sábado, 31 de maio de 2014

Carrie - A Estranha


Título original: Carrie
Ano: 2013
Direção: Kimberly Peirce
Roteiro: Stephen King (romance), Roberto Aguirre-Sacasa (roteiro)
Gênero: Drama/Terror
Origem: Estados Unidos
Duração: 100 minutos


Numa definição bastante simplória, podemos dizer que uma das características que define um clássico é a sua atemporalidade. Ou seja: um clássico se mostra atual a despeito do tempo em que se tenha acesso a ele. Tal conceito é constantemente abordado no âmbito das artes, em especial em se tratando da literatura e, naturalmente, da Sétima Arte. É claro que estou aqui reduzindo consideravelmente o vasto conceito de clássico. Não obstante, me parece o bastante para a explanação do tema que me traz aqui.

Pode-se dizer que Carrie (1974), primeiro romance do escritor Stephen King, dispõe do elemento atemporalidade que o aproxima de um clássico, não chegando a ser um porque, naturalmente, não se trata de nenhuma obra-prima da literatura norte-americana. Trata-se de uma boa obra, convincente, bem escrita e sempre trazida à tona pela indústria cinematográfica justamente pela força que exerce nas gerações de jovens. A história da adolescente vítima de bullying por ser diferente dos demais e que, chegando ao limite da humilhação em seu baile de formatura, se vinga de todos os seus algozes (inclusive da sua severa e fanática mãe) é sempre atual, visto ser o bullying e a repressão sofrida por alguns filhos algo presente em todos os tempos. A cena da humilhação durante o baile de formatura tanto mexe com as emoções do telespectador que já foi aproveitada até mesmo em telenovelas globais (Rainha da Sucata, 1990; Chocolate com Pimenta, 2003).

Foi Sissy Spacek, nas mãos do diretor Brian De Palma, a primeira atriz a dar vida à personagem de king em 1976 no filme homônimo (Carrie, a estranha no Brasil), ao qual se sucedeu o absurdo The Rage: Carrie 2, uma sequência de qualidade duvidosa dirigida por Katt Shea em 1999 (A maldição de Carrie no Brasil); e as regravações de 2002 e 2013, dirigidas, respectivamente, por David Carson e Kimberly Peirce. Opto por trazer aqui alguns breves comentários sobre cada uma dessas produções a fim de fundamentar a minha opinião sobre essa última, de 2013, estrelada por Chloë Grace Moretz, que já adianto, me parece pretensiosa e desnecessária, apesar de seus méritos.

A decisão por regravar um clássico só pode ser motivada por uma das seguintes razões: i) fazer uma releitura do material original, proporcionando ao telespectador um novo olhar sobre determinado conteúdo, ou ii) lucrar encima de algo construído a partir de um material outrora bem-sucedido. Neste último caso, oferecer um produto de qualidade está longe de ser prioridade. O importante é atrair a atenção de multidões, não importando se essas sairão do cinema praguejando. O lucro, afinal, já estará ganho. Acredito, com pesar, que Peirce haja se guiado por essas duas razões.

Vejamos: uma das principais críticas a esta última regravação de Carrie (2013) foi quanto à escolha de Chloë Grace Moretz como protagonista. Consideraram-na bonita demais e estranha de menos para o papel. Também pudera: a Carrie de 1976, como já dito, foi vivida por Sissy Spacek, uma atriz comum com aparência comum, mas com um porém: ela tinha 25 anos na época, sendo, portanto, uma mulher na pele de uma adolescente hostilizada no colégio. Isso, naturalmente, foi proposital. Desde o início, Brian De Palma decidira entregar a personagem à uma jovem adulta com o objetivo de tornar notória a estranheza da personagem. O mesmo recurso foi utilizado para a versão de 2002, sendo escolhida para o papel a Angela Bettis, conhecida do público por haver interpretado no cinema outras personagens tanto ou mais estranhas quanto a Carrie e que já se aproximava dos 30 anos durante a produção. Ao meu ver, acertou-se em cheio na escolha das atrizes, unindo-se talento, idade superior à da personagem e, por que não dizer?, aparência fora dos padrões.

Confesso me haver parecido imatura a crítica à escolha da atriz para esta versão de 2013, pois, ao contrário o que disse a maioria, tal escolha me pareceu desafiadora, havendo aumentado as minhas expectativas quanto ao filme. Afinal, sendo Moretz bonitinha, novinha e normalzinha demais para o papel, pressupunha-se que o sucesso da personagem estava na exclusiva dependência do talento da atriz e de uma boa direção. Resultado: Moretz tem se mostrado uma boa atriz em seus últimos papéis, mas, infelizmente, a sua Carrie não convenceu inteiramente. Penso, porém, que tal insucesso não se deu devido à boa aparência da atriz e tampouco por falta de talento, de modo que, neste ponto, devo culpar a direção, o roteiro e tudo mais. A grande verdade é que o filme ficou carente de recursos que levassem o telespectador a de fato ver estranheza em Carrie. A personagem, que nas mãos de Peirce pareceu apenas uma menina meio tímida e pouco atualizada no quesito moda, tem poucas falas e é forçada demais, sobretudo no tocante aos seus poderes telecinéticos, exagerados e difíceis de serem digeridos por qualquer telespectador.

Outra frustração se dá pela presença de Julianne Moore no longa como a fanática e louca Margaret White, que, se a princípio contribuiu para as expectativas em relação ao filme – afinal, Moore é, incontestavelmente, uma atriz e tanto! –, acabou por frustrar o telespectador, tão sem graça e apagada está. Enquanto a Margaret White de 1976, vivida por Piper Laurie, assustava, metia medo e despertava o ódio do telespectador, a de agora não desperta emoção alguma. E também pudera: em todos os embates entre mãe e filha, Carrie acaba por render a mãe com um movimento de mãos (o que, aliás, ficou bastante forçado, afinal, trata-se de uma garota com poderes telecinéticos, e não de uma espécie de uma personagem com superpoderes saída de uma atração adolescente). Moore foi bastante desperdiçada neste filme, chegando a sua personagem a ser quase tão apagada quanto a Margaret Wtihe vivida por Patricia Clarkson na regravação de 2002.

Outro ponto negativo do filme, talvez o principal responsável pelo seu fracasso, é o fato de que ele não se decide se quer ser uma adaptação do livro ou uma cópia mal feita do longa de Brian de Palma. Se não fosse por alguns pequenos elementos, aliás, seria possível desconfiar de que nem diretora nem roteirista chegaram a ler a obra de Stephen King. O longa de Peirce é, em grande parte, uma cópia do filme original, desde as vestimentas e cabelos de Margaret White ao desabamento da casa da protagonista ao final do filme. Pareço injusto? Vejamos: a morte da mãe de Carrie nesta nova regravação é praticamente uma reprodução da cena da morte da mesma personagem no filme de 1976. Quem leu a obra sabe que Margaret Whithe não morre daquela forma, embora, claro, devamos considerar que a ideia ficou mais adequada para a telinha do que ficaria a cena original do livro, onde Carrie “comprime” o coração da mãe com o poder da mente (a versão de 2002 está aí para provar a inadequação de tal cena para o vídeo). Lembremos, porém, que a ideia de matar Margaret White com os utensílios de cozinha é de Brian De Palma e não de Peirce, que só demonstrou uma total falta de criatividade ao reproduzir tal cena. O mesmo se dá quanto à cena em que Sue (Amy Irving e Gabriella Wilde, respectivamente) vai dar uma espiadinha no baile, e talvez haja outras que me tenham passado despercebidas.

Finalmente, no que se refere à tão esperada cena do baile, essa sofre as consequências do mal do qual o filme vinha sofrendo ao longo de sua projeção: a falta de tensão. Os momentos mais tensos que antecedem ao da humilhação no baile não dão conta de preparar o telespectador para tanto, de modo que este, ao chegar àquilo que deveria ser o clímax, se depara apenas com uma projeção apressada e uma enxurrada de efeitos isenta de qualquer tensão. Em seguida, a vingança de Carrie contra os seus principais algozes, Chris Hargensen (Ivana Baquero) e Billy Nolan (Alex Russell) novamente frustra a demanda catártica do telespectador, que, diante de uma cena lenta e exagerada, se vê ansioso pelo fim da projeção. Todavia, antes de chegar ao fim, o telespectador precisa, ainda, suportar o já comentado embate final entre mãe e filha e a descoberta de que, além dos poderes telecinéticos, Carrie possui ainda o dom da clarividência (!!!).

Ok, muitos são os que gostaram do filme e argumentam serem inapropriadas as comparações. Elas, no entanto, são inevitáveis, visto se tratar da adaptação de uma obra que já teve a sua versão para o cinema. Adaptação essa que se tornou um clássico, de modo a dispensar uma regravação inferior. Peirce tinha um belo material em mãos: a obra de King, a atual discussão do Bulliyng, a tecnologia do mundo contemporâneo. Ela utiliza tais recursos, mas não de modo a fazer um filmão, se é que era essa a intenção dela... Sejamos justos, claro: a cena da gestação de Carrie, que abre o filme, é fantástica; os efeitos sonoros são bons e não passam despercebidos aos ouvidos do telespectador atento; o uso dos aparelhos celulares para fotografar Carrie em total desespero devido a sua primeira menstruação, bem como a exibição do vídeo no telão no momento da humilhação final (surpresa até mesmo para o telespectador!), foram excelentes ideias. Diferente daquela Carrie de 1976, que apanhava pilhas de livros na biblioteca da escola para se inteirar sobre a telecinesia, a Carrie de agora também pesquisa sobre o tema na internet, tal como a Carrie de 2002. Não posso, porém, deixar de fazer um questionamento: na era da internet e em tempos em que adolescentes discutem (e até vivem) livremente a sexualidade, seria possível que uma jovem se mantivesse alheia às transformações do seu corpo? Seria possível que uma adolescente não soubesse nada sobre a menstruação? Talvez a obra de King não seja assim tão atual, ao menos neste aspecto...

No que toca à fidelidade à obra, não há dúvida de que a versão de 2002 é a que sai na frente nesse sentido, embora os últimos cinco minutos hajam destruído toda a obra, que já não era nenhuma maravilha (um filme bom, e só). Naturalmente, caso fosse perguntado sobre qual a melhor versão, eu responderia de pronto ser a de De Palma. Consideremos, porém, que se tratam de três filmes diferentes, produzidos com objetivos e olhares distintos. Além disso, é preciso que os críticos (mesmo os de beira de estrada, como eu) procurem um equilíbrio entre a precisão e maturidade de sua crítica e a nostalgia. Assistindo a Carrie (2013) pela primeira vez, considerei-o um fiasco, é verdade. Tal opinião, porém, não foi a mesma quando o vi uma semana depois. Agora, para mim, esta obra de Peirce é apenas um filme legal, suportável, desses que a gente assiste para passar o tempo e não o vê nunca mais. Infelizmente, um filme que não atende às expectativas geradas por toda a publicidade que o antecedeu e que chega a decepcionar os adoradores da obra de King e de De Palma. Mas fazer o quê?

Recomendo, sim, que todos vão ao cinema para conferir esta nova Carrie, mas recomendo, também, conhecer aquela que inaugurou esta trágica história no cinema. Nostalgia ou não, continuará a ser inesquecível para mim aquela estranha de 1976, com os seus cabelos de piaçava contrastando com os volumosos cabelos de suas colegas de turma; com a sua assustadora Margaret White e sua crueldade quase palpável; com o seu sensual banho de ducha e seu desfecho assustador; com os seus arregalados olhos azuis e sua merecida revanche; com a sua lição de como o fanatismo e a intolerância podem destruir a vida de um ser humano.

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Publicado originalmente em CinePlayers.

A garota da rua Guaicurus, de José Gualberto Gambier Costa


“No dia em que não houver mais homens que se comovam perante a uma injustiça, acreditem, a vida neste planeta deixa de existir (...).” José Gualberto Gambier Costa, A garota da rua Guaicurus.


No fim da tarde de uma quarta-feira, 21 de maio de 2014, após sair do trabalho, estava eu seguindo pela passarela do metrô do Gameleira, quando avistei um senhor a chamar a atenção dos transeuntes para o que ele chamava de "o romance que eu escrevi". Havendo passado sem dedicar muita atenção, somente quando estava próximo ao metrô, me vi envolvido pela curiosidade, lamentando por não haver sido ela imediata: quem era aquele senhor e o que teria escrito? Refleti quanto a todo trabalho intelectual que é investido na produção de uma obra, bem como sobre as dificuldades de ser escritor no Brasil enquanto tantos, sem muito esforço, ganham dinheiro com sua literatura de massa.

Eis que dei meia-volta e conheci José Gualberto Gambier Costa e o seu romance A garota da rua Guaicurus. Adquiri a obra, conversei com o autor e ganhei autógrafo, e confesso haver gostado da obra antes mesmo de haver dado início à leitura, tal é o meu fascínio pelos mistérios e histórias que permeiam a velha Guaicurus, localizada na zona boêmia belorizontina e famosa pelos hotéis que abrigam parte da prostituição na cidade. Ademais, há alguns anos eu fiz a leitura de Hilda Furacão (1991), de Roberto Drummond (1933 – 2002), de modo que eu muito quis saber o que Gualberto Gambier tinha a contar. Já havia sido contada a história da moça da alta sociedade que, sem razões aparentes, decidiu viver na Guaicurus, acabando por conquistar o coração de um padre. Do mesmo modo, já havia sido contada, desta vez na telinha, a história do milionário que se apaixona pela garota de programa, inicialmente contratada como acompanhante em compromissos sociais (Pretty Woman, 1990). Então, justamente por se tratar de um contexto já desgastado, eu quis saber que estórias traziam aquelas páginas, afinal, gosto de histórias ousadas; gosto de escritores que se dedicam a contemplar o lado humano de indivíduos que a sociedade finge que não enxerga.

Fiz a leitura da obra e, em verdade, pouco vi sobre a relação amorosa entre um homem e uma prostituta, me dando conta de que o que Gualberto Gambier pretendia com aquele romance ia mais além, atribuindo-lhe um caráter de denúncia e promovendo em suas páginas a redenção que pouco ou nunca se dá na vida real. Isso, porém, é feito às vezes sem muito tato, levando o leitor a se ver confuso em relação ao que realmente está sendo narrado ali. Se à certa altura, para lá da metade da obra, tomamos conhecimento das atrocidades que levaram uma jovem a se prostituir, a obra na íntegra nos deixa em dúvida sobre se era ali mesmo que devíamos chegar, se era aquele o seu ponto forte. Uma das razões disso é o fato de que a sociedade em torno dos personagens centrais parece absurdamente libertária, o que leva o leitor a uma certa dificuldade em dar crédito à estória contada por Gambier na voz do advogado Mauro.

Narrado em primeira pessoa, o romance nos apresenta Mauro – que, apesar de ser advogado, não raro se permite uma escrita marcadamente influenciada pela linguagem oral (com o que Gambier precisa ter maior cuidado...) –, cuja vida passa por uma transformação após ser contratado pelo peculiar Arthur Matheus Manso, que, devido a uma doença degenerativa que em poucos meses o levará a óbito, pretende deixar todos os seus bens a uma jovem profissional do sexo da rua Guaicurus, por razões mais nobres e mais grandiosas do que uma simples paixão. Aos poucos, a moça é trazida ao nosso conhecimento, e, sendo o leitor um provável produto de uma sociedade preconceituosa (tal como o sou eu), o caráter, a suavidade e a inteligência da moça podem tornar a narrativa exacerbadamente inverossímil. Portanto, estamos lidando com um romance a ser lido por um leitor que deve no mínimo estar disposto a embarcar na narrativa sem preconceitos acerca do que não conhece ou pensa que conhece.

Em torno desses personagens – o advogado Mauro, o benfeitor Arthur e a “garota da rua Guaicurus”, não por acaso chamada Angélica –, não há quem critique a atitude de um e a posterior paixão do outro. Com exceção de uma colega do narrador, apenas mencionada durante o seu relato (p. 29), não há quem aponte o dedo para as relações que se estabelecem. Nem mesmo a mãe do narrador – de formação católica e firme na fé cristã aos setenta e quatro anos de idade – torce o nariz para alguma das situações. A decisão do professor Arthur de deixar os seus bens para uma garota de programa tem a total anuência de sua irmã Alice, que, devido à carência de revisão, é chamada de Clarice durante boa parte da narrativa (p. 47; 51). Tanta mente aberta não raro torna inconcebível a narrativa, por melhor que fosse um mundo, de fato, desprovido de preconceitos.

Talvez o autor devesse repensar a sua estória e rever algumas situações narradas, bem como, em suas próximas publicações, deixar para outro momento, fora do texto, homenagens tão diretas aos seus conhecidos (p. 32-33).

Contudo, a despeito de algumas falhas, o texto de Gualberto Gambier cumpre muito bem com o que, ao meu ver, é uma das grandes funções da literatura: a denúncia. A indignação se reproduz no texto ficcional, que acaba por fazer mais do que apenas entreter o leitor. A corrupção política, o descaso dessa em relação à população, a ausência de planejamento urbano, a omissão do Estado, a pedofilia na Igreja Católica, as atrocidades cometidas contra milhares de pessoas no interior de um hospício em Barbacena... tudo é corajosamente denunciado durante as noventa e oito páginas de A garota da rua Guaicurus. E assim, entre realidade e ficção, temos uma personagem que, por trás de sua profissão, esconde uma história trágica, e quer agora vingar a dor a qual os seus antepassados foram submetidos. E o mais interessante de tudo é a forma como Gualberto Gambier se utiliza de sua narrativa para comunicar o poder da leitura!, o que é louvável. A literatura a favor da literatura.

A revisão, portanto, é necessária, visto que entrar em defesa da leitura por meio de um texto sobrecarregado de falhas estruturais, ortográficas e gramaticais pode ser ineficaz. A presença de erros grosseiros como “estrupo” (p. 68), a aplicação do verbo “sodomizar” (p. 80), a estranha divisão de capítulos etc. pressupõem que a obra não passou pelas mãos de um revisor. E vale mencionar que o fato de Gualberto Gambier, naquela tarde de quarta-feira, haver utilizado um carimbo para informar quanto a um pequeno erro à linha 26 da página 13, quando, na verdade, há tantas outras falhas ao longo do texto, revela que ele próprio não fez a revisão final da obra. E isso é um problema.

José Gualberto Gambier Costa, porém, é um escritor com futuro, com inquietações e estórias (e histórias) pululando na cabeça e na alma. Um homem que, tal como o seu excêntrico personagem Matheus Manso, enveredou pelos sinuosos, porém atrativos, caminhos literários após aposentar-se. E, cidadão firme em suas convicções e escritor independente que é, tem todo o mérito de um grande escritor. Quanto a mim, particularmente, pretendo, tão logo possa, ler as suas outras três obras, bem como a quinta, que está a caminho.

No que se refere ao A garota da rua Guaicurus, devo dizer que rotular uma obra como horrível ou mesmo dizê-la espetacular me parece desrespeitoso para com quem a gerou, pois se trata de qualificações desprovidas de uma real crítica, que é o que qualquer escritor demanda em lugar de insultos ou elogios. Portanto, eis aqui a minha crítica, e acrescento que vale a pena dedicar algumas horas (ou o tempo que se fizer necessário) às linhas de Gambier, nas quais nos depararemos com alguns problemas, sim, mas também e sobretudo com a redenção que só foi possível na e pela leitura. Recomendo.

COSTA, José Gualberto Gambier. A garota da rua Guaicurus. Goiânia: Kelps, 2013.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Félix e Niko: sinal de um tempo bom



Quando ouço alguém dizendo algo do tipo "Argh!, agora toda novela da Globo vai ter relacionamento gay..." recebo a informação com um tal estranhamento que, a título de teste, faço questão de, intimamente, trocar a palavra "gay" por, por exemplo, "negro". Tal recurso, devo dizer, só me leva a uma conclusão: sim, toda novela da Globo e de qualquer outra emissora deve abordar relacionamentos homoafetivos. É tema obrigatório, tal como o é o racismo ainda presente, a pobreza, a deficiência, a terceira idade e afins.

São temas obrigatórios por se tratar de esferas sociais nas quais se fazem presentes minorias que nem de longe o são em termos numéricos. Gays, pessoas com deficiência, negros etc. devem, sim, estar presentes nas tramas tal como estão em nossa vida, em nosso dia a dia, em nosso local de trabalho, em nossa família etc.

Por mais divertido que seja assistir às telenovelas, não podemos negar que, quando nos colocamos diante da tevê, o que nos é apresentado ali é um mundo irreal. Um mundo com uma grande maioria de pele branca, circulando pela rua, pela universidade e pelos demais núcleos da trama. No tocante às pessoas com deficiência nem se fala! Elas raramente existem. E, assim, nos é apresentado na telinha um mundo à parte, um mundo fora do mundo. Um mundo de pessoas branquinhas (com empregados negros, naturalmente), perfeitas e casais heterossexuais em sua maioria. Histórias mirabolantes, grandes reencontros e terríveis mistérios, mas poucos vivendo conflitos reais.

Essas pessoas precisam estar presentes na trama, e nem se faz necessário que se crie polêmica em torno delas. Basta que estejam lá, tal como estão em nossa lida diária. Elas precisam estar ali porque fazem o mundo acontecer e, principalmente, porque também recebem a programação televisiva goela abaixo diariamente, de modo que merecem, no mínimo, serem retratadas na ficção, uma vez que esta se pretende narrativa baseada na vida real.

Eu espero, sim, que, a partir dos recentes avanços, a questão da homossexualidade siga sendo amplamente abordada nas tramas, com muitos beijos gays, mas também com a infinidade de aspectos da homossexualidade ainda por serem levados à telinha. No âmbito da teledramaturgia global estamos diante de uma grande mudança de tempo: abandona-se o estratégico enaltecimento das minorias, onde se perpetuava, por exemplo, o estereótipo do gay bonzinho e inteligente, para abraçar o cara da vida real, que trai a esposa com jovens rapazes; que mantém um casamento de aparências com o intuito de esconder a sua verdadeira identidade sexual; que, além de amar, também sente puro e simples desejo; que desestabiliza a relação com o parceiro por se aventurar na cama da melhor amiga do mesmo.

Enfim, adentramos um tempo em que a teledramaturgia, embora muito de qualidade tenha perdido ao longo dos anos, está mais aberta a mostrar esses atores sociais e suas histórias, às vezes bonitas, às vezes não. A diversidade e inconstância da vida real com os seus tons ficcionais.

É tempo de a teledramaturgia tirar essas pessoas dos seus armários, pois, na vida real, faz tempo que elas saíram de lá...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Valente


Título original: The Brave One
Ano: 2007
Direção: Neil Jordan
Roteiro: Roderick Taylor (argumento e roteiro), Bruce A. Taylor (argumento e roteiro), Cynthia Mort (roteiro)
Gênero: Ação/Drama/Policial/Suspense
Origem: Austrália/Estados Unidos
Duração: 119 minutos
 

“Sou Erica Bain e, como vocês sabem, eu ando pela cidade. Eu me queixo, reclamo, mas eu ando, observo e escuto. Sou testemunha de toda beleza e feiura que está desaparecendo da nossa adorada cidade.” Erica Bain, personagem de Jodie Foster em The Brave One (2007).

Não se trata de uma leitura que eu tenha feito recentemente, mas bem me lembro que, no imortal romance de Jostein Gaarder – cujas vendas somam mais de 30 milhões de exemplares pelo mundo –, a jovem personagem Sofia Amundsen se exalta quando o seu misterioso tutor lhe questiona sobre a possibilidade de tirarmos do nosso caminho aqueles que, por ventura, nos façam mal (com perdão por eu apresentar a minha memória como única referência). Não é pra menos. Vivemos em uma sociedade na qual o famigerado “olho por olho, dente por dente” foge aos seus princípios éticos. Não obstante, a “vida real” consta de uma miríade de casos em que esse princípio ético é posto de lado, ocorrendo, dessarte, o prejuízo ou mesmo a morte àqueles que outrora hajam ou não atuado como algozes do seu então “vingador”. Valente – sofrível tradução de The Brave One (2007), de Neil Jordan – nos proporciona uma boa trama para a discussão deste tema.

Erica Bain (Jodie Foster) é locutora do programa “Street Walk”, na fictícia rádio WNKW. Ela leva uma vida comum, gostando do que faz e amando o enfermeiro David Kirmani (Naveen Andrews), com quem está prestes a se casar. Os planos e a vida comum de Erica, no entanto, sofrem um baque quando ela e o noivo são gratuita e brutalmente agredidos por três marginais, ocorrência que põe fim à vida de David e marca decisivamente a de Erica, que, o telespectador bem sabe, jamais será a mesma. O telespectador de Valente, aliás, sabe de muita coisa. Lendo a sinopse do filme antes de assisti-lo, ele já sabe, por exemplo, que ali não há nada realmente novo: uma mulher, tendo abaladas as suas estruturas, alimenta uma sede de vingança que, ao longo do filme, levará às últimas consequências.

Valente, no entanto, pode e deve ser qualificado como um bom filme, a despeito dos clichês e por inúmeras razões, sendo a principal delas o fato de Neil Jordan haver sido um mestre em contar uma velha estória dando-lhe ares de inédita, utilizando-se de elementos simples, porém significativos, como, por exemplo, a excelente trilha sonora da qual Dario Marianelli ficou incumbido. As cenas de suspense, de violência e de profundas reflexões de Erica acerca do ocorrido e daquilo em que está se tornando são embaladas por instrumentais que levam o telespectador às sensações provavelmente pretendidas por Jordan. As mencionadas reflexões de Erica, aliás, são um importante elemento: não temos aqui apenas um filme de violência – embora seja ela, naturalmente, o seu ponto forte –, mas, também, um filme sobre a profunda transformação de uma mulher, que, após um ataque brutal, não mais consegue adaptar-se à trivialidade; tampouco, e com razão, consegue ver o mundo – e, em especial, Nova Iorque – como um lugar seguro. Nesse âmbito, vale ressaltar que a mudança pela qual Erica passa não é assim tão brusca – o que, caso contrário, o seria em detrimento do senso de realidade da obra –, visto que, já no início do filme, nos é apresentada uma personagem de natureza reflexiva, introspectiva e censora; uma personagem inconformada com as estimáveis características que estão desaparecendo de sua “adorada cidade”. O que temos, portanto, é uma Erica acostumada a reagir à própria insatisfação – a princípio, com sua expressiva escrita; mais a diante, com a violência.

Destaque para a cena da abordagem dos bandidos, que exigem nervos de aço do telespectador que, até então guiado por uma estória leve, experimenta agora a desumanidade de três desconhecidos que, por diversão, agridem impetuosamente dois jovens de bem, cheios de vida, amor e planos. Naturalmente, levar o espectador ao asco com esse tipo de cena não é mérito de Jordan, visto que qualquer tabloide consegue isso, todos os dias, na vida fora das telas. Tal estratégia é, no entanto, pertinente ao objetivo do diretor, que é, naturalmente, justificar as atitudes posteriores da mocinha, levando o telespectador a manter-se do lado dela. Destaque também para as cenas que vemos na sequência, que são uma alternação entre as imagens dos cuidados ao corpo ferido de Erica no hospital e as cenas de David distribuindo carícias pelo mesmo corpo. Isso poeticamente embalado por “Answer”, de Sarah Mclachlan.

Outro momento que merece destaque é quando a heroína, disposta a tentar continuar a seguir com sua rotineira vida, faz, em seu programa de rádio, uma narração que se faz interessante por refletir, com fidelidade, o sentimento de inúmeras vítimas e familiares de vítimas da violência nas grandes cidades, e isso é mais um ponto que “avisa” ao telespectador que, ao assistir a Valente, ele não está, definitivamente, diante de nada surreal, mas palpável, bem próximo de si.

“Nova York, a cidade grande mais segura do mundo. Mas é horrível... temer o lugar que um dia você amou. E ver uma esquina que você conhecia tão bem e ter medo de sua sombra. Ver degraus familiares e ser incapaz de subir. Nunca entendi como as pessoas podiam viver com medo. Mulheres com medo de ir para casa sozinhas. Pessoas com medo de pó branco em suas caixas de correio, da escuridão e da noite. Pessoas com medo de pessoas. Sempre achei que eram os outros que sentiam medo. Pessoas mais fracas. O medo nunca me atingia. E então, ele atingiu. E quando ele atinge, você descobre que ele estava lá o tempo todo, esperando, sob a superfície de tudo aquilo que você amava. Você sente a pele formigando, seu coração adoece e você olha para a pessoa que um dia você foi, descendo a rua, e você se pergunta se um dia voltará a sê-la.” Erica Bain, personagem de Jodie Foster em The Brave One (2007).

Erica agora dorme ao lado do túmulo de seu amante, implorando-lhe uma palavra, e se envereda por uma rotineira caminhada noturna, na qual visita, armada, os pontos mais recônditos da cidade. À certa altura – anterior, aliás, à aquisição ilegal da arma – Erica chega a procurar a polícia, pensando em deixar nas mãos dela a solução para o seu caso. É quando nos é apresentada mais uma espécie de justificativa para o que ela fará logo em seguida: a ineficiência da polícia, da qual temos como pista a frase que o policial repete, religiosamente, a todos que, desolados, recorrem a ele: “Certo, Sei que é difícil, mas se puder ter um pouco de paciência e sentar ali. Logo mais, um policial virá ajudá-la.” Erica, no entanto, não quer que a justiça seja feita por um processo moroso e que, aliás, não lhe ira saciar a ira. Ela quer “fazer justiça com as próprias mãos”, o que nos é reafirmado por duas cenas que veremos no decorrer do filme: i) quando Erica desiste quando, na delegacia, está prestes a entregar-se à polícia como a autora dos (merecidos?) assassinatos que estão acontecendo na cidade e ii) quando colocada frente a frente com um dos assassinos, mesmo reconhecendo-o, ela prefere não dizer à polícia, para poder realizar ela mesma a sua vingança.

Vale ressaltar que o telespectador-alvo do filme anseia por ver a mocinha – culturalmente concebida como frágil e levada ao extremo do sofrimento após tornar-se vítima da violência e perder o seu amado –, tomar ares de vilã e sair pela cidade a fazer com que os algozes dos cidadãos de bem provem do seu próprio veneno. A plena satisfação, no entanto, fica apenas para o telespectador, uma vez que Erica – embora, provavelmente, experimente também uma espécie de prazer ao cometer os assassinatos – sente-se cada vez mais vazia e culpada pelo “mal” que vem provocando. Esta natureza controversa da obra nada mais é, no entanto, do que uma estratégia – muito boa, por sinal – utilizada por Jordan para que o telespectador chegue a uma reação catártica sem, no entanto, deificar a heroína pelos seus atos, o que seria, penso, como legitimar a própria violência.

Destaque, neste ponto, para um diálogo entre Erica e a aparentemente dura – porém compreensiva e conhecedora da dor e conflito interno vividos pela protagonista – Josai (Ene Oloja), quando essa se depara com Erica assentada nos degraus à frente da sua casa, fumando angustiada e disparadamente.

“– Não devia fumar. Isso vai matar você.
– Não me importo.
– Há muitas formas de morrer. Mas é preciso achar uma forma de viver. E... isso é difícil.” The Brave One (2007).

É quando Erica encontra uma forma não de viver, mas, sim, de suportar a vida de agora, carente de Jason e da paz de outrora, “porque, quando você ama algo, toda vez que um pedacinho dele se vai, você perde um pedacinho de si próprio.” Erica, então, havendo-se perdido por inteiro, agora anda pela cidade colocando em sua mira todos aqueles que perturbam a paz alheia, se fazendo algozes de outrem.

Neste ponto da trama, já temos a presença do Detetive Mercer (Terrence Howard), que investiga as misteriosas mortes na cidade, desconhecendo, a principio, que o temido – ou adorado – “justiceiro” está por trás de toda a simpatia daquela mulher. Essa dupla, aliás, é a responsável por grande parte das reflexões sobre justiça, ética e assassinato do filme. Tomemos como exemplo a sena em que, cedendo uma entrevista à Erica, o detetive lhe conta sobre o Sr. Murrow, dono dos estacionamentos da Ilha Roosevelt. Ao ser questionado por ela se nada havia a ser feito quanto a isso, o detetive, arrependendo-se em seguida, responde não haver nenhuma solução que fosse legal. Na sequência, Erica pergunta ao detetive se suas mãos haviam tremido nas ocasiões em que teve que matar alguém e esse responde negativamente, colocando isso como a vantagem de estar do lado certo.

Temos aí a explanação de dois lados com algo importante em comum. Ou seja: o hábito de executar o outro como forma de fazer justiça. Não obstante, defende-se haver um lado certo e um lado errado, embora ambos existam em prejuízo à vida humana. Jordan nos traz tal reflexão de maneira magistral. Havendo levado o telespectador-modelo a torcer pelo sucesso da protagonista em seu plano de vingança, leva-o, em seguida, a questionar a atitude da mesma e adentrar, a partir disso, numa série de questionamentos: se não seria correto torcer pela protagonista, dever-se-ia de fato torcer pelo detetive? Haveria mesmo alguma circunstância em que tentar contra a vida humana fosse uma atitude legítima? Será que a polícia age mesmo eticamente, e, se sim, em que se baseia esta ética?

Entre os ouvintes do programa “Street Walk”, as opiniões a respeito se dividem tal como entre os telespectadores de Valente. Um primeiro defende a ação do “vingador” como um favor à sociedade. Um segundo defende que, ao decretar a morte de outrem sem julgamento, o justiceiro se iguala às pessoas que ele mata. Um terceiro menciona o prazer que nos proporciona ver os algozes da sociedade serem punidos com a morte.

Enfim, esses e outros debates surgem na tela enquanto vemos Valente, o que, nas mãos de Jordan, não anula a possibilidade de um desfecho razoável para a mocinha, possibilitado, naturalmente, por Mercer, que parece haver cultivado um certo fascínio pela moça. Assim, ao final da trama, o afeto, o cuidado e a compreensão da dor alheia se sobrepõem a qualquer ética, tornando-se o último bandido restante objeto de um combinado entre Erica e Mercer. Seria certo? Não sabemos, mas sabemos que estamos tratando de um filme, que encontrou neste final um quase equilíbrio entre a satisfação do expectador e o comprometimento com a ética. Digo isso porque, mesmo havendo um final favorável à protagonista, não se pode falar ainda em “final feliz”, visto sabermos que, a despeito de qualquer coisa, Erica seguirá carregando as marcas da violência sofrida e da perda do noivo, tal como ela própria avisa no encerramento da trama. “Não há como voltar a ser aquela outra pessoa. Voltar àquele outro lugar. Essa coisa, essa pessoa estranha... é só o que você é agora.”

É isso. Apesar de algumas falhas, Valente é um excelente filme, principalmente por não se embasar tão somente no objetivo de levar o telespectador à saciedade, enfatizando, também, questões éticas inquietantes. Bem diferente do violento e raso Doce Vingança (2010) – regravação de A vingança de Jennifer (1978) chegado às telas três anos após Valente –, a trama de Jordan é uma estória que faz pensar.


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Publicado originalmente em CinePlayers.


domingo, 27 de janeiro de 2013

De pernas pro ar 2


Título original: De Pernas Pro Ar 2
Ano: 2012
Direção: Roberto Santucci
Roteiro: Paulo Cursino, Ingrid Guimarães, Marcelo Saback
Gênero: Comédia
Origem: Brasil
Duração: 95 minutos


O prazer não tem limites! E Alice Segretto (Ingrid Guimarães), vai levar isso ao pé da letra e expandir os negócios da “Sex Delícia” à capital cultural do mundo: Nova Iorque. E aí está boa parte da graça de De pernas pro ar 2. Quem, ao assistir o trailer, previu muita risada diante das trapalhadas de Alice em Nova Iorque, não vai se decepcionar. Aliás, uma das muitas verdades que têm sido ditas sobre o longa é o fato de ser ele um dos raros casos em que a sequência supera o original. É isso mesmo. Esta sequência do filme de Roberto Santucci – que conta, inclusive, com a própria Ingrid Guimarães na produção do roteiro – potencializa os acertos do anterior, cria novas piadas e comete novos erros, totalmente perdoáveis a meu ver. Vamos a tudo isso.

Antes de chegar à América, Alice vai passar um mau bocado, desmaiando sobre um bolo bem peculiar no lançamento da centésima loja da “Sex Delícia”; sendo colocada no chinelo pela linda, bem-sucedida e faz-tudo Vitória (Christine Fernandes) e cometendo loucuras em uma reunião com investidores após ingerir seu calmante com champanhe. E como se não bastasse, a pobre ainda vai parar em um spa dirigido pela severa Regina (Alice Borges). Nada disso, porém, é suficiente para parar Alice, que, para escapar do spa e continuar tocando o seu voluptuoso negócio, recorre aos serviços do hacker e contrabandista de eletrônicos Leozinho (Wagner Santisteban), além de proporcionar um orgasmo à “sargentona” Regina. No spa, aliás, todas essas figuras – com destaque para o Mano Love (Luiz Miranda), antipático, mas cômico – são hilárias. Tanto quanto o orgasmo alcançado por Alice, ao som de Byafra, por via do estranho objeto de oito tentáculos – ou testicles (trocadilho infame, porém engraçadíssimo, utilizado no filme) – que viria a ser a chave para o sucesso da “Sex Delícia” em Nova Iorque.

Contudo, devem ser considerados pontos que eu nem chamaria de falhas, visto que surtem efeito (o riso) e não prejudicam o filme. Um deles é aquela espécie de reformulação da cena de Alice à mercê de um “brinquedinho”, desta vez não controlado pelas ondas sonoras durante o jogo de futebol do filho (João Fernandes, no primeiro filme), mas pelo controle remoto, manuseado, involuntariamente, por João (Bruno Garcia). Outro ponto é a previsível cena do restaurante, exibida à exaustão em produções norte-americanas e até em novelas do SBT. Me recordo de haver visto algo do tipo, pela primeira vez, em Uma babá quase perfeita (1993). Conforme já dito, porém, são pontos que, embora representem um pequeno pecado em termos de criatividade, surtem o efeito esperado e estão bem onde estão.

Ademais, quaisquer falhas são compensadas pelo brilhante elenco. Ingrid Guimarães continua a nos surpreender com o seu talento. Cristina Pereira ganha maior destaque e a sua personagem Rosa mostra que não está ali a passeio, tal como a perfeita Denise Weinberg, para quem parece não haver tempo ruim. Maria Paula, muito criticada desde o primeiro filme (críticas com um quê de exagero, a meu ver), continua defendendo bem a sua Marcela. E até o Paulinho (Eduardo Melo, nesta sequência) se sai bem em suas raras falas. E, havendo mencionado a cena do restaurante no parágrafo anterior, não se pode desconsiderar a rápida, porém intensa, participação de Rodrigo Sant’Anna, que, em sua última cena, até utiliza um dos bordões de sua personagem Valéria Vásquez. A referência a bordões do pretenso humorístico Zorra Total, aliás, não é uma novidade em filmes nacionais. A diferença é que, enquanto soou como uma patética estratégia em Xuxa Gêmeas, ficou funcional e dentro de contexto em De pernas pro ar 2. Quanto a Ricardo (Eriberto Leão) – que também se sai bem como possível cara-metade de Alice –, fico pensativo quanto ao beijo que apenas quase rolou entre ele e a protagonista, mas que rolou pra valer entre João e a “Mulher Maravilha”. Não se trata de uma apologia à traição, mas fico me questionando sobre esta mulher moderna, empreendedora e independente que, contraditoriamente, não se atreve nem a um beijinho com uma bela figura como Ricardo (Eriberto Leão) à quilômetros de distancia de sua cidade e de sua família. Machismo enrustido em um filme tão libertário ou estratégia do diretor para mostrar que Alice, apesar de sua compulsão pelo trabalho, é fiel à sua família? Vai saber...

Aliás, no tocante ao mencionado aspecto libertário do longa, isso, a meu ver, lhe rende muitos pontos. De pernas pro ar 2 segue provocando o riso sem precisar apelar para o palavreado chulo ou fazer piadas sexistas. O sexo ali é para todos, sem que isso tenha aquele famigerado arzinho de escárnio.

E falando em mulher moderna, merece destaque a criança que interpreta Alice na infância, relatando, para uma câmera, os sonhos que, de um jeito ou de outro – embora de uma maneira bastante torta – se realizam na vida adulta da personagem. Neste ponto, vale fazer uma analogia entre esta Alice, obstinada na busca pela concretização de um sonho – única e exclusivamente para fins de realização pessoal – e aquela outra Alice, personagem de Lewis Carroll. É óbvio que são estórias totalmente distintas, mas ambas estão envoltas em sonhos e fantasias, e são justamente essas fantasias (num sentido malicioso, no caso de De pernas pro ar 2) que as conduzem ao amadurecimento. Aliás, em ambas as estórias, um coelho é o grande responsável por tudo... Em se tratando de filmes e, principalmente, obras literárias, nomes nem sempre são casuais. A personagem de Christine Fernandes, por exemplo, não se chama Vitória devido a uma escolha arbitrária, mas, sim, para reforçar para o telespectador a representação que aquela mulher tem para Alice. Ou seja: a mulher vitoriosa por dar conta do recado em todos os âmbitos de sua vida.

E foram justamente os sonhos de menina da protagonista os responsáveis por uma rápida solução para o final do filme. Uma solução que, na verdade, deixa muita coisa mal resolvida, vista a lógica de que Alice não vai mudar, continuando isso a ser prejudicial a si mesma, ao seu casamento e, em especial, ao seu filho. Por outro lado, não sei se esse tipo de exigência cabe a uma comédia. E, além disso, esse desfecho meio vago vem a ser positivo se for sinal de uma possível continuação. Então, enquanto o terceiro filme não vem, vamos ao cinema rir a valer com as brejeirices da protagonista e dos que a acompanham, e, se tivermos que tirar uma lição do filme, que seja a de que o bom é que vivamos a nossa vida de pernas pro ar...

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Publicado originalmente em CinePlayers.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A virgem de 40 – Agora ou nunca


Imagem retirada do site da campanha.

A minha peregrinação pela 39ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de Belo Horizonte teve como largada a peça A virgem de 40 – Agora ou nunca, o que me trouxe também a oportunidade de adentrar pela primeira vez o Teatro ICBEU – que também está na casa dos 40, mas não é mais virgem, não! –, tão próximo a minha adorada Praça da Liberdade. A descrição da peça, disponibilizada na divulgação da campanha, é simples: Norma, “uma professora romântica, sonhadora e virgem”, resolve, no dia de seu aniversário de 40 anos, se dar de presente uma relação sexual, o que acaba por gerar “sucessivas situações inusitadas”. O que o público não sabe, embora provavelmente suponha em sua maioria, é que o recurso encontrado pela protagonista para a concretização do seu intento é uma agência de acompanhantes, através da qual ela tem contato com três peculiares profissionais do sexo: o “número 32” Ronaldo, cujo “Ronaldão” é, na verdade, “Ronaldinho”, e só deixa a protagonista – e a plateia – na vontade; o “número 22” Celso (mais romântico que a própria Norma), que, há vinte anos, foi aluno da protagonista, a sua primeira paixão; e o diretor da agência, um homem curiosamente caquético que se viu obrigado a ir ele próprio à casa da protagonista a fim de atender-lhe à complexa demanda. Aliás, é justamente a demanda da nossa excêntrica Norma que gera as absurdas situações: ela não apenas quer “perder a virgindade”, como também quer viver este momento tão especial fazendo “papai-e-mamãe” – posição tão ultrapassada quanto “tripé de samambaia” –, sendo chamada de amor e sendo carregada até o quarto vestida de noiva.

Neste ponto, é válido que façamos algumas considerações acerca da contraditória personalidade da professora, que valoriza o amor e a primeira vez na noite de núpcias (o que justifica o nome dado à personagem: Norma), mas que vai tentar ter tudo isso, de “mentirinha”, com um garoto de programa, fracassada que foi ao tentar concretizá-lo na vida real. E é aí que subjaz a intempérie que marcou a vida da professora, que, há vinte anos, estava noiva e, por desconhecida razão, foi abandonada pelo homem com quem sonhava ter sua primeira noite e viver para sempre em uma “casinha de janelas azuis”.

Como podemos notar, A virgem de 40 tem um bom argumento, mas a verdade é que Aziz Bajur, autor da peça, não se aproveita como pode desse argumento, e – por falha ou por escolha –, acaba desenvolvendo uma estória focada no humor, pautada no preconceito e com desfecho aquém das expectativas da plateia.

O preconceito ao qual faço menção está no desespero no qual o simples desejo da professora se transforma no decorrer da peça, levando-a ao ponto de convidar o porteiro do prédio ao seu apartamento, abduzindo-o, com uma arma, a ter uma relação sexual com ela. Tal preconceito está até mesmo no texto, onde podemos conferir dizeres como “E agora? Quem é que vai resolver o meu problema?”. Claro, talvez estejamos a exigir demais de uma peça que se propõe exclusivamente ao humor, sem, em momento algum, pretender enveredar-se por reflexões sérias acerca da questão da mulher. Mas, por outro lado, não sei se a arte (e aqui eu me refiro a um conceito estritamente pessoal de arte) está autorizada a se desviar de reflexões desse tipo.

Por outro lado, não se deve ignorar o fato de que o humor atual se dá, geralmente, alicerçado em preconceitos, o que pode, talvez, legitimar o uso e abuso do estereótipo da mulher de 40 anos desesperada por sexo, tais são as ocorrências físicas e adoção de postura mais ativa no plano social, profissional, afetivo e sexual que marcam a vida das mulheres aos 40.

Outro ponto é que a peça me parece não cumprir com a sua função catártica, em especial se considerarmos haver na plateia pessoa em condição semelhante à da protagonista. Principalmente pelo seu desfecho, que, aparentemente, mais se justifica pela necessidade de se encerrar a estória com um final meia-boca após haver alcançado sucesso com o riso. Será que a nossa protagonista necessitava, de fato, de uma relação sexual com um michê, mesmo que nocauteada pelo álcool que vai consumindo ao longo da trama? Será que ela devia mesmo desistir do seu sonho de “um amor para toda a vida”? Será que o seu ex-aluno, tão acanhado e insatisfeito com a sua condição de michê, a satisfaria a ponto de fazê-la esquecer a mágoa que lhe foi causada há vinte anos? Enfim, é claro que são respostas que devem ficar para a imaginação da plateia. O problema, porém, é que a trama carece de elementos que possibilitem ao espectador o sonho pós-espetáculo.

Merece destaque, porém, a transformação, inclusive física, pela qual Norma vai passando ao longo da trama. Da recatada mulher de óculos, cabelos presos e camisola longa à sedenta mulher de linguajar chulo, longos cabelos anelados e camisola sexy de cor vermelha, vai se revelando a loba. E merecido destaque, também, para a Ivonete, atendente da agência de acompanhantes, a quem só conhecemos por via das sucessivas ligações da protagonista, mas que nem por isso deixa de nos arrancar muitos risos. “Nós não temos ‘qualquer um’. Só trabalhamos com profissionais altamente qualificados”.

Conclui-se, então, que A virgem de 40 – Agora ou nunca tem, sim, alguns problemas que podiam ser solucionados aproveitando-se melhor o seu argumento. Mas, a despeito disso, trata-se de uma peça que, como todas as peças participantes da campanha, deve ser vista e aplaudida de pé, pois os atores, o diretor, o autor e todos os envolvidos merecem. Tal como você que, não só durante a campanha, mas durante o ano inteiro, merece ir ao teatro para rir e chorar com as Normas da vida!

sábado, 12 de janeiro de 2013

Namore um cara que lê



Imagem retirada do blog Peregrinacultural`s.

Namore um cara que se orgulha da biblioteca que tem, ao invés do carro, das roupas ou do penteado. Ele também tem essas coisas, mas sabe que não é isso que vai torná-lo interessante aos seus olhos. Namore um cara que tenha uma pilha de três ou quatro livros na cabeceira e que lembre do nome da professora que o ensinou as primeiras letras.

Encontre um cara que lê. Não é difícil descobrir: ele é aquele que tem a fala mansa e os olhos inquietos. Ele é aquele que pede, toda vez que vocês saem para passear, para entrar rapidinho na livraria, só para olhar um pouco. Sabe aquele que às vezes fica calado porque sabe que as palavras são importantes demais para serem desperdiçadas? Esse é o que lê.

Ele é o cara que não tem medo de se sentar sozinho num café, num bar, num restaurante. Mas, se você olhar bem, ele não está sozinho: tem sempre um livro por perto, nem que seja só no pensamento. O rosto pode ser sério, mas ele não morde, não. Sente-se na mesa ao lado, estique o olho para enxergar a capa, sorria de leve. É bem fácil saber sobre o quê conversar.

Diga algo sobre o Nobel do Vargas Llosa. Fale sobre sobre as novas traduções que andam saindo por aí. Cuidado: certos best-sellers são assunto proibido. Peça uma dica. Pergunte o que ele está lendo – e tenha paciência para escutar, a resposta nunca é assim tão fácil.

Namore um cara que lê, ele vai entender um pouco melhor seu universo, porque já leu Simone, Clarice e – talvez não admita – sabe de memória uns trechos de Jane Austen. Seja você mesma, você mesmíssima, porque ele sabe que são as complicações, os poréns que fazem uma grande heroína. Um cara que lê enxerga em você todas as personagens de todos os romances.

Um cara que lê não tem pressa, sabe que as pessoas aprendem com os anos, que qualquer um dos grandes tem parágrafos ruins, que o Saramago começou já velho, que o Calvino melhorou a cada romance, que o Borges pode soar sem sentido e que os russos precisam de paciência.

Um namorado que lê gosta de muita coisa, mas, na dúvida, é fácil presenteá-lo: livro no aniversário, livro no Natal, livro na Páscoa. E livro no Dia das Crianças, por que não? Um cara que lê nunca abandonará uma pontinha de vontade de ser Mogli, o menino lobo.

E você também ganhará um ou outro livro de presente. No seu aniversário ou no Dia dos Namorados ou numa terça-feira qualquer. E já fique sabendo que o mais importante não é bem o livro, mas o que ele quis dizer quando escolheu justo esse. Um cara que lê não dá um livro por acaso. E escreve dedicatórias, sempre.

Entenda que ele precisa de um tempo sozinho, mas não é porque quer fugir de você. Invariavelmente, ele vai voltar – com o coração aquecido – para o seu lado.

Demonstre seu amor em palavras, palavras escritas, falas pausadas, discursos inflamados. Ou em silêncios cheios de significados; nem todo silêncio é vazio.

Ele vai se dedicar a transformar sua vida numa história. Deixará post-its com trechos de Tagore no espelho, mandará parágrafos de Saint-Exupéry por SMS. Você poderá, se chegar de mansinho, ouvi-lo lendo Neruda baixinho no quarto ao lado. Quem sabe ele recite alguma coisa, meio envergonhado, nos dias especiais. Um cara que lê vai contar aos seus filhos a História Sem Fim e esconder a mão na manga do pijama para imitar o Capitão Gancho.

Namore um cara que lê porque você merece. Merece um cara que coloque na sua vida aquela beleza singela dos grandes poemas. Se quiser uma companhia superficial, uma coisinha só para quebrar o galho por enquanto, então talvez ele não seja o melhor. Mas se quiser aquela parte do "e eles viveram felizes para sempre", namore um cara que lê.

Ou, melhor ainda, namore um cara que escreve.



SILVA, Bruna Palma e. Namore um cara que lê. Retirado do blog Acepipes Escritos. Baseado no texto Date a girl who reads, de Rosemary Urquico.



Visite o meu post anterior: Namore uma garota que lê.