quinta-feira, 15 de maio de 2025

A carona da Bia

Dia desses, ao encerrar expediente, dei-me com a balbúrdia típica dos adolescentes ao final da aula. Para quem não sabe, eu trabalho dentro de um campus no qual estão situadas duas escolas: uma infantil, da rede municipal, e outra estadual, sendo esta o cenário do tumulto juvenil supracitado.

Encaminhando-me para a saída do campus, avistei uma jovem embarcando em um veículo sob o olhar atento de um colega, que, (falsamente) impressionado, se dirigiu a uma outra colega. “A Bia vai embora nesse carro?” E em seguida, fazendo coro com alguns outros colegas, gritou “Dá carona, Bia!”, enquanto o veículo se afastava.

Tal situação trouxe à tona uma situação similar da qual há muito não me recordava, mas que permanecia aqui, arquivada nos recônditos da memória. O ano era 1993. Eu cursava a terceira série e os meus pais foram me apanhar de carro na escola, o que, por ser desnecessário, era raro. Já dentro do automóvel – um Corcel branco que o meu pai teve nos anos 90 – ouvi o Renato gritando, animado: “Que carrão hein Alex!” Renato era um colega com o qual devo ter estudado entre 91 e 94. Tinha sobrancelhas espessas e, certa vez, rapou a cabeça, tornando-se alvo da zombaria dos colegas. Enquanto escrevo, fico me perguntando se Renato se recorda de mim e do meu nome tal como, por algum motivo, me recordo dele, embora nunca tenhamos sido amigos...

Fique claro que minha família morava em uma favela à época. Mamãe, que já lavara e passara para fora a fim de ajudar o papai com as despesas, começara a se arriscar como revendedora de roupas e afins, enquanto minha irmã e eu atravessávamos uma linha de trem diariamente para irmos à escola. Ou seja: a minha situação socioeconômica em nada era melhor que a dos meus colegas de turma. Fingir surpresa para constranger um colega pelos seus “privilégios”, porém, era regra naquele tempo e parece ser ainda hoje.

Fiquei pensando nessas coisas que nunca mudam: nesse espaço de 32 anos, o mundo testemunhou conquistas inimagináveis em 93. Hoje temos redes sociais, Inteligência Artificial e todas essas coisas nas quais a Bia e seus amigos são decerto mais habilidosos do que Renato e eu. A despeito disso, porém, continua a ser divertido fazer troça sobre o “carrão” do colega, o que é inofensivo. Diferentemente do bullying, da homofobia e afins, que deviam, sim, fazer parte de um passado distante...

Atravessei a avenida e fui para o meu ponto de ônibus tomado pela nostalgia, bem como pelo desejo de que a Educação de agora – a familiar e a formal – não falhe em formar seres humanos melhores, mais conscientes e empáticos do que a Educação do meu tempo, apesar dos seus muitos êxitos, logrou formar. Tomara que a Bia – além de se tornar uma adulta generosa que ofereça muitas caronas aos amigos – viva em um mundo cheio de possibilidades, que saiba votar, que entenda o valor do trabalho e do estudo, e, sobretudo, que leve consigo um profundo respeito por toda forma de vida.

“Dá carona, Bia!”, ainda ecoava na minha mente, enquanto eu me recostava no assento do ônibus e colocava os fones nos ouvidos. Enquanto isso, o carro da Bia se afastava, ligeiro, rumo a um futuro melhor. Rumo à vida extraordinária que ela tem pela frente...

 

 

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