus 23:2-3), seja quando Pedro, em sua epístola, orienta os pastores a atuarem não como dominadores dos que lhes são confiados, mas como exemplos para o rebanho. (I Pedro 5:3).

Uma frase de autoria desconhecida, mas comumente atribuída a este ou àquele personagem histórico diz que “a palavra convence, mas o exemplo é o que arrasta”.

Etimologicamente, exemplo tem origem do latim exemplum, que, literalmente, significa “uma amostra”, “o que é retirado”, e, por sua vez, deriva do verbo eximere – ex- (fora) + -emere (tirar) –, que equivale a “tirar”, “remover de”. Veja que coisa bonita: em seu sentido original, a palavra expressava a ideia de que, ao ser exemplo de alguma virtude – como a bondade, a honestidade, a resiliência e afins –, a pessoa era tida como uma pequena amostra de algo maior. Talvez de Deus, expressão máxima das virtudes. A primeira definição que o Dicionário Houaiss apresenta para o termo é “tudo que pode ou deve ser imitado; modelo”.

Você já deve ter visto aquela charge em que duas mães, junto de seus respectivos filhos, estão sentadas em um banco de praça, ao que uma, vendo o filho da outra com um livro em mãos enquanto o seu permanece vidrado no celular, pergunta-lhe: “O que você faz para o que o seu filho leia?” Detalhe: a mãe inquiridora tem um celular em mãos, enquanto a outra tem nelas um livro aberto.

Diz-se que certa vez uma mãe levou o seu filho a Mahatma Gandhi e implorou que ele orientasse o garoto a parar de consumir açúcar, ao que Gandhi, após uma pausa, disse: “Traga o seu filho novamente em duas semanas.” Embora intrigada, a mãe agradeceu, prometendo fazer o que lhe fora orientado. Assim, passadas duas semanas, eis que a mulher leva o seu filho novamente à presença de Gandhi, ao que o mestre encara o garoto nos olhos e diz: “Pare de comer açúcar.” Agradecida, mas ainda mais perplexa, a mãe pergunta a Gandhi por que razão ele lhe havia mandado retornar em lugar de haver simplesmente orientado o garoto há duas semanas, quando de sua primeira visita, ao que Gandhi respondeu: “Há duas semanas eu estava comendo açúcar.”

Pensar o caráter educador do exemplo me parece urgente em tempos em que virtudes como empatia e retidão se mostram tão presentes no discurso político enquanto, na prática, o egoísmo continua a ser a base do nosso comportamento e seguimos apegados à corrupção nossa de cada dia. O exemplo é o que arrasta, minha gente, e não a nossa demagogia.

É natural que, ao falarmos de exemplo, pensemos em nossa postura diante de nossos filhos, alunos, subordinados e afins. Vale, porém, ampliarmos um pouco mais esta discussão de modo a contemplar também os governantes que tanto criticamos.

Ora!, seria mesmo possível que ditadores, elitistas e corruptos nasçam no seio de uma sociedade virtuosa? Depositar em impeachments e em eleições toda a nossa expectativa por renovação não seria como trocar de espelho em razão da espinha que vimos no rosto ontem?

Epicteto (55 d. C. – 135 d. C.) chamava de escravo aquele que insiste em lutar contra coisas que não dependem dele sem nada fazer quanto àquilo que de fato lhe compete. É um pouco o que fazemos quando, passionais ou mesmo dominados por uma tola ilusão, esperamos mudar os outros pela palavra pouco ou nada nos empenhando em sermos exemplo.

É que ser exemplo dá trabalho! Mudar a nós mesmos dá trabalho. A única alternativa a esta mudança, porém, é seguirmos dedicados aos nossos inflamados, mas vazios discursos, colhendo, assim, os miseráveis resultados de sempre.