domingo, 27 de janeiro de 2013

De pernas pro ar 2


Título original: De Pernas Pro Ar 2
Ano: 2012
Direção: Roberto Santucci
Roteiro: Paulo Cursino, Ingrid Guimarães, Marcelo Saback
Gênero: Comédia
Origem: Brasil
Duração: 95 minutos


O prazer não tem limites! E Alice Segretto (Ingrid Guimarães), vai levar isso ao pé da letra e expandir os negócios da “Sex Delícia” à capital cultural do mundo: Nova Iorque. E aí está boa parte da graça de De pernas pro ar 2. Quem, ao assistir o trailer, previu muita risada diante das trapalhadas de Alice em Nova Iorque, não vai se decepcionar. Aliás, uma das muitas verdades que têm sido ditas sobre o longa é o fato de ser ele um dos raros casos em que a sequência supera o original. É isso mesmo. Esta sequência do filme de Roberto Santucci – que conta, inclusive, com a própria Ingrid Guimarães na produção do roteiro – potencializa os acertos do anterior, cria novas piadas e comete novos erros, totalmente perdoáveis a meu ver. Vamos a tudo isso.

Antes de chegar à América, Alice vai passar um mau bocado, desmaiando sobre um bolo bem peculiar no lançamento da centésima loja da “Sex Delícia”; sendo colocada no chinelo pela linda, bem-sucedida e faz-tudo Vitória (Christine Fernandes) e cometendo loucuras em uma reunião com investidores após ingerir seu calmante com champanhe. E como se não bastasse, a pobre ainda vai parar em um spa dirigido pela severa Regina (Alice Borges). Nada disso, porém, é suficiente para parar Alice, que, para escapar do spa e continuar tocando o seu voluptuoso negócio, recorre aos serviços do hacker e contrabandista de eletrônicos Leozinho (Wagner Santisteban), além de proporcionar um orgasmo à “sargentona” Regina. No spa, aliás, todas essas figuras – com destaque para o Mano Love (Luiz Miranda), antipático, mas cômico – são hilárias. Tanto quanto o orgasmo alcançado por Alice, ao som de Byafra, por via do estranho objeto de oito tentáculos – ou testicles (trocadilho infame, porém engraçadíssimo, utilizado no filme) – que viria a ser a chave para o sucesso da “Sex Delícia” em Nova Iorque.

Contudo, devem ser considerados pontos que eu nem chamaria de falhas, visto que surtem efeito (o riso) e não prejudicam o filme. Um deles é aquela espécie de reformulação da cena de Alice à mercê de um “brinquedinho”, desta vez não controlado pelas ondas sonoras durante o jogo de futebol do filho (João Fernandes, no primeiro filme), mas pelo controle remoto, manuseado, involuntariamente, por João (Bruno Garcia). Outro ponto é a previsível cena do restaurante, exibida à exaustão em produções norte-americanas e até em novelas do SBT. Me recordo de haver visto algo do tipo, pela primeira vez, em Uma babá quase perfeita (1993). Conforme já dito, porém, são pontos que, embora representem um pequeno pecado em termos de criatividade, surtem o efeito esperado e estão bem onde estão.

Ademais, quaisquer falhas são compensadas pelo brilhante elenco. Ingrid Guimarães continua a nos surpreender com o seu talento. Cristina Pereira ganha maior destaque e a sua personagem Rosa mostra que não está ali a passeio, tal como a perfeita Denise Weinberg, para quem parece não haver tempo ruim. Maria Paula, muito criticada desde o primeiro filme (críticas com um quê de exagero, a meu ver), continua defendendo bem a sua Marcela. E até o Paulinho (Eduardo Melo, nesta sequência) se sai bem em suas raras falas. E, havendo mencionado a cena do restaurante no parágrafo anterior, não se pode desconsiderar a rápida, porém intensa, participação de Rodrigo Sant’Anna, que, em sua última cena, até utiliza um dos bordões de sua personagem Valéria Vásquez. A referência a bordões do pretenso humorístico Zorra Total, aliás, não é uma novidade em filmes nacionais. A diferença é que, enquanto soou como uma patética estratégia em Xuxa Gêmeas, ficou funcional e dentro de contexto em De pernas pro ar 2. Quanto a Ricardo (Eriberto Leão) – que também se sai bem como possível cara-metade de Alice –, fico pensativo quanto ao beijo que apenas quase rolou entre ele e a protagonista, mas que rolou pra valer entre João e a “Mulher Maravilha”. Não se trata de uma apologia à traição, mas fico me questionando sobre esta mulher moderna, empreendedora e independente que, contraditoriamente, não se atreve nem a um beijinho com uma bela figura como Ricardo (Eriberto Leão) à quilômetros de distancia de sua cidade e de sua família. Machismo enrustido em um filme tão libertário ou estratégia do diretor para mostrar que Alice, apesar de sua compulsão pelo trabalho, é fiel à sua família? Vai saber...

Aliás, no tocante ao mencionado aspecto libertário do longa, isso, a meu ver, lhe rende muitos pontos. De pernas pro ar 2 segue provocando o riso sem precisar apelar para o palavreado chulo ou fazer piadas sexistas. O sexo ali é para todos, sem que isso tenha aquele famigerado arzinho de escárnio.

E falando em mulher moderna, merece destaque a criança que interpreta Alice na infância, relatando, para uma câmera, os sonhos que, de um jeito ou de outro – embora de uma maneira bastante torta – se realizam na vida adulta da personagem. Neste ponto, vale fazer uma analogia entre esta Alice, obstinada na busca pela concretização de um sonho – única e exclusivamente para fins de realização pessoal – e aquela outra Alice, personagem de Lewis Carroll. É óbvio que são estórias totalmente distintas, mas ambas estão envoltas em sonhos e fantasias, e são justamente essas fantasias (num sentido malicioso, no caso de De pernas pro ar 2) que as conduzem ao amadurecimento. Aliás, em ambas as estórias, um coelho é o grande responsável por tudo... Em se tratando de filmes e, principalmente, obras literárias, nomes nem sempre são casuais. A personagem de Christine Fernandes, por exemplo, não se chama Vitória devido a uma escolha arbitrária, mas, sim, para reforçar para o telespectador a representação que aquela mulher tem para Alice. Ou seja: a mulher vitoriosa por dar conta do recado em todos os âmbitos de sua vida.

E foram justamente os sonhos de menina da protagonista os responsáveis por uma rápida solução para o final do filme. Uma solução que, na verdade, deixa muita coisa mal resolvida, vista a lógica de que Alice não vai mudar, continuando isso a ser prejudicial a si mesma, ao seu casamento e, em especial, ao seu filho. Por outro lado, não sei se esse tipo de exigência cabe a uma comédia. E, além disso, esse desfecho meio vago vem a ser positivo se for sinal de uma possível continuação. Então, enquanto o terceiro filme não vem, vamos ao cinema rir a valer com as brejeirices da protagonista e dos que a acompanham, e, se tivermos que tirar uma lição do filme, que seja a de que o bom é que vivamos a nossa vida de pernas pro ar...

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Publicado originalmente em CinePlayers.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A virgem de 40 – Agora ou nunca


Imagem retirada do site da campanha.

A minha peregrinação pela 39ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de Belo Horizonte teve como largada a peça A virgem de 40 – Agora ou nunca, o que me trouxe também a oportunidade de adentrar pela primeira vez o Teatro ICBEU – que também está na casa dos 40, mas não é mais virgem, não! –, tão próximo a minha adorada Praça da Liberdade. A descrição da peça, disponibilizada na divulgação da campanha, é simples: Norma, “uma professora romântica, sonhadora e virgem”, resolve, no dia de seu aniversário de 40 anos, se dar de presente uma relação sexual, o que acaba por gerar “sucessivas situações inusitadas”. O que o público não sabe, embora provavelmente suponha em sua maioria, é que o recurso encontrado pela protagonista para a concretização do seu intento é uma agência de acompanhantes, através da qual ela tem contato com três peculiares profissionais do sexo: o “número 32” Ronaldo, cujo “Ronaldão” é, na verdade, “Ronaldinho”, e só deixa a protagonista – e a plateia – na vontade; o “número 22” Celso (mais romântico que a própria Norma), que, há vinte anos, foi aluno da protagonista, a sua primeira paixão; e o diretor da agência, um homem curiosamente caquético que se viu obrigado a ir ele próprio à casa da protagonista a fim de atender-lhe à complexa demanda. Aliás, é justamente a demanda da nossa excêntrica Norma que gera as absurdas situações: ela não apenas quer “perder a virgindade”, como também quer viver este momento tão especial fazendo “papai-e-mamãe” – posição tão ultrapassada quanto “tripé de samambaia” –, sendo chamada de amor e sendo carregada até o quarto vestida de noiva.

Neste ponto, é válido que façamos algumas considerações acerca da contraditória personalidade da professora, que valoriza o amor e a primeira vez na noite de núpcias (o que justifica o nome dado à personagem: Norma), mas que vai tentar ter tudo isso, de “mentirinha”, com um garoto de programa, fracassada que foi ao tentar concretizá-lo na vida real. E é aí que subjaz a intempérie que marcou a vida da professora, que, há vinte anos, estava noiva e, por desconhecida razão, foi abandonada pelo homem com quem sonhava ter sua primeira noite e viver para sempre em uma “casinha de janelas azuis”.

Como podemos notar, A virgem de 40 tem um bom argumento, mas a verdade é que Aziz Bajur, autor da peça, não se aproveita como pode desse argumento, e – por falha ou por escolha –, acaba desenvolvendo uma estória focada no humor, pautada no preconceito e com desfecho aquém das expectativas da plateia.

O preconceito ao qual faço menção está no desespero no qual o simples desejo da professora se transforma no decorrer da peça, levando-a ao ponto de convidar o porteiro do prédio ao seu apartamento, abduzindo-o, com uma arma, a ter uma relação sexual com ela. Tal preconceito está até mesmo no texto, onde podemos conferir dizeres como “E agora? Quem é que vai resolver o meu problema?”. Claro, talvez estejamos a exigir demais de uma peça que se propõe exclusivamente ao humor, sem, em momento algum, pretender enveredar-se por reflexões sérias acerca da questão da mulher. Mas, por outro lado, não sei se a arte (e aqui eu me refiro a um conceito estritamente pessoal de arte) está autorizada a se desviar de reflexões desse tipo.

Por outro lado, não se deve ignorar o fato de que o humor atual se dá, geralmente, alicerçado em preconceitos, o que pode, talvez, legitimar o uso e abuso do estereótipo da mulher de 40 anos desesperada por sexo, tais são as ocorrências físicas e adoção de postura mais ativa no plano social, profissional, afetivo e sexual que marcam a vida das mulheres aos 40.

Outro ponto é que a peça me parece não cumprir com a sua função catártica, em especial se considerarmos haver na plateia pessoa em condição semelhante à da protagonista. Principalmente pelo seu desfecho, que, aparentemente, mais se justifica pela necessidade de se encerrar a estória com um final meia-boca após haver alcançado sucesso com o riso. Será que a nossa protagonista necessitava, de fato, de uma relação sexual com um michê, mesmo que nocauteada pelo álcool que vai consumindo ao longo da trama? Será que ela devia mesmo desistir do seu sonho de “um amor para toda a vida”? Será que o seu ex-aluno, tão acanhado e insatisfeito com a sua condição de michê, a satisfaria a ponto de fazê-la esquecer a mágoa que lhe foi causada há vinte anos? Enfim, é claro que são respostas que devem ficar para a imaginação da plateia. O problema, porém, é que a trama carece de elementos que possibilitem ao espectador o sonho pós-espetáculo.

Merece destaque, porém, a transformação, inclusive física, pela qual Norma vai passando ao longo da trama. Da recatada mulher de óculos, cabelos presos e camisola longa à sedenta mulher de linguajar chulo, longos cabelos anelados e camisola sexy de cor vermelha, vai se revelando a loba. E merecido destaque, também, para a Ivonete, atendente da agência de acompanhantes, a quem só conhecemos por via das sucessivas ligações da protagonista, mas que nem por isso deixa de nos arrancar muitos risos. “Nós não temos ‘qualquer um’. Só trabalhamos com profissionais altamente qualificados”.

Conclui-se, então, que A virgem de 40 – Agora ou nunca tem, sim, alguns problemas que podiam ser solucionados aproveitando-se melhor o seu argumento. Mas, a despeito disso, trata-se de uma peça que, como todas as peças participantes da campanha, deve ser vista e aplaudida de pé, pois os atores, o diretor, o autor e todos os envolvidos merecem. Tal como você que, não só durante a campanha, mas durante o ano inteiro, merece ir ao teatro para rir e chorar com as Normas da vida!

sábado, 12 de janeiro de 2013

Namore um cara que lê



Imagem retirada do blog Peregrinacultural`s.

Namore um cara que se orgulha da biblioteca que tem, ao invés do carro, das roupas ou do penteado. Ele também tem essas coisas, mas sabe que não é isso que vai torná-lo interessante aos seus olhos. Namore um cara que tenha uma pilha de três ou quatro livros na cabeceira e que lembre do nome da professora que o ensinou as primeiras letras.

Encontre um cara que lê. Não é difícil descobrir: ele é aquele que tem a fala mansa e os olhos inquietos. Ele é aquele que pede, toda vez que vocês saem para passear, para entrar rapidinho na livraria, só para olhar um pouco. Sabe aquele que às vezes fica calado porque sabe que as palavras são importantes demais para serem desperdiçadas? Esse é o que lê.

Ele é o cara que não tem medo de se sentar sozinho num café, num bar, num restaurante. Mas, se você olhar bem, ele não está sozinho: tem sempre um livro por perto, nem que seja só no pensamento. O rosto pode ser sério, mas ele não morde, não. Sente-se na mesa ao lado, estique o olho para enxergar a capa, sorria de leve. É bem fácil saber sobre o quê conversar.

Diga algo sobre o Nobel do Vargas Llosa. Fale sobre sobre as novas traduções que andam saindo por aí. Cuidado: certos best-sellers são assunto proibido. Peça uma dica. Pergunte o que ele está lendo – e tenha paciência para escutar, a resposta nunca é assim tão fácil.

Namore um cara que lê, ele vai entender um pouco melhor seu universo, porque já leu Simone, Clarice e – talvez não admita – sabe de memória uns trechos de Jane Austen. Seja você mesma, você mesmíssima, porque ele sabe que são as complicações, os poréns que fazem uma grande heroína. Um cara que lê enxerga em você todas as personagens de todos os romances.

Um cara que lê não tem pressa, sabe que as pessoas aprendem com os anos, que qualquer um dos grandes tem parágrafos ruins, que o Saramago começou já velho, que o Calvino melhorou a cada romance, que o Borges pode soar sem sentido e que os russos precisam de paciência.

Um namorado que lê gosta de muita coisa, mas, na dúvida, é fácil presenteá-lo: livro no aniversário, livro no Natal, livro na Páscoa. E livro no Dia das Crianças, por que não? Um cara que lê nunca abandonará uma pontinha de vontade de ser Mogli, o menino lobo.

E você também ganhará um ou outro livro de presente. No seu aniversário ou no Dia dos Namorados ou numa terça-feira qualquer. E já fique sabendo que o mais importante não é bem o livro, mas o que ele quis dizer quando escolheu justo esse. Um cara que lê não dá um livro por acaso. E escreve dedicatórias, sempre.

Entenda que ele precisa de um tempo sozinho, mas não é porque quer fugir de você. Invariavelmente, ele vai voltar – com o coração aquecido – para o seu lado.

Demonstre seu amor em palavras, palavras escritas, falas pausadas, discursos inflamados. Ou em silêncios cheios de significados; nem todo silêncio é vazio.

Ele vai se dedicar a transformar sua vida numa história. Deixará post-its com trechos de Tagore no espelho, mandará parágrafos de Saint-Exupéry por SMS. Você poderá, se chegar de mansinho, ouvi-lo lendo Neruda baixinho no quarto ao lado. Quem sabe ele recite alguma coisa, meio envergonhado, nos dias especiais. Um cara que lê vai contar aos seus filhos a História Sem Fim e esconder a mão na manga do pijama para imitar o Capitão Gancho.

Namore um cara que lê porque você merece. Merece um cara que coloque na sua vida aquela beleza singela dos grandes poemas. Se quiser uma companhia superficial, uma coisinha só para quebrar o galho por enquanto, então talvez ele não seja o melhor. Mas se quiser aquela parte do "e eles viveram felizes para sempre", namore um cara que lê.

Ou, melhor ainda, namore um cara que escreve.



SILVA, Bruna Palma e. Namore um cara que lê. Retirado do blog Acepipes Escritos. Baseado no texto Date a girl who reads, de Rosemary Urquico.



Visite o meu post anterior: Namore uma garota que lê.


Namore uma garota que lê



Imagem retirada do blog Plantão Online.

Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.

Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criado pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maioria das garotas que leem não gosta de ser interrompida. Pergunte se ela está gostando do livro.

Compre para ela outra xícara de café.

Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, Cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade, mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.

É que ela tem que arriscar, de alguma forma.

Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.

Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas  garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim.  E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.

Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até  porque, durante algum tempo, são mesmo.

Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.

Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.

Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe  monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.

Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.



URQUICO, Rosemary. Namore uma garota que lê. Tradução e adaptação do original Date a girl who reads, por Gabriela Ventura, do blog Quinas e Cantos.



Visite o meu próximo post: Namore um cara que lê.


sábado, 7 de abril de 2012

Para a vida seguir mudando

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“Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.” Essas palavras foram proferidas ou escritas por Albert Einsten. Ou não, já que, em tempos de internet, Veríssimo, Clarice Lispector, Arnaldo Jabor e afins se tornaram autores de textos que, para bem ou para mal, jamais escreveriam. Isso, de qualquer forma, não é importante, e até opto por acreditar (já que, do lado de fora da caverna, acreditar ou não é sempre uma opção) que Einsten, com todo aquele jeitão amalucado, formulou, sim, essa teoria, não tão genial quanto à Teoria da Relatividade, claro, mas tão genial e racional quanto. E é com esses dizeres do grande físico alemão – passando, despretensiosamente, um pouquinho pela literatura e pela filosofia – que dou início às minhas modestas considerações sobre a Páscoa, já que tudo isso tem a ver com passagem, mudança ou qualquer coisa igualmente boa.

Na verdade, eu ignorava a tal frase de Einsten, tomando conhecimento da mesma apenas há poucos dias, através do Facebook. E foi através dessa boa e velha rede social que conheci, também, uma charge que me chamou a atenção, onde Jesus crucificado dizia algo mais ou menos como “O duro é saber que daqui a algum tempo eu serei trocado por um coelho e um monte de chocolate”. Muito embora eu tenha achado engraçada a charge – já que é no mínimo hilário imaginar uma figura como Jesus falando de coelhos e chocolates –, atentei-me para a seriedade da discussão que pode se desdobrar dela. Aqui, vale dizer que sou terminantemente contra qualquer tipo de preconceito, e, com isso, de modo algum pretendo fazer o papel do bom moço. A verdade é que trago comigo uma infinidade de preconceitos, muitos dos quais levarei, provavelmente, para o túmulo. Sou, porém, veementemente contra todos eles. Assim sendo, acredito ser louvável que os não-cristãos ocidentais – o que envolve desde ateus até indivíduos adeptos de cren­ças desvinculadas do cristianismo – concebam como fortemente representativas de algo as datas instituídas como santas pela Igreja Católica. E isso, definitivamente, não tem nada a ver com comungar dos ensinamentos dela, até porque eu jamais daria uma sugestão/conselho desse tipo. Mas convenhamos: cada uma dessas datas nos propicia um clima favorável à reflexão acerca do nascimento, do renascimento, da vida, da morte, do perdão, do encontro e por aí vai. E isso é maravilhoso, já que o capitalismo arraigado em nossa sociedade, bem como toda a urgência e imensidão de nossa vida exterior, pouco ou nunca nos permitem parar e refletir acerca de questões existenciais, por mais que sejam elas, talvez, as mais emergenciais.

Mas o que temos feito com os dias “santos”? Temos lhes adequado à nossa cultura capitalista, fazendo do Natal um dia de dar e receber presentes, da Páscoa dia de dar e receber chocolates, e dos demais uma boa oportunidade para ir para o sítio, para a praia e afins. Ora, não há nada de errado em nos valermos dos feriados para nos divertir, afinal merecemos, não é? Tampouco há problemas em distribuir ovos de Páscoa. São sempre bem vindos, ok? O problema se dá quando, extasiados pelo grande movimento que o capitalismo promove, somos abduzidos da natureza simbólica das datas e do que elas realmente trazem de importante. E aí voltamos à charge sobre Jesus, esmorecido pelo desdém ao Seu sacrifício, conforme a Sua onisciência Lhe permite prever, em tempo tão remoto. Não deve ter sido nada fácil... Mas vamos pensar a paixão e ressurreição de Cristo como metáforas: a paixão como uma metáfora para a possibilidade de amor incondicional, gratuito (e por “amor” entenda-se gentileza, respeito, tolerância e afins), bem como para transitoriedade da vida, cuja perpetuação é intrínseca à partida de alguns (para uma metáfora mais simples, vide “batatinha quando nasce”). A ressurreição, algo tão difícil de compreender em seu sentido literal, concebamos como uma metáfora da nossa possibilidade de emergir, de vencer as adversidades e abraçarmos, lá na frente, a nossa tão sonhada felicidade. E não estou sendo infantil ou sonhador, pois, desde que Alice acordou, nós bem sabemos que essa estória de felicidade plena é pura balela e só existe em manual de autoajuda. Digo “felicidade” como sinônimo de ânimo, paz e motivação para a vida. Essa, sim, é uma felicidade possível! Mas, mais do que de vontade, depende de trabalho duro, e é aí que entra a ressurreição; é aí que, finalmente, os dizeres de Einsten passam a ter razão de ser neste texto. A nossa obstinação nem sempre é garantia de algo, mas braços cruzados, bem como insistência em métodos que já falharam – muitos deles até contraproducentes –, são derrotas garantidas.

Eu intitulei este texto como “Para a vida seguir mudando”. Não, não se trata de uma mensagem petista subliminar. Optei por esse título porque tudo isso me remete à educação, que, ao menos quando avistada daqui do meu belo horizonte, só tem caído, inversamente proporcional ao número de alunos em sala de aula e à violência. Sim, mudanças na educação são urgentes, mas eu penso também na urgência de que todos, de modo geral, saiam do seu egoísmo voraz e assumam uma postura educativa para a vida. Isso, sim, provoca mudanças, minha gente. Chorar diante de casos como os do garoto João Hélio e da menina Isabella Nardoni, ou mesmo se comover diante de um Quarto de despejo, O diário de Anne Frank, Precious e afins é muito válido e muito bonito. A verdadeira mudança, porém, se dá a partir de uma mudança de atitude na minha comunidade, no meu trabalho, no trato com os meus. A atitude, sim, é revolucionária, e Einsten bem o sabia.

E isso tudo é Páscoa... passagem... passagem de um tempo de espera preguiçosa e acomodada para um tempo de mudança. Mudança em nós e a nossa volta. Entendeu? Se não puder ou simplesmente não quiser orar fervorosamente, ritualizando e forçando uma fé, não há problema. Vale é trabalhar, ser bom e ter amor, para, assim, manter a cruz vazia e ser protagonista da História.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Entre a dor e a esperança

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Imagem retirada do site Colloquium.


“A palavra é o meu domínio sobre o mundo”, já disse Clarice Lispector. Alguns anos mais tarde, outra literata sensível e maravilhosa, a Elisa Lucinda, definiria a poesia como uma possibilidade de captar a essência do cotidiano. O poeta seria, para ela, como um fotógrafo, que, com sua câmera fotográfica (a palavra), capta um trecho do correr dos dias, eternizando-o no verso. E assim, dou início a este texto prestando as minhas homenagens às Elisas, Clarices, Drummond’s e tantos outros poetas que utilizaram-se/utilizam-se da palavra para manter vivos todos os momentos, os bons e, claro, os maus, que também fazem parte da vida. E eu, entretido pelos meus draminhas pessoais, assistindo a esse turbilhão de acontecimentos dos quais o nosso tão pequeno mundo tem sido palco, mas deixando tudo isso passar sem a oportunidade de vir até aqui e registrar, em um post que seja, "a vida exterior, com seus teatros, as suas palavras de café, os seus almoços ruidosos e cheios de risos, as suas aventuras picantes, as suas peripécias, as suas alegrias...", como versava Aluisio Azevedo em sua Girândola de amores.


Não são, todavia, exatamente risos, amores e alegrias que têm protagonizado a infindável história da humanidade ultimamente. Somente no século XXI, o nosso planeta já foi palco de inúmeros desastres naturais, dentre os quais, se quisermos nos ater aos mais destrutivos e divulgados, podemos citar o tsunami na Ásia (2004), o Furacão Katrina nos EUA (2005), o terremoto no Haiti (2010) e o mais recente sismo sofrido pelo Japão, acompanhado por um tsunami (2011). Em se tratando de terras brasileiras, podemos mencionar não um terremoto – o que já houve por aqui –, mas a recente tragédia causada pelas chuvas na região serrana do Rio de Janeiro, cujas imagens de dor, perda, coragem e solidariedade chocaram todo o mundo, despertando lágrimas e mobilizando voluntários por todo o país.


Culpa da natureza?, da ação humana?, de Deus? Cheguei a acompanhar num fórum virtual sobre a catástrofe no Japão uma discussão entre pessoas mais centradas, indiferentes e fanáticos religiosos, que culpavam o distanciamento do homem das coisas de Deus pelo ocorrido no oriente. Na época do ocorrido na Ásia e no Haiti não foram raras as ocasiões em que ouvi acaloradas discussões sobre o “desprezo” ao Cristianismo em terras orientais como causa das respectivas tragédias. A velha estória de um controverso Deus que ora ama incondicionalmente ora ignora ou mesmo destrói quem não o segue conforme os mandamentos da igreja. E assim, o nome de Deus e as considerações sobre o pecado continuam a servir como subterfúgio para religiosos mais preocupados em apontarem os outros, desviando a atenção de suas próprias misérias, do que em assumirem a responsabilidade sobre as coisas do mundo.


Mas, como diz uma poesia que ainda não escrevi, “em meio às dores, os sabores”. Em tempos de tragédia, é sempre notável a referida mobilização social em prol das vítimas. Ressalta-se, nesse âmbito, as pequenas e grandes ações, como, no caso do Haiti, a mobilização dos governos de vários países. Foi feita até mesmo uma releitura, em espanhol, da canção We Are the World, de 1985, escrita por Michael Jackson e Lionel Richie em benefício da África. Esta releitura, escrita por Gloria Estefan, teve o título de Somos el Mundo, e teve como intuito arrecadar fundos para ajudar as famílias no Haiti. Durante os desastres na região serrana do Rio, resultado de anos de descuido urbanístico, doações de roupas, mantimentos e afins chegaram de todo o país, sendo a Cruz Vermelha a grande mediadora nesse processo, havendo sido ela também a responsável pela criação de um site de busca de desaparecidos no Japão. São apenas alguns poucos exemplos, claro, mas que já dão notícias da existência do sentimento de responsabilidade e cidadania de muitos. Como me disse uma vez o amigo virtual Daniel Mendonça, “volto a crer na humanidade...”


E foi em meio às notícias sobre as conseqüências do sismo no Japão e das deploráveis ocorrências na Líbia que pisou por essas terras o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, circunstância que a presidenta Dilma Rousseff considerou como o encontro histórico entre a primeira mulher presidente do Brasil e o primeiro presidente afrodescendente dos Estados Unidos. E não é que, lendo na web notícias sobre o tema, dei-me com uma curiosíssima charada? “O que é, o que é... um pontinho afrodescendente no quadro dos presidentes americanos?” Bom, humor negro à parte, se estamos falando de pioneirismo, podemos colocar ao lado de Dilma e Obama a belíssima Elizabeth Taylor, carinhosamente chamada de Liz Taylor, que não foi presidente, claro, mas nem por isso deixou de ser uma grande mulher, militante na luta contra a AIDS, primeira atriz a receber um cachê de US$ 1 milhão, ao atuar no poderoso Cleópatra (1963). E assim caminha a humanidade... Morre Liz Taylor alguns dias após a visita de Obama ao Brasil (23/03) e, após ela, o também grande José Alencar (29/03), após uma longa batalha contra o câncer. A proximidade das mortes e a equivalência de idade entre ele e Liz Taylor (79 anos) foi apenas uma coincidência para lembrar ao mundo a falta que lhe faz seres humanos como esses. E nos resta a ressonância das palavras do ex-vice-presidente em uma entrevista concedida à repórter Adriana Dias Lopes, da Veja: “[...] a humildade se desenvolve naturalmente no sofrimento. [...] Uma das lições da humildade foi perceber que existem pessoas muito mais elevadas do que eu [...].Pensando bem, o sofrimento é enriquecedor.”


Como se todas essas perdas fosse pouco, no dia 7 de abril, uma fatídica quinta-feira, um louco entra numa escola em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, e resolve disparar tiros entre os estudantes, matando doze deles e ferindo outros tantos. O caso, que causou grande comoção em todo o país, inclusive lágrimas da presidente brasileira durante discurso, ocasionou maior atenção a questão do bulliyng, dado o fato de ser isso o que, aparentemente, levou o jovem Wellington a cometer tal atrocidade contra os adolescentes da escola na qual ele próprio havia estudado. Bom, a despeito das motivações do assassino, fica a certeza de que ele foi tão vítima quanto os inocentes “que foram retirados da vida tão cedo” pelas suas mãos.


Agora, temos a recente morte do líder terrorista Osama Bin Laden – efusivamente comemorada pelos americanos, embora trate-se, a despeito de qualquer coisa, de um assassinato e embora a Al-Qaeda, embora enfraquecida, permaneça ativa –, e, do lado de cá, no Brasil, o reconhecimento, pelo STF, da união estável entre pessoas do mesmo sexo, reforçando a chama de esperança de milhares de casais homossexuais e militantes na causa LGBT por uma vida mais justa e livre da discriminação e homofobia.


Neste ponto, o meu caro leitor pode estar se questionando sobre o porquê deste post retrospectivo em pleno mês de maio. Bom, eu diria que este post é tanto para compensar a minha negligência ao não escrever aqui sobre temas de tanta relevância como para dizer que os altos e baixos fazem da vida uma balança que ora pende para um lado ora pende para o outro, sendo preciso que cada um de nós, cidadãos, siga rumo ao ideal de igualdade, justiça, inclusão, cidadania e paz. Parece utopia, mas, se assim o parece, é porque vivemos em uma sociedade que banaliza o mal e, de inúmeras formas, nos educa para que desenvolvamos em relação a ele um sentimento de resignação em vez de revolta. Não é utopia a credulidade ativa, assim como não é utopia dizer que os homens e mulheres que fazem ou fizeram história, a notória solidariedade do povo brasileiro, os avanços da justiça rumo a uma nação mais igualitária e as demais questões positivas abordadas neste texto são, na verdade, uma felicidade anunciada, o que nos leva a crer que seja verdade o que diz aquela música dos Titãs: “O mundo é bão, Sebastião”, apesar dos sobressaltos com os quais a mídia nos bombardeia todos os dias. Então, que assim seja.


sexta-feira, 22 de abril de 2011


Esta terra, os astros. o sertão em paz.
esta flor e o pássaro feliz que vês,
não sentirão, não poderão jamais viver
esta vida singular que Deus nos dá.

Foi na terça-feira, 12 de abril do ano corrente. Eu caminhava rumo a minha casa, fazendo aquele costumeiro trajeto, o qual não faço apenas nas raras ocasiões em que me animo a esperar na estação o ônibus que circula pelo meu bairro. Assim, passando ao lado daquela igreja na qual outrora realizei tanta coisa boa e bonita, senti-me, de repente, convidado por aquele hino de paz que os meus ouvidos captaram como a ressonância de um tempo remoto, porém saudoso, bonito, durante o qual existia em mim ainda a ingênua credulidade no ser humano e no ideal de plena felicidade. A despeito da referida chamada, segui o meu caminho ainda por alguns segundos, com passos hesitantes rumo à rua que, se tomada, anularia qualquer possibilidade de eu retornar à igreja, cedendo ao convite que me era feito.

Parei. Retornei, entrei na igreja e, na entrada, fui recebido por duas pessoas, que me saudaram com a “paz de Cristo”, o que me levou a me sentir feliz e acolhido, dado que, a despeito da fé fragmentada que me habita em tempos atuais, sei que quando se deseja a “paz de Cristo” no contexto da igreja católica, está se desejando alguma coisa muito boa e bonita. Em paz, entrei então na reunião da renovação carismática, observando que, para uma terça-feira à noite, continuava atraindo um número para lá de significativo de pessoas. Então, de mochila nas costas e receoso de chamar a atenção, fiquei ali, no fundo da igreja, cantando a música cuja letra eu ainda sabia, escorregando, porém, na coreografia. Eu participara significativamente de eventos e grupos daquela igreja durante alguns anos, havendo sido brusco o meu afastamento, e seria no mínimo constrangedor para mim que conhecidos daquela época me vissem e considerassem ser um possível retorno a minha presença ali. Me encabulava interpretar o papel do filho pródigo, e eu não havia voltado... Tanto que, quando informado por uma senhora da existência de assentos disponíveis, apenas agradeci. Eu não pretendia acomodar-me em um dos assentos. Tampouco pretendia permanecer ali por muito tempo, tanto que não permaneci.

Mas foi bom estar naquela que fora a minha segunda casa durante tanto tempo e rever tantas das pessoas queridas de uma época.

Folheando as páginas que até então se escreveram sobre a história da minha religiosidade, percebo haver oscilado entre a intensa participação cristã, que beirou o fanatismo religioso, e o profundo afastamento, que beira o ateísmo. Nunca, porém, cheguei a algum dos extremos, e, vale observar, não é com lástima nem com prazer que o digo, tais são as tantas dores e sabores experienciados de ambos os lados. A minha trajetória como cristão – iniciada aos catorze anos e impulsionada pelo meu amigo Ricardo – é perpassada por um belo aprendizado sobre humanidade, solidariedade, amor e otimismo que eu quero levar pela vida toda. Então, como julgar mal aquele tempo? Como pensá-lo como “tempo perdido” se a fé tanto me preencheu e tanto bem me fez? Sim, com tudo o que tinha de ruim, com tudo o que tinha de medo, com tudo o que tinha de fuga da homossexualidade, com tudo o que tinha de tentativa de escapar da vida medíocre que eu julgava levar, tudo aquilo era bom. Os encontros do MOJUAC – Movimento dos Jovens Unidos a Cristo – nas tardes de sábado, os encontros da RCC – Renovação Carismática Católica – nas noites de terça, as conversas com Ricardo, os meus planos de tornar-me irmão missionário e ser encaminhado para realizar missões no Equador, como aconteceu com a Margarida (Margarida, cadê você?), e, principalmente, a constante sensação de paz e de correspondência amorosa vindos de um Deus que era todo amor e misericórdia. E, para alimentar a alma, eu lia o texto sugerido pelo Ricardo. “Mesmo que os montes se retirem e as colinas vacilem, meu amor nunca vai se afastar de você (...)” (Isaías 54,10). E traço um breve paralelo entre aqueles tempos e os atuais, nos quais tantas buscas vãs pelo amor me levam a dar de cara com a desumanidade e indiferença dos “éles” e “éfes” da vida, que eram possibilidades nulas naquela relação com Deus.

E me lembro dos pontos engraçados: Rosilda me dizendo que a minha coreografia da música “Heis que faço novas todas as coisas” mais parecia uma tentativa de apanhar mosquito; eu tentando “converter” os meus familiares; eu impressionado com a beleza do Pe. Marcelo Rossi, que tornou-se ícone do catolicismo nos finais dos anos 90; a minha carteira com dezenas de orações que eu acreditava me protegerem etc. Só recentemente, Ricardo, Bruna – que era protestante/evangélica naquela época – e eu nos vimos numa crise de risos incontrolável na mesa de uma pizzaria, lembrando o grande desafio de Ricardo, que, sem saber como salvar a si próprio do inferno, se compadecia com a minha situação, indo ambos desesperados para a igreja. E, por mais de uma vez, eu me confessei com o Pe. Álvaro, temido pela rigidez que lhe era característica, mas que, no contato pessoal, era afetuoso e amigo.

Bons tempos aqueles.

1999, porém, veio para pôr fim àquilo tudo. Foi o ano da minha mudança de bairro, e, entristecido, me vi obrigado a me afastar de tudo. E foi bom, mas eu só viria a saber isso mais tarde, quando, junto de minha irmã, me tornasse catequista na igreja cuja padroeira é Santa Luzia, a protetora dos olhos, o que por si só já era motivo para que Patrícia e eu amássemos tanto aquele ambiente. Desde pequenos tínhamos em nosso quarto um quadro com a imagem da santa. Durante alguns anos, Patrícia e eu, obrigados pela nossa mãe, íamos no dia 13 de dezembro às ruas do bairro no qual morávamos na infância a solicitar, com o quadro em punho, alguma quantia em dinheiro que, mais tarde, mamãe entregaria à igreja. Alguma promessa feita pela minha mãe, a mesma que, ainda hoje, costuma dizer que no período da Quaresma todos os demônios que permanecem presos durante o restante do ano são libertos dos seus grilhões, saindo pelo mundo a espalhar maldade. Bom, seria uma boa explicação para o ocorrido recentemente em uma escola de Realengo, no Rio de Janeiro. A verdade, porém, é que, aparentemente, meus pais, bem como muitos outros conhecidos meus, sempre viveram o catolicismo enquanto tradição familiar ou mesmo obrigação, nunca, no entanto, vivenciando a fé em sua essência como posso dizer que vivenciei.

Privilégio? Não sei. Tanto a Super quanto a Galileu já estamparam suas capas com matérias especiais sobre o tema, discorrendo sobre os incontestáveis benefícios da fé. Tudo o que sei, porém, é que essa vivência me permite conceber a fé não como a condição para a “felicidade”, mas como uma possibilidade. Não critico o ateísmo. Pelo contrário, admiro-o por julgá-lo corajoso, dado que o ateísmo, a meu ver, tem como base a certeza, a convicção da não existência de Deus e de nenhum deus. Parece-me ser tão difícil ter certeza de alguma coisa... Incomoda-me, no entanto, assistir a cenas de escárnio à fé dos outros. Penso que a igreja, enquanto instituição, é digna de severas críticas pelos preconceitos que ajuda a sucumbir, pela vista grossa que faz para certas questões etc. A fé, no entanto, por mais absurda que possa parecer a alguns, é, sim, digna do nosso respeito, principalmente por não raro ser ela tudo o que sustenta algumas pessoas. É tanta gente buscando saída em recursos obscuros. Me alegraria que a fé fosse o recurso apelado por todos. Assim, da mesma forma que o “não crer” é um tanto corajoso, crer também é maravilhoso. É como... sei lá... um mergulho no invisível, no inexplicável. É saltar do ponto mais alto e, incrivelmente, sustentar-se no ar sem o apoio de recursos como paraquedas e afins. Assim, seria equivocado julgar a fé como coisa de seres ignorantes, quando ela é, na verdade, privilégio de seres evoluídos.

Crer é sublime...

Confesso desconhecer os meus reais objetivos com esta postagem, autobiográfica em todas as suas linhas. Apenas queria dedicar uma postagem a este dia importante no qual se medita a paixão de Cristo, e me faz relativo bem relembrar, neste dia, os tempos idos da minha adolescência. Tanta coisa mudou... Ricardo e Bruna vêm frequentando reuniões sobre Espiritismo, tendendo ao Espiritismo Cardecista, conforme relatado ontem pelo Ricardo; Rosilda, Margarida e tantos outros daquela época desapareceram; Patrícia segue sendo católica, mas, creio, com conceitos distintos dos daquele tempo de catequista; e eu... Bom, eu opto por não rotular-me com adjetivos referentes a qualquer religião que seja. Procuro aprender aqui e ali, e não há religião melhor e mais edificante que o constante aprendizado. Há alguns anos tive boas lições de Espiritismo com o meu amigo virtual Gabriel Raphael, as mesmas que tive, ao lado de minha amiga Linda, com Tuco e Michele durante uma longa madrugada de janeiro. Com Rick Friano, outro amigo virtual – intelectual e budista – aprendi que minhas angústias, frustrações e traumas não me colocam em posição inferior e nem superior em relação a ninguém, mas em condições de igualdade em relação a todos. Com Renato e Romerito – católicos e amigos com atuação efetiva na minha vida – aprendo que os preconceitos do meio não me impedem de permanecer no mesmo sendo quem sou. Com o Pedro, ateu convicto e mestre extraclasse, aprendo a honestidade, a humanidade e a solidariedade como valores independentes de religião.

E assim, de todos os ensinamentos, eu – que não posso me enveredar por uma discussão mais complexa sobre Deus por não dispor do conhecimento necessário – sugeriria a consciência do outro e a luta diária pelo bem da humanidade, o que, pelo que sei, são ensinamentos que Jesus, Buda, Chico Xavier e a grande maioria dos líderes religiosos têm em comum. Sugeriria a postura reta e a gentileza dos que educam pela própria convivência. E sugeriria, enfim, que sejamos bons, para sermos felizes, e que sejamos felizes, para que a nossa vida valha a pena.

Em minh'alma cheia do amor de Deus,
palpitando a mesma vida divinal,
há um resplendor secreto do infinito Ser,
há um profundo germinar de eternidade.

Trecho de “Sim, eu quero”. In: Canta Povo de Deus. Belo Horizonte: Equipe Pastoral, 1993, canto 104, p. 38.


quarta-feira, 9 de março de 2011

Sobre Sandy, cerveja e publicidade

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Peça de divulgação da Campanha Devassa 2011, com Sandy Leah.
Imagem retirada de trade news.

Início de ano, verão, calor, Carnaval e cerveja. E têm início as polêmicas peças publicitárias oriundas desse ramo. Mais problemáticas do que as próprias propagandas, porém, é o tratamento destinado a elas por essas terras, que oscilam entre os ideais inquisitórios da Idade Média e o mais exacerbado liberalismo, passando, raras vezes, por algum ponto de equilíbrio. Atualmente, muito se comenta sobre a peça publicitária criada pela Cervejaria Schincariol para divulgação da cerveja Devassa para esse início de 2011, estrelada pela insossa Sandy, a “Garota Devassa que não bebe cerveja”, como tem sido chamada. Como escritor que vem, obviamente, defender um ponto de vista, julgo válido esclarecer, desde já, que não pretendo fazer uma apologia ao consumo de álcool. Pelo contrário, embora beba ocasionalmente, não consigo enxergar a grande vantagem que muita gente vê em beber a ponto de tecer comentários vangloriando o péssimo estado no qual uma bebedeira lhe deixou. Mas, cada um na sua. Voltando à propaganda veiculada, pode-se dizer que as críticas negativas a mesma se concentram em dois pontos: i) a escolha da garota-propaganda, que, considera-se, é incompatível com a imagem da “mocinha com um lado Devassa” que o comercial postula, e ii) o fato de a garota Devassa não aparecer tomando a cerveja durante o comercial e, sabe-se, não gostar da bebida na vida real. No tocante ao primeiro ponto, aliás, li, no YouTube, dois comentários impagáveis postados por dois usuários. O primeiro estabelece uma comparação entre a Sandy fazendo comercial de cerveja e o Zeca Pagodinho fazendo propaganda do Dolly Guaraná ou sobre antitabagismo. O segundo afirma, veementemente, que, pior que a Sandy para esse comercial, só a Madre Tereza.

Brincadeiras à parte, alguns argumentos podem rebater, em parte, essas críticas. Em primeiro lugar, a aparente incompatibilidade da garota propaganda escolhida com a personagem que ela interpreta durante o comercial tem mais a ver com a imagem que se fez da moça ao longo de sua carreira, imagem essa arraigada na mente dos brasileiros, do que com a realidade sobre ela. Tanto é assim que as críticas às peças da cerveja se dividem entre as muito positivas, elogiosas, e as supernegativas. A Sandy está longe de ser desprovida de beleza, como alguns têm dito como argumento contra os vídeos. O problema é que a moça, creio, carrega o estigma do seu primeiro nome, coitada. Explico: consta na biografia da Sandy que os pais dela lhe deram esse nome inspirados pela Sandy Olsson, personagem pura, casta e boazinha de Olivia Newton-John no filme Grease - Nos Tempos da Brilhantina (um dos meus favoritos), de 1978. Não deu outra: a Sandy – cantora e garota Devassa de então – ficou igualzinha à personagem, só não tendo a sorte de “pegar” o John Travolta ainda jovem. Outro ponto é que estamos falando de um comercial, onde tudo é cenográfico. Logo, consumir cerveja durante a propaganda – o que nenhum artista, com exceção do Zeca Pagodinho, faz – ou na vida real não é e nem deve ser requisito para que a moça participe da campanha de uma cervejaria.

Realmente, o que pesou ali foi a interpretação da Sandy. A primeira peça da Devassa veiculada nesse ano – na qual a Sandy, inicialmente sem mostrar o rosto, vai entrando em um bar enquanto o locutor fala ”Todo mundo achava que ela era comportadinha, boa menina, dormia cedo...” – é muito divertida, criativa. E a segunda também, não fosse pelo fato de a Sandy falar durante o comercial. Apesar de nunca haver sido fã, admito que Sandy é talentosa, mas não como atriz. Lembram-se de Estrela-Guia (2001) e afins? Essa negativa qualidade interpretativa, mesclada à imagem que se construiu em torno da moça (ou que ela mesma construiu) ao longo de sua carreira, contribuem para que o telespectador custe a crer que Sandy tenha, de fato, um lado devassa. Na coletiva de imprensa da campanha Devassa, a moça bem que insistiu em falar sobre esse seu “outro lado”, afirmando nunca haver existido aquele lado meigo que, segundo ela, foram construindo a sua volta. Bom, Sandy está passando pelo mesmo que passaram artistas como Angélica, Eliana, Flávia Monteiro etc. Artistas que, por verem ir pelo ralo o seu sucesso com as crianças ou mesmo por quererem desbravar novas terras (só a Xuxa que ainda insiste), empenham-se na criação de uma nova imagem, mais descontraída, desencanada, desinibida. Estilo Devassa, enfim. Bom, tomara que a Sandy consiga, pois, no caso dela, a aparência e voz delicadas não ajudam. Mas, talvez, esse quadro seja revertido quando ela ceder aos insistentes convites da Playboy ou mesmo quando ela, finalmente, soltar um “pum”, ou coisa do tipo.

Peça de divulgação da Campanha Devassa 2010, com Paris Hilton.
Imagem adaptada de Web Luxo.

De qualquer modo, a escolha de Sandy para a campanha foi uma grande jogada do departamento de marketing da Schincariol: o vídeo está sendo exaustivamente assistido e comentado. Não é a primeira vez, no entanto, que uma propaganda da empresa causa rebuliço. Maior repercussão teve a campanha de 2010, que tinha como estrela a belíssima patricinha devassa Paris Hilton. Muito embora não mostrasse nada demais, a propaganda foi acusada de discriminatória e sexista, sendo, enfim, banida da TV por uma investida do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar). Após o episódio, a Schincariol veiculou uma propaganda ironizando a censura. A peça apresentava os seios do desenho da mulher – que é a logomarca da Devassa – cobertos por uma tarja, informando, no início, que o vídeo com Paris Hilton estava disponível na internet para aqueles que não haviam se ofendido com o mesmo. Bom, vale dizer que, conforme explica a publicitária Silvia Zampar, há uma ampla legislação no tocante à normatização para a produção e veiculação da propaganda. Logo, proibições (ridículas) como a ocorrida no caso da campanha da Devassa estrelada por Paris Hilton não acontecem num estalar de dedos, sendo, sim, resultado de um longo processo. Tudo isso, porém, torna-se uma grande palhaçada quando colocado diante de uma série de coisas realmente ofensivas que se vê dentro e fora da mídia, para as quais vive se fazendo vista grossa nesse país. Ao lado disso, temos a existência de comerciais realmente ofensivos, visto o forte apelo sexual, que não tiveram nenhuma repercussão e, pior, não sofreram a mínima retaliação. Citemos como exemplo um comercial da Kaiser, no qual a simpatia de José Valien Royo (o baixinho da Kaiser) cede lugar aos marmanjos Marcos Palmeira e Murilo Benício, que, em uma praia, conseguem manipular os movimentos de uma mulher, personagem da modelo Pietra Ferrari, através de uma garrafa de Kaiser. Felizmente, há quem tenha a cabeça no lugar, e nós podemos ver isso nas pertinentes considerações de Emílio Conde, que, questionando a postura do Conar, discorre sobre a sutil diferença entre sexualidade e sensualidade nas propagandas, fazendo menção a esse último comercial mencionado.

Peça de divulgação da Campanha Nova Schin 2010, com Ivete Sangalo.
Imagem retirada de axezeiro.com.

Antes disso, porém – pasmem –, a Schincariol já havia se metido em problemas. Entre esses, temos uma engraçada peça produzida para divulgação do guaraná Schin, onde um “primo chato” levava os parentes aos nervos ao tratar, levianamente, de temas delicados como a adoção. Não vejo quem pudesse se ofender com a propaganda, razão pela qual achei também ridícula a proibição. Defenderia, porém, a criação de um órgão que proibisse a comercialização do produto, de tão porcaria que é. Não a veiculação da peça publicitária...

Realmente grave, porém, foi o comercial veiculado pela mesma empresa durante o verão de 2005. Questões concernentes ao Estatuto do Idoso, criado em outubro de 2003, estavam ainda em voga. Finalmente os idosos tinham uma legislação mais consistente para assegurar-lhes os direitos. O tema havia sido, inclusive, seriamente abordado no folhetim das oito Mulheres Apaixonadas (2003). Nada disso, porém, foi pensado pela Schincariol de modo a desistir da produção de um comercial de gosto duvidoso, no qual dois jovens fogem desesperados de uma multidão de velhinhas sedentas de sexo, até pularem dentro de um freezer da Nova Schin e irem parar em uma praia repleta de jovens mulheres, entre as quais destacava-se o mulherão Ivete Sangalo, garota da marca há mais de dez anos, que encerra a propaganda com o inteligentíssimo slogan da campanha: "Quanto mais nova, mais gostosa". Recordo-me de, antes de ler qualquer coisa a respeito, haver me sentido mal ao assistir a propaganda, que parecia-me de mau gosto, reduzindo a melhor idade a uma deplorável fase na qual reina a carência por sexo com pessoas jovens. Ledo engano... ou, melhor dizendo, preconceito idiota na propaganda de uma cerveja que até hoje se auto intitula “Nova” quando é, na verdade, mais velha que as senhoras que aparecem no comercial.

Eu, que na época não tinha acesso à internet e era bem mais desligado dos acontecimentos do mundo, só fui saber que muita gente compartilhara do meu desconforto diante da peça publicitária quando fui prestar um vestibular na PUC Minas em meados de 2005 (no qual fui aprovado. Oba!) e um dos textos da prova de Língua Portuguesa tinham como temática esse lamentável episódio. Louvável, dessa vez, a atitude do Conar, cujas ações levaram à retirada do comercial do ar. Destaque para a bela carta-denúncia enviada ao Conar pelo pesquisador Pedro Paulo Monteiro, que foi um dos primeiros a repercutir o caso, e para o não menos pertinente e-mail de Delma Gama, publicado na imprensa, direcionado à Ivete Sangalo. Entre inúmeras considerações plausíveis, a autora da mensagem diz o seguinte: “Fiquei com pena de você e dos rapazes que correm até encontrar o freezer cheio de cerveja, porque a própria propaganda diz a fórmula para não envelhecer: morrer jovem!”.

É pena que a Ivete, pessoa a quem eu, ao lado de tantos, admiro pelo talento e pelo caráter que aparenta ter, haja se envolvido com tudo isso. Duvido que em algum momento a sua atuação no comercial haja sido maldosa, o que não lhe tira, claro, a responsabilidade sobre o mesmo. Bom, mas é um caso semelhante ao da Sandy, minha gente. Da mesma forma que essa não se importa se o fato de ter a sua imagem vinculada a uma marca de cerveja pode induzir jovens fãs que cresceram junto com ela a beberem, a Ivete também não se preocupou com os danos que o comercial da Nova Velha Schin poderia causar. É trabalho, caro leitor... e há milhões de reais envolvidos. Seria maravilhoso que a responsabilidade social fosse uma prioridade de todos os artistas, mas, sejamos compreensivos: se assim fosse, os lucros das estrelas seriam bem menores... Logo, pro inferno com a responsabilidade social. Quanta a essa ideia de propagandas induzirem pessoas a isso ou àquilo, eu sou meio contrário, mas confesso não ter uma opinião formada sobre. Só penso que, se nossos jovens estão se deixando influenciar por peças publicitárias a ponto de adquirirem hábitos negativos como o consumo de álcool, é sinal de que urge investimento pesado em dois pontos: criação e educação.

Bom, fica como consolo a divertida propaganda da Nova Schin que foi ao ar nesse início de ano: sem apelação, Ivete Sangalo recebe um grupo de artistas (selecionados com base em não sei que critérios) para uma feijoada com cerveja em sua casa. Todos interagindo na mais falsa felicidade. Ficou legal, mas nenhum comercial e nenhuma cerveja ganham da Bohemia, que, entre as suas pouquíssimas (e belas) peças publicitárias que já vi na mídia, impressionou com um delicado comercial regado a texto de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Se todos fossem
Iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar, a sorrir, a cantar, a pedir
(...)

Bom, mas se podemos tirar algo de realmente bom dessa cervejada toda, relembremos um válido comentário da Sandy, em uma entrevista concedida antes de toda essa história de Devassa. “...eu não gosto dessa sensação de perder o controle, de você não... não poder controlar o que você fala, o que você pensa, o que você faz, a coordenação do corpo...”. Portanto, leitor, saboreie com moderação e, se for dirigir, não beba (risos). Bom, e para não passar de cervejas para chinelos, eu não vou nem mencionar aquela propaganda da Havaianas que também foi proibida por apresentar uma avó incentivando a neta ao sexo descompromissado com o Cauã Reymond, porque é hipocrisia demais pra minha cabeça. O povo brasileiro tem cada uma, viu? Afinal, todo mundo tem um lado descontraído, desinibido e desencanado, ora. Exceto a Sandy, claro.

Referências:

ALFETUNES. Comentário sobre o vídeo Comercial Sandy Devassa | Todo mundo tem uma lado Devassa. In: YouTube. Criado em: 01 mar. 2011. Comentário em: 02 mar. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.

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ANÔNIMO. Sandy. In: Wikipédia. Acesso em: 09 mar. 2011.

ARONOVICH, Lola. Velhinha incentivando sexo em comercial da Havaianas? Não pode. In: Escreva Lola Escreva. Criado em: 23 set. 2009. Acesso em: 08 mar. 2011.

BRASIL. LEI No 10.741. 01 de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Brasília, 2003.

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CONDE, Emílio. Oferecer a Genitália o Conar deixa ! Dançar sensualmente o Conar não deixa !. In: Os consumidores – Observatório das relações de consumo. Criado em: 07 fev. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.

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PENTEADO, Cláudia. “Sandy é um nome que não poderia passar na cabeça de ninguém”. In: Consumo e Propaganda. Criado em: 01 mar. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.

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PORTAL na categoria 'Geral'. Propaganda de Ivete para a Schin é uma agressão aos idosos. In: Portal do Envelhecimento: sua rede de comunicação e solidariedade. Criado em: 01 set. 2010. Acesso em: 08 mar. 2011.

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SPROUSSE13. 'Comecial Cerveja Devassa (Com Paris Hilton). In: YouTube. Criado em: 27 fev. 2010. Acesso em: 08 mar. 2011.

THYSIL. CERVEJA BOHEMIA POESIA. In: YouTube. Criado em: 29 ago. 2007. Acesso em: 08 mar. 2011.

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ZAMPAR, Silvia. Comercial do refrigerante Schin censurado pelo CONAR. In: TuDiBão. Criado em: 18 jan. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.