quarta-feira, 18 de junho de 2025

Como ela nos vê, de Wagner Gaspar

 

Fonte: Amazon.

Eu não sei quanto a você, mas eu fico particularmente curioso quando um booktuber ou qualquer pessoa habituada a ler, refletir e falar sobre livros decide se enveredar pelos árduos e sinuosos caminhos da produção literária. Parece-me uma situação análoga àquela na qual um jovem, há muito fascinado pelos espetáculos dramatúrgicos, levanta-se da plateia e, finalmente, assume o seu lugar no palco, tornando conhecida a sua imagem. Estou sempre inclinado a crer que de alguém tão dedicado aos livros e entendido deles só pode vir coisa muito boa. Por outro lado, porém, compreendo que – por mais que um bom escritor precise ser, antes de tudo, um bom leitor –, leitura e escrita envolvem dinâmicas e processos bem distintos, fato este que torna desaconselháveis expectativas exacerbadas quanto à escrita de alguém que, até ontem, restringia-se ao papel de um leitor assíduo.

Não obstante, como há sempre exceções à regra, em nada o jovem Wagner Gaspar me frustrou com o seu “Como ela nos vê” (2022), romance com o qual ele não apenas estreia na literatura brasileira, mas também brinda os leitores com um texto primoroso (inclusive gramaticalmente) e um suspense repleto de brasilidade. Digo-o porque o que mais me chamou a atenção em sua obra — e que já vi, inclusive, mencionado por outro leitor no site da Amazon — é o fato de ser uma história de suspense com uma identidade genuinamente brasileira. Diferente das narrativas importadas, recheadas de referências norte-americanas e cenários distantes da nossa realidade, “Como ela nos vê” mergulha em um Brasil reconhecível nos diálogos, nos gestos, na dureza das condições de vida.

A pobreza, a ambientação nas periferias e interiores, os lares marcados por silêncios e segredos — tudo aqui é palpável. Os personagens não parecem saídos de um laboratório literário, mas sim de ruas que já cruzamos, de famílias que conhecemos, de histórias que ouvimos no ponto de ônibus ou na padaria. É essa familiaridade que cria o primeiro elo entre o leitor e a trama: a sensação de que, de algum modo, já vimos esses rostos. Ou, quem sabe, já fomos vistos por eles.

O enredo, que se alterna entre os anos de 2006 e 2017, é focado em uma família disfuncional de Unaí, em Minas Gerais, da qual faz parte o nosso protagonista: o jovem Tomás (doravante “Tom”), irmão caçula de Sabela (Sá), ambos filhos da batalhadora Ana Maria e do alcoólatra Zé. Tom é amigo dos gêmeos Rique e Caíque, filhos de Dona Azema, com os quais cresceu. Algo fatídico no ano de 2007 – o assassinato de Zé – repercute em 2017, trazendo muitos segredos à tona...

Sá (imagem criada por Inteligência Artificial).

Muito me agrada o quão hábil Wagner Gaspar se mostra ao tecer a relação entre os amigos e, sobretudo, entre os irmãos Tom e Sá, personagens centrais da trama. A dinâmica entre a irmã mais velha mais revoltada e decidida e o irmão meio nerd, mais acomodado e acostumado à inação em algum nível me remeteu à minha relação com a minha irmã.

A desigualdade

A miséria é outro elemento tratado com maestria por Wagner Gaspar. A denúncia de uma deplorável realidade está ali, escancarada, despida de vitimismo e inclinações ideológicas. Sobretudo em um trecho no qual o narrador explica a dinâmica adotada pelas famílias da região como recurso à sobrevivência.

“Mamãe passa roupa e cuida dos meninos de dona Azema — tão pobre quanto nós, coitada —, que não tem com quem deixar os pirralhos Rique e Caíque enquanto lava e passa na casa de outra dona, que, provavelmente, faz o mesmo para outra família. E é nessa corrente de mulheres pobres que essas pobres mulheres sobrevivem, seguindo com suas vidas de empregadas, contando os trocados que recebem umas das outras. É minha irmã, Sabela, quem faz o serviço da mamãe quando não está na escola — ela mata aula às vezes. E eu ajudo Sá quando chego da escola. Assim, todo mundo se ajuda, até chegar o pai e desgraçar com tudo.” (pág. 16).

Essa mesma denúncia segue expressa, embora implícita, na descrição dos destinos dos personagens: se os irmãos Rique e Caíque, descritos como jovens loiros (pág. 19), lograram abrir o próprio negócio, o “Bar dos Gêmeos” (no qual me deu muita vontade de tomar uma cerveja e ficar observando os bonitos proprietários) (pág. 63), ao Tom, jovem negro, restou “trabalhar duro na serralheria do seu Fonseca” (pág. 25). Fique claro que não se trata aqui de uma hierarquização entre as profissões, não havendo demérito em nenhuma delas. Refiro-me, sim, ao fato de o empreendedorismo ser mais difícil para os negros no Brasil devido à desigualdade social e econômica que torna mais desafiador o seu acesso a recursos, capacitação, rede de contatos etc. Logo, não surpreende que Tom julgue o bom humor característico do amigo Caíque como consequência de haver “se dado bem na vida”, vez que dirige o próprio negócio. Todavia, o drama familiar de Tom – a violência doméstica, a perda precoce dos pais, o desaparecimento da irmã, a urgência de lutar pelo próprio sustento desde muito jovem – são, naturalmente, um incontestável agravante.

A narrativa

Um aspecto digno de nota em “Como ela nos vê” é a alternância tanto narrativa quanto temporal. Ora temos um narrador homodiegético, com Tomás, o protagonista, narrando os eventos em primeira pessoa, ora a narrativa assume uma terceira pessoa aparentemente neutra, com um narrador heterodiegético permitindo ao leitor observar a cena por outros ângulos. Trata-se de uma escolha – aliás, deveras desafiadora para quem escreve – que traz dinamismo e oferece ao leitor uma alternância de perspectivas que, a depender das intenções do autor, pode tanto ampliar a compreensão dos acontecimentos quanto suscitar dúvidas e suspeitas, — configurando-se, portanto, como uma estratégia muito bem-vinda em um romance de suspense.

Conforme já dito, a estória se divide entre os anos de 2006, 2007, 2009 e 2017, exigindo do leitor certa atenção para localizar-se nos tempos da trama — um recurso bastante comum em narrativas contemporâneas, sobretudo no universo das séries de streaming, mas que, aqui, é bem manejado na maior parte do tempo. A alternância temporal, ainda que em certos momentos contribua para uma leve "barriga" narrativa, tem como mérito o suspense gradual, especialmente na construção dos acontecimentos de 2007, que são apenas parcialmente revelados até as últimas páginas.

Infelizmente, porém, tal como nas séries de streaming, no afã de construir um crescente suspense, Wagner Gaspar acaba por ceder à tentação de recorrer à analepse (flashback) e/ou à terceira pessoa para a inserção de elementos que pouco ou nada contribuem para a narrativa. Exemplo disso é o breve capítulo em que nos é apresentada a agonizante Marta (pág. 38), quase esquecida, tal é o tempo que o autor leva para retomá-la; ou o capítulo que narra a chegada de Marcos ao sítio de sua tia Dora (pág. 104). Temos aí uma inserção (embora “menção” me pareça uma palavra melhor) de personagens sem aprofundamento algum, lá estando apenas como uma justificativa desnecessária para questões que poderiam ser esclarecidas por meio de saídas mais simples e que não ocupassem na narrativa um espaço que não lhes compete.

Outro ponto problemático é a doença de Tom, da qual muito vemos os sintomas, mas que, por fim, pouco ou nada serve à narrativa, a não ser que se pretendesse simbolizar uma espécie de herança maldita daquela família. Merece menção também a barra de ferro, manchada de sangue, guardada por seu Fonseca por dez anos (!) e esquecida no carro que ele tinha o hábito de emprestar a Tom (pág. 42). Ou o fato de este não confrontar imediatamente o seu Fonseca e a irmã após vê-los juntos (pág. 70).

É mister que o escritor não caia na armadilha de, na ânsia por criar um suspense complexo, prometer mais do que entrega, fazendo em torno de mistérios e personagens um alarde que não se justifica ao final da leitura. Outra armadilha que requer atenção é a de ignorar o limite tênue entre criar suspense e forçar a passividade ou mesmo a imaturidade dos personagens. Tratam-se de escolhas narrativas que provocam no leitor a sensação de que o enredo está sendo manipulado artificialmente, o que lhe deixa um gosto amargo e, por vezes, o desejo de abandonar a leitura...

O desfecho (e algumas sutilezas)

É digna de nota a construção magistral do desfecho da trama, quando Marcos nos é apresentado como um vilão teatral que, por meio de um monólogo, explica os seus porquês. Temos aí um trecho que muito nos remete, por exemplo, a filmes como “Lenda Urbana” (1998), no qual, nos últimos minutos, a assassina explica tudo para a mocinha por meio de uma apresentação de slides (!). É clichê, mas é delicioso, além de ser um recurso eficaz em criar um “clímax verbal” antes do desfecho. O personagem Marcos, inclusive, tem um arco bem desenvolvido, embora a sua obsessão por Sá careça de melhor construção nas analepses, o que tornaria mais crível o seu desejo de vingança.

Outro ponto que merece destaque é o manejo eficaz do mistério em torno do assassinato do pai de Tom e Sá. Durante boa parte da leitura, o autor conduz o leitor por uma trilha de pistas falsas, insinuando responsabilidades ora em Sá, ora no enigmático seu Fonseca, ora em Marcos. Em dado momento da trama, quando dos desmaios do personagem Tom, cheguei até mesmo a considerar que fosse ele o assassino, não tendo consciência disso em razão de uma dupla personalidade ou coisa que o valha. A verdade, contudo, só se revela nas páginas finais, o que mantém o suspense pulsante até o fim. Trata-se de uma estratégia clássica, mas bem executada por Wagner Gaspar, que soube instigar, enganar e surpreender sem desrespeitar a lógica interna da narrativa.

Caíque (imagem criada por Inteligência Artificial).

Por fim, ainda que de modo sutil e talvez até não intencional, chama a atenção a forma como a narrativa parece sugerir uma tensão homoafetiva entre Tom e Caíque. E, sim, compreendo que pode parecer absurda a menção à tal possibilidade, mas talvez não tanto se observarmos que é Caíque quem encara tão de perto o nosso protagonista a ponto de obriga-lo a se afastar um pouco (pág. 20); é Caíque quem traja uma camisa com dois botões abertos, de modo a revelar “uma ilha de pelos dourados no peito” (pág. 63); é a mensagem de Caíque – “mais discreto, mais maduro e gentil” que o irmão – que provoca “sorrisinho de canto de lábio” em Tom (pág. 75); é Caíque quem aparece “sem camisa e usando um short de pijama vermelho” (pág. 99); é Caíque quem “dá um abraço apertado” (pág. 174). Tratam-se, enfim, de elementos que criam um campo de ambiguidade sugestiva. Naturalmente, não se trata de afirmar que essa tensão se concretiza ou sequer se confirma, mas sim de reconhecer que, mesmo nos silêncios da narrativa, existem vozes que sussurram o que não foi dito. Vozes que, para leitores atentos, também fazem parte da trama. Nessa perspectiva, é, sim, possível afirmar que haja muita coisa por trás da surpresa e da resposta de Tom – “Não há mulher para mim nesta cidade” – ao ser perguntado pela irmã se estava namorando (pág. 48).

Conclusão

Apesar das fragilidades narrativas aqui apontadas — algumas passagens pouco funcionais, pistas falsas mal aproveitadas e personagens com função narrativa questionável — “Como ela nos vê” é um romance que merece ser lido. Há nele uma força emocional genuína, fruto de uma escrita que se arrisca, que ousa entrar em terrenos difíceis, como o abuso doméstico, o luto, a herança de sofrimento e a precariedade das relações humanas em contextos de vulnerabilidade social.

A construção dos protagonistas é especialmente cativante: Tom e Sá são irmãos que, apesar dos traumas, seguem buscando um ao outro — e a si mesmos — numa história de silêncios, ausências e verdades duras. O título, aliás – que a um só tempo revela o maior mistério da trama e nos manipula com uma pista falsa quanto à personagem omitida pelo pronome pessoal –, se torna cada vez mais potente conforme a leitura avança, pois nos leva a perguntar: Como ela nos vê? — mas também: Como nós a vemos? E como somos vistos pelos que nos amam, nos abandonam ou nos salvam?

Wagner Gaspar estreia na literatura com coragem e entrega. Que venham os próximos livros, agora com a maturidade de quem já subiu ao palco, sentiu o calor das luzes e ouviu os aplausos — ainda que entre algumas vaias críticas. Afinal, é assim que se aprende a dançar com as palavras.

 

Gaspar, Wagner. Como ela nos vê. Edição do Kindle, 2022.


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