Eram 22h03 quando consultei o relógio. Na
companhia de um querido amigo, eu voltava de metrô para casa depois de mais uma
incursão pela Bienal Mineira do Livro. Falávamos sobre a necessidade de dizer
“sim” à vida, encontrando um ponto pacífico entre a manutenção dos vínculos que
nos são caros e o cultivo de nossa introspecção, privacidade e solitude.
Um repentino silêncio se havia estabelecido quando ele adentrou o vagão com a sua bicicleta, que, de costas para nós, acomodava contra a parede do trem. Trajava uma camiseta simples, bermuda e boné, sendo, portanto, um sujeito de uma simplicidade a despeito da qual fui imediatamente tomado de curiosidade a seu respeito.
Foi o gesto seguinte, porém, que mais me impactou: sem cerimônia, ele se sentou no chão, como quem já não tem pressa nem medo do olhar alheio, sabendo que o mundo é seu, sem script rígido a seguir. Havia leveza ali. Um tipo raro de liberdade que, de tão serena, quase me constrangeu.
Era só um rapaz com uma bicicleta. Mas naquele instante, ele parecia conter tudo o que me falta: espontaneidade, presença, um jeito de viver livre de amarras imaginárias.
Fiquei ali, dividido entre a admiração e a melancolia, dada a consciência do quanto engomo minha própria vida, privando-me dessa liberdade. Não a liberdade épica, grandiosa, mas a liberdade miúda — de pedalar à noite, voltar quando der vontade, sentar no chão do metrô se assim quiser.
Pouco mais que uma hora depois, já no terminal de ônibus – pois muita baldeação é necessária entre as regiões nordeste e sudoeste de BH – vi outro rapaz. Sentado na plataforma, bem onde os ônibus passam, ele não se moveu nem quando da aproximação do veículo – que, aliás, precisou frear a centímetros dos seus pés, como se o moço demarcasse o ponto exato em que o ônibus deveria parar.
Tal imagem também me atravessou, criando um inevitável contraste com a cena anterior. Enquanto o rapaz da bicicleta me despertara admiração e desejo de liberdade, aquele na plataforma me alertou quanto às possíveis consequências da irresponsabilidade. O primeiro me inspirou pela leveza; o segundo, me assustou pela falta de zelo consigo mesmo. Um sentou-se no chão como quem confia na vida; o outro, como quem a desafia sem medida.
Percebi, então, que, antes de romantizar qualquer gesto, vale reconhecer a linha tênue entre liberdade e descuido, sendo a consciência a divisa entre esses dois extremos.
Talvez seja isso que eu busque: um despojamento lúcido. Uma entrega que não seja imprudente, mas libertadora. E que comece, quem sabe, com um simples “sim”, ou com o gesto inesperado de sentar no chão e — entre o silêncio do vagão e o ronco ritmado dos trilhos — me perceber inteiro e cheio de vontade de viver.
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