sábado, 21 de maio de 2016

Estrela da Manhã - André Vianco



“Rafael não sabia naquela época e nem agora que às vezes a distância chega e ela é, como Estrela da Manhã, um tipo de demônio que vai se infiltrando na família devagarzinho, de forma bastante silenciosa. A distância é um demônio que não tem cheiro nem volume, mas que também esfria o ar ao redor dos que são possuídos por sua presença e, quando os corações se dão conta, já estão duros ou doloridos demais para lutar. Refazer o caminho é um ato de fé. Reencontrar entes queridos e amigos da infância a um passo é um esforço que não deveria ter esse nome. Às vezes o demônio se vai, às vezes, não. Mas o fato é que, bem ou mal, Rafael os tinha ali, ao final do dia, quando chegavam de seus afazeres do mundo e, dentro de casa, queriam continuar lá fora, com suas mentes plugadas no que tinham vivido e ouvido e pouco se importavam com os que estavam no entorno, dentro das paredes físicas do lar. Comida congelada girando no micro-ondas e as falas monótonas da novela das nove grasnando na TV.” (p. 220-221)

sábado, 30 de abril de 2016

Desafios do Amor - Thaís Silveira Venzel



O primeiro romance voltado para o público adolescente que li, se bem me lembro, foi Ana e Pedro – Cartas, de Vivina de Assis Viana e Ronald Claver. A este, se seguiram o maravilhoso A marca de uma lágrima, de Pedro Bandeira, O Marido da Mãe, de Maria do Carmo Brandão, e O Primeiro Beijo, de Marcia Kupstas. Todos eles, pendendo mais ou menos para a realidade dos adolescentes, traziam consigo o compromisso de fazer de si um reflexo dos conflitos comumente experimentados pelos jovens. O que não é diferente em se tratando de Desafios do Amor, de Thaís Silveira Venzel, o qual tive agora a oportunidade de ler não como adolescente, mas com deleite equivalente ao que eu teria se o fosse.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O Filho do Coveiro - Marcos Mota



“Ninguém gosta de pensar na morte, o que vem a ser uma ironia e uma incoerência, visto que sua certeza é uma das poucas verdades que todo ser humano irá encontrar num breve piscar de olhos. Ela é implacável, como dizem, inflexível, rigorosa e surpreendente. Reduz-nos a um conto ligeiro, na maioria das vezes esquecido pela posteridade.” (pág. 17)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Cinquenta Tons de Cinza


Eu estava com os olhos vidrados no telão. O cinema estava lotado, e não era por menos, visto se tratar da quinta-feira seguinte à tão esperada pré-estreia. A minha volta, amigos desapontados como resultado da comparação entre o filme e o livro que havia lido com voraz dedicação. Na trama, é chegado um momento de clímax intenso, quando, de repente... as letras do cast surgem, Beyonce começa a cantar e as luzes do cinema são acesas. O filme havia acabado. E foi assim a minha primeira experiência com o longa Cinquenta tons de cinza no último dia 12: frustrante. Não obstante, eu sentia faltar alguma coisa. Eu sentia ser precipitado avaliá-lo naquele momento, quando a influência dos meus amigos, ávidos leitores da trilogia, tendia a ser determinante. Ademais, eu não havia concluído a leitura da obra, a qual dera início há poucos dias antes da sessão de cinema com a intenção primeira de redigir o presente. Assim, nada de comentários depreciativos sobre o filme nas redes sociais. Não ao menos até que eu concluísse a leitura da obra, o que consegui nos primeiros minutos de uma Quarta-feira de Cinzas (qualquer semelhança é mera coincidência). E o inesperado aconteceu: a minha intenção primeira de redigir uma crítica comparativa sobre livro e filme se converteu em uma necessidade de focar o livro, considerando a “importância” inferior do filme apesar do estardalhaço que o mesmo vem causando.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Declaração Amorosa - Sarau Brasil 2014



A poesia que apresento a seguir foi por mim escrita em 5 de março de 2012, mesma data em que a postei aqui e no Facebook. Na ocasião, fui contemplado com as afetuosas curtidas e comentários de muitos de vocês, que receberam positivamente o meu texto.

Bom, o tempo passou, uma oportunidade surgiu e eu resolvi arriscar... E eis que "Declaração amorosa" foi uma das poesias selecionadas no Concurso Nacional Novos Poetas, Prêmio Sarau Brasil 2014, rendendo-me a publicação em uma coletânea, da qual recebi dez exemplares nesta semana.

Sinto-me feliz e grato à vida por essa publicação. Publicar literatura, mais do que mera vaidade (o que, dentro de um limite, é perfeitamente positivo), é uma realização para quem escreve. Quando se tem um texto literário publicado, está-se compartilhando mais do que um simples texto. Compartilha-se sentimento e inquietações. Compartilha-se uma forma de conceber o mundo. Compartilha-se, não raro, toda uma história de vida,

Portanto, agradeço a todos que seguem comigo este caminho rodeado de verso e prosa. Caminho esse que, tenho certeza, só pode dar em um mundo muito melhor! Grande beijo.

Declaração Amorosa
Alex Gabriel

Você é meu escapulário, meu remédio,
minha cura.
Você é o luar da minha noite mais escura.
Você é o meu presente,
meu anel de formatura.
Você é um ser alado
desprovido de candura.

Você é cada versículo que compõe
a Escritura.
Você é a heroína da mais tenra aventura.
O alicerce estruturado,
minha infraestrutura.
Você é ao mesmo tempo
liberdade e ditadura.

Você é seio que acolhe eu criança
prematura.
O traço mais fatal da minha firme assinatura.
Você é ambiguidade:
sanidade e loucura.
De todas as relíquias,
você é a mais impura.

Você é trama, epopeia.
Você é verso e partitura.
Você é mulher amada.
Só você, Literatura.

RAMOS, Isaac Almeida (Org.). Antologia Poética, Prêmio Sarau Brasil 2014. Cabedelo: Vivara Editora Nacional, 2014, p. 37.


sábado, 31 de maio de 2014

Carrie - A Estranha


Título original: Carrie
Ano: 2013
Direção: Kimberly Peirce
Roteiro: Stephen King (romance), Roberto Aguirre-Sacasa (roteiro)
Gênero: Drama/Terror
Origem: Estados Unidos
Duração: 100 minutos


Numa definição bastante simplória, podemos dizer que uma das características que define um clássico é a sua atemporalidade. Ou seja: um clássico se mostra atual a despeito do tempo em que se tenha acesso a ele. Tal conceito é constantemente abordado no âmbito das artes, em especial em se tratando da literatura e, naturalmente, da Sétima Arte. É claro que estou aqui reduzindo consideravelmente o vasto conceito de clássico. Não obstante, me parece o bastante para a explanação do tema que me traz aqui.

Pode-se dizer que Carrie (1974), primeiro romance do escritor Stephen King, dispõe do elemento atemporalidade que o aproxima de um clássico, não chegando a ser um porque, naturalmente, não se trata de nenhuma obra-prima da literatura norte-americana. Trata-se de uma boa obra, convincente, bem escrita e sempre trazida à tona pela indústria cinematográfica justamente pela força que exerce nas gerações de jovens. A história da adolescente vítima de bullying por ser diferente dos demais e que, chegando ao limite da humilhação em seu baile de formatura, se vinga de todos os seus algozes (inclusive da sua severa e fanática mãe) é sempre atual, visto ser o bullying e a repressão sofrida por alguns filhos algo presente em todos os tempos. A cena da humilhação durante o baile de formatura tanto mexe com as emoções do telespectador que já foi aproveitada até mesmo em telenovelas globais (Rainha da Sucata, 1990; Chocolate com Pimenta, 2003).

Foi Sissy Spacek, nas mãos do diretor Brian De Palma, a primeira atriz a dar vida à personagem de king em 1976 no filme homônimo (Carrie, a estranha no Brasil), ao qual se sucedeu o absurdo The Rage: Carrie 2, uma sequência de qualidade duvidosa dirigida por Katt Shea em 1999 (A maldição de Carrie no Brasil); e as regravações de 2002 e 2013, dirigidas, respectivamente, por David Carson e Kimberly Peirce. Opto por trazer aqui alguns breves comentários sobre cada uma dessas produções a fim de fundamentar a minha opinião sobre essa última, de 2013, estrelada por Chloë Grace Moretz, que já adianto, me parece pretensiosa e desnecessária, apesar de seus méritos.

A decisão por regravar um clássico só pode ser motivada por uma das seguintes razões: i) fazer uma releitura do material original, proporcionando ao telespectador um novo olhar sobre determinado conteúdo, ou ii) lucrar encima de algo construído a partir de um material outrora bem-sucedido. Neste último caso, oferecer um produto de qualidade está longe de ser prioridade. O importante é atrair a atenção de multidões, não importando se essas sairão do cinema praguejando. O lucro, afinal, já estará ganho. Acredito, com pesar, que Peirce haja se guiado por essas duas razões.

Vejamos: uma das principais críticas a esta última regravação de Carrie (2013) foi quanto à escolha de Chloë Grace Moretz como protagonista. Consideraram-na bonita demais e estranha de menos para o papel. Também pudera: a Carrie de 1976, como já dito, foi vivida por Sissy Spacek, uma atriz comum com aparência comum, mas com um porém: ela tinha 25 anos na época, sendo, portanto, uma mulher na pele de uma adolescente hostilizada no colégio. Isso, naturalmente, foi proposital. Desde o início, Brian De Palma decidira entregar a personagem à uma jovem adulta com o objetivo de tornar notória a estranheza da personagem. O mesmo recurso foi utilizado para a versão de 2002, sendo escolhida para o papel a Angela Bettis, conhecida do público por haver interpretado no cinema outras personagens tanto ou mais estranhas quanto a Carrie e que já se aproximava dos 30 anos durante a produção. Ao meu ver, acertou-se em cheio na escolha das atrizes, unindo-se talento, idade superior à da personagem e, por que não dizer?, aparência fora dos padrões.

Confesso me haver parecido imatura a crítica à escolha da atriz para esta versão de 2013, pois, ao contrário o que disse a maioria, tal escolha me pareceu desafiadora, havendo aumentado as minhas expectativas quanto ao filme. Afinal, sendo Moretz bonitinha, novinha e normalzinha demais para o papel, pressupunha-se que o sucesso da personagem estava na exclusiva dependência do talento da atriz e de uma boa direção. Resultado: Moretz tem se mostrado uma boa atriz em seus últimos papéis, mas, infelizmente, a sua Carrie não convenceu inteiramente. Penso, porém, que tal insucesso não se deu devido à boa aparência da atriz e tampouco por falta de talento, de modo que, neste ponto, devo culpar a direção, o roteiro e tudo mais. A grande verdade é que o filme ficou carente de recursos que levassem o telespectador a de fato ver estranheza em Carrie. A personagem, que nas mãos de Peirce pareceu apenas uma menina meio tímida e pouco atualizada no quesito moda, tem poucas falas e é forçada demais, sobretudo no tocante aos seus poderes telecinéticos, exagerados e difíceis de serem digeridos por qualquer telespectador.

Outra frustração se dá pela presença de Julianne Moore no longa como a fanática e louca Margaret White, que, se a princípio contribuiu para as expectativas em relação ao filme – afinal, Moore é, incontestavelmente, uma atriz e tanto! –, acabou por frustrar o telespectador, tão sem graça e apagada está. Enquanto a Margaret White de 1976, vivida por Piper Laurie, assustava, metia medo e despertava o ódio do telespectador, a de agora não desperta emoção alguma. E também pudera: em todos os embates entre mãe e filha, Carrie acaba por render a mãe com um movimento de mãos (o que, aliás, ficou bastante forçado, afinal, trata-se de uma garota com poderes telecinéticos, e não de uma espécie de uma personagem com superpoderes saída de uma atração adolescente). Moore foi bastante desperdiçada neste filme, chegando a sua personagem a ser quase tão apagada quanto a Margaret Wtihe vivida por Patricia Clarkson na regravação de 2002.

Outro ponto negativo do filme, talvez o principal responsável pelo seu fracasso, é o fato de que ele não se decide se quer ser uma adaptação do livro ou uma cópia mal feita do longa de Brian de Palma. Se não fosse por alguns pequenos elementos, aliás, seria possível desconfiar de que nem diretora nem roteirista chegaram a ler a obra de Stephen King. O longa de Peirce é, em grande parte, uma cópia do filme original, desde as vestimentas e cabelos de Margaret White ao desabamento da casa da protagonista ao final do filme. Pareço injusto? Vejamos: a morte da mãe de Carrie nesta nova regravação é praticamente uma reprodução da cena da morte da mesma personagem no filme de 1976. Quem leu a obra sabe que Margaret Whithe não morre daquela forma, embora, claro, devamos considerar que a ideia ficou mais adequada para a telinha do que ficaria a cena original do livro, onde Carrie “comprime” o coração da mãe com o poder da mente (a versão de 2002 está aí para provar a inadequação de tal cena para o vídeo). Lembremos, porém, que a ideia de matar Margaret White com os utensílios de cozinha é de Brian De Palma e não de Peirce, que só demonstrou uma total falta de criatividade ao reproduzir tal cena. O mesmo se dá quanto à cena em que Sue (Amy Irving e Gabriella Wilde, respectivamente) vai dar uma espiadinha no baile, e talvez haja outras que me tenham passado despercebidas.

Finalmente, no que se refere à tão esperada cena do baile, essa sofre as consequências do mal do qual o filme vinha sofrendo ao longo de sua projeção: a falta de tensão. Os momentos mais tensos que antecedem ao da humilhação no baile não dão conta de preparar o telespectador para tanto, de modo que este, ao chegar àquilo que deveria ser o clímax, se depara apenas com uma projeção apressada e uma enxurrada de efeitos isenta de qualquer tensão. Em seguida, a vingança de Carrie contra os seus principais algozes, Chris Hargensen (Ivana Baquero) e Billy Nolan (Alex Russell) novamente frustra a demanda catártica do telespectador, que, diante de uma cena lenta e exagerada, se vê ansioso pelo fim da projeção. Todavia, antes de chegar ao fim, o telespectador precisa, ainda, suportar o já comentado embate final entre mãe e filha e a descoberta de que, além dos poderes telecinéticos, Carrie possui ainda o dom da clarividência (!!!).

Ok, muitos são os que gostaram do filme e argumentam serem inapropriadas as comparações. Elas, no entanto, são inevitáveis, visto se tratar da adaptação de uma obra que já teve a sua versão para o cinema. Adaptação essa que se tornou um clássico, de modo a dispensar uma regravação inferior. Peirce tinha um belo material em mãos: a obra de King, a atual discussão do Bulliyng, a tecnologia do mundo contemporâneo. Ela utiliza tais recursos, mas não de modo a fazer um filmão, se é que era essa a intenção dela... Sejamos justos, claro: a cena da gestação de Carrie, que abre o filme, é fantástica; os efeitos sonoros são bons e não passam despercebidos aos ouvidos do telespectador atento; o uso dos aparelhos celulares para fotografar Carrie em total desespero devido a sua primeira menstruação, bem como a exibição do vídeo no telão no momento da humilhação final (surpresa até mesmo para o telespectador!), foram excelentes ideias. Diferente daquela Carrie de 1976, que apanhava pilhas de livros na biblioteca da escola para se inteirar sobre a telecinesia, a Carrie de agora também pesquisa sobre o tema na internet, tal como a Carrie de 2002. Não posso, porém, deixar de fazer um questionamento: na era da internet e em tempos em que adolescentes discutem (e até vivem) livremente a sexualidade, seria possível que uma jovem se mantivesse alheia às transformações do seu corpo? Seria possível que uma adolescente não soubesse nada sobre a menstruação? Talvez a obra de King não seja assim tão atual, ao menos neste aspecto...

No que toca à fidelidade à obra, não há dúvida de que a versão de 2002 é a que sai na frente nesse sentido, embora os últimos cinco minutos hajam destruído toda a obra, que já não era nenhuma maravilha (um filme bom, e só). Naturalmente, caso fosse perguntado sobre qual a melhor versão, eu responderia de pronto ser a de De Palma. Consideremos, porém, que se tratam de três filmes diferentes, produzidos com objetivos e olhares distintos. Além disso, é preciso que os críticos (mesmo os de beira de estrada, como eu) procurem um equilíbrio entre a precisão e maturidade de sua crítica e a nostalgia. Assistindo a Carrie (2013) pela primeira vez, considerei-o um fiasco, é verdade. Tal opinião, porém, não foi a mesma quando o vi uma semana depois. Agora, para mim, esta obra de Peirce é apenas um filme legal, suportável, desses que a gente assiste para passar o tempo e não o vê nunca mais. Infelizmente, um filme que não atende às expectativas geradas por toda a publicidade que o antecedeu e que chega a decepcionar os adoradores da obra de King e de De Palma. Mas fazer o quê?

Recomendo, sim, que todos vão ao cinema para conferir esta nova Carrie, mas recomendo, também, conhecer aquela que inaugurou esta trágica história no cinema. Nostalgia ou não, continuará a ser inesquecível para mim aquela estranha de 1976, com os seus cabelos de piaçava contrastando com os volumosos cabelos de suas colegas de turma; com a sua assustadora Margaret White e sua crueldade quase palpável; com o seu sensual banho de ducha e seu desfecho assustador; com os seus arregalados olhos azuis e sua merecida revanche; com a sua lição de como o fanatismo e a intolerância podem destruir a vida de um ser humano.

***

Publicado originalmente em CinePlayers.

A garota da rua Guaicurus, de José Gualberto Gambier Costa


“No dia em que não houver mais homens que se comovam perante a uma injustiça, acreditem, a vida neste planeta deixa de existir (...).” José Gualberto Gambier Costa, A garota da rua Guaicurus.


No fim da tarde de uma quarta-feira, 21 de maio de 2014, após sair do trabalho, estava eu seguindo pela passarela do metrô do Gameleira, quando avistei um senhor a chamar a atenção dos transeuntes para o que ele chamava de "o romance que eu escrevi". Havendo passado sem dedicar muita atenção, somente quando estava próximo ao metrô, me vi envolvido pela curiosidade, lamentando por não haver sido ela imediata: quem era aquele senhor e o que teria escrito? Refleti quanto a todo trabalho intelectual que é investido na produção de uma obra, bem como sobre as dificuldades de ser escritor no Brasil enquanto tantos, sem muito esforço, ganham dinheiro com sua literatura de massa.

Eis que dei meia-volta e conheci José Gualberto Gambier Costa e o seu romance A garota da rua Guaicurus. Adquiri a obra, conversei com o autor e ganhei autógrafo, e confesso haver gostado da obra antes mesmo de haver dado início à leitura, tal é o meu fascínio pelos mistérios e histórias que permeiam a velha Guaicurus, localizada na zona boêmia belorizontina e famosa pelos hotéis que abrigam parte da prostituição na cidade. Ademais, há alguns anos eu fiz a leitura de Hilda Furacão (1991), de Roberto Drummond (1933 – 2002), de modo que eu muito quis saber o que Gualberto Gambier tinha a contar. Já havia sido contada a história da moça da alta sociedade que, sem razões aparentes, decidiu viver na Guaicurus, acabando por conquistar o coração de um padre. Do mesmo modo, já havia sido contada, desta vez na telinha, a história do milionário que se apaixona pela garota de programa, inicialmente contratada como acompanhante em compromissos sociais (Pretty Woman, 1990). Então, justamente por se tratar de um contexto já desgastado, eu quis saber que estórias traziam aquelas páginas, afinal, gosto de histórias ousadas; gosto de escritores que se dedicam a contemplar o lado humano de indivíduos que a sociedade finge que não enxerga.

Fiz a leitura da obra e, em verdade, pouco vi sobre a relação amorosa entre um homem e uma prostituta, me dando conta de que o que Gualberto Gambier pretendia com aquele romance ia mais além, atribuindo-lhe um caráter de denúncia e promovendo em suas páginas a redenção que pouco ou nunca se dá na vida real. Isso, porém, é feito às vezes sem muito tato, levando o leitor a se ver confuso em relação ao que realmente está sendo narrado ali. Se à certa altura, para lá da metade da obra, tomamos conhecimento das atrocidades que levaram uma jovem a se prostituir, a obra na íntegra nos deixa em dúvida sobre se era ali mesmo que devíamos chegar, se era aquele o seu ponto forte. Uma das razões disso é o fato de que a sociedade em torno dos personagens centrais parece absurdamente libertária, o que leva o leitor a uma certa dificuldade em dar crédito à estória contada por Gambier na voz do advogado Mauro.

Narrado em primeira pessoa, o romance nos apresenta Mauro – que, apesar de ser advogado, não raro se permite uma escrita marcadamente influenciada pela linguagem oral (com o que Gambier precisa ter maior cuidado...) –, cuja vida passa por uma transformação após ser contratado pelo peculiar Arthur Matheus Manso, que, devido a uma doença degenerativa que em poucos meses o levará a óbito, pretende deixar todos os seus bens a uma jovem profissional do sexo da rua Guaicurus, por razões mais nobres e mais grandiosas do que uma simples paixão. Aos poucos, a moça é trazida ao nosso conhecimento, e, sendo o leitor um provável produto de uma sociedade preconceituosa (tal como o sou eu), o caráter, a suavidade e a inteligência da moça podem tornar a narrativa exacerbadamente inverossímil. Portanto, estamos lidando com um romance a ser lido por um leitor que deve no mínimo estar disposto a embarcar na narrativa sem preconceitos acerca do que não conhece ou pensa que conhece.

Em torno desses personagens – o advogado Mauro, o benfeitor Arthur e a “garota da rua Guaicurus”, não por acaso chamada Angélica –, não há quem critique a atitude de um e a posterior paixão do outro. Com exceção de uma colega do narrador, apenas mencionada durante o seu relato (p. 29), não há quem aponte o dedo para as relações que se estabelecem. Nem mesmo a mãe do narrador – de formação católica e firme na fé cristã aos setenta e quatro anos de idade – torce o nariz para alguma das situações. A decisão do professor Arthur de deixar os seus bens para uma garota de programa tem a total anuência de sua irmã Alice, que, devido à carência de revisão, é chamada de Clarice durante boa parte da narrativa (p. 47; 51). Tanta mente aberta não raro torna inconcebível a narrativa, por melhor que fosse um mundo, de fato, desprovido de preconceitos.

Talvez o autor devesse repensar a sua estória e rever algumas situações narradas, bem como, em suas próximas publicações, deixar para outro momento, fora do texto, homenagens tão diretas aos seus conhecidos (p. 32-33).

Contudo, a despeito de algumas falhas, o texto de Gualberto Gambier cumpre muito bem com o que, ao meu ver, é uma das grandes funções da literatura: a denúncia. A indignação se reproduz no texto ficcional, que acaba por fazer mais do que apenas entreter o leitor. A corrupção política, o descaso dessa em relação à população, a ausência de planejamento urbano, a omissão do Estado, a pedofilia na Igreja Católica, as atrocidades cometidas contra milhares de pessoas no interior de um hospício em Barbacena... tudo é corajosamente denunciado durante as noventa e oito páginas de A garota da rua Guaicurus. E assim, entre realidade e ficção, temos uma personagem que, por trás de sua profissão, esconde uma história trágica, e quer agora vingar a dor a qual os seus antepassados foram submetidos. E o mais interessante de tudo é a forma como Gualberto Gambier se utiliza de sua narrativa para comunicar o poder da leitura!, o que é louvável. A literatura a favor da literatura.

A revisão, portanto, é necessária, visto que entrar em defesa da leitura por meio de um texto sobrecarregado de falhas estruturais, ortográficas e gramaticais pode ser ineficaz. A presença de erros grosseiros como “estrupo” (p. 68), a aplicação do verbo “sodomizar” (p. 80), a estranha divisão de capítulos etc. pressupõem que a obra não passou pelas mãos de um revisor. E vale mencionar que o fato de Gualberto Gambier, naquela tarde de quarta-feira, haver utilizado um carimbo para informar quanto a um pequeno erro à linha 26 da página 13, quando, na verdade, há tantas outras falhas ao longo do texto, revela que ele próprio não fez a revisão final da obra. E isso é um problema.

José Gualberto Gambier Costa, porém, é um escritor com futuro, com inquietações e estórias (e histórias) pululando na cabeça e na alma. Um homem que, tal como o seu excêntrico personagem Matheus Manso, enveredou pelos sinuosos, porém atrativos, caminhos literários após aposentar-se. E, cidadão firme em suas convicções e escritor independente que é, tem todo o mérito de um grande escritor. Quanto a mim, particularmente, pretendo, tão logo possa, ler as suas outras três obras, bem como a quinta, que está a caminho.

No que se refere ao A garota da rua Guaicurus, devo dizer que rotular uma obra como horrível ou mesmo dizê-la espetacular me parece desrespeitoso para com quem a gerou, pois se trata de qualificações desprovidas de uma real crítica, que é o que qualquer escritor demanda em lugar de insultos ou elogios. Portanto, eis aqui a minha crítica, e acrescento que vale a pena dedicar algumas horas (ou o tempo que se fizer necessário) às linhas de Gambier, nas quais nos depararemos com alguns problemas, sim, mas também e sobretudo com a redenção que só foi possível na e pela leitura. Recomendo.

COSTA, José Gualberto Gambier. A garota da rua Guaicurus. Goiânia: Kelps, 2013.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Félix e Niko: sinal de um tempo bom



Quando ouço alguém dizendo algo do tipo "Argh!, agora toda novela da Globo vai ter relacionamento gay..." recebo a informação com um tal estranhamento que, a título de teste, faço questão de, intimamente, trocar a palavra "gay" por, por exemplo, "negro". Tal recurso, devo dizer, só me leva a uma conclusão: sim, toda novela da Globo e de qualquer outra emissora deve abordar relacionamentos homoafetivos. É tema obrigatório, tal como o é o racismo ainda presente, a pobreza, a deficiência, a terceira idade e afins.

São temas obrigatórios por se tratar de esferas sociais nas quais se fazem presentes minorias que nem de longe o são em termos numéricos. Gays, pessoas com deficiência, negros etc. devem, sim, estar presentes nas tramas tal como estão em nossa vida, em nosso dia a dia, em nosso local de trabalho, em nossa família etc.

Por mais divertido que seja assistir às telenovelas, não podemos negar que, quando nos colocamos diante da tevê, o que nos é apresentado ali é um mundo irreal. Um mundo com uma grande maioria de pele branca, circulando pela rua, pela universidade e pelos demais núcleos da trama. No tocante às pessoas com deficiência nem se fala! Elas raramente existem. E, assim, nos é apresentado na telinha um mundo à parte, um mundo fora do mundo. Um mundo de pessoas branquinhas (com empregados negros, naturalmente), perfeitas e casais heterossexuais em sua maioria. Histórias mirabolantes, grandes reencontros e terríveis mistérios, mas poucos vivendo conflitos reais.

Essas pessoas precisam estar presentes na trama, e nem se faz necessário que se crie polêmica em torno delas. Basta que estejam lá, tal como estão em nossa lida diária. Elas precisam estar ali porque fazem o mundo acontecer e, principalmente, porque também recebem a programação televisiva goela abaixo diariamente, de modo que merecem, no mínimo, serem retratadas na ficção, uma vez que esta se pretende narrativa baseada na vida real.

Eu espero, sim, que, a partir dos recentes avanços, a questão da homossexualidade siga sendo amplamente abordada nas tramas, com muitos beijos gays, mas também com a infinidade de aspectos da homossexualidade ainda por serem levados à telinha. No âmbito da teledramaturgia global estamos diante de uma grande mudança de tempo: abandona-se o estratégico enaltecimento das minorias, onde se perpetuava, por exemplo, o estereótipo do gay bonzinho e inteligente, para abraçar o cara da vida real, que trai a esposa com jovens rapazes; que mantém um casamento de aparências com o intuito de esconder a sua verdadeira identidade sexual; que, além de amar, também sente puro e simples desejo; que desestabiliza a relação com o parceiro por se aventurar na cama da melhor amiga do mesmo.

Enfim, adentramos um tempo em que a teledramaturgia, embora muito de qualidade tenha perdido ao longo dos anos, está mais aberta a mostrar esses atores sociais e suas histórias, às vezes bonitas, às vezes não. A diversidade e inconstância da vida real com os seus tons ficcionais.

É tempo de a teledramaturgia tirar essas pessoas dos seus armários, pois, na vida real, faz tempo que elas saíram de lá...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Valente


Título original: The Brave One
Ano: 2007
Direção: Neil Jordan
Roteiro: Roderick Taylor (argumento e roteiro), Bruce A. Taylor (argumento e roteiro), Cynthia Mort (roteiro)
Gênero: Ação/Drama/Policial/Suspense
Origem: Austrália/Estados Unidos
Duração: 119 minutos
 

“Sou Erica Bain e, como vocês sabem, eu ando pela cidade. Eu me queixo, reclamo, mas eu ando, observo e escuto. Sou testemunha de toda beleza e feiura que está desaparecendo da nossa adorada cidade.” Erica Bain, personagem de Jodie Foster em The Brave One (2007).

Não se trata de uma leitura que eu tenha feito recentemente, mas bem me lembro que, no imortal romance de Jostein Gaarder – cujas vendas somam mais de 30 milhões de exemplares pelo mundo –, a jovem personagem Sofia Amundsen se exalta quando o seu misterioso tutor lhe questiona sobre a possibilidade de tirarmos do nosso caminho aqueles que, por ventura, nos façam mal (com perdão por eu apresentar a minha memória como única referência). Não é pra menos. Vivemos em uma sociedade na qual o famigerado “olho por olho, dente por dente” foge aos seus princípios éticos. Não obstante, a “vida real” consta de uma miríade de casos em que esse princípio ético é posto de lado, ocorrendo, dessarte, o prejuízo ou mesmo a morte àqueles que outrora hajam ou não atuado como algozes do seu então “vingador”. Valente – sofrível tradução de The Brave One (2007), de Neil Jordan – nos proporciona uma boa trama para a discussão deste tema.

Erica Bain (Jodie Foster) é locutora do programa “Street Walk”, na fictícia rádio WNKW. Ela leva uma vida comum, gostando do que faz e amando o enfermeiro David Kirmani (Naveen Andrews), com quem está prestes a se casar. Os planos e a vida comum de Erica, no entanto, sofrem um baque quando ela e o noivo são gratuita e brutalmente agredidos por três marginais, ocorrência que põe fim à vida de David e marca decisivamente a de Erica, que, o telespectador bem sabe, jamais será a mesma. O telespectador de Valente, aliás, sabe de muita coisa. Lendo a sinopse do filme antes de assisti-lo, ele já sabe, por exemplo, que ali não há nada realmente novo: uma mulher, tendo abaladas as suas estruturas, alimenta uma sede de vingança que, ao longo do filme, levará às últimas consequências.

Valente, no entanto, pode e deve ser qualificado como um bom filme, a despeito dos clichês e por inúmeras razões, sendo a principal delas o fato de Neil Jordan haver sido um mestre em contar uma velha estória dando-lhe ares de inédita, utilizando-se de elementos simples, porém significativos, como, por exemplo, a excelente trilha sonora da qual Dario Marianelli ficou incumbido. As cenas de suspense, de violência e de profundas reflexões de Erica acerca do ocorrido e daquilo em que está se tornando são embaladas por instrumentais que levam o telespectador às sensações provavelmente pretendidas por Jordan. As mencionadas reflexões de Erica, aliás, são um importante elemento: não temos aqui apenas um filme de violência – embora seja ela, naturalmente, o seu ponto forte –, mas, também, um filme sobre a profunda transformação de uma mulher, que, após um ataque brutal, não mais consegue adaptar-se à trivialidade; tampouco, e com razão, consegue ver o mundo – e, em especial, Nova Iorque – como um lugar seguro. Nesse âmbito, vale ressaltar que a mudança pela qual Erica passa não é assim tão brusca – o que, caso contrário, o seria em detrimento do senso de realidade da obra –, visto que, já no início do filme, nos é apresentada uma personagem de natureza reflexiva, introspectiva e censora; uma personagem inconformada com as estimáveis características que estão desaparecendo de sua “adorada cidade”. O que temos, portanto, é uma Erica acostumada a reagir à própria insatisfação – a princípio, com sua expressiva escrita; mais a diante, com a violência.

Destaque para a cena da abordagem dos bandidos, que exigem nervos de aço do telespectador que, até então guiado por uma estória leve, experimenta agora a desumanidade de três desconhecidos que, por diversão, agridem impetuosamente dois jovens de bem, cheios de vida, amor e planos. Naturalmente, levar o espectador ao asco com esse tipo de cena não é mérito de Jordan, visto que qualquer tabloide consegue isso, todos os dias, na vida fora das telas. Tal estratégia é, no entanto, pertinente ao objetivo do diretor, que é, naturalmente, justificar as atitudes posteriores da mocinha, levando o telespectador a manter-se do lado dela. Destaque também para as cenas que vemos na sequência, que são uma alternação entre as imagens dos cuidados ao corpo ferido de Erica no hospital e as cenas de David distribuindo carícias pelo mesmo corpo. Isso poeticamente embalado por “Answer”, de Sarah Mclachlan.

Outro momento que merece destaque é quando a heroína, disposta a tentar continuar a seguir com sua rotineira vida, faz, em seu programa de rádio, uma narração que se faz interessante por refletir, com fidelidade, o sentimento de inúmeras vítimas e familiares de vítimas da violência nas grandes cidades, e isso é mais um ponto que “avisa” ao telespectador que, ao assistir a Valente, ele não está, definitivamente, diante de nada surreal, mas palpável, bem próximo de si.

“Nova York, a cidade grande mais segura do mundo. Mas é horrível... temer o lugar que um dia você amou. E ver uma esquina que você conhecia tão bem e ter medo de sua sombra. Ver degraus familiares e ser incapaz de subir. Nunca entendi como as pessoas podiam viver com medo. Mulheres com medo de ir para casa sozinhas. Pessoas com medo de pó branco em suas caixas de correio, da escuridão e da noite. Pessoas com medo de pessoas. Sempre achei que eram os outros que sentiam medo. Pessoas mais fracas. O medo nunca me atingia. E então, ele atingiu. E quando ele atinge, você descobre que ele estava lá o tempo todo, esperando, sob a superfície de tudo aquilo que você amava. Você sente a pele formigando, seu coração adoece e você olha para a pessoa que um dia você foi, descendo a rua, e você se pergunta se um dia voltará a sê-la.” Erica Bain, personagem de Jodie Foster em The Brave One (2007).

Erica agora dorme ao lado do túmulo de seu amante, implorando-lhe uma palavra, e se envereda por uma rotineira caminhada noturna, na qual visita, armada, os pontos mais recônditos da cidade. À certa altura – anterior, aliás, à aquisição ilegal da arma – Erica chega a procurar a polícia, pensando em deixar nas mãos dela a solução para o seu caso. É quando nos é apresentada mais uma espécie de justificativa para o que ela fará logo em seguida: a ineficiência da polícia, da qual temos como pista a frase que o policial repete, religiosamente, a todos que, desolados, recorrem a ele: “Certo, Sei que é difícil, mas se puder ter um pouco de paciência e sentar ali. Logo mais, um policial virá ajudá-la.” Erica, no entanto, não quer que a justiça seja feita por um processo moroso e que, aliás, não lhe ira saciar a ira. Ela quer “fazer justiça com as próprias mãos”, o que nos é reafirmado por duas cenas que veremos no decorrer do filme: i) quando Erica desiste quando, na delegacia, está prestes a entregar-se à polícia como a autora dos (merecidos?) assassinatos que estão acontecendo na cidade e ii) quando colocada frente a frente com um dos assassinos, mesmo reconhecendo-o, ela prefere não dizer à polícia, para poder realizar ela mesma a sua vingança.

Vale ressaltar que o telespectador-alvo do filme anseia por ver a mocinha – culturalmente concebida como frágil e levada ao extremo do sofrimento após tornar-se vítima da violência e perder o seu amado –, tomar ares de vilã e sair pela cidade a fazer com que os algozes dos cidadãos de bem provem do seu próprio veneno. A plena satisfação, no entanto, fica apenas para o telespectador, uma vez que Erica – embora, provavelmente, experimente também uma espécie de prazer ao cometer os assassinatos – sente-se cada vez mais vazia e culpada pelo “mal” que vem provocando. Esta natureza controversa da obra nada mais é, no entanto, do que uma estratégia – muito boa, por sinal – utilizada por Jordan para que o telespectador chegue a uma reação catártica sem, no entanto, deificar a heroína pelos seus atos, o que seria, penso, como legitimar a própria violência.

Destaque, neste ponto, para um diálogo entre Erica e a aparentemente dura – porém compreensiva e conhecedora da dor e conflito interno vividos pela protagonista – Josai (Ene Oloja), quando essa se depara com Erica assentada nos degraus à frente da sua casa, fumando angustiada e disparadamente.

“– Não devia fumar. Isso vai matar você.
– Não me importo.
– Há muitas formas de morrer. Mas é preciso achar uma forma de viver. E... isso é difícil.” The Brave One (2007).

É quando Erica encontra uma forma não de viver, mas, sim, de suportar a vida de agora, carente de Jason e da paz de outrora, “porque, quando você ama algo, toda vez que um pedacinho dele se vai, você perde um pedacinho de si próprio.” Erica, então, havendo-se perdido por inteiro, agora anda pela cidade colocando em sua mira todos aqueles que perturbam a paz alheia, se fazendo algozes de outrem.

Neste ponto da trama, já temos a presença do Detetive Mercer (Terrence Howard), que investiga as misteriosas mortes na cidade, desconhecendo, a principio, que o temido – ou adorado – “justiceiro” está por trás de toda a simpatia daquela mulher. Essa dupla, aliás, é a responsável por grande parte das reflexões sobre justiça, ética e assassinato do filme. Tomemos como exemplo a sena em que, cedendo uma entrevista à Erica, o detetive lhe conta sobre o Sr. Murrow, dono dos estacionamentos da Ilha Roosevelt. Ao ser questionado por ela se nada havia a ser feito quanto a isso, o detetive, arrependendo-se em seguida, responde não haver nenhuma solução que fosse legal. Na sequência, Erica pergunta ao detetive se suas mãos haviam tremido nas ocasiões em que teve que matar alguém e esse responde negativamente, colocando isso como a vantagem de estar do lado certo.

Temos aí a explanação de dois lados com algo importante em comum. Ou seja: o hábito de executar o outro como forma de fazer justiça. Não obstante, defende-se haver um lado certo e um lado errado, embora ambos existam em prejuízo à vida humana. Jordan nos traz tal reflexão de maneira magistral. Havendo levado o telespectador-modelo a torcer pelo sucesso da protagonista em seu plano de vingança, leva-o, em seguida, a questionar a atitude da mesma e adentrar, a partir disso, numa série de questionamentos: se não seria correto torcer pela protagonista, dever-se-ia de fato torcer pelo detetive? Haveria mesmo alguma circunstância em que tentar contra a vida humana fosse uma atitude legítima? Será que a polícia age mesmo eticamente, e, se sim, em que se baseia esta ética?

Entre os ouvintes do programa “Street Walk”, as opiniões a respeito se dividem tal como entre os telespectadores de Valente. Um primeiro defende a ação do “vingador” como um favor à sociedade. Um segundo defende que, ao decretar a morte de outrem sem julgamento, o justiceiro se iguala às pessoas que ele mata. Um terceiro menciona o prazer que nos proporciona ver os algozes da sociedade serem punidos com a morte.

Enfim, esses e outros debates surgem na tela enquanto vemos Valente, o que, nas mãos de Jordan, não anula a possibilidade de um desfecho razoável para a mocinha, possibilitado, naturalmente, por Mercer, que parece haver cultivado um certo fascínio pela moça. Assim, ao final da trama, o afeto, o cuidado e a compreensão da dor alheia se sobrepõem a qualquer ética, tornando-se o último bandido restante objeto de um combinado entre Erica e Mercer. Seria certo? Não sabemos, mas sabemos que estamos tratando de um filme, que encontrou neste final um quase equilíbrio entre a satisfação do expectador e o comprometimento com a ética. Digo isso porque, mesmo havendo um final favorável à protagonista, não se pode falar ainda em “final feliz”, visto sabermos que, a despeito de qualquer coisa, Erica seguirá carregando as marcas da violência sofrida e da perda do noivo, tal como ela própria avisa no encerramento da trama. “Não há como voltar a ser aquela outra pessoa. Voltar àquele outro lugar. Essa coisa, essa pessoa estranha... é só o que você é agora.”

É isso. Apesar de algumas falhas, Valente é um excelente filme, principalmente por não se embasar tão somente no objetivo de levar o telespectador à saciedade, enfatizando, também, questões éticas inquietantes. Bem diferente do violento e raso Doce Vingança (2010) – regravação de A vingança de Jennifer (1978) chegado às telas três anos após Valente –, a trama de Jordan é uma estória que faz pensar.


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Publicado originalmente em CinePlayers.


domingo, 27 de janeiro de 2013

De pernas pro ar 2


Título original: De Pernas Pro Ar 2
Ano: 2012
Direção: Roberto Santucci
Roteiro: Paulo Cursino, Ingrid Guimarães, Marcelo Saback
Gênero: Comédia
Origem: Brasil
Duração: 95 minutos


O prazer não tem limites! E Alice Segretto (Ingrid Guimarães), vai levar isso ao pé da letra e expandir os negócios da “Sex Delícia” à capital cultural do mundo: Nova Iorque. E aí está boa parte da graça de De pernas pro ar 2. Quem, ao assistir o trailer, previu muita risada diante das trapalhadas de Alice em Nova Iorque, não vai se decepcionar. Aliás, uma das muitas verdades que têm sido ditas sobre o longa é o fato de ser ele um dos raros casos em que a sequência supera o original. É isso mesmo. Esta sequência do filme de Roberto Santucci – que conta, inclusive, com a própria Ingrid Guimarães na produção do roteiro – potencializa os acertos do anterior, cria novas piadas e comete novos erros, totalmente perdoáveis a meu ver. Vamos a tudo isso.

Antes de chegar à América, Alice vai passar um mau bocado, desmaiando sobre um bolo bem peculiar no lançamento da centésima loja da “Sex Delícia”; sendo colocada no chinelo pela linda, bem-sucedida e faz-tudo Vitória (Christine Fernandes) e cometendo loucuras em uma reunião com investidores após ingerir seu calmante com champanhe. E como se não bastasse, a pobre ainda vai parar em um spa dirigido pela severa Regina (Alice Borges). Nada disso, porém, é suficiente para parar Alice, que, para escapar do spa e continuar tocando o seu voluptuoso negócio, recorre aos serviços do hacker e contrabandista de eletrônicos Leozinho (Wagner Santisteban), além de proporcionar um orgasmo à “sargentona” Regina. No spa, aliás, todas essas figuras – com destaque para o Mano Love (Luiz Miranda), antipático, mas cômico – são hilárias. Tanto quanto o orgasmo alcançado por Alice, ao som de Byafra, por via do estranho objeto de oito tentáculos – ou testicles (trocadilho infame, porém engraçadíssimo, utilizado no filme) – que viria a ser a chave para o sucesso da “Sex Delícia” em Nova Iorque.

Contudo, devem ser considerados pontos que eu nem chamaria de falhas, visto que surtem efeito (o riso) e não prejudicam o filme. Um deles é aquela espécie de reformulação da cena de Alice à mercê de um “brinquedinho”, desta vez não controlado pelas ondas sonoras durante o jogo de futebol do filho (João Fernandes, no primeiro filme), mas pelo controle remoto, manuseado, involuntariamente, por João (Bruno Garcia). Outro ponto é a previsível cena do restaurante, exibida à exaustão em produções norte-americanas e até em novelas do SBT. Me recordo de haver visto algo do tipo, pela primeira vez, em Uma babá quase perfeita (1993). Conforme já dito, porém, são pontos que, embora representem um pequeno pecado em termos de criatividade, surtem o efeito esperado e estão bem onde estão.

Ademais, quaisquer falhas são compensadas pelo brilhante elenco. Ingrid Guimarães continua a nos surpreender com o seu talento. Cristina Pereira ganha maior destaque e a sua personagem Rosa mostra que não está ali a passeio, tal como a perfeita Denise Weinberg, para quem parece não haver tempo ruim. Maria Paula, muito criticada desde o primeiro filme (críticas com um quê de exagero, a meu ver), continua defendendo bem a sua Marcela. E até o Paulinho (Eduardo Melo, nesta sequência) se sai bem em suas raras falas. E, havendo mencionado a cena do restaurante no parágrafo anterior, não se pode desconsiderar a rápida, porém intensa, participação de Rodrigo Sant’Anna, que, em sua última cena, até utiliza um dos bordões de sua personagem Valéria Vásquez. A referência a bordões do pretenso humorístico Zorra Total, aliás, não é uma novidade em filmes nacionais. A diferença é que, enquanto soou como uma patética estratégia em Xuxa Gêmeas, ficou funcional e dentro de contexto em De pernas pro ar 2. Quanto a Ricardo (Eriberto Leão) – que também se sai bem como possível cara-metade de Alice –, fico pensativo quanto ao beijo que apenas quase rolou entre ele e a protagonista, mas que rolou pra valer entre João e a “Mulher Maravilha”. Não se trata de uma apologia à traição, mas fico me questionando sobre esta mulher moderna, empreendedora e independente que, contraditoriamente, não se atreve nem a um beijinho com uma bela figura como Ricardo (Eriberto Leão) à quilômetros de distancia de sua cidade e de sua família. Machismo enrustido em um filme tão libertário ou estratégia do diretor para mostrar que Alice, apesar de sua compulsão pelo trabalho, é fiel à sua família? Vai saber...

Aliás, no tocante ao mencionado aspecto libertário do longa, isso, a meu ver, lhe rende muitos pontos. De pernas pro ar 2 segue provocando o riso sem precisar apelar para o palavreado chulo ou fazer piadas sexistas. O sexo ali é para todos, sem que isso tenha aquele famigerado arzinho de escárnio.

E falando em mulher moderna, merece destaque a criança que interpreta Alice na infância, relatando, para uma câmera, os sonhos que, de um jeito ou de outro – embora de uma maneira bastante torta – se realizam na vida adulta da personagem. Neste ponto, vale fazer uma analogia entre esta Alice, obstinada na busca pela concretização de um sonho – única e exclusivamente para fins de realização pessoal – e aquela outra Alice, personagem de Lewis Carroll. É óbvio que são estórias totalmente distintas, mas ambas estão envoltas em sonhos e fantasias, e são justamente essas fantasias (num sentido malicioso, no caso de De pernas pro ar 2) que as conduzem ao amadurecimento. Aliás, em ambas as estórias, um coelho é o grande responsável por tudo... Em se tratando de filmes e, principalmente, obras literárias, nomes nem sempre são casuais. A personagem de Christine Fernandes, por exemplo, não se chama Vitória devido a uma escolha arbitrária, mas, sim, para reforçar para o telespectador a representação que aquela mulher tem para Alice. Ou seja: a mulher vitoriosa por dar conta do recado em todos os âmbitos de sua vida.

E foram justamente os sonhos de menina da protagonista os responsáveis por uma rápida solução para o final do filme. Uma solução que, na verdade, deixa muita coisa mal resolvida, vista a lógica de que Alice não vai mudar, continuando isso a ser prejudicial a si mesma, ao seu casamento e, em especial, ao seu filho. Por outro lado, não sei se esse tipo de exigência cabe a uma comédia. E, além disso, esse desfecho meio vago vem a ser positivo se for sinal de uma possível continuação. Então, enquanto o terceiro filme não vem, vamos ao cinema rir a valer com as brejeirices da protagonista e dos que a acompanham, e, se tivermos que tirar uma lição do filme, que seja a de que o bom é que vivamos a nossa vida de pernas pro ar...

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Publicado originalmente em CinePlayers.