quinta-feira, 29 de abril de 2021

Amor & Solidão - Carolina Cunha

Amor & Solidão, segundo livro de Carolina cunha, revela o amadurecimento de uma mulher, e, por conseguinte, de uma escrita que ora se apresenta, a um só tempo, singela e vigorosa.

Sublimação é o termo que se utiliza, no contexto da psicanálise, para designar a reorientação de um impulso ou energia para um ato mais aceito ou elevado. É algo como a ressignificação de um sentimento ou emoção negativa que, devastadora em sua origem, se converte em um fator propulsor. Como eu não pretendo – e nem poderia, se quisesse – fazer aqui um tratado de psicanálise, arrisco definir o termo como um ato consciente ou inconsciente de sobrevivência.

A arte e a literatura são os contextos nos quais melhor se verifica esse comportamento humano, como em Johann Wolfgang von Goethe (1749 – 1832), cujos Sofrimentos do Jovem Werther (1774) nasceram da urgência do autor em sobreviver à sua paixão pela aristocrata Charlotte Buff (1753 – 1828). Por mais que Goethe esteja entre os poucos que assumem o caráter autobiográfico de sua obra, a verdade é que toda obra é autobiográfica, sendo ilógico ou mesmo impossível o contrário.

Carolina Cunha faz parte desse peculiar grupo de pessoas que busca na arte a expressão do seu mundo interior e – por que não dizer? – a própria sobrevivência. Tal substantivo é, a propósito, um tanto pertinente aqui, vez que a temática da morte (ou da vida) é o que perpassa as 61 páginas do pequeno grande livro intitulado Amor e Solidão (2021).

Neste seu segundo mergulho literário, precedido por Amor de Vidro (2020), a mineira se debruça novamente sobre a estreita relação entre amor e perda. Desta vez, porém, não espere encontrar o desalento típico das paixões juvenis presente no primeiro livro. Aqui, Carolina expressa, de maneira visceral, os questionamentos e conflitos típicos de quem fica: a saudade (p. 20), a negação (p. 50), o medo (p. 45), a culpa (p. 35) ou mesmo a impotência, como se verifica em “O gato alado” (p. 21), um dos textos mais irretocáveis da obra.

Não só de dor, porém, se faz Amor & Solidão, mas também de força, esperança e fé na continuidade da vida (p. 28 et al.), destruindo, assim, a impressão inicial de que se trata de uma obra melancólica. Na contramão do simples e irrefletido lamento, Carolina mescla a pura expressão de quem sofre a ausência com a coragem de quem sabe que precisa se reerguer (p. 54 et al.).

Com destaque para a definição do enterro como uma “carta de despedida a um leitor ausente” (p. 24), a autora se utiliza magistralmente das metáforas para falar da perda. E é disso que Amor & Solidão trata: da perda focada no luto e de tudo que ele envolve.

A própria disposição da obra, aliás, expressa o processo de luto, no que vale ressaltar a infeliz coincidência entre o luto pessoal, vivido por Carolina, e o luto que atravessam milhões de indivíduos em razão da pandemia de coronavírus. Convertendo-se este, aliás, em matéria-prima para a autora (p. 29).

O curioso é que o luto, aqui, é a um só tempo dolorido e pedagógico. E digo-o porque, se a dor do luto evidencia o amor que se tem, ela também ensina a difícil arte de amar em lugar de reter e a despeito da presença, aprendizado necessário ante as tantas ocasiões em que perdemos não para a morte, mas para as situações comuns à experiência humana, como a separação, a indiferença, o afastamento etc.

Nesse sentido, a perda é, sim, o que perpassa Amor & Solidão, mas esse também é um livro sobre o amor. E digo-o não só porque, via de regra, a dor da perda se reserva somente àqueles que amam, mas também porque Carolina o expressa como uma força superior à morte, que sobrevive a esta e pela qual vale a pena continuar vivendo.

É o amor que presentifica o ausente, que traz conforto e que, mesmo que levando algum tempo, se converte em combustível para uma vida que precisa seguir em frente.

Cunha, Carolina. Amor & Solidão. Belo Horizonte: publicação independente, 2021, 61p.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Imitação de Cristo - Tomás de Kempis

“Mais vitorioso do que aquele que conquistou mil exércitos é o homem que venceu a si mesmo.”

Esse trecho, naturalmente, não é da obra de Tomás de kempis (1380 – 1471), mas da tradição hindu, que, com essa máxima, expressa a prevalência das batalhas internas sobre as lutas externas.

A menção à filosofia oriental, aqui, se dá pelo que me salta aos olhos a cada capítulo de “Imitação de Cristo”: a estreita relação com os princípios exaltados em outras tantas doutrinas filosóficas.

O meu primeiro contato com a obra se deu há muitos anos por meio de uma oração, aleatoriamente presente em um pequeno livro de orações, sem menção alguma ao autor. Nessa belíssima oração (p. 113), o autor pede que se lhe desperte o desejo de “ser desprezado e esquecido neste século” pelo amor de Jesus. Está aí expresso o nobre desejo de abrir mão de si e dos interesses pessoais para servir a algo maior.

Ao postular como virtude o esquecimento de si, Kempis relaciona tal comportamento com o autoconhecimento, afirmando que “quem se conhece bem despreza-se a si mesmo”. Ou seja: quem se conhece de fato, reconhece a própria pequenez perante a imensidão do Universo. É por isso que Sócrates (469 a.C. – 399 a.C.), no ápice de sua sabedoria, afirmou: “Só sei que nada sei”. Trata-se da consciência do quão pequenos somos diante de tudo que nos rodeia.

E isso nada tem a ver com autodepreciação, mas, pelo contrário, com lucidez e moderação na apreciação de si mesmo, sem excessos; sem tender nem para a autocomiseração e nem para a soberba, pois é nesse equilíbrio que se dá o verdadeiro e genuíno amor-próprio.

O gritante apelo ao “esquecimento de si mesmo” como único caminho para Deus, portanto, é, na verdade, um convite a não entregarmos ao prazer dos sentidos e às inflações do ego o governo de nossas vidas.

Trata-se – como bem disse C.S. Lewis (1898 – 1963), a mente por trás d’As Crônicas de Nárnia – não de pensar menos de si mesmo, mas de pensar menos em si mesmo. Trata-se de se amar de verdade, tornando-se, assim, inatingível. Não porque “o que vem de baixo não lhe atinge”, mas porque não lhe podem doer os golpes desferidos contra um mero personagem que você – você de verdade – interpreta neste mundo a serviço de uma honrosa missão.

Apesar de escrito na era medieval, porém, tem-se aqui não uma abordagem moralista, que condena o “pecador” ao “inferno” (embora esses conceitos estejam, sim, presentes na obra). O que perpassa a obra é, na verdade, o apelo de alguém que, por amor, deseja que transfiramos o foco das coisas perecíveis para aquilo que é eterno.

Assim, o “esquecimento de si” nada tem de falta de amor-próprio, mas, pelo contrário, envolve o desapego de nossa personalidade (aquilo que pensamos ser) para que se promova o encontro com o nosso verdadeiro Eu e, por conseguinte, o nosso encontro com Deus.

Nesse mesmo sentido, Matthieu Ricard, um monge budista, defende que esquecer de si mesmo é o melhor caminho para amar a si mesmo. Ou seja: esquecer-se de si enquanto ego é, decerto, o maior ato de amor que se pode ter por si mesmo enquanto essência.

Em uma sociedade que celebra as debilidades e os aspectos da personalidade humana como sendo esse um gesto de amor-próprio, “Imitação de Cristo” – bem como diversos escritos que o precederam e o sucederam – nos convida a, na contramão dos modismos, nos desidentificarmos desses aspectos, que nada mais são do que aquilo que pensamos ser.

A bem da verdade, quanto mais acrescentamos à nossa personalidade, mais vulneráveis somos, estando à mercê das frustrações e decepções comuns à experiência do ego. Assim, Tomás de Kempis defende o autoesquecimento como forma de se tornar imune às agressões e até mesmo aos aplausos (p. 20-21).

O curioso é que muitos dos que curtem filosofias orientais, esotéricas e afins, desprezam a filosofia cristã, o que é compreensível até certo ponto, dado o histórico de repressão da Igreja Católica e do Cristianismo como um todo. Há, porém, que se “separar o joio do trigo” (Mateus 13:24-30), discernindo a torpe ação humana do ensinamento cristão puro e simples, que nada tem de moralista, preconceituoso e que, de mãos dadas com as doutrinas irmãs, só quer a elevação do homem.

“Imitação de Cristo” é, a meu ver, uma leitura bem-vinda para aqueles que desejam resgatar a essência cristã e até mesmo para aqueles que, não sendo adeptos do Cristianismo, desejam retornar para si, buscando uma vida com mais significado.

Na contramão do atual fenômeno da autoajuda, que nos estimula à adesão de tantas outras máscaras (“seja rico”, “seja bem-sucedido” e afins); na contramão de filosofias pautadas no poder de cocriação para a aquisição de riquezas materiais, “Imitação de Cristo’ é um convite ao simples, à realização do que é preciso, mas sempre com os olhos voltados para a eternidade.

Portanto, “conhece-te a ti mesmo” e despreza-te a ti mesmo... sem se desviar de quem você realmente é, sem se permitir distrair do que veio fazer aqui.

Texto que publiquei, originalmente, como comentário no site da Amazon.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

A dona da vida real



Se, assim como eu, você adora um dramalhão mexicano, é provável que conheça essa clássica cena de Soy Tu Dueña (2010) – se não me engano, a quinta adaptação do texto venezuelano de 1972. A trama acompanha uma jovem da alta sociedade que, após ser abandonada no altar pelo homem que, como se não bastasse, a traia com a sua prima, decide se mudar para a fazenda que herdara dos pais.

Convertida em uma mulher fria e rancorosa, a jovem – Valentina Vilaça, na versão estrelada por Lucero – não confia mais nos homens, e esta cena antológica marca a sua decisão por assumir as rédeas de seu destino, trazendo à tona uma nova mulher.

Se isso, porém, não foi fácil para a personagem, imagine para nós, pessoas comuns, que não dispomos de uma fazenda para onde fugir e tampouco estamos podendo jogar um carro no abismo com um vestido de noiva dentro (sim, a personagem fez isso, e só para se livrar do vestido...).

Na vida real, a gente precisa lidar com a dor em meio a uma série de outros problemas, não raro compartilhando o mesmo ambiente com aquele que nos magoou. Na vida real, depois de ter o coração partido, não nos deparamos com um Fernando Colunga a nos oferecer todo o seu amor e disposto a curar as nossas feridas. Pelo contrário, é provável que permaneçamos por muito tempo sozinhos, isso quando não nos deparamos com um novo idiota. E, sim, a gente ainda está no lucro caso o nosso algoz haja sido o David Zepeda.

Na vida real, costuma doer por um longo tempo, tanto por ser difícil esquecer como pelo nosso apego ao que nos machuca, o que acaba por render um bocado de autossabotagem. É que na vida real, a gente quer dar a volta por cima, mas às vezes a gente tem recaídas, não raro nos enveredando por pequenas ações que colocam em risco semanas, meses ou até mesmo anos de trabalho de superação.

Esse texto, porém, não pretende lhe desanimar e tampouco criticar a teledramaturgia, da qual sou fervoroso fã. A propósito, que felicidade a nossa termos a ficção como uma possibilidade de catarse.

Este texto é, portanto, um convite a ter paciência consigo mesmo. Que o drama mexicano, o filme, o livro ou seja lá o que for lhe tragam alento enquanto você atravessa a dor, mas que você não se culpe ou se subestime se não tem a força da heroína da trama ou se sua história não transcorre como a dela.

E agradeça por isso, pois, se lhe falta a fazenda, a governanta amorosa e o mocinho bonito que lhe curará as feridas, é sinal de que você já tem em si tudo do que necessita para superar o que se passou. Trata-se daquela velha dor que muito nos honra, pois, se nos foi dada, é porque é do mesmo tamanho que nós.

Você não precisa se arriscar a pegar um resfriado indo para a chuva bradar que é “a dona do seu destino”. Basta que você reconheça que – em lugar de um capataz mau caráter e de uma prima que é melhor ter bem longe – os obstáculos ao final feliz de nossa trama são as nossas próprias debilidades, as nossas fragilidades, a nossa resistência diante do novo, o nosso medo do vazio.

E é aí que você percebe que, somente ao substituir o apego pela aceitação e comprometimento consigo mesma, é que você se torna a dona. A dona de sua vida real.


domingo, 14 de março de 2021

Somos todos tóxicos

A necessidade de expressar de maneira mais exata os nossos sentimentos, emoções, opiniões e afins é o que comumente nos leva ao uso de metáforas, que, em suma, são figuras de linguagem que produzem sentidos figurados por meio de comparações. É daí que surgem expressões como “saúde de ferro”, “fulano é um gato” e outras mais sutis como “fazer amor”, por exemplo.

O adjetivo “tóxico”, quando aplicado a uma pessoa, é também metafórico, vez que, na prática, uma substância venenosa, que produz efeitos nocivos ao organismo, pode ser tóxica, mas não uma pessoa.

Esse uso do termo é mais um modismo – como falar de empatia ou escrever “gratidão” nas redes sociais sem que haja real sentimento por trás disso –, e veio na mesma leva de expressões que, se por um lado revelam uma maior tomada de consciência, por outro evidenciam o quão profundamente fragilizada é a geração atual.

Vez que tudo é dual no mundo da matéria, o uso do adjetivo “tóxico” como qualificação de pessoas tem, naturalmente, o seu lado positivo. Perceba que, se partimos do princípio de que sofisticação de linguagem está diretamente ligada à sofisticação de pensamento, o uso de expressões como “tóxico”, “abusivo” e afins tem um potencial empoderador.

Por outro lado, porém, ao qualificar alguém como “tóxico” não raro estamos a nos colocar no supostamente cômodo e privilegiado lugar da vítima: se o outro é tóxico, logo, eu sou um poço de virtude, encarnação da própria empatia, “alecrim dourado que nasceu no campo...”

Entenda que em momento algum pretendo culpabilizar as reais vítimas de relacionamentos abusivos, manipulação e demais ardis narcisistas. O que faço aqui, e com a devida cautela, é um convite a investigar o uso metafórico do termo “tóxico”, o que é, de certa forma, também um convite ao autoconhecimento.

A quem estamos a chamar de tóxico? O abusador que intimida e nos faz reféns em relacionamentos doentios ou o sujeito que simplesmente não atendeu às nossas expectativas? Quantas vezes qualificamos o outro como tóxico após o fim de um relacionamento no qual nos mantivemos por pura imaturidade e/ou carência? Quantas vezes a vilanização do outro se nos apresenta como recurso para lidarmos com a nossa frustração.

Certa vez o Pe. Fábio de Melo disse: “Às vezes é preciso inventar um ódio, uma mágoa, um menosprezo, para que o amor não correspondido se torne suportável”.

Fato é que muitas vezes tomamos por tóxica a pessoa que não nos dá o que desejávamos ou que traz à tona questões sobre nós mesmos. Não raro a carência nos leva a ignorar, voluntariamente, os sinais que estavam ali desde o início, e, quando a coisa explode e a gente se magoa, o outro é tóxico, o outro é desumano e vil.

Em tempos em que existe todo um culto à vitimização travestido de empoderamento e todo um projeto segregacionista disfarçado de luta pela igualdade, é necessário que haja da parte de cada um muita sobriedade e disposição para encarar a si próprio.

Nós também somos tóxicos quando insistimos depois de um não. Nós também somos tóxicos quando nos agarramos a uma ilusão diante da evidente incompatibilidade de interesses. Nós também somos tóxicos quando nos impomos na vida de quem nem sequer faz parte da nossa. Nós, por muitas vezes, somos vítimas, mas não raro também somos algozes na vida de alguém.

Ademais, o relacionamento com pessoas tóxicas é, comumente, um convite a encarar as nossas próprias sombras projetadas no outro. E insistir na posição da vítima não raro equivale a negar os nossos defeitos. É doloroso ser a vítima, mas é preferível à dor de enxergarmos a nossa parte feia, é mais cômodo se comparado à necessidade de assumirmos a responsabilidade sobre nossa vida.

Como bem diz um texto atribuído a Shakespeare, “as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos”.

Textos sobre autoconhecimento costumam ser ilustrados com a bela e imponente imagem do Buda, o que não raro nos conduz a uma ideia equivocada de autoconhecimento como perfeição, iluminação ou coisa que o valha, mas é justamente o contrário! Autoconhecimento tem a ver com aceitar-se falível por condição e, a partir daí, se dedicar a cada aspecto que carece de cura.

Eu sei que às vezes as pessoas nos machucam. Sei que há os que praticam o mal e nos vitimam, nos magoam e nos destroem por dentro. Eu sei e lamento por isso. Mas eu sei também que pessoas e situações são por nós atraídas por afinidade, de modo que, quanto mais nos conhecermos, menos tóxicos serão os que estiverem à nossa volta.

E menos tóxicos seremos nós, sobretudo para nós mesmos.

quarta-feira, 10 de março de 2021

As sutilezas do autoamor

O amor-próprio é dado a sutilezas... Mais do que isso: o amor próprio é muito mais um processo do que um fim, algo pronto e acabado.

Naturalmente, “tem gente que se ama e tem gente que não se ama”, como bem disse alguém deveras mais sábio do que eu. Há, porém, aqueles cujo amor-próprio é apenas perpassado por um equívoco conceitual.

Há amor quando há empenho para sobreviver aos movimentos da própria mente; há amor quando há dedicação para acertar depois de um novo erro; há amor quando se procura ajuda e quando se luta para vencer os conflitos internos; há amor quando você não se deixa sucumbir.

Porque autoamor nada tem de perfeição, passando, sim, pelo constante ânimo de aperfeiçoamento. Trata-se de encarar as próprias debilidades, por vezes numerosas, e acolhê-las como um aspecto digno de cura, e não de retaliação.

Equiparar-se aos rostos sorridentes, corpos fitness e espíritos evoluídos do Instagram é a receita certa para o fracasso rumo ao amor-próprio.

É que amor-próprio é processo e não lugar aonde se possa chegar e relaxar. É meta diária ante os diferentes desafios da vida. É munição para agir contra as nossas próprias sombras, aquelas que hão de nos acompanhar ao longo de toda a vida na terra (e talvez depois dela...).

Até recentemente eu pensava que amar a mim mesmo tinha a ver com alcançar um estado no qual eu me perceberia totalmente blindado, imune às ofensas, indiferenças, preconceitos e afins. Até o dia em que compreendi que tal estado me retiraria da condição humana, e não há autoamor quando não há o reconhecimento e aceitação de si como “humano, demasiado humano”.

Pretender-se impassível aos reveses da existência humana é querer elevar-se à condição de anjo ou descer à condição de pedra. Enquanto humanos dotados de amor-próprio, tudo o que havemos de desejar é a sabedoria diante dos sobressaltos, a vontade cada vez mais firme rumo à realização dos sonhos, a autorresponsabilidade e o reconhecimento do próprio poder para tornar sublime a própria vida.

Você se ama quando se dá o direito ao descanso após um dia de trabalho. Você se ama quando faz pipoca e assiste a sua série predileta na Netflix. Você se ama quando sai para malhar porque sabe que precisa de cuidados. Você se ama quando aprende a dizer não, quando aprende a dizer sim e quando aprende a permanecer calado, pois autoamor também tem a ver com se poupar. Você se ama quando se permite ser amado, sem abusos, sem condições que o diminuam, pois o verdadeiro amor nos deve sempre elevar...!

Você se ama quando se sabe falível, quando aceita que é o que é e está tudo bem... E se dedica a trabalhar a partir daí.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Trilhas

“Sempre pode haver alguém que precise”. Foi a desculpa que inventei para mim mesmo quando, havendo arrumado a mochila, me apercebi do meu exagero ao preparar o lanche para a caminhada. Eu e o meu excesso de zelo... Vesti a calça que, ainda naquela manhã, estaria coberta de grama e o novo par de tênis que, em menos de uma hora, seria estreado numa areia branca e fofinha.

E lá estava eu, às oito em ponto, na portaria do Parque Estadual da Serra do Rola-Moça, cujo nome – se não procede a lenda da moça que se acidentou por ali enquanto cavalgava com o noivo – é um bocado machista para os padrões atuais.

Mas não era apenas eu: havia ainda os dois amigos queridos, os estranhos sorridentes – alguns dos quais habituados às caminhadas –, o cara que me chama a atenção, mas que dificilmente se envolveria comigo e, claro, o guia para o qual não há tempo ruim. Dentro em pouco eu me certificaria da veracidade daquela máxima segundo a qual “sozinhos nós vamos mais rápido, mas em grupo nós vamos mais longe”.

A gratidão veio na companhia do medo ao me deparar com as trilhas que eu não teria encarado se estivesse de sobreaviso. Gratidão porque, ao me poupar do desafio, eu não viveria a grata oportunidade de vencê-lo como eu venci.

E foi assim – entre aclives e declives, subidas e descidas íngremes interrompidas por raros momentos em trilha plana, arranhões e picadas de marimbondo – que vi na caminhada a metáfora perfeita para a condição humana, perpassada pelas quedas, subidas, descidas, solidão, ajuda, arranhões e, claro – como bem disse o amigo Anderson Martins – momentos de plenitude (ou “planitude”) que a gente sabe serem breves, mas que são necessários à tomada de fôlego.

O curioso é que, no meio de uma montanha, não importando o quase esgotamento de suas energias, você não tem a opção de voltar, tomar um atalho ou chamar um táxi aéreo que te tire dali e te deixe no seu destino poupando-lhe das dificuldades do caminho.

E a vida, assim como a caminhada ecológica, exige movimento, e a gente não tem outra alternativa senão continuar caminhando...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

"O grande sonho"

Há pouco mais de 25 anos, a EMABH - Escola Municipal Aurélio Buarque de Holanda, onde cursei da 5ª à 8ª série, lançava o jornalzinho anual do colégio. O ano era 1995, quando internet, para aqueles pré-adolescentes periféricos e com uma vida inteira pela frente, não passava de algo do qual se ouvia falar. Logo, não havia a possibilidade da criação de um informativo virtual com publicação mensal, algo tão comum hoje em dia.

O “Geração Estudantil” – nome escolhido dentre as dezenas de sugestões feitas pelos discentes – se pretendia instrumento de integração entre alunos, professores, direção e comunidade escolar, bem como um estímulo à revelação de talentos.

Se por um lado era um instrumento desdenhado por boa parte dos discentes, por outro havia os que reconheciam-lhe a importância, participando ativamente da edição do jornal. Ali havia entrevistas, piadas, charadas, informações sobre datas comemorativas, textos dos alunos, recadinhos e outras coisas que a gente podia deixar como sugestão na caixinha de metal verde que ficava presa à parede ao lado da sala dos professores.

Era o primeiro ano do jornal. Era também o meu primeiro ano naquela escola e naquele bairro. O ano em que fiz os meus primeiros amigos. O ano em que a gente teve o nosso primeiro telefone lá em casa! O ano em que experimentei os meus primeiros conflitos com relação à minha sexualidade ao ver o Arnold Schwarzenegger pelado nas cenas iniciais de “O exterminador do futuro 2”. Foi, portanto, um ano de grandes transformações...

Foi na 2ª edição do informativo, em 1996, que tive publicado o meu primeiro texto, inspirado em uma situação que de fato havia ocorrido à minha família poucos meses antes. E não precisa ser um expert para perceber que criatividade e habilidade textual não eram exatamente o meu forte (risos).

Talvez, porém, não fosse essa a opinião da Cida Fulanete, que foi a minha professora de português na 6ª e 7ª séries, sendo precedida pela Maria Tereza e sucedida pela Marília. Foi por sugestão da Aparecida, se bem me lembro, que, pela primeira vez, li um livro na íntegra. Era “Ana e Pedro – Cartas”, de Vivina de Assis Viana e Ronald Claver.

Minha Nossa... como é louco perceber o quanto ainda trago daquele Alex de 11/12 anos de idade. Não em termos comportamentais, mas de personalidade. E, embora seja inevitável me deparar com uma dorzinha aqui e ali ao rememorar a trajetória dos meus últimos 25 anos, é gratificante perceber que, se o Alex de agora segue sendo um tolo sonhador, ao menos ele cultiva hoje sonhos um pouquinho mais elevados do que uma premiação na loteria... o que também não seria mal...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Uma quase mulher

Ela era uma bicha alta, imponente. As pernas eram bem torneadas, próprias de um bailarino com carreira na Europa e Estados Unidos. A pela era de um negro reluzente, como bem disse, certa vez, a igualmente saudosa (e desbocada) Dercy Gonçalves. Dadas as limitações de uma sociedade que celebra as debilidades e desdenha os êxitos, muito se conheceu de suas polêmicas, mas pouco de sua humanidade e cultura irretocável.

A primeira lembrança que eu tenho do Jorge Lafond (1952 – 2003) é de uma participação sua no programa do Gugu Liberato – mais um que nos deixou recentemente –, onde uma jovem realizava o sonho de desenhar, com batom, um coração em sua cabeça lustrosa.

Foi na Vera Verão, personagem mais famosa desse grande artista, que eu tive, desde a infância, uma referência de homossexual. Eram outros tempos... Tempos em que homossexuais, se apareciam na tevê, era apenas para fazer rir por via do estereótipo do gay espalhafatoso e sexualizado.

Isso, porém, em nada o desabonava. Eu, em algum nível já ciente da minha homossexualidade, gostava daquela liberdade de ser, ainda que não refletisse – como ainda não reflete – a realidade. Gostava de quando a Vera Verão adentrava o cenário da praça, causando alvoroço e chamando a atenção de todos. Gostava das vezes em que, no final do esquete, ela ficava com o bofe da inimiga, só mais tarde vindo a entender que aquilo me proporcionava uma espécie de catarse.

Veja bem: se a Vera Verão – um gay negro e cheio de trejeitos – acabava conquistando um homem comum ou sendo escolhida como a musa do clipe do Paulo Ricardo, decerto que eu, um gay fora do padrão (porque o meio gay também tem os seus preconceitos), teria também a minha chance. Desse modo, a vitória da Vera Verão, mesmo que uma vitória boba (pois, convenhamos, conquistar um boy magia não é lá uma grande realização na vida), também era, de alguma forma, a vitória daquela criança tímida lá da periferia, que, com os seus medos e óculos enormes, já se entendia como homossexual.

Pois é... eu sou do tempo em que havia a Vera Verão, que – muito antes de qualquer Pitty Bicha ou Valéria Vasquez (personagens de Tom Cavalcante e Rodrigo Sant’Anna, respectivamente) – já causava estardalhaço e, mesmo que de maneira estereotipada, já ocupava o seu espaço e exercia o seu direito de ser no mundo e em um país racista e homofóbico.

A Vera Verão – que, junto de tantos outros artistas que já partiram, habita a memória desta bicha quase quadragenária que vos escreve – eu envolveria num abraço e diria, se tivesse uma única oportunidade:

Muito obrigado, Lafond.

Texto que transbordou de mim numa manhã de quarta.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Quando chego aos 37...

Há algum tempo, a polêmica (e adorável) Antonia Fontenelle – naquele velho bate-bola comum ao encerramento das entrevistas – pediu ao igualmente polêmico (e divertidíssimo) Danilo Gentili que lhe contasse um medo.

Depois de refletir um pouco, chegando mesmo à quase conclusão de não ter nenhum medo, o comediante disse algo que muito me impactou.

“Eu tenho medo de uma coisa: tenho medo de ficar muito distante do que Deus quer que eu seja.”

Esta resposta me deixou um bocado pensativo, vez que encerra o que devia ser o único anseio do ser humano: cumprir com o propósito divino de sua alma.

Chegado aos 37 anos, eu olho para trás e vejo que já desejei muitas coisas, seja em termos materiais, afetivos, profissionais e afins. E, havendo tido a graça de conquistar alguns desses objetivos e falhado no alcance de muitos deles (o que, a propósito, também costuma ser uma graça...), desejo no dia de hoje o que gostaria de haver aprendido a desejar lá atrás, mais jovem, quando são gritantes os anseios do ego.

Estar cada vez mais próximo dos planos de Deus para mim.

O curioso é que, se há alguns anos desejar algo assim me parecesse falta de ambição ou até fanatismo religioso ou coisa que o valha, hoje entendo-o como o que de mais nobre e genuíno um homem pode querer para si.

Isso me faz lembrar de uma frase bíblica muito cantada nos meus tempos de católico: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça, e tudo mais vos será acrescentado”.

E eu acredito sinceramente que, a despeito de crença, isso tem a ver com termos como meta, como objetivo primeiro, nos tornarmos mais humanos, o que talvez seja o que de melhor podemos fazer por nós e por aqueles que nos cercam: sermos verdadeiramente humanos.

Resta-me, portanto, agradecer ao Criador pela oportunidade a mim concedida até aqui, pedindo a Ele, aos meus mestres amados e benfeitores espirituais sabedoria e inspiração para fazer o melhor dos anos que vêm pela frente.

Gratidão imensa...

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Clô para os íntimos

Uma vez, concedendo uma entrevista para a maravilhosa Bruna Lombardi, o saudoso Clodovil narrou uma situação em que foi ridicularizado em razão de sua sexualidade. Ele conta que – no calor do momento e como qualquer pessoa mediana – chegou a traçar vários planos de vingança, chegando mesmo a pensar que só se sentiria bem ao ver desempregado o sujeito que o humilhara.

E foi então que Clodovil, ao contar para a Bruna o diálogo que, de repente, se viu fazendo consigo mesmo na ocasião, disse uma das coisas mais bonitas que já escutei:

“Clodovil, isso está acontecendo para que você entenda que a vida não é tão linda quanto você está pensando. Essas coisas são para que você aprenda a se desapegar daqui. Esse moço está apenas cumprindo o papel de te mostrar que você precisa ir embora daqui. Se todo mundo fosse maravilhoso, aqui seria o Céu! Ele não fez nada de mal para você. É você que está preocupado em fazer mal para ele agora.”

Meu Deus... Isso é mais profundo do que aquele velho clichê de “não criar expectativas para não se frustrar” ou mesmo do que aquela sábia filosofia de que a ação do outro nos revela o que devemos curar em nós. Trata-se de algo mais bonito do que tudo isso.

O nosso sofrimento diante das adversidades típicas desta existência revela uma promessa de Deus para nós; revela que não pertencemos a este mundo, e que uma existência mais luminosa nos espera, livre do sofrimento que nos desagrada por mais resilientes que sejamos.

O meu desejo para hoje é que possamos tirar das frustrações a mesma lição que esse artista incomparável tirou de uma situação dolorida: aqueles que nos decepcionam são os nossos “professores do não ser”, e passam por nós como forma de nos oferecer uma escolha: a de darmos vazão aos apelos do nosso ego, cedendo à mágoa e desejo de vingança, ou a de tomarmos a nossa frustração como uma degrau rumo à nossa melhor versão.

Só uma dessas escolhas nos conduz ao mundo que está reservado para nós. Aquele mundo ao qual de fato pertencemos...