segunda-feira, 9 de junho de 2025

A Esquina dos Afetos

A loja de produtos esotéricos deu lugar a uma unidade da Pastelândia. Soube disso tão logo atravessei o largo quarteirão do Minascentro. E lá estava, cheirando à fritura a esquina que outrora cheirava a incenso. Enquanto esperava para atravessar a Rua Curitiba, no cruzamento com a Avenida Augusto de Lima, detive-me a pensar no poder que têm os odores sobre os nossos desejos e emoções.

Em um tempo anterior à pandemia, passar ali em frente me despertava o afã de elevação espiritual, vontade de meditar e ler autores da Nova Era. Hoje sinto me abrir o apetite, sendo imediatamente impelido a adentrar o estabelecimento e escolher logo uma promoção que me permita experimentar, de uma só vez, os pastéis de queijo, carne e frango (o meu preferido).

Pensei na transitoriedade das coisas externas e internas, em como as coisas à nossa volta mudam como forma de atender a demandas que, por sua vez, são também oriundas de mudanças outras, criando um ciclo de transformações que se retroalimentam.

Recordo-me de ter adentrado o ambiente nos tempos da Índia Central – nome da loja que lá havia – sendo atendido por um simpático rapaz que, percebendo-me fascinado pelas saias indianas, generosas em suas cores e tecidos, disse-me, solícito, que eu podia ficar à vontade para experimentar, se assim quisesse. Não havia escárnio em sua oferta. E digo-o como alguém bem experimentado no que tange a dizeres e atos homofóbicos. Havia, pelo contrário, um tal acolhimento e naturalidade em sua voz que, de repente, eu me sentia como que autorizado a ser quem era, a ponto de, se quisesse, experimentar uma saia, mandando às favas os conceitos de gênero, as opiniões alheias e afins.

Sobre a loja, havia o chamado “Santuário da Igreja Forte Ninho das Águias”, formando um conjunto que só se faz possível neste país e, sobretudo, aqui em BH: uma igreja protestante sobre uma loja indiana na qual um homem experimenta saias... Tem algo mais brasileiro do que isso? A igreja, aliás, segue lá até hoje, pois, como costuma acontecer, igrejas prevalecem sobre lojas e pastelarias...

No espaço que antes servia de loja de roupas indianas ora servem uma variedade de pastéis e caldo de cana, o que não é demérito algum. Continua sendo bom. Continua havendo afeto. Se outrora me eram supridas demandas afetivas ou espirituais, ora me são supridas as necessidades do corpo, expressas naquela vontadezinha de forrar o estômago depois de muito caminhar pelo Centro.

Seja de dentro do ônibus ou passando a pé em um dia corrido, jamais serei indiferente àquela esquina, que sempre me recordará dos anseios de ontem e de hoje, e da necessidade genuinamente humana de ser aceito, acolhido e amado, seja em forma de uma saia ou de um pastel.


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