quarta-feira, 28 de maio de 2025

E Não Soubrou Nenhum, de Agatha Christie

 

Aviso: esta resenha está toda trabalhada nos spoilers. Portanto, se você ainda não leu a obra, sugiro que faça isso primeiro e depois a gente conversa. Afinal, levar spoiler de Agatha Christie é um crime mais grave do que aqueles criados por ela na ficção. Está avisado(a).

Fonte: imagem criada por Inteligência Artificial.

Minha história com Agatha Christie começou lá no início dos anos 2000, quando, ainda estudante do Ensino Médio, apanhei um livro dela na biblioteca da escola. Não recordo o título da obra, mas sei que foi lendo as orelhas e a contracapa que descobri que ela era tida como a “Rainha do Crime” ou “Dama do Crime”. Curiosamente, não me lembro de ler aquele exemplar, de modo que acredito havê-lo devolvido intacto à biblioteca.

Anos se passaram até que, já um adulto em condições de comprar os meus próprios livros, adquiri, sem muito critério, uma daquelas edições coloridas e em capa dura da HarperCollins, nas Lojas Americanas. A ausência de critério foi tanta que, novamente, não me lembro do título da obra. Lembro, porém, que iniciei a leitura, que, para minha surpresa, não me conquistou — razão pela qual acabei incluindo o livro em uma das minhas habituais doações.

É fato que essa última experiência me levou a criar uma resistência à autora, levando-me a crer que talvez a “Rainha do Crime” não fosse para mim. À época, eu não havia ainda aderido a uma filosofia literária que muito me acompanha nos dias de hoje: cada leitura tem o seu tempo. Muitos são os elementos que podem determinar o tempo ideal desta ou daquela leitura: idade, maturidade, estado de humor, momento de vida etc. São muitos os fatores que podem definir se determinada leitura é ou não adequada para um dado momento, sendo deveras subjetiva a definição disso.

Por algum motivo, no entanto, o nome de Agatha Christie voltou a despertar meu interesse recentemente. E foi assim que, ao retornar à minha tão querida Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais – outrora Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa – levei comigo dois livros: Assassinato no Expresso do Oriente e E Não Sobrou Nenhum, sendo a este último que nos deteremos aqui.

Parece-me conveniente já começar “tirando o elefante da sala”: a mudança do título — assunto que é do conhecimento de praticamente qualquer leitor que se aproxime dessa obra. Desde já, vale esclarecer que tenho consciência de não ter lugar de fala no que tange a questões raciais, de modo que ora detenho-me a compartilhar minha opinião tão-somente na condição de leitor. E é como leitor – e aspirante a escritor – que acredito que, embora a alteração do título revele uma válida e louvável consciência da qual por muito tempo carecemos enquanto sociedade, considero que modificar o título, além de não resolver os problemas, acaba privando o leitor do contato com a intenção original da autora, configurando-se, portanto, como um desrespeito a ambos.

É bem verdade que a alteração do título de O Caso dos Dez Negrinhos para E Não Sobrou Nenhum, bem como a substituição da palavra “negrinhos” por “soldadinhos” no poema e ao longo do texto, não traz mudanças para o enredo nem prejudica a compreensão da trama. Por outro lado, porém, ela se apresenta como uma solução incoerente. Explico: Alfredo Monte, em seu blog Monte de Leituras, foi muito certeiro ao argumentar que, ao se deter à questão do racismo, ignorou-se o machismo, o etarismo e até mesmo o antissemitismo sutilmente (às vezes não tão sutilmente assim) presentes na obra, expressos no comportamento dos personagens. A alteração do título, portanto, embora parta de uma preocupação genuína, válida e urgente, acaba por se revelar tola e desatenta aos demais problemas. Problemas esses que, aliás, hão de se fazer presentes em qualquer expressão artística mais distante no tempo.

Logo, não é alterando o título da obra da Agatha Christie (ou proibindo o acesso à obra do Monteiro Lobato) que a gente transforma as coisas, mas, sim, mantendo como está o que foi feito no passando, lançando-lhe um olhar devidamente crítico e, claro, tomando-o como exemplo do que não fazer doravante. Afinal, o nosso norte está comumente na contramão das nossas maiores falhas, e isso vale para nós tanto como indivíduos quanto como sociedade. Logo, é bom que essas falhas estejam lá, para que a gente as olhe e as tome como lembrete de que é tempo de ir por outra direção.

Contudo, dentre os argumentos contrários à alteração do título, não concordo com aquele que crítica o suposto spoiler no título atual. Veja bem: “e não sobrou nenhum” faz referência ao último verso da cantiga infantil que nos é apresentada nos primeiros capítulos, logo que os desafortunados personagens chegam à Ilha do Soldado. Logo, ainda que o título fosse outro, não escaparíamos do suposto spoiler já no capítulo 6 da segunda parte da estória. Não há spoiler no título então adotado para a obra, até porque a trama poderia ir (e vai) para muito além do misterioso poema. E, se você vê spoiler aí, devo concluir que passará longe de filmes como “Não Adianta Rezar” (2018) ou “Ninguém Sai Vivo” (2021), certo? (Se bem que, de tão ruins que são, talvez seja melhor passar longe mesmo...)

Seja como for, felizmente nós temos as livrarias sebos e sites como a Estante Virtual, onde podemos encontrar edições antigas, com o título original e, inclusive, com traduções de qualidade superior.

Inclusive, no que tange à edição lida por mim, temos aí um outro “elefante a ser tirado da sala”. A edição que li foi a da Editora Globo, uma edição de bolso de 2009, com tradução de Renato Marques de Oliveira. Tanto por ter visão subnormal como por julgá-las esteticamente desagradáveis, eu não gosto de edições de bolso. No entanto, por ser esta uma obra muito procurada pelos leitores da Biblioteca Pública, a referida edição foi a única opção que me restava na estante.

De modo geral, não sou muito atento a questões de tradução, revisões e afins. No entanto, especificamente na página 21 desta edição, no capítulo 5 da parte 1, ao quarto parágrafo, um erro de revisão me colocou numa pista errada. E digo “errada” não por me tirar do encalço do verdadeiro assassino, mas por ser uma pista jamais pretendida pela autora. Explico: o trecho “Armstrong devia ter dado com a língua nos dentes, supôs”, dá a entender que o Gen. Macarthur e o Dr. Armstrong (que inclusive nos é apresentado no capítulo seguinte) tinham alguma relação pregressa, o que definitivamente não se verifica. E sabe quando fui chegar à conclusão de que estava numa pista errada? Somente na página 116, no capítulo 5 da parte 5, quando, ao nos ser revelado o passado do Gen. Macarthur, faz-se menção ao jovem Armitage, um homem do passado do general. Veja que um erro — um erro vulgar de revisão — prejudicou significativamente o meu trabalho como leitor-investigador. E o mais revoltante é que, ao acessarmos a amostra da 4ª (2014) e da 5ª (2021) edição da Editora Globo, disponibilizadas no site da Amazon, verificamos que esse erro continua lá. Ou seja: reeditam a obra, fazem uma edição comemorativa belíssima, de capa dura e, claro, preço elevado, sem, no entanto, sequer submetê-la a uma nova revisão.

O supracitado Alfredo Monte, em sua resenha crítica, foi um tanto duro em relação a essa tradução. Eu, no entanto — seja por não ter mergulhado tão a fundo na questão da tradução, na comparação com outras versões, ou, claro, por pura inaptidão — devo dizer que, fora o erro mencionado, não vi grandes problemas. No geral, trata-se de uma edição competente e que vai proporcionar a você, leitor, um mergulho sensacional nessa trama. Portanto, se você tem consigo uma edição da Editora Globo com a tradução de Renato Marques, não se desespere, pois, de modo geral, sua experiência não será significativamente prejudicada.

Quanto ao livro, basta qualifica-lo como simplesmente viciante. Comecei a lê-lo em um domingo e fui madrugada adentro, movido não apenas por uma curiosidade ou por uma urgência de saber quem era o grande vilão — até porque, no final das contas, todos ali são, de alguma forma, vilões na história de outrem –, mas também por me ver profundamente seduzido pela trama, vendo-me impossibilitado de interromper a leitura, como se estivesse eu mesmo preso naquela ilha particular, cercado por personagens de caráter duvidoso.

Antes mesmo de começar a leitura propriamente dita, eu havia lido um comentário de uma leitora dizendo que o início da história era um pouco confuso, devido à apresentação de cada personagem e à dificuldade de decorar os traços de personalidade de todos de uma só vez. E isso é verdade, num primeiro momento. No entanto, já nos primeiros capítulos estamos completamente imersos naquela trama e na realidade de cada personagem, de modo que essa confusão inicial não perdura por muito tempo.

Um ponto interessante — e talvez um pouco subjetivo — é que não se trata de uma trama criada para que a gente torça por alguém. Eu, particularmente, raramente me vi torcendo por algum personagem ou sentindo compaixão pelo risco de morte no qual cada um se encontrava. A minha única torcida, portanto, foi pelo assassino, vez que eu me pegava vibrando pela próxima morte, ansioso por saber quem seria a próxima vítima e como, por inspiração dos versos do poema, ela seria assassinada.

Curiosamente, se algum sentimento de piedade me veio, ele foi direcionado para as vítimas daqueles dez personagens: a pobre idosa supostamente morta pela negligência do casal Rogers; o pequeno Cyril, morto quando aos cuidados de Vera Claythorne; o grupo de nativos mortos pelo egoísmo de Philip Lombard; a jovem Beatrice, morta pela hipocrisia religiosa de Emily Brent; o jovem Richmond, morto pelo ciúme doentio do Gen. Macarthur; a paciente morta pelo alcoolismo do doutor Armstrong; o casal de crianças morto pela irresponsabilidade de Antony Marston, entre outros. Mas não me entenda mal: não sentir compaixão por esses personagens não significa que eles sejam desprovidos de carisma — muito pelo contrário. Carisma é o que lhes sobra. É impossível não se interessar por eles, aproximar-se deles e desvendar-lhes os obscuros segredos.

Ouso dizer que uma experiência completa e realmente prazerosa de E Não Sobrou Nenhum só é possível se o leitor, em vez de apenas fazer uma leitura corrida, como quem cumpre um protocolo, mergulhar na trama como um verdadeiro investigador — alguém disposto a desvendar o mistério que ali paira. Eu mesmo, durante a leitura, quando mais da metade dos personagens ainda estava viva, levantei a hipótese de que o assassino poderia ser algum dos personagens supostamente mortos, alguém que retornaria revelando haver forjado a própria morte. Levantei também a possibilidade de que um décimo primeiro personagem surgisse, amarrando a trama de cada um dos dez. Trata-se de uma sagacidade que vai sendo afinada sobretudo se você conjuga a leitura com o hábito de assistir a filmes de terror, suspense e afins. E é muito prazeroso para um leitor chegar ao final da trama e verificar que estava dando palpites corretos — mesmo tendo deixado muita coisa passar despercebida ao longo do caminho.

Fonte: cinebuzz.

Uma das reflexões que me ocorreram após a leitura — e que talvez seja uma conexão pouco usual — foi a semelhança entre a trama de E Não Sobrou Nenhum e a franquia de filmes Jogos Mortais. Veja bem: no primeiro filme, por exemplo, o vilão Jigsaw, movido por um senso de justiça distorcido, cria armadilhas elaboradas para testar as falhas morais e os pecados de suas vítimas, muitas vezes julgando-as por ações do passado. O juiz Wargrave, por sua vez, personagem central do livro, opera sob uma lógica parecida: ele não mata por matar, mas porque vê em cada pessoa ali um culpado, alguém que, aos seus olhos, escapou da justiça comum e, portanto, merece punição. E, detalhe: tanto Jigsaw quanto Wargrave me despertam imensa simpatia, por mais doentios que sejam os seus planos e visão de mundo.

Essa personalidade ambígua, a um só tempo sádica e racional, que combina a ânsia de provocar dor com um senso quase fanático de justiça, é fascinante e perturbadora. E o mais impressionante: Wargrave não apenas arquitetou cada assassinato, como planejou meticulosamente a própria morte, inclusive escrevendo a maneira exata como seria encontrado. É uma genialidade que, junto à maestria narrativa de Agatha Christie, transforma essa leitura em algo memorável.

Trata-se, enfim, de uma leitura incrível, sendo o meu único arrependimento não tê-la feito antes. E, embora seja clichê dizê-lo, o meu desejo agora é retomar a leitura, tentando me atentar a todas as pistas que deixei passar, todos aqueles sinais que apontavam para o juiz — sinais esses que, aliás, se fazem presentes já no primeiro capítulo, nas páginas iniciais do livro. Trata-se, inclusive, de algo que pretendo fazer num futuro próximo (espero!), já que acabei de adquirir, através da Estante Virtual, um exemplar de O Caso dos Dez Negrinhos, da minha saudosa Círculo do Livro, com a elogiada tradução de Leonel Vallandro. Outra tarefa que reservo para breve é um mergulho na aclamadíssima série da BBC, uma louvável e fiel adaptação da obra para a televisão.

Como você vê, E Não Sobrou Nenhum é como uma isca por meio da qual Agatha Christie acaba nos fisgando de vez, levando-nos a querer mergulhar mais e mais em suas tramas envolventes, nos seus personagens dúbios e caracterizados por uma ambiguidade que, de tão humana, se revela assustadora...


CHRISTIE, Agatha. E Não Sobrou Nenhum. Tradução de Renato Marques. São Paulo: Globo, 2009.

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