quarta-feira, 9 de março de 2011

Sobre Sandy, cerveja e publicidade

.

Peça de divulgação da Campanha Devassa 2011, com Sandy Leah.
Imagem retirada de trade news.

Início de ano, verão, calor, Carnaval e cerveja. E têm início as polêmicas peças publicitárias oriundas desse ramo. Mais problemáticas do que as próprias propagandas, porém, é o tratamento destinado a elas por essas terras, que oscilam entre os ideais inquisitórios da Idade Média e o mais exacerbado liberalismo, passando, raras vezes, por algum ponto de equilíbrio. Atualmente, muito se comenta sobre a peça publicitária criada pela Cervejaria Schincariol para divulgação da cerveja Devassa para esse início de 2011, estrelada pela insossa Sandy, a “Garota Devassa que não bebe cerveja”, como tem sido chamada. Como escritor que vem, obviamente, defender um ponto de vista, julgo válido esclarecer, desde já, que não pretendo fazer uma apologia ao consumo de álcool. Pelo contrário, embora beba ocasionalmente, não consigo enxergar a grande vantagem que muita gente vê em beber a ponto de tecer comentários vangloriando o péssimo estado no qual uma bebedeira lhe deixou. Mas, cada um na sua. Voltando à propaganda veiculada, pode-se dizer que as críticas negativas a mesma se concentram em dois pontos: i) a escolha da garota-propaganda, que, considera-se, é incompatível com a imagem da “mocinha com um lado Devassa” que o comercial postula, e ii) o fato de a garota Devassa não aparecer tomando a cerveja durante o comercial e, sabe-se, não gostar da bebida na vida real. No tocante ao primeiro ponto, aliás, li, no YouTube, dois comentários impagáveis postados por dois usuários. O primeiro estabelece uma comparação entre a Sandy fazendo comercial de cerveja e o Zeca Pagodinho fazendo propaganda do Dolly Guaraná ou sobre antitabagismo. O segundo afirma, veementemente, que, pior que a Sandy para esse comercial, só a Madre Tereza.

Brincadeiras à parte, alguns argumentos podem rebater, em parte, essas críticas. Em primeiro lugar, a aparente incompatibilidade da garota propaganda escolhida com a personagem que ela interpreta durante o comercial tem mais a ver com a imagem que se fez da moça ao longo de sua carreira, imagem essa arraigada na mente dos brasileiros, do que com a realidade sobre ela. Tanto é assim que as críticas às peças da cerveja se dividem entre as muito positivas, elogiosas, e as supernegativas. A Sandy está longe de ser desprovida de beleza, como alguns têm dito como argumento contra os vídeos. O problema é que a moça, creio, carrega o estigma do seu primeiro nome, coitada. Explico: consta na biografia da Sandy que os pais dela lhe deram esse nome inspirados pela Sandy Olsson, personagem pura, casta e boazinha de Olivia Newton-John no filme Grease - Nos Tempos da Brilhantina (um dos meus favoritos), de 1978. Não deu outra: a Sandy – cantora e garota Devassa de então – ficou igualzinha à personagem, só não tendo a sorte de “pegar” o John Travolta ainda jovem. Outro ponto é que estamos falando de um comercial, onde tudo é cenográfico. Logo, consumir cerveja durante a propaganda – o que nenhum artista, com exceção do Zeca Pagodinho, faz – ou na vida real não é e nem deve ser requisito para que a moça participe da campanha de uma cervejaria.

Realmente, o que pesou ali foi a interpretação da Sandy. A primeira peça da Devassa veiculada nesse ano – na qual a Sandy, inicialmente sem mostrar o rosto, vai entrando em um bar enquanto o locutor fala ”Todo mundo achava que ela era comportadinha, boa menina, dormia cedo...” – é muito divertida, criativa. E a segunda também, não fosse pelo fato de a Sandy falar durante o comercial. Apesar de nunca haver sido fã, admito que Sandy é talentosa, mas não como atriz. Lembram-se de Estrela-Guia (2001) e afins? Essa negativa qualidade interpretativa, mesclada à imagem que se construiu em torno da moça (ou que ela mesma construiu) ao longo de sua carreira, contribuem para que o telespectador custe a crer que Sandy tenha, de fato, um lado devassa. Na coletiva de imprensa da campanha Devassa, a moça bem que insistiu em falar sobre esse seu “outro lado”, afirmando nunca haver existido aquele lado meigo que, segundo ela, foram construindo a sua volta. Bom, Sandy está passando pelo mesmo que passaram artistas como Angélica, Eliana, Flávia Monteiro etc. Artistas que, por verem ir pelo ralo o seu sucesso com as crianças ou mesmo por quererem desbravar novas terras (só a Xuxa que ainda insiste), empenham-se na criação de uma nova imagem, mais descontraída, desencanada, desinibida. Estilo Devassa, enfim. Bom, tomara que a Sandy consiga, pois, no caso dela, a aparência e voz delicadas não ajudam. Mas, talvez, esse quadro seja revertido quando ela ceder aos insistentes convites da Playboy ou mesmo quando ela, finalmente, soltar um “pum”, ou coisa do tipo.

Peça de divulgação da Campanha Devassa 2010, com Paris Hilton.
Imagem adaptada de Web Luxo.

De qualquer modo, a escolha de Sandy para a campanha foi uma grande jogada do departamento de marketing da Schincariol: o vídeo está sendo exaustivamente assistido e comentado. Não é a primeira vez, no entanto, que uma propaganda da empresa causa rebuliço. Maior repercussão teve a campanha de 2010, que tinha como estrela a belíssima patricinha devassa Paris Hilton. Muito embora não mostrasse nada demais, a propaganda foi acusada de discriminatória e sexista, sendo, enfim, banida da TV por uma investida do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar). Após o episódio, a Schincariol veiculou uma propaganda ironizando a censura. A peça apresentava os seios do desenho da mulher – que é a logomarca da Devassa – cobertos por uma tarja, informando, no início, que o vídeo com Paris Hilton estava disponível na internet para aqueles que não haviam se ofendido com o mesmo. Bom, vale dizer que, conforme explica a publicitária Silvia Zampar, há uma ampla legislação no tocante à normatização para a produção e veiculação da propaganda. Logo, proibições (ridículas) como a ocorrida no caso da campanha da Devassa estrelada por Paris Hilton não acontecem num estalar de dedos, sendo, sim, resultado de um longo processo. Tudo isso, porém, torna-se uma grande palhaçada quando colocado diante de uma série de coisas realmente ofensivas que se vê dentro e fora da mídia, para as quais vive se fazendo vista grossa nesse país. Ao lado disso, temos a existência de comerciais realmente ofensivos, visto o forte apelo sexual, que não tiveram nenhuma repercussão e, pior, não sofreram a mínima retaliação. Citemos como exemplo um comercial da Kaiser, no qual a simpatia de José Valien Royo (o baixinho da Kaiser) cede lugar aos marmanjos Marcos Palmeira e Murilo Benício, que, em uma praia, conseguem manipular os movimentos de uma mulher, personagem da modelo Pietra Ferrari, através de uma garrafa de Kaiser. Felizmente, há quem tenha a cabeça no lugar, e nós podemos ver isso nas pertinentes considerações de Emílio Conde, que, questionando a postura do Conar, discorre sobre a sutil diferença entre sexualidade e sensualidade nas propagandas, fazendo menção a esse último comercial mencionado.

Peça de divulgação da Campanha Nova Schin 2010, com Ivete Sangalo.
Imagem retirada de axezeiro.com.

Antes disso, porém – pasmem –, a Schincariol já havia se metido em problemas. Entre esses, temos uma engraçada peça produzida para divulgação do guaraná Schin, onde um “primo chato” levava os parentes aos nervos ao tratar, levianamente, de temas delicados como a adoção. Não vejo quem pudesse se ofender com a propaganda, razão pela qual achei também ridícula a proibição. Defenderia, porém, a criação de um órgão que proibisse a comercialização do produto, de tão porcaria que é. Não a veiculação da peça publicitária...

Realmente grave, porém, foi o comercial veiculado pela mesma empresa durante o verão de 2005. Questões concernentes ao Estatuto do Idoso, criado em outubro de 2003, estavam ainda em voga. Finalmente os idosos tinham uma legislação mais consistente para assegurar-lhes os direitos. O tema havia sido, inclusive, seriamente abordado no folhetim das oito Mulheres Apaixonadas (2003). Nada disso, porém, foi pensado pela Schincariol de modo a desistir da produção de um comercial de gosto duvidoso, no qual dois jovens fogem desesperados de uma multidão de velhinhas sedentas de sexo, até pularem dentro de um freezer da Nova Schin e irem parar em uma praia repleta de jovens mulheres, entre as quais destacava-se o mulherão Ivete Sangalo, garota da marca há mais de dez anos, que encerra a propaganda com o inteligentíssimo slogan da campanha: "Quanto mais nova, mais gostosa". Recordo-me de, antes de ler qualquer coisa a respeito, haver me sentido mal ao assistir a propaganda, que parecia-me de mau gosto, reduzindo a melhor idade a uma deplorável fase na qual reina a carência por sexo com pessoas jovens. Ledo engano... ou, melhor dizendo, preconceito idiota na propaganda de uma cerveja que até hoje se auto intitula “Nova” quando é, na verdade, mais velha que as senhoras que aparecem no comercial.

Eu, que na época não tinha acesso à internet e era bem mais desligado dos acontecimentos do mundo, só fui saber que muita gente compartilhara do meu desconforto diante da peça publicitária quando fui prestar um vestibular na PUC Minas em meados de 2005 (no qual fui aprovado. Oba!) e um dos textos da prova de Língua Portuguesa tinham como temática esse lamentável episódio. Louvável, dessa vez, a atitude do Conar, cujas ações levaram à retirada do comercial do ar. Destaque para a bela carta-denúncia enviada ao Conar pelo pesquisador Pedro Paulo Monteiro, que foi um dos primeiros a repercutir o caso, e para o não menos pertinente e-mail de Delma Gama, publicado na imprensa, direcionado à Ivete Sangalo. Entre inúmeras considerações plausíveis, a autora da mensagem diz o seguinte: “Fiquei com pena de você e dos rapazes que correm até encontrar o freezer cheio de cerveja, porque a própria propaganda diz a fórmula para não envelhecer: morrer jovem!”.

É pena que a Ivete, pessoa a quem eu, ao lado de tantos, admiro pelo talento e pelo caráter que aparenta ter, haja se envolvido com tudo isso. Duvido que em algum momento a sua atuação no comercial haja sido maldosa, o que não lhe tira, claro, a responsabilidade sobre o mesmo. Bom, mas é um caso semelhante ao da Sandy, minha gente. Da mesma forma que essa não se importa se o fato de ter a sua imagem vinculada a uma marca de cerveja pode induzir jovens fãs que cresceram junto com ela a beberem, a Ivete também não se preocupou com os danos que o comercial da Nova Velha Schin poderia causar. É trabalho, caro leitor... e há milhões de reais envolvidos. Seria maravilhoso que a responsabilidade social fosse uma prioridade de todos os artistas, mas, sejamos compreensivos: se assim fosse, os lucros das estrelas seriam bem menores... Logo, pro inferno com a responsabilidade social. Quanta a essa ideia de propagandas induzirem pessoas a isso ou àquilo, eu sou meio contrário, mas confesso não ter uma opinião formada sobre. Só penso que, se nossos jovens estão se deixando influenciar por peças publicitárias a ponto de adquirirem hábitos negativos como o consumo de álcool, é sinal de que urge investimento pesado em dois pontos: criação e educação.

Bom, fica como consolo a divertida propaganda da Nova Schin que foi ao ar nesse início de ano: sem apelação, Ivete Sangalo recebe um grupo de artistas (selecionados com base em não sei que critérios) para uma feijoada com cerveja em sua casa. Todos interagindo na mais falsa felicidade. Ficou legal, mas nenhum comercial e nenhuma cerveja ganham da Bohemia, que, entre as suas pouquíssimas (e belas) peças publicitárias que já vi na mídia, impressionou com um delicado comercial regado a texto de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Se todos fossem
Iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar, a sorrir, a cantar, a pedir
(...)

Bom, mas se podemos tirar algo de realmente bom dessa cervejada toda, relembremos um válido comentário da Sandy, em uma entrevista concedida antes de toda essa história de Devassa. “...eu não gosto dessa sensação de perder o controle, de você não... não poder controlar o que você fala, o que você pensa, o que você faz, a coordenação do corpo...”. Portanto, leitor, saboreie com moderação e, se for dirigir, não beba (risos). Bom, e para não passar de cervejas para chinelos, eu não vou nem mencionar aquela propaganda da Havaianas que também foi proibida por apresentar uma avó incentivando a neta ao sexo descompromissado com o Cauã Reymond, porque é hipocrisia demais pra minha cabeça. O povo brasileiro tem cada uma, viu? Afinal, todo mundo tem um lado descontraído, desinibido e desencanado, ora. Exceto a Sandy, claro.

Referências:

ALFETUNES. Comentário sobre o vídeo Comercial Sandy Devassa | Todo mundo tem uma lado Devassa. In: YouTube. Criado em: 01 mar. 2011. Comentário em: 02 mar. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.

ANÔNIMO. Estrela-Guia (telenovela). In: Wikipédia. Acesso em: 09 mar. 2011.

ANÔNIMO. Mulheres Apaixonadas. In: Wikipédia. Acesso em: 09 mar. 2011.

ANÔNIMO. Sandy. In: Wikipédia. Acesso em: 09 mar. 2011.

ARONOVICH, Lola. Velhinha incentivando sexo em comercial da Havaianas? Não pode. In: Escreva Lola Escreva. Criado em: 23 set. 2009. Acesso em: 08 mar. 2011.

BRASIL. LEI No 10.741. 01 de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Brasília, 2003.

CAMAROTEDEVASSA. Sandy Devassa. In: YouTube. Criado em: 01 mar. 2011. Acesso em: 09 mar. 2011.

CINEPLAYERS. Grease - Nos Tempos da Brilhantina. In: CinePlayers. Acesso: 09 mar. 2011.

CHRISRESENDE. Kaiser (Propaganda). In: YouTube. Criado em: 12 ago. 2008. Acesso em: 08 mar. 2011.

CONDE, Emílio. Oferecer a Genitália o Conar deixa ! Dançar sensualmente o Conar não deixa !. In: Os consumidores – Observatório das relações de consumo. Criado em: 07 fev. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.

DIRETORDEARTEDAETOS. Devassa - Após ser censurada pelo CONAR. In: YouTube. Criado em: 02 mar. 2010. Acesso em: 08 mar. 2011.

DOUGLASFERT. A verdade sobre Sandy Devassa. In: YouTube. Criado em: 02 mar. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.

GUSTAVO1995FONSECA. Havaianas Fit - Na Integra (COMERCIAL CENSURADO). In: YouTube. Criado em: 28 set. 2009. Acesso em: 08 mar. 2011.

NOVASCHIN. Nova Schin – Feijoada. In: YouTube. Criado em: 28 jan. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.

OQUENDOP. NEW - Caminhão de Devassa - Com Paris Hilton e Luma Oquendo 27-08-10. In: YouTube. Criado em: 28 ago. 2010. Acesso em: 08 mar. 2011.

PENTEADO, Cláudia. “Sandy é um nome que não poderia passar na cabeça de ninguém”. In: Consumo e Propaganda. Criado em: 01 mar. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.

PORTAL na categoria 'Artigos'. Schincariol x “velhinhas” Pesquisadores do Portal em ações efetivas contra a discriminação. In: Portal do Envelhecimento: sua rede de comunicação e solidariedade. Criado em: 26 ago. 2010. Acesso em: 08 mar. 2011.

PORTAL na categoria 'Geral'. Propaganda de Ivete para a Schin é uma agressão aos idosos. In: Portal do Envelhecimento: sua rede de comunicação e solidariedade. Criado em: 01 set. 2010. Acesso em: 08 mar. 2011.

SANDYLEAHH. Sandy Comercial Devassa campanha 2 Conga la conga (Oficial). In: YouTube. Criado em: 03 mar. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.

SPROUSSE13. 'Comecial Cerveja Devassa (Com Paris Hilton). In: YouTube. Criado em: 27 fev. 2010. Acesso em: 08 mar. 2011.

THYSIL. CERVEJA BOHEMIA POESIA. In: YouTube. Criado em: 29 ago. 2007. Acesso em: 08 mar. 2011.

VIVIGASPA. Comentário sobre o vídeo Sandy – Todo mundo tem seu lado Devassa. In: YouTube. Criado em: 01 mar. 2011. Comentário em: 08 mar. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.

ZAMPAR, Silvia. Comercial do refrigerante Schin censurado pelo CONAR. In: TuDiBão. Criado em: 18 jan. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Sobre transexualidade, travestismo, mídia e polêmica


Ariadna Thalia Arantes.
Imagem retirada de Tudo sobre BBB.

Não fazia meia hora que terminara a primeira eliminação do Big Brother Brasil 11 e os fóruns de discussão já estavam repletos de postagens que ou lamentavam ou comemoravam a saída de Ariadna, a primeira transexual a participar da versão brasileira do reality show. A carioca, escolhida pelo voto de Cristiano, primeiro líder do jogo, saiu da casa com 49% dos votos. Ruim para ela, ruim para a Globo, ruim para a torcida de Ariadna e, talvez, para a comunidade LGBT, que (sem generalização, claro) tinha a permanência de Ariadna como propícia a reflexões sobre a questão da transexualidade. Não se trata de uma certeza, obviamente, mas acredito, sim, que a “convivência” dos telespectadores com tipos geralmente discriminados seja benéfica, uma vez que vê-los durante 24 horas, em seu estado natural, pode invalidar alguns mitos e estereótipos.

Desconheço se era positivo ou negativo o comportamento de Ariadna dentro da casa. Nas poucas “espiadinhas” que dei, interessado na presença dela, não percebi comportamento diferenciado em relação aos demais participantes. Ao menos nada realmente gritante, afinal, os telespectadores do BBB devem estar acostumados a obscenidades, sem falar naqueles que assistem o programa justamente à procura disso. Tudo isso, portanto, dá-nos alguma base para ponderar que, ao ser eliminada do reality show, Ariadna pode haver sido vítima da intolerância que reina em terras tupiniquins. Formado o paredão – através da escolha de Rodrigo, que, ao atender o Big Fone, escolheu Lucival; através dos seis votos que os demais participantes deram para Janaina e através da indicação do líder Cristiano, que escolheu Ariadna – Janaina fez uma observação válida: "Só os rejeitados pela sociedade". Dizendo isso, a moça contemplava apenas o fator racial e social, mas muitos de nós, aqui do lado de fora, consideramos também a presença de um homossexual e de uma transexual naquele trio de “rejeitados”. É mais que possível, sim, que a saída de Ariadna seja consequência de preconceito, afinal, num país onde os telespectadores se mostram apavorados diante da possibilidade de assistirem a um beijo gay em horário nobre, não surpreende que não queiram se deparar, diariamente, com um “ex-homem” trocando carinhos com os colegas de confinamento. Imaginem então permitir que esse participante seja o ganhador do prêmio de 1,5 milhão de reais...

Nádia Almada. Imagem retirada de Virgin Media.

Caso diferente ocorreu na versão inglesa do programa, no Reino Unido, que, em sua quinta edição, teve como ganhadora do prêmio a transexual portuguesa Nádia Almada, que, aos poucos, foi conquistando a simpatia dos telespectadores. Tal como Ariadna parecia pretender fazer, Nádia nada contou sobre sua condição aos demais participantes do reality show, de modo que a mesma fosse sabida apenas pelos telespectadores. Não sei o que aconteceu por aquelas bandas, mas sei que por aqui muito se especulou sobre se Ariadna devia ou não contar que, em um passado distante, fôra Thiago. É, de fato, um assunto complexo. Embora por um lado contar pudesse ser interessante e até mesmo o mais honesto – dado que, enquanto para muitos rapazes da casa provavelmente não fizesse diferença, outros, sabendo, poderiam preferir evitar certos contatos físicos –, por outro lado, sabe-se que o transexual é aquele que, independente de cirurgia de redesignação sexual, desde sempre sabe-se do sexo oposto àquele com o qual nasceu. Logo, não entrar na casa espalhando isso aos quatro cantos pode haver sido uma decisão natural da cabeleireira Ariadna.

Há quem diga, porém, que o silêncio sobre o assunto, mais que uma decisão de Ariadna, foi uma imposição da Globo. Alguns consideram que a moça haja assinado um contrato com a emissora comprometendo-se a não contar sobre sua transexualidade. Bom, não creio que a emissora chegue a tanto, mas tenho como certo que a sua preferência fosse que a carioca permanecesse no programa chegando a se envolver com algum/alguns dos rapazes. Objetivo: gerar polêmica, deixar os outros em maus lençóis, ganhar audiência. Duvido que haja quem não saiba que os participantes desse tipo de programa são escolhidos a dedo, de modo a termos em todas as suas edições o belo rapaz, a linda moça, o gay, o ex-ator pornô, o sem sal etc. Nada melhor que a diversidade confinada para gerar uma boa polêmica. Programas como BBB nada ensinam, em nada contribuem para o desenvolvimento cultural dos telespectadores, apelando sempre para a vulgaridade. Se programas como esse, no entanto, são tudo o que temos como líderes de audiência, a saída de Ariadna pode, sim, ser uma perda lamentável. Como bem disse Adriana Galvão, presidente do Comitê da Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da Ordem dos Advogados de São Paulo, a permanência de Ariadna no programa, tal como as situações provocadas pelo seu silencio em relação a sua transexualidade, podiam revelar como as pessoas lidam com a diversidade sexual. "Isso pode mostrar até que ponto as pessoas são homofóbicas ou não", disse a advogada.

De uma forma ou de outra, talvez a breve estadia de Ariadna tenha nos dado já uma boa base para saber da profunda ignorância das pessoas sobre o tema da transexualidade e deduzir “até que ponto as pessoas são homofóbicas”. Enquanto alguns brothers da casa juram não ter percebido nenhuma saliência na peça inferior do biquíni da moça e outros acreditam que a mesma se chame Ariel na “vida real”, devido a uma metáfora utilizada por Pedro Bial durante o discurso de eliminação, João Gabriel, o ex-marido da transexual, é alvo de preconceito na rede social Orkut, em uma comunidade oficial de uma torcida organizada do Vasco, da qual faz parte. A revolta dos torcedores se deve ao fato de João Gabriel haver assumido para a imprensa haver vivido um relacionamento com a ex-BBB, o que, na visão deles, mancha a imagem do time. Bom, isso reproduz bem o que é o preconceito: ou você se adéqua à maioria para fazer parte do grupo ou você está fora do grupo.


Andréia Albertine. Imagem retirada de Val Cabral.

Aliás, essa coisa de futebol e transexualidade me faz lembrar nada menos que o caso Ronaldinho, hoje esquecido, para a sorte dele, mas nunca realmente esclarecido de modo a não deixar dúvidas, o que agora pouco importa, já que a grande maioria nem se lembra mais do assunto e dado que o próprio travesti Andréia Albertine – morto na madrugada do dia 9 de julho de 2009, vítima de uma meningite que complicou-se com uma pneumonia – retirou todas as acusações que fizera contra Ronaldo uma semana após a confusão. Obviamente, isso pouco ou nada tem a ver com Ariadna, que, vale ressaltar, é transexual e não travesti. Não obstante, esse e tantos outros casos servem para discutir o imenso atraso cultural e intolerância de muitos dos brasileiros. Recordo-me de, quando do ocorrido, haver participado de conversas sobre o tema, fosse em fóruns virtuais ou rodas de amigos, e haver me deparado com torcedores angustiados. E a angústia, bem me lembro, se dava não pela possibilidade de o jogador ser um desonesto e haver se negado a pagar o que havia combinado com Andréia, mas pelo fato de o seu jogador, outrora chamado fenômeno, haver mantido relações com um travesti, como se isso anulasse os seus méritos como grande futebolista.

Assuntos como homossexualidade, transexualidade, travestismo e correlatos precisam ser abordados de maneira realmente séria e não estereotipada pela mídia. O portal Hora de Santa Catarina, aproveitando o caso Ariadna, chegou até mesmo a disponibilizar em sua página uma breve explicação sobre essas e outras terminologias. Entender as coisas é um bom passo para não termos preconceito. Até então, porém, travestis e transexuais – salvo raras exceções como Fernanda Carraro e Letícia Venturini, que deram um show de interpretação, dublagem, beleza e criatividade no programa Gente que brilha, exibido pelo SBT entre outubro de 2004 e abril de 2005 – só tiveram destaque na mídia devido a polêmicas.


Miguel Falabella.
Imagem retirada de Canal da Notícia.

Foi Miguel Falabella quem, criativo e revolucionário como sempre (ou quase sempre), promoveu uma discussão interessante na aparentemente extinta série A Vida Alheia, referindo-me aqui ao episódio “O direito de cada um”, que foi ao ar em 13 de maio de 2010. Nesse episódio, o jogador de futebol Balu (Dudu Pelizzari) é visto entrando em um motel com o travesti Doris (Bruno Kimura), tornando-se, assim, alvo da revista de celebridades “A Vida Alheia”, que estampa em sua capa a sensacionalista chamada “Balu flagrado no motel com travesti”. O interessante nesse episódio – ou o “surpreendente”, como bem disse Falabella em entrevista à Folha – é o fato de o fictício jogador Balu, em entrevista a um estranho programa (aparente programa de fofocas comumente exibido à tarde), dizer que é maior de idade, faz bem o seu trabalho como jogador e está no direito de escolher quem bem lhe interesse para levar ao motel. Nesse episódio, o travesti Doris termina ganhando fama, sendo novamente capa da “A Vida Alheia”, dessa vez de forma positiva. Assim, a revista acabou sendo digna dos cumprimentos do jogador.

Quando perguntado se o episódio era uma referência clara ao “Ronaldo Fenômeno”, Falabella responde que “Não é o Ronaldinho, é apenas uma inspiração como várias inspirações que a gente pega e mistura. Mesmo porque os nossos escândalos não chegam nem perto dos ingleses e dos americanos. Isso de originalidade é uma bobagem. Todas as histórias já foram contadas. O negócio é como contá-las e o frescor de diálogo, por isso que a gente aposta no diálogo que traga um ruído novo da TV aberta. Pelo menos é a proposta”.

Bianca Soares e Alexandre Frota. Imagem retirada de Quem Acontece.

Programas mais sofisticados como A Vida Alheia, porém, continuam perdendo para programas como BBB ou versões mal sucedidas como Casa dos Artistas, reality show exibido pelo SBT entre 2001 e 2002. Em sua quarta e última edição, intitulada “Casa dos Artistas 4: Protagonistas de Novela” e que não tinha muito a ver com as edições anteriores, o programa teve como participante a travesti Bianca Soares, o que, penso, não gerou grande polêmica devido à baixa audiência do programa. Bianca, porém, foi a segunda eliminada do programa, por razões que não conheço bem, mas penso ser pelo seu desempenho ruim nos testes. É uma pena, pois a proposta do programa era lançar um novo talento que protagonizaria uma telenovela do SBT, e seria inovador ver uma travesti protagonizando uma novela. Por outro lado não há muito problema, já que nem a “grande ganhadora” Carol Hubner chegou a protagonizar a novela que lhe fora prometida...

Bom – tomando emprestada a expressão usada por Ariadna, que disse ontem em entrevista no Projac que deseja que “as portas se abram” para ela – parece que poucas portas se abriram para Bianca Soares além das portas da Brasileirinhas, produtora brasileira de filmes pornográficos, que se escancararam para ela. A moça, além de protagonizar alguns filmes da produtora, chegou a fazer cenas de gosto duvidoso com o brutamontes Alexandre Frota.

Acabamos por falar de pessoas bem diferentes entre si, mas que, infelizmente, na minha opinião, têm algo em comum: tanto Ariadna como Nádia e Bianca chegaram a se prostituir antes da "fama". Foi essa, aliás, uma das revelações “bombásticas” feitas por Ariadna durante a sua estadia na “casa mais vigiada do Brasil”, o que, talvez, pode haver sido desfavorável a sua permanência no programa. É difícil tocar em temas como a prostituição, até porque estamos em uma sociedade dividida entre aqueles que a condenam e aqueles que a defendem com o argumento de ser ela uma profissão como qualquer outra, e uma profissão digna. Será? Bom... complexo, e isso envolve inúmeras questões, inclusive questões morais, as quais não mencionarei aqui para não parecer um moralista chato, até porque não é esse o tema desta postagem. Enfim, desconheço as razões que levaram as pessoas mencionadas a recorrerem à prostituição, pois são casos específicos. Mas é certo – e lamentável – que, em sua maioria, os transgêneros recorram a esse tipo de trabalho não por prazer, mas pela falta de oportunidades. No contexto brasileiro temos visto alguns tímidos avanços nesse sentido, mas a falta de entendimento sobre a condição dos transgêneros ainda os condena ao comércio do corpo.


Roberta Gambine Moreira, a Roberta Close. Imagem retirada de Veja.

Obviamente, um artigo sobre transexualismo, mídia e polêmica não poderia deixar de mencionar a musa Roberta Close, pessoa a quem eu tenho cá críticas a fazer, mas que é, a meu ver, digna de grande admiração pela luta de décadas pelo seu reconhecimento legal como mulher. Ao lado dela, temos tantos outros “transexuais e transgêneros que de algum modo trouxeram benefícios para a sociedade [LGBT}, seja lutando em favor das minorias, seja como pessoas públicas que se destacam artística, cultural, científica ou politicamente”, conforme o disposto no site Wikipédia, que apresenta uma lista bem completa de transexuais e transgêneros publicamente conhecidos.

Resta-nos agora torcer pelo futuro de Ariadna – que, esperamos, montará seu centro de estética a despeito de não haver recebido o premio – e por tantas outras pessoas que, como ela, têm um histórico de luta, exclusão e intolerância. E, claro, torçamos por mídias melhores, que contribuam de fato para que futuras Ariadnas, Biancas, Nádias, Robertas e tantas outras tenham uma vida mais digna e com mais e melhores oportunidades nessa sociedade brasileira que, amedrontada e preconceituosa, insiste em permanecer na ignorância sobre temas que, como esse, vivem a lhe bater à porta.



Referências:

Anônimo. Anexo: Lista de transexuais e transgêneros publicamente conhecidos. In: Wikipédia. S.d.

ANÔNIMO. Curiosidades sobre Big Brother. In: O guia dos curiosos. S.d.

ANÔNIMO. E Deus criou a mulher. Ou quase. In: JC OnLine. Recife, 19 jun. 1998.

ANÔNIMO. Morre travesti que se envolveu em polêmica com Ronaldo. In: FOLHA.com. 09 jul. 2009, 23h46.

ANÔNIMO. No embalo da Ariadna, entenda o que é um transexual. In: Hora de Santa Catarina. 19 jan. 2011, 13h11.

BRANDÃO, Lívia. Papo sobre Ariadna, saída do armário e pegação no 'BBB 11'. In: BigBlog. 19 jan. 2011, 12h30.

CIMINO, James. "A realidade é bem mais dura", diz Miguel Falabella sobre "A Vida Alheia". In: FOLHA.com. 18 jul. 2010, 07h44.

MAIA, Maria Carolina. Eliminação de Ariadna coloca o BBB11 no paredão. In: Veja. 19 jan. 2011, 17h32.

MIRZEIAN, Clarissa. Primeiro Paredão do BBB 11 contempla a diversidade. In: E-Band. 17 jan. 2011, 13h55.

REDAÇÃO. “BBB 11": "Só os rejeitados pela sociedade", diz Jana sobre Paredão. In: JC Online. 18 jan. 2011.

S.C.C. com agências. Nádia Almada enfrenta grave depressão. In: Correio da Manhã. 05 set. 2005.

SANTOS, Eliane. Ex-marido de Ariadna, do 'BBB 11', sofre retaliação de torcida de futebol no Orkut. In: ego. 12 jan. 2011, 21h26.

SOUZA, Richard; AMARAL, Luiz Cláudio; COSTA, Fabrício. Ronaldo: confusão com travesti no Rio. In: globoesporte.com. 29 abr. 2008, 08h46.

VALLADARES, Ricardo. Estranho no ninho. In: veja on-line. Edição 1868. 25 ago. de 2004.

ZYLBERKAN, Mariana. Globo na mira de polêmica. In: Diário de S. Paulo. 13 jan. 2011, 18h02.