Crônica, poesia, crítica literária, cinema e um monte de coisas que passam pela minha cabeça.
domingo, 27 de janeiro de 2013
De pernas pro ar 2
domingo, 13 de janeiro de 2013
A virgem de 40 – Agora ou nunca
sábado, 12 de janeiro de 2013
Namore um cara que lê
Visite o meu post anterior: Namore uma garota que lê.
Namore uma garota que lê
sábado, 7 de abril de 2012
Para a vida seguir mudando
“Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.” Essas palavras foram proferidas ou escritas por Albert Einsten. Ou não, já que, em tempos de internet, Veríssimo, Clarice Lispector, Arnaldo Jabor e afins se tornaram autores de textos que, para bem ou para mal, jamais escreveriam. Isso, de qualquer forma, não é importante, e até opto por acreditar (já que, do lado de fora da caverna, acreditar ou não é sempre uma opção) que Einsten, com todo aquele jeitão amalucado, formulou, sim, essa teoria, não tão genial quanto à Teoria da Relatividade, claro, mas tão genial e racional quanto. E é com esses dizeres do grande físico alemão – passando, despretensiosamente, um pouquinho pela literatura e pela filosofia – que dou início às minhas modestas considerações sobre a Páscoa, já que tudo isso tem a ver com passagem, mudança ou qualquer coisa igualmente boa.
Na verdade, eu ignorava a tal frase de Einsten, tomando conhecimento da mesma apenas há poucos dias, através do Facebook. E foi através dessa boa e velha rede social que conheci, também, uma charge que me chamou a atenção, onde Jesus crucificado dizia algo mais ou menos como “O duro é saber que daqui a algum tempo eu serei trocado por um coelho e um monte de chocolate”. Muito embora eu tenha achado engraçada a charge – já que é no mínimo hilário imaginar uma figura como Jesus falando de coelhos e chocolates –, atentei-me para a seriedade da discussão que pode se desdobrar dela. Aqui, vale dizer que sou terminantemente contra qualquer tipo de preconceito, e, com isso, de modo algum pretendo fazer o papel do bom moço. A verdade é que trago comigo uma infinidade de preconceitos, muitos dos quais levarei, provavelmente, para o túmulo. Sou, porém, veementemente contra todos eles. Assim sendo, acredito ser louvável que os não-cristãos ocidentais – o que envolve desde ateus até indivíduos adeptos de crenças desvinculadas do cristianismo – concebam como fortemente representativas de algo as datas instituídas como santas pela Igreja Católica. E isso, definitivamente, não tem nada a ver com comungar dos ensinamentos dela, até porque eu jamais daria uma sugestão/conselho desse tipo. Mas convenhamos: cada uma dessas datas nos propicia um clima favorável à reflexão acerca do nascimento, do renascimento, da vida, da morte, do perdão, do encontro e por aí vai. E isso é maravilhoso, já que o capitalismo arraigado em nossa sociedade, bem como toda a urgência e imensidão de nossa vida exterior, pouco ou nunca nos permitem parar e refletir acerca de questões existenciais, por mais que sejam elas, talvez, as mais emergenciais.
Mas o que temos feito com os dias “santos”? Temos lhes adequado à nossa cultura capitalista, fazendo do Natal um dia de dar e receber presentes, da Páscoa dia de dar e receber chocolates, e dos demais uma boa oportunidade para ir para o sítio, para a praia e afins. Ora, não há nada de errado em nos valermos dos feriados para nos divertir, afinal merecemos, não é? Tampouco há problemas em distribuir ovos de Páscoa. São sempre bem vindos, ok? O problema se dá quando, extasiados pelo grande movimento que o capitalismo promove, somos abduzidos da natureza simbólica das datas e do que elas realmente trazem de importante. E aí voltamos à charge sobre Jesus, esmorecido pelo desdém ao Seu sacrifício, conforme a Sua onisciência Lhe permite prever, em tempo tão remoto. Não deve ter sido nada fácil... Mas vamos pensar a paixão e ressurreição de Cristo como metáforas: a paixão como uma metáfora para a possibilidade de amor incondicional, gratuito (e por “amor” entenda-se gentileza, respeito, tolerância e afins), bem como para transitoriedade da vida, cuja perpetuação é intrínseca à partida de alguns (para uma metáfora mais simples, vide “batatinha quando nasce”). A ressurreição, algo tão difícil de compreender em seu sentido literal, concebamos como uma metáfora da nossa possibilidade de emergir, de vencer as adversidades e abraçarmos, lá na frente, a nossa tão sonhada felicidade. E não estou sendo infantil ou sonhador, pois, desde que Alice acordou, nós bem sabemos que essa estória de felicidade plena é pura balela e só existe em manual de autoajuda. Digo “felicidade” como sinônimo de ânimo, paz e motivação para a vida. Essa, sim, é uma felicidade possível! Mas, mais do que de vontade, depende de trabalho duro, e é aí que entra a ressurreição; é aí que, finalmente, os dizeres de Einsten passam a ter razão de ser neste texto. A nossa obstinação nem sempre é garantia de algo, mas braços cruzados, bem como insistência em métodos que já falharam – muitos deles até contraproducentes –, são derrotas garantidas.
Eu intitulei este texto como “Para a vida seguir mudando”. Não, não se trata de uma mensagem petista subliminar. Optei por esse título porque tudo isso me remete à educação, que, ao menos quando avistada daqui do meu belo horizonte, só tem caído, inversamente proporcional ao número de alunos em sala de aula e à violência. Sim, mudanças na educação são urgentes, mas eu penso também na urgência de que todos, de modo geral, saiam do seu egoísmo voraz e assumam uma postura educativa para a vida. Isso, sim, provoca mudanças, minha gente. Chorar diante de casos como os do garoto João Hélio e da menina Isabella Nardoni, ou mesmo se comover diante de um Quarto de despejo, O diário de Anne Frank, Precious e afins é muito válido e muito bonito. A verdadeira mudança, porém, se dá a partir de uma mudança de atitude na minha comunidade, no meu trabalho, no trato com os meus. A atitude, sim, é revolucionária, e Einsten bem o sabia.
E isso tudo é Páscoa... passagem... passagem de um tempo de espera preguiçosa e acomodada para um tempo de mudança. Mudança em nós e a nossa volta. Entendeu? Se não puder ou simplesmente não quiser orar fervorosamente, ritualizando e forçando uma fé, não há problema. Vale é trabalhar, ser bom e ter amor, para, assim, manter a cruz vazia e ser protagonista da História.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Entre a dor e a esperança

“A palavra é o meu domínio sobre o mundo”
Não são
Culpa da natureza?
Mas
E foi em meio às notícias sobre as conseqüências do sismo no Japão e das deploráveis ocorrências na Líbia que pisou por essas terras o presidente dos Estados Unidos
Como se todas essas perdas fosse pouco
Agora
Neste ponto
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Fé
Imagem retirada do site SIM - Sociedade Irmãos da Misericórdia.Foi na terça-feira, 12 de abril do ano corrente. Eu caminhava rumo a minha casa, fazendo aquele costumeiro trajeto, o qual não faço apenas nas raras ocasiões em que me animo a esperar na estação o ônibus que circula pelo meu bairro. Assim, passando ao lado daquela igreja na qual outrora realizei tanta coisa boa e bonita, senti-me, de repente, convidado por aquele hino de paz que os meus ouvidos captaram como a ressonância de um tempo remoto, porém saudoso, bonito, durante o qual existia em mim ainda a ingênua credulidade no ser humano e no ideal de plena felicidade. A despeito da referida chamada, segui o meu caminho ainda por alguns segundos, com passos hesitantes rumo à rua que, se tomada, anularia qualquer possibilidade de eu retornar à igreja, cedendo ao convite que me era feito.
Parei. Retornei, entrei na igreja e, na entrada, fui recebido por duas pessoas, que me saudaram com a “paz de Cristo”, o que me levou a me sentir feliz e acolhido, dado que, a despeito da fé fragmentada que me habita em tempos atuais, sei que quando se deseja a “paz de Cristo” no contexto da igreja católica, está se desejando alguma coisa muito boa e bonita. Em paz, entrei então na reunião da renovação carismática, observando que, para uma terça-feira à noite, continuava atraindo um número para lá de significativo de pessoas. Então, de mochila nas costas e receoso de chamar a atenção, fiquei ali, no fundo da igreja, cantando a música cuja letra eu ainda sabia, escorregando, porém, na coreografia. Eu participara significativamente de eventos e grupos daquela igreja durante alguns anos, havendo sido brusco o meu afastamento, e seria no mínimo constrangedor para mim que conhecidos daquela época me vissem e considerassem ser um possível retorno a minha presença ali. Me encabulava interpretar o papel do filho pródigo, e eu não havia voltado... Tanto que, quando informado por uma senhora da existência de assentos disponíveis, apenas agradeci. Eu não pretendia acomodar-me em um dos assentos. Tampouco pretendia permanecer ali por muito tempo, tanto que não permaneci.
Mas foi bom estar naquela que fora a minha segunda casa durante tanto tempo e rever tantas das pessoas queridas de uma época.
Folheando as páginas que até então se escreveram sobre a história da minha religiosidade, percebo haver oscilado entre a intensa participação cristã, que beirou o fanatismo religioso, e o profundo afastamento, que beira o ateísmo. Nunca, porém, cheguei a algum dos extremos, e, vale observar, não é com lástima nem com prazer que o digo, tais são as tantas dores e sabores experienciados de ambos os lados. A minha trajetória como cristão – iniciada aos catorze anos e impulsionada pelo meu amigo Ricardo – é perpassada por um belo aprendizado sobre humanidade, solidariedade, amor e otimismo que eu quero levar pela vida toda. Então, como julgar mal aquele tempo? Como pensá-lo como “tempo perdido” se a fé tanto me preencheu e tanto bem me fez? Sim, com tudo o que tinha de ruim, com tudo o que tinha de medo, com tudo o que tinha de fuga da homossexualidade, com tudo o que tinha de tentativa de escapar da vida medíocre que eu julgava levar, tudo aquilo era bom. Os encontros do MOJUAC – Movimento dos Jovens Unidos a Cristo – nas tardes de sábado, os encontros da RCC – Renovação Carismática Católica – nas noites de terça, as conversas com Ricardo, os meus planos de tornar-me irmão missionário e ser encaminhado para realizar missões no Equador, como aconteceu com a Margarida (Margarida, cadê você?), e, principalmente, a constante sensação de paz e de correspondência amorosa vindos de um Deus que era todo amor e misericórdia. E, para alimentar a alma, eu lia o texto sugerido pelo Ricardo. “Mesmo que os montes se retirem e as colinas vacilem, meu amor nunca vai se afastar de você (...)” (Isaías 54,10). E traço um breve paralelo entre aqueles tempos e os atuais, nos quais tantas buscas vãs pelo amor me levam a dar de cara com a desumanidade e indiferença dos “éles” e “éfes” da vida, que eram possibilidades nulas naquela relação com Deus.
E me lembro dos pontos engraçados: Rosilda me dizendo que a minha coreografia da música “Heis que faço novas todas as coisas” mais parecia uma tentativa de apanhar mosquito; eu tentando “converter” os meus familiares; eu impressionado com a beleza do Pe. Marcelo Rossi, que tornou-se ícone do catolicismo nos finais dos anos 90; a minha carteira com dezenas de orações que eu acreditava me protegerem etc. Só recentemente, Ricardo, Bruna – que era protestante/evangélica naquela época – e eu nos vimos numa crise de risos incontrolável na mesa de uma pizzaria, lembrando o grande desafio de Ricardo, que, sem saber como salvar a si próprio do inferno, se compadecia com a minha situação, indo ambos desesperados para a igreja. E, por mais de uma vez, eu me confessei com o Pe. Álvaro, temido pela rigidez que lhe era característica, mas que, no contato pessoal, era afetuoso e amigo.
Bons tempos aqueles.
1999, porém, veio para pôr fim àquilo tudo. Foi o ano da minha mudança de bairro, e, entristecido, me vi obrigado a me afastar de tudo. E foi bom, mas eu só viria a saber isso mais tarde, quando, junto de minha irmã, me tornasse catequista na igreja cuja padroeira é Santa Luzia, a protetora dos olhos, o que por si só já era motivo para que Patrícia e eu amássemos tanto aquele ambiente. Desde pequenos tínhamos em nosso quarto um quadro com a imagem da santa. Durante alguns anos, Patrícia e eu, obrigados pela nossa mãe, íamos no dia 13 de dezembro às ruas do bairro no qual morávamos na infância a solicitar, com o quadro em punho, alguma quantia em dinheiro que, mais tarde, mamãe entregaria à igreja. Alguma promessa feita pela minha mãe, a mesma que, ainda hoje, costuma dizer que no período da Quaresma todos os demônios que permanecem presos durante o restante do ano são libertos dos seus grilhões, saindo pelo mundo a espalhar maldade. Bom, seria uma boa explicação para o ocorrido recentemente em uma escola de Realengo, no Rio de Janeiro. A verdade, porém, é que, aparentemente, meus pais, bem como muitos outros conhecidos meus, sempre viveram o catolicismo enquanto tradição familiar ou mesmo obrigação, nunca, no entanto, vivenciando a fé em sua essência como posso dizer que vivenciei.
Privilégio? Não sei. Tanto a Super quanto a Galileu já estamparam suas capas com matérias especiais sobre o tema, discorrendo sobre os incontestáveis benefícios da fé. Tudo o que sei, porém, é que essa vivência me permite conceber a fé não como a condição para a “felicidade”, mas como uma possibilidade. Não critico o ateísmo. Pelo contrário, admiro-o por julgá-lo corajoso, dado que o ateísmo, a meu ver, tem como base a certeza, a convicção da não existência de Deus e de nenhum deus. Parece-me ser tão difícil ter certeza de alguma coisa... Incomoda-me, no entanto, assistir a cenas de escárnio à fé dos outros. Penso que a igreja, enquanto instituição, é digna de severas críticas pelos preconceitos que ajuda a sucumbir, pela vista grossa que faz para certas questões etc. A fé, no entanto, por mais absurda que possa parecer a alguns, é, sim, digna do nosso respeito, principalmente por não raro ser ela tudo o que sustenta algumas pessoas. É tanta gente buscando saída em recursos obscuros. Me alegraria que a fé fosse o recurso apelado por todos. Assim, da mesma forma que o “não crer” é um tanto corajoso, crer também é maravilhoso. É como... sei lá... um mergulho no invisível, no inexplicável. É saltar do ponto mais alto e, incrivelmente, sustentar-se no ar sem o apoio de recursos como paraquedas e afins. Assim, seria equivocado julgar a fé como coisa de seres ignorantes, quando ela é, na verdade, privilégio de seres evoluídos.
Crer é sublime...
Confesso desconhecer os meus reais objetivos com esta postagem, autobiográfica em todas as suas linhas. Apenas queria dedicar uma postagem a este dia importante no qual se medita a paixão de Cristo, e me faz relativo bem relembrar, neste dia, os tempos idos da minha adolescência. Tanta coisa mudou... Ricardo e Bruna vêm frequentando reuniões sobre Espiritismo, tendendo ao Espiritismo Cardecista, conforme relatado ontem pelo Ricardo; Rosilda, Margarida e tantos outros daquela época desapareceram; Patrícia segue sendo católica, mas, creio, com conceitos distintos dos daquele tempo de catequista; e eu... Bom, eu opto por não rotular-me com adjetivos referentes a qualquer religião que seja. Procuro aprender aqui e ali, e não há religião melhor e mais edificante que o constante aprendizado. Há alguns anos tive boas lições de Espiritismo com o meu amigo virtual Gabriel Raphael, as mesmas que tive, ao lado de minha amiga Linda, com Tuco e Michele durante uma longa madrugada de janeiro. Com Rick Friano, outro amigo virtual – intelectual e budista – aprendi que minhas angústias, frustrações e traumas não me colocam em posição inferior e nem superior em relação a ninguém, mas em condições de igualdade em relação a todos. Com Renato e Romerito – católicos e amigos com atuação efetiva na minha vida – aprendo que os preconceitos do meio não me impedem de permanecer no mesmo sendo quem sou. Com o Pedro, ateu convicto e mestre extraclasse, aprendo a honestidade, a humanidade e a solidariedade como valores independentes de religião.
E assim, de todos os ensinamentos, eu – que não posso me enveredar por uma discussão mais complexa sobre Deus por não dispor do conhecimento necessário – sugeriria a consciência do outro e a luta diária pelo bem da humanidade, o que, pelo que sei, são ensinamentos que Jesus, Buda, Chico Xavier e a grande maioria dos líderes religiosos têm em comum. Sugeriria a postura reta e a gentileza dos que educam pela própria convivência. E sugeriria, enfim, que sejamos bons, para sermos felizes, e que sejamos felizes, para que a nossa vida valha a pena.
palpitando a mesma vida divinal,
há um resplendor secreto do infinito Ser,
há um profundo germinar de eternidade.
Trecho de “Sim, eu quero”. In: Canta Povo de Deus. Belo Horizonte: Equipe Pastoral, 1993, canto 104, p. 38.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Sobre Sandy, cerveja e publicidade
Imagem retirada de trade news.
Início de ano, verão, calor, Carnaval e cerveja. E têm início as polêmicas peças publicitárias oriundas desse ramo. Mais problemáticas do que as próprias propagandas, porém, é o tratamento destinado a elas por essas terras, que oscilam entre os ideais inquisitórios da Idade Média e o mais exacerbado liberalismo, passando, raras vezes, por algum ponto de equilíbrio. Atualmente, muito se comenta sobre a peça publicitária criada pela Cervejaria Schincariol para divulgação da cerveja Devassa para esse início de 2011, estrelada pela insossa Sandy, a “Garota Devassa que não bebe cerveja”, como tem sido chamada. Como escritor que vem, obviamente, defender um ponto de vista, julgo válido esclarecer, desde já, que não pretendo fazer uma apologia ao consumo de álcool. Pelo contrário, embora beba ocasionalmente, não consigo enxergar a grande vantagem que muita gente vê em beber a ponto de tecer comentários vangloriando o péssimo estado no qual uma bebedeira lhe deixou. Mas, cada um na sua. Voltando à propaganda veiculada, pode-se dizer que as críticas negativas a mesma se concentram em dois pontos: i) a escolha da garota-propaganda, que, considera-se, é incompatível com a imagem da “mocinha com um lado Devassa” que o comercial postula, e ii) o fato de a garota Devassa não aparecer tomando a cerveja durante o comercial e, sabe-se, não gostar da bebida na vida real. No tocante ao primeiro ponto, aliás, li, no YouTube, dois comentários impagáveis postados por dois usuários. O primeiro estabelece uma comparação entre a Sandy fazendo comercial de cerveja e o Zeca Pagodinho fazendo propaganda do Dolly Guaraná ou sobre antitabagismo. O segundo afirma, veementemente, que, pior que a Sandy para esse comercial, só a Madre Tereza.
Brincadeiras à parte, alguns argumentos podem rebater, em parte, essas críticas. Em primeiro lugar, a aparente incompatibilidade da garota propaganda escolhida com a personagem que ela interpreta durante o comercial tem mais a ver com a imagem que se fez da moça ao longo de sua carreira, imagem essa arraigada na mente dos brasileiros, do que com a realidade sobre ela. Tanto é assim que as críticas às peças da cerveja se dividem entre as muito positivas, elogiosas, e as supernegativas. A Sandy está longe de ser desprovida de beleza, como alguns têm dito como argumento contra os vídeos. O problema é que a moça, creio, carrega o estigma do seu primeiro nome, coitada. Explico: consta na biografia da Sandy que os pais dela lhe deram esse nome inspirados pela Sandy Olsson, personagem pura, casta e boazinha de Olivia Newton-John no filme Grease - Nos Tempos da Brilhantina (um dos meus favoritos), de 1978. Não deu outra: a Sandy – cantora e garota Devassa de então – ficou igualzinha à personagem, só não tendo a sorte de “pegar” o John Travolta ainda jovem. Outro ponto é que estamos falando de um comercial, onde tudo é cenográfico. Logo, consumir cerveja durante a propaganda – o que nenhum artista, com exceção do Zeca Pagodinho, faz – ou na vida real não é e nem deve ser requisito para que a moça participe da campanha de uma cervejaria.
Realmente, o que pesou ali foi a interpretação da Sandy. A primeira peça da Devassa veiculada nesse ano – na qual a Sandy, inicialmente sem mostrar o rosto, vai entrando em um bar enquanto o locutor fala ”Todo mundo achava que ela era comportadinha, boa menina, dormia cedo...” – é muito divertida, criativa. E a segunda também, não fosse pelo fato de a Sandy falar durante o comercial. Apesar de nunca haver sido fã, admito que Sandy é talentosa, mas não como atriz. Lembram-se de Estrela-Guia (2001) e afins? Essa negativa qualidade interpretativa, mesclada à imagem que se construiu em torno da moça (ou que ela mesma construiu) ao longo de sua carreira, contribuem para que o telespectador custe a crer que Sandy tenha, de fato, um lado devassa. Na coletiva de imprensa da campanha Devassa, a moça bem que insistiu em falar sobre esse seu “outro lado”, afirmando nunca haver existido aquele lado meigo que, segundo ela, foram construindo a sua volta. Bom, Sandy está passando pelo mesmo que passaram artistas como Angélica, Eliana, Flávia Monteiro etc. Artistas que, por verem ir pelo ralo o seu sucesso com as crianças ou mesmo por quererem desbravar novas terras (só a Xuxa que ainda insiste), empenham-se na criação de uma nova imagem, mais descontraída, desencanada, desinibida. Estilo Devassa, enfim. Bom, tomara que a Sandy consiga, pois, no caso dela, a aparência e voz delicadas não ajudam. Mas, talvez, esse quadro seja revertido quando ela ceder aos insistentes convites da Playboy ou mesmo quando ela, finalmente, soltar um “pum”, ou coisa do tipo.

Imagem adaptada de Web Luxo.
De qualquer modo, a escolha de Sandy para a campanha foi uma grande jogada do departamento de marketing da Schincariol: o vídeo está sendo exaustivamente assistido e comentado. Não é a primeira vez, no entanto, que uma propaganda da empresa causa rebuliço. Maior repercussão teve a campanha de 2010, que tinha como estrela a belíssima patricinha devassa Paris Hilton. Muito embora não mostrasse nada demais, a propaganda foi acusada de discriminatória e sexista, sendo, enfim, banida da TV por uma investida do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar). Após o episódio, a Schincariol veiculou uma propaganda ironizando a censura. A peça apresentava os seios do desenho da mulher – que é a logomarca da Devassa – cobertos por uma tarja, informando, no início, que o vídeo com Paris Hilton estava disponível na internet para aqueles que não haviam se ofendido com o mesmo. Bom, vale dizer que, conforme explica a publicitária Silvia Zampar, há uma ampla legislação no tocante à normatização para a produção e veiculação da propaganda. Logo, proibições (ridículas) como a ocorrida no caso da campanha da Devassa estrelada por Paris Hilton não acontecem num estalar de dedos, sendo, sim, resultado de um longo processo. Tudo isso, porém, torna-se uma grande palhaçada quando colocado diante de uma série de coisas realmente ofensivas que se vê dentro e fora da mídia, para as quais vive se fazendo vista grossa nesse país. Ao lado disso, temos a existência de comerciais realmente ofensivos, visto o forte apelo sexual, que não tiveram nenhuma repercussão e, pior, não sofreram a mínima retaliação. Citemos como exemplo um comercial da Kaiser, no qual a simpatia de José Valien Royo (o baixinho da Kaiser) cede lugar aos marmanjos Marcos Palmeira e Murilo Benício, que, em uma praia, conseguem manipular os movimentos de uma mulher, personagem da modelo Pietra Ferrari, através de uma garrafa de Kaiser. Felizmente, há quem tenha a cabeça no lugar, e nós podemos ver isso nas pertinentes considerações de Emílio Conde, que, questionando a postura do Conar, discorre sobre a sutil diferença entre sexualidade e sensualidade nas propagandas, fazendo menção a esse último comercial mencionado.

Imagem retirada de axezeiro.com.
Antes disso, porém – pasmem –, a Schincariol já havia se metido em problemas. Entre esses, temos uma engraçada peça produzida para divulgação do guaraná Schin, onde um “primo chato” levava os parentes aos nervos ao tratar, levianamente, de temas delicados como a adoção. Não vejo quem pudesse se ofender com a propaganda, razão pela qual achei também ridícula a proibição. Defenderia, porém, a criação de um órgão que proibisse a comercialização do produto, de tão porcaria que é. Não a veiculação da peça publicitária...
Realmente grave, porém, foi o comercial veiculado pela mesma empresa durante o verão de 2005. Questões concernentes ao Estatuto do Idoso, criado em outubro de 2003, estavam ainda em voga. Finalmente os idosos tinham uma legislação mais consistente para assegurar-lhes os direitos. O tema havia sido, inclusive, seriamente abordado no folhetim das oito Mulheres Apaixonadas (2003). Nada disso, porém, foi pensado pela Schincariol de modo a desistir da produção de um comercial de gosto duvidoso, no qual dois jovens fogem desesperados de uma multidão de velhinhas sedentas de sexo, até pularem dentro de um freezer da Nova Schin e irem parar em uma praia repleta de jovens mulheres, entre as quais destacava-se o mulherão Ivete Sangalo, garota da marca há mais de dez anos, que encerra a propaganda com o inteligentíssimo slogan da campanha: "Quanto mais nova, mais gostosa". Recordo-me de, antes de ler qualquer coisa a respeito, haver me sentido mal ao assistir a propaganda, que parecia-me de mau gosto, reduzindo a melhor idade a uma deplorável fase na qual reina a carência por sexo com pessoas jovens. Ledo engano... ou, melhor dizendo, preconceito idiota na propaganda de uma cerveja que até hoje se auto intitula “Nova” quando é, na verdade, mais velha que as senhoras que aparecem no comercial.
Eu, que na época não tinha acesso à internet e era bem mais desligado dos acontecimentos do mundo, só fui saber que muita gente compartilhara do meu desconforto diante da peça publicitária quando fui prestar um vestibular na PUC Minas em meados de 2005 (no qual fui aprovado. Oba!) e um dos textos da prova de Língua Portuguesa tinham como temática esse lamentável episódio. Louvável, dessa vez, a atitude do Conar, cujas ações levaram à retirada do comercial do ar. Destaque para a bela carta-denúncia enviada ao Conar pelo pesquisador Pedro Paulo Monteiro, que foi um dos primeiros a repercutir o caso, e para o não menos pertinente e-mail de Delma Gama, publicado na imprensa, direcionado à Ivete Sangalo. Entre inúmeras considerações plausíveis, a autora da mensagem diz o seguinte: “Fiquei com pena de você e dos rapazes que correm até encontrar o freezer cheio de cerveja, porque a própria propaganda diz a fórmula para não envelhecer: morrer jovem!”.
É pena que a Ivete, pessoa a quem eu, ao lado de tantos, admiro pelo talento e pelo caráter que aparenta ter, haja se envolvido com tudo isso. Duvido que em algum momento a sua atuação no comercial haja sido maldosa, o que não lhe tira, claro, a responsabilidade sobre o mesmo. Bom, mas é um caso semelhante ao da Sandy, minha gente. Da mesma forma que essa não se importa se o fato de ter a sua imagem vinculada a uma marca de cerveja pode induzir jovens fãs que cresceram junto com ela a beberem, a Ivete também não se preocupou com os danos que o comercial da Nova Velha Schin poderia causar. É trabalho, caro leitor... e há milhões de reais envolvidos. Seria maravilhoso que a responsabilidade social fosse uma prioridade de todos os artistas, mas, sejamos compreensivos: se assim fosse, os lucros das estrelas seriam bem menores... Logo, pro inferno com a responsabilidade social. Quanta a essa ideia de propagandas induzirem pessoas a isso ou àquilo, eu sou meio contrário, mas confesso não ter uma opinião formada sobre. Só penso que, se nossos jovens estão se deixando influenciar por peças publicitárias a ponto de adquirirem hábitos negativos como o consumo de álcool, é sinal de que urge investimento pesado em dois pontos: criação e educação.
Bom, fica como consolo a divertida propaganda da Nova Schin que foi ao ar nesse início de ano: sem apelação, Ivete Sangalo recebe um grupo de artistas (selecionados com base em não sei que critérios) para uma feijoada com cerveja em sua casa. Todos interagindo na mais falsa felicidade. Ficou legal, mas nenhum comercial e nenhuma cerveja ganham da Bohemia, que, entre as suas pouquíssimas (e belas) peças publicitárias que já vi na mídia, impressionou com um delicado comercial regado a texto de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
Iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar, a sorrir, a cantar, a pedir
(...)
Bom, mas se podemos tirar algo de realmente bom dessa cervejada toda, relembremos um válido comentário da Sandy, em uma entrevista concedida antes de toda essa história de Devassa. “...eu não gosto dessa sensação de perder o controle, de você não... não poder controlar o que você fala, o que você pensa, o que você faz, a coordenação do corpo...”. Portanto, leitor, saboreie com moderação e, se for dirigir, não beba (risos). Bom, e para não passar de cervejas para chinelos, eu não vou nem mencionar aquela propaganda da Havaianas que também foi proibida por apresentar uma avó incentivando a neta ao sexo descompromissado com o Cauã Reymond, porque é hipocrisia demais pra minha cabeça. O povo brasileiro tem cada uma, viu? Afinal, todo mundo tem um lado descontraído, desinibido e desencanado, ora. Exceto a Sandy, claro.
Referências:
ALFETUNES. Comentário sobre o vídeo Comercial Sandy Devassa | Todo mundo tem uma lado Devassa. In: YouTube. Criado em: 01 mar. 2011. Comentário em: 02 mar. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.
ANÔNIMO. Estrela-Guia (telenovela). In: Wikipédia. Acesso em: 09 mar. 2011.
ANÔNIMO. Mulheres Apaixonadas. In: Wikipédia. Acesso em: 09 mar. 2011.
ANÔNIMO. Sandy. In: Wikipédia. Acesso em: 09 mar. 2011.
ARONOVICH, Lola. Velhinha incentivando sexo em comercial da Havaianas? Não pode. In: Escreva Lola Escreva. Criado em: 23 set. 2009. Acesso em: 08 mar. 2011.
BRASIL. LEI No 10.741. 01 de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Brasília, 2003.
CAMAROTEDEVASSA. Sandy Devassa. In: YouTube. Criado em: 01 mar. 2011. Acesso em: 09 mar. 2011.
CINEPLAYERS. Grease - Nos Tempos da Brilhantina. In: CinePlayers. Acesso: 09 mar. 2011.
CHRISRESENDE. Kaiser (Propaganda). In: YouTube. Criado em: 12 ago. 2008. Acesso em: 08 mar. 2011.
CONDE, Emílio. Oferecer a Genitália o Conar deixa ! Dançar sensualmente o Conar não deixa !. In: Os consumidores – Observatório das relações de consumo. Criado em: 07 fev. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.
DIRETORDEARTEDAETOS. Devassa - Após ser censurada pelo CONAR. In: YouTube. Criado em: 02 mar. 2010. Acesso em: 08 mar. 2011.
DOUGLASFERT. A verdade sobre Sandy Devassa. In: YouTube. Criado em: 02 mar. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.
GUSTAVO1995FONSECA. Havaianas Fit - Na Integra (COMERCIAL CENSURADO). In: YouTube. Criado em: 28 set. 2009. Acesso em: 08 mar. 2011.
NOVASCHIN. Nova Schin – Feijoada. In: YouTube. Criado em: 28 jan. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.
OQUENDOP. NEW - Caminhão de Devassa - Com Paris Hilton e Luma Oquendo 27-08-10. In: YouTube. Criado em: 28 ago. 2010. Acesso em: 08 mar. 2011.
PENTEADO, Cláudia. “Sandy é um nome que não poderia passar na cabeça de ninguém”. In: Consumo e Propaganda. Criado em: 01 mar. 2011. Acesso em: 08 mar. 2011.
PORTAL na categoria 'Artigos'. Schincariol x “velhinhas” Pesquisadores do Portal em ações efetivas contra a discriminação. In: Portal do Envelhecimento: sua rede de comunicação e solidariedade. Criado em: 26 ago. 2010. Acesso em: 08 mar. 2011.
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