terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Os Pilares da Terra, de Ken Follett

 

“O semblante do arcediago Peter parecia de pedra. Ele era o pior tipo de cristão, entendeu Philip: abraçava todos os aspectos negativos, aplicava todas as proibições, insistia em todas as formas de negação e exigia punições severas para qualquer ofensa. No entanto, ignorava a compaixão da cristandade, negava sua clemência, desobedecia de maneira flagrante à sua ética de amor e desconsiderava abertamente as leis bondosas de Jesus. Assim eram os fariseus, pensou Philip. Não era de espantar que o Senhor preferisse comer na companhia de taberneiros e pecadores.”



Embarcar na leitura de um livro é uma experiência similar a se lançar em qualquer outro aspecto da vida: a gente nunca sabe aonde aquilo nos levará. Quando eu, aficionado pelo objeto livro, adquiri o meu exemplar de “Os Pilares da Terra” em uma livraria sebo lá na Galeria do Ouvidor no finalzinho de julho, não passava pela minha cabeça que, em poucos dias, estaria imerso na desafiadora construção de uma catedral.

O Buddy Reader – expressão charmosa que recém aprendi – foi a modalidade de leitura adotada, e nada mais é do que ler com outra pessoa, discutindo capítulo a capítulo. E isso só foi possível porque o Ismael, meu amigo para todas as horas aceitou a proposta e – já estabelecida a nossa parceria nessa jornada de vida – embarcou comigo também nessa jornada literária.

Portanto, tenho duas tarefas aqui: primeiro, recomendar fortemente a leitura (então, leia “Os Pilares da Terra”, sério!); segundo, sugerir que você se porte diante dessa obra não apenas como alguém que lê uma história épica, mas como alguém que sabe que os reveses dessa trama de época dialogam diretamente com pautas muito contemporâneas nossas... A polarização política, a divisão no âmbito da Igreja, a disputa pelo poder e as suas consequências para os cidadãos etc. E devo dizer que, diante dessa miríade de pautas, o Buddy Reader pode ser uma excelente ideia, pois as discussões levantadas provocarão, por sua turno, a diversidade de ideias, e é justamente isso que tornará essa leitura ainda mais inesquecível.

Por oferecer ação, romance, aventura, mistério etc., a obra de Ken Follett há de agradar muitos tipos de leitores. Todavia, é bom que se saiba: trata-se de uma obra que, por vezes, pode ser deveras impiedosa com o leitor. Afinal, estamos falando de um romance medieval, contexto de Guerra Civil etc. A violência era como que uma palavra de ordem em um contexto de instabilidade política e na ausência de um rei forte que definisse regras claras, o que deixava um campo aberto para o abuso de poder por figuras importantes do clero e da nobreza.

Ah! Vale acrescentar que, ao longo da minha leitura, fui me alternando entre a edição impressa da Rocco (2012) e a versão Kindle da Arqueiro (2016), o que foi muito bom, pois, na impossibilidade de levar aquele calhamaço da Rocco na mochila, eu pude seguir com a leitura nos meus longos trajetos de ônibus com o Kindle. Ambas as edições/traduções são excelentes. O livro impresso é lindo!, ao passo que a versão Kindle da Arqueiro – apesar de um e outro problema de tradução – me ofereceu maior conforto... Enfim, escolha conforme as suas preferências e não haverá erro!

O mais importante, porém, é que você escolha se enveredar por essa leitura fascinante e repleta de emoções que é “Os Pilares da Terra”. Boa leitura!

 

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Obrigado, Leonardo!

 

 

Imagem gerada por IA.

O motorista mal havia dado partida quando começou a me relatar a divertida experiência que tivera com o passageiro anterior. Ligeiramente frustrado – pois estava nos meus planos apenas sacar o Kindle da bolsa e dedicar os próximos cinquenta minutos de viagem a uma boa leitura – atentei-me à narrativa daquele homem de nome composto um tanto peculiar.

Não recordo em qual momento Leonardo Felipe – era o nome do motorista – conectou o seu relato com uma situação que estava vivendo. Segundo ele, ao não ceder às investidas de uma moça deveras apaixonada, esta vinha pleiteando ao menos à sua amizade, ao que ele também tem resistido. Ao ser questionado quanto à razão de tal atitude, Leonardo argumentou que uma pessoa apaixonada nunca estará satisfeita com uma mera amizade, vendo sempre nessa aproximação uma oportunidade de conquista. E, do alto de sua admirável responsabilidade afetiva, arrematou dizendo: “Eu compreendo que ela possa me julgar frio pelo meu comportamento de agora, mas ela não sabe que, dessa forma, eu estou fazendo o melhor que eu posso por ela. Eu não quero que ela desperdice o tempo com expectativas irreais.”

O comentário de Leonardo me remeteu à recente mensagem que recebi de um antigo amor em resposta a mais uma de minhas tentativas de aproximação. Lembrei que, diante do tom glacial da mensagem, refleti sobre o quão injusto é o comportamento da pessoa que, ao não poder corresponder ao interesse romântico, fecha as portas até mesmo a uma boa amizade.

Escutando o relato de Leonardo, porém – e percebendo-me no mesmo lugar da jovem nele interessada – dei-me conta de que ele tinha razão, pois não existe amizade possível com alguém com quem, no fundo, você quer viver uma outra história. A não ser, claro, que se tenha muita maturidade para tal. Eu não tenho, restando-me, portanto, regozijar-me com o caráter libertador da frieza alheia e até dos silêncios que, se não me agridem, tampouco criam esperanças em torno de algo sem futuro.

Saí do veículo agradecendo ao Universo em uma silenciosa prece pela resposta às minhas recentes e equivocadas reflexões. E antes de fechar a porta, olhei para Leonardo e disse um sonoro “obrigado”. Ele não sabia, mas não era pela corrida que eu estava agradecendo...


quarta-feira, 18 de junho de 2025

Como ela nos vê, de Wagner Gaspar

 

Fonte: Amazon.

Eu não sei quanto a você, mas eu fico particularmente curioso quando um booktuber ou qualquer pessoa habituada a ler, refletir e falar sobre livros decide se enveredar pelos árduos e sinuosos caminhos da produção literária. Parece-me uma situação análoga àquela na qual um jovem, há muito fascinado pelos espetáculos dramatúrgicos, levanta-se da plateia e, finalmente, assume o seu lugar no palco, tornando conhecida a sua imagem. Estou sempre inclinado a crer que de alguém tão dedicado aos livros e entendido deles só pode vir coisa muito boa. Por outro lado, porém, compreendo que – por mais que um bom escritor precise ser, antes de tudo, um bom leitor –, leitura e escrita envolvem dinâmicas e processos bem distintos, fato este que torna desaconselháveis expectativas exacerbadas quanto à escrita de alguém que, até ontem, restringia-se ao papel de um leitor assíduo.

Não obstante, como há sempre exceções à regra, em nada o jovem Wagner Gaspar me frustrou com o seu “Como ela nos vê” (2022), romance com o qual ele não apenas estreia na literatura brasileira, mas também brinda os leitores com um texto primoroso (inclusive gramaticalmente) e um suspense repleto de brasilidade. Digo-o porque o que mais me chamou a atenção em sua obra — e que já vi, inclusive, mencionado por outro leitor no site da Amazon — é o fato de ser uma história de suspense com uma identidade genuinamente brasileira. Diferente das narrativas importadas, recheadas de referências norte-americanas e cenários distantes da nossa realidade, “Como ela nos vê” mergulha em um Brasil reconhecível nos diálogos, nos gestos, na dureza das condições de vida.

A pobreza, a ambientação nas periferias e interiores, os lares marcados por silêncios e segredos — tudo aqui é palpável. Os personagens não parecem saídos de um laboratório literário, mas sim de ruas que já cruzamos, de famílias que conhecemos, de histórias que ouvimos no ponto de ônibus ou na padaria. É essa familiaridade que cria o primeiro elo entre o leitor e a trama: a sensação de que, de algum modo, já vimos esses rostos. Ou, quem sabe, já fomos vistos por eles.

O enredo, que se alterna entre os anos de 2006 e 2017, é focado em uma família disfuncional de Unaí, em Minas Gerais, da qual faz parte o nosso protagonista: o jovem Tomás (doravante “Tom”), irmão caçula de Sabela (Sá), ambos filhos da batalhadora Ana Maria e do alcoólatra Zé. Tom é amigo dos gêmeos Rique e Caíque, filhos de Dona Azema, com os quais cresceu. Algo fatídico no ano de 2007 – o assassinato de Zé – repercute em 2017, trazendo muitos segredos à tona...

Sá (imagem criada por Inteligência Artificial).

Muito me agrada o quão hábil Wagner Gaspar se mostra ao tecer a relação entre os amigos e, sobretudo, entre os irmãos Tom e Sá, personagens centrais da trama. A dinâmica entre a irmã mais velha mais revoltada e decidida e o irmão meio nerd, mais acomodado e acostumado à inação em algum nível me remeteu à minha relação com a minha irmã.

A desigualdade

A miséria é outro elemento tratado com maestria por Wagner Gaspar. A denúncia de uma deplorável realidade está ali, escancarada, despida de vitimismo e inclinações ideológicas. Sobretudo em um trecho no qual o narrador explica a dinâmica adotada pelas famílias da região como recurso à sobrevivência.

“Mamãe passa roupa e cuida dos meninos de dona Azema — tão pobre quanto nós, coitada —, que não tem com quem deixar os pirralhos Rique e Caíque enquanto lava e passa na casa de outra dona, que, provavelmente, faz o mesmo para outra família. E é nessa corrente de mulheres pobres que essas pobres mulheres sobrevivem, seguindo com suas vidas de empregadas, contando os trocados que recebem umas das outras. É minha irmã, Sabela, quem faz o serviço da mamãe quando não está na escola — ela mata aula às vezes. E eu ajudo Sá quando chego da escola. Assim, todo mundo se ajuda, até chegar o pai e desgraçar com tudo.” (pág. 16).

Essa mesma denúncia segue expressa, embora implícita, na descrição dos destinos dos personagens: se os irmãos Rique e Caíque, descritos como jovens loiros (pág. 19), lograram abrir o próprio negócio, o “Bar dos Gêmeos” (no qual me deu muita vontade de tomar uma cerveja e ficar observando os bonitos proprietários) (pág. 63), ao Tom, jovem negro, restou “trabalhar duro na serralheria do seu Fonseca” (pág. 25). Fique claro que não se trata aqui de uma hierarquização entre as profissões, não havendo demérito em nenhuma delas. Refiro-me, sim, ao fato de o empreendedorismo ser mais difícil para os negros no Brasil devido à desigualdade social e econômica que torna mais desafiador o seu acesso a recursos, capacitação, rede de contatos etc. Logo, não surpreende que Tom julgue o bom humor característico do amigo Caíque como consequência de haver “se dado bem na vida”, vez que dirige o próprio negócio. Todavia, o drama familiar de Tom – a violência doméstica, a perda precoce dos pais, o desaparecimento da irmã, a urgência de lutar pelo próprio sustento desde muito jovem – são, naturalmente, um incontestável agravante.

A narrativa

Um aspecto digno de nota em “Como ela nos vê” é a alternância tanto narrativa quanto temporal. Ora temos um narrador homodiegético, com Tomás, o protagonista, narrando os eventos em primeira pessoa, ora a narrativa assume uma terceira pessoa aparentemente neutra, com um narrador heterodiegético permitindo ao leitor observar a cena por outros ângulos. Trata-se de uma escolha – aliás, deveras desafiadora para quem escreve – que traz dinamismo e oferece ao leitor uma alternância de perspectivas que, a depender das intenções do autor, pode tanto ampliar a compreensão dos acontecimentos quanto suscitar dúvidas e suspeitas, — configurando-se, portanto, como uma estratégia muito bem-vinda em um romance de suspense.

Conforme já dito, a estória se divide entre os anos de 2006, 2007, 2009 e 2017, exigindo do leitor certa atenção para localizar-se nos tempos da trama — um recurso bastante comum em narrativas contemporâneas, sobretudo no universo das séries de streaming, mas que, aqui, é bem manejado na maior parte do tempo. A alternância temporal, ainda que em certos momentos contribua para uma leve "barriga" narrativa, tem como mérito o suspense gradual, especialmente na construção dos acontecimentos de 2007, que são apenas parcialmente revelados até as últimas páginas.

Infelizmente, porém, tal como nas séries de streaming, no afã de construir um crescente suspense, Wagner Gaspar acaba por ceder à tentação de recorrer à analepse (flashback) e/ou à terceira pessoa para a inserção de elementos que pouco ou nada contribuem para a narrativa. Exemplo disso é o breve capítulo em que nos é apresentada a agonizante Marta (pág. 38), quase esquecida, tal é o tempo que o autor leva para retomá-la; ou o capítulo que narra a chegada de Marcos ao sítio de sua tia Dora (pág. 104). Temos aí uma inserção (embora “menção” me pareça uma palavra melhor) de personagens sem aprofundamento algum, lá estando apenas como uma justificativa desnecessária para questões que poderiam ser esclarecidas por meio de saídas mais simples e que não ocupassem na narrativa um espaço que não lhes compete.

Outro ponto problemático é a doença de Tom, da qual muito vemos os sintomas, mas que, por fim, pouco ou nada serve à narrativa, a não ser que se pretendesse simbolizar uma espécie de herança maldita daquela família. Merece menção também a barra de ferro, manchada de sangue, guardada por seu Fonseca por dez anos (!) e esquecida no carro que ele tinha o hábito de emprestar a Tom (pág. 42). Ou o fato de este não confrontar imediatamente o seu Fonseca e a irmã após vê-los juntos (pág. 70).

É mister que o escritor não caia na armadilha de, na ânsia por criar um suspense complexo, prometer mais do que entrega, fazendo em torno de mistérios e personagens um alarde que não se justifica ao final da leitura. Outra armadilha que requer atenção é a de ignorar o limite tênue entre criar suspense e forçar a passividade ou mesmo a imaturidade dos personagens. Tratam-se de escolhas narrativas que provocam no leitor a sensação de que o enredo está sendo manipulado artificialmente, o que lhe deixa um gosto amargo e, por vezes, o desejo de abandonar a leitura...

O desfecho (e algumas sutilezas)

É digna de nota a construção magistral do desfecho da trama, quando Marcos nos é apresentado como um vilão teatral que, por meio de um monólogo, explica os seus porquês. Temos aí um trecho que muito nos remete, por exemplo, a filmes como “Lenda Urbana” (1998), no qual, nos últimos minutos, a assassina explica tudo para a mocinha por meio de uma apresentação de slides (!). É clichê, mas é delicioso, além de ser um recurso eficaz em criar um “clímax verbal” antes do desfecho. O personagem Marcos, inclusive, tem um arco bem desenvolvido, embora a sua obsessão por Sá careça de melhor construção nas analepses, o que tornaria mais crível o seu desejo de vingança.

Outro ponto que merece destaque é o manejo eficaz do mistério em torno do assassinato do pai de Tom e Sá. Durante boa parte da leitura, o autor conduz o leitor por uma trilha de pistas falsas, insinuando responsabilidades ora em Sá, ora no enigmático seu Fonseca, ora em Marcos. Em dado momento da trama, quando dos desmaios do personagem Tom, cheguei até mesmo a considerar que fosse ele o assassino, não tendo consciência disso em razão de uma dupla personalidade ou coisa que o valha. A verdade, contudo, só se revela nas páginas finais, o que mantém o suspense pulsante até o fim. Trata-se de uma estratégia clássica, mas bem executada por Wagner Gaspar, que soube instigar, enganar e surpreender sem desrespeitar a lógica interna da narrativa.

Caíque (imagem criada por Inteligência Artificial).

Por fim, ainda que de modo sutil e talvez até não intencional, chama a atenção a forma como a narrativa parece sugerir uma tensão homoafetiva entre Tom e Caíque. E, sim, compreendo que pode parecer absurda a menção à tal possibilidade, mas talvez não tanto se observarmos que é Caíque quem encara tão de perto o nosso protagonista a ponto de obriga-lo a se afastar um pouco (pág. 20); é Caíque quem traja uma camisa com dois botões abertos, de modo a revelar “uma ilha de pelos dourados no peito” (pág. 63); é a mensagem de Caíque – “mais discreto, mais maduro e gentil” que o irmão – que provoca “sorrisinho de canto de lábio” em Tom (pág. 75); é Caíque quem aparece “sem camisa e usando um short de pijama vermelho” (pág. 99); é Caíque quem “dá um abraço apertado” (pág. 174). Tratam-se, enfim, de elementos que criam um campo de ambiguidade sugestiva. Naturalmente, não se trata de afirmar que essa tensão se concretiza ou sequer se confirma, mas sim de reconhecer que, mesmo nos silêncios da narrativa, existem vozes que sussurram o que não foi dito. Vozes que, para leitores atentos, também fazem parte da trama. Nessa perspectiva, é, sim, possível afirmar que haja muita coisa por trás da surpresa e da resposta de Tom – “Não há mulher para mim nesta cidade” – ao ser perguntado pela irmã se estava namorando (pág. 48).

Conclusão

Apesar das fragilidades narrativas aqui apontadas — algumas passagens pouco funcionais, pistas falsas mal aproveitadas e personagens com função narrativa questionável — “Como ela nos vê” é um romance que merece ser lido. Há nele uma força emocional genuína, fruto de uma escrita que se arrisca, que ousa entrar em terrenos difíceis, como o abuso doméstico, o luto, a herança de sofrimento e a precariedade das relações humanas em contextos de vulnerabilidade social.

A construção dos protagonistas é especialmente cativante: Tom e Sá são irmãos que, apesar dos traumas, seguem buscando um ao outro — e a si mesmos — numa história de silêncios, ausências e verdades duras. O título, aliás – que a um só tempo revela o maior mistério da trama e nos manipula com uma pista falsa quanto à personagem omitida pelo pronome pessoal –, se torna cada vez mais potente conforme a leitura avança, pois nos leva a perguntar: Como ela nos vê? — mas também: Como nós a vemos? E como somos vistos pelos que nos amam, nos abandonam ou nos salvam?

Wagner Gaspar estreia na literatura com coragem e entrega. Que venham os próximos livros, agora com a maturidade de quem já subiu ao palco, sentiu o calor das luzes e ouviu os aplausos — ainda que entre algumas vaias críticas. Afinal, é assim que se aprende a dançar com as palavras.

 

Gaspar, Wagner. Como ela nos vê. Edição do Kindle, 2022.


segunda-feira, 9 de junho de 2025

A Esquina dos Afetos

A loja de produtos esotéricos deu lugar a uma unidade da Pastelândia. Soube disso tão logo atravessei o largo quarteirão do Minascentro. E lá estava, cheirando à fritura a esquina que outrora cheirava a incenso. Enquanto esperava para atravessar a Rua Curitiba, no cruzamento com a Avenida Augusto de Lima, detive-me a pensar no poder que têm os odores sobre os nossos desejos e emoções.

Em um tempo anterior à pandemia, passar ali em frente me despertava o afã de elevação espiritual, vontade de meditar e ler autores da Nova Era. Hoje sinto me abrir o apetite, sendo imediatamente impelido a adentrar o estabelecimento e escolher logo uma promoção que me permita experimentar, de uma só vez, os pastéis de queijo, carne e frango (o meu preferido).

Pensei na transitoriedade das coisas externas e internas, em como as coisas à nossa volta mudam como forma de atender a demandas que, por sua vez, são também oriundas de mudanças outras, criando um ciclo de transformações que se retroalimentam.

Recordo-me de ter adentrado o ambiente nos tempos da Índia Central – nome da loja que lá havia – sendo atendido por um simpático rapaz que, percebendo-me fascinado pelas saias indianas, generosas em suas cores e tecidos, disse-me, solícito, que eu podia ficar à vontade para experimentar, se assim quisesse. Não havia escárnio em sua oferta. E digo-o como alguém bem experimentado no que tange a dizeres e atos homofóbicos. Havia, pelo contrário, um tal acolhimento e naturalidade em sua voz que, de repente, eu me sentia como que autorizado a ser quem era, a ponto de, se quisesse, experimentar uma saia, mandando às favas os conceitos de gênero, as opiniões alheias e afins.

Sobre a loja, havia o chamado “Santuário da Igreja Forte Ninho das Águias”, formando um conjunto que só se faz possível neste país e, sobretudo, aqui em BH: uma igreja protestante sobre uma loja indiana na qual um homem experimenta saias... Tem algo mais brasileiro do que isso? A igreja, aliás, segue lá até hoje, pois, como costuma acontecer, igrejas prevalecem sobre lojas e pastelarias...

No espaço que antes servia de loja de roupas indianas ora servem uma variedade de pastéis e caldo de cana, o que não é demérito algum. Continua sendo bom. Continua havendo afeto. Se outrora me eram supridas demandas afetivas ou espirituais, ora me são supridas as necessidades do corpo, expressas naquela vontadezinha de forrar o estômago depois de muito caminhar pelo Centro.

Seja de dentro do ônibus ou passando a pé em um dia corrido, jamais serei indiferente àquela esquina, que sempre me recordará dos anseios de ontem e de hoje, e da necessidade genuinamente humana de ser aceito, acolhido e amado, seja em forma de uma saia ou de um pastel.


quarta-feira, 28 de maio de 2025

E Não Soubrou Nenhum, de Agatha Christie

 

Aviso: esta resenha está toda trabalhada nos spoilers. Portanto, se você ainda não leu a obra, sugiro que faça isso primeiro e depois a gente conversa. Afinal, levar spoiler de Agatha Christie é um crime mais grave do que aqueles criados por ela na ficção. Está avisado(a).

Fonte: imagem criada por Inteligência Artificial.

Minha história com Agatha Christie começou lá no início dos anos 2000, quando, ainda estudante do Ensino Médio, apanhei um livro dela na biblioteca da escola. Não recordo o título da obra, mas sei que foi lendo as orelhas e a contracapa que descobri que ela era tida como a “Rainha do Crime” ou “Dama do Crime”. Curiosamente, não me lembro de ler aquele exemplar, de modo que acredito havê-lo devolvido intacto à biblioteca.

Anos se passaram até que, já um adulto em condições de comprar os meus próprios livros, adquiri, sem muito critério, uma daquelas edições coloridas e em capa dura da HarperCollins, nas Lojas Americanas. A ausência de critério foi tanta que, novamente, não me lembro do título da obra. Lembro, porém, que iniciei a leitura, que, para minha surpresa, não me conquistou — razão pela qual acabei incluindo o livro em uma das minhas habituais doações.

É fato que essa última experiência me levou a criar uma resistência à autora, levando-me a crer que talvez a “Rainha do Crime” não fosse para mim. À época, eu não havia ainda aderido a uma filosofia literária que muito me acompanha nos dias de hoje: cada leitura tem o seu tempo. Muitos são os elementos que podem determinar o tempo ideal desta ou daquela leitura: idade, maturidade, estado de humor, momento de vida etc. São muitos os fatores que podem definir se determinada leitura é ou não adequada para um dado momento, sendo deveras subjetiva a definição disso.

Por algum motivo, no entanto, o nome de Agatha Christie voltou a despertar meu interesse recentemente. E foi assim que, ao retornar à minha tão querida Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais – outrora Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa – levei comigo dois livros: Assassinato no Expresso do Oriente e E Não Sobrou Nenhum, sendo a este último que nos deteremos aqui.

Parece-me conveniente já começar “tirando o elefante da sala”: a mudança do título — assunto que é do conhecimento de praticamente qualquer leitor que se aproxime dessa obra. Desde já, vale esclarecer que tenho consciência de não ter lugar de fala no que tange a questões raciais, de modo que ora detenho-me a compartilhar minha opinião tão-somente na condição de leitor. E é como leitor – e aspirante a escritor – que acredito que, embora a alteração do título revele uma válida e louvável consciência da qual por muito tempo carecemos enquanto sociedade, considero que modificar o título, além de não resolver os problemas, acaba privando o leitor do contato com a intenção original da autora, configurando-se, portanto, como um desrespeito a ambos.

É bem verdade que a alteração do título de O Caso dos Dez Negrinhos para E Não Sobrou Nenhum, bem como a substituição da palavra “negrinhos” por “soldadinhos” no poema e ao longo do texto, não traz mudanças para o enredo nem prejudica a compreensão da trama. Por outro lado, porém, ela se apresenta como uma solução incoerente. Explico: Alfredo Monte, em seu blog Monte de Leituras, foi muito certeiro ao argumentar que, ao se deter à questão do racismo, ignorou-se o machismo, o etarismo e até mesmo o antissemitismo sutilmente (às vezes não tão sutilmente assim) presentes na obra, expressos no comportamento dos personagens. A alteração do título, portanto, embora parta de uma preocupação genuína, válida e urgente, acaba por se revelar tola e desatenta aos demais problemas. Problemas esses que, aliás, hão de se fazer presentes em qualquer expressão artística mais distante no tempo.

Logo, não é alterando o título da obra da Agatha Christie (ou proibindo o acesso à obra do Monteiro Lobato) que a gente transforma as coisas, mas, sim, mantendo como está o que foi feito no passando, lançando-lhe um olhar devidamente crítico e, claro, tomando-o como exemplo do que não fazer doravante. Afinal, o nosso norte está comumente na contramão das nossas maiores falhas, e isso vale para nós tanto como indivíduos quanto como sociedade. Logo, é bom que essas falhas estejam lá, para que a gente as olhe e as tome como lembrete de que é tempo de ir por outra direção.

Contudo, dentre os argumentos contrários à alteração do título, não concordo com aquele que crítica o suposto spoiler no título atual. Veja bem: “e não sobrou nenhum” faz referência ao último verso da cantiga infantil que nos é apresentada nos primeiros capítulos, logo que os desafortunados personagens chegam à Ilha do Soldado. Logo, ainda que o título fosse outro, não escaparíamos do suposto spoiler já no capítulo 6 da segunda parte da estória. Não há spoiler no título então adotado para a obra, até porque a trama poderia ir (e vai) para muito além do misterioso poema. E, se você vê spoiler aí, devo concluir que passará longe de filmes como “Não Adianta Rezar” (2018) ou “Ninguém Sai Vivo” (2021), certo? (Se bem que, de tão ruins que são, talvez seja melhor passar longe mesmo...)

Seja como for, felizmente nós temos as livrarias sebos e sites como a Estante Virtual, onde podemos encontrar edições antigas, com o título original e, inclusive, com traduções de qualidade superior.

Inclusive, no que tange à edição lida por mim, temos aí um outro “elefante a ser tirado da sala”. A edição que li foi a da Editora Globo, uma edição de bolso de 2009, com tradução de Renato Marques de Oliveira. Tanto por ter visão subnormal como por julgá-las esteticamente desagradáveis, eu não gosto de edições de bolso. No entanto, por ser esta uma obra muito procurada pelos leitores da Biblioteca Pública, a referida edição foi a única opção que me restava na estante.

De modo geral, não sou muito atento a questões de tradução, revisões e afins. No entanto, especificamente na página 21 desta edição, no capítulo 5 da parte 1, ao quarto parágrafo, um erro de revisão me colocou numa pista errada. E digo “errada” não por me tirar do encalço do verdadeiro assassino, mas por ser uma pista jamais pretendida pela autora. Explico: o trecho “Armstrong devia ter dado com a língua nos dentes, supôs”, dá a entender que o Gen. Macarthur e o Dr. Armstrong (que inclusive nos é apresentado no capítulo seguinte) tinham alguma relação pregressa, o que definitivamente não se verifica. E sabe quando fui chegar à conclusão de que estava numa pista errada? Somente na página 116, no capítulo 5 da parte 5, quando, ao nos ser revelado o passado do Gen. Macarthur, faz-se menção ao jovem Armitage, um homem do passado do general. Veja que um erro — um erro vulgar de revisão — prejudicou significativamente o meu trabalho como leitor-investigador. E o mais revoltante é que, ao acessarmos a amostra da 4ª (2014) e da 5ª (2021) edição da Editora Globo, disponibilizadas no site da Amazon, verificamos que esse erro continua lá. Ou seja: reeditam a obra, fazem uma edição comemorativa belíssima, de capa dura e, claro, preço elevado, sem, no entanto, sequer submetê-la a uma nova revisão.

O supracitado Alfredo Monte, em sua resenha crítica, foi um tanto duro em relação a essa tradução. Eu, no entanto — seja por não ter mergulhado tão a fundo na questão da tradução, na comparação com outras versões, ou, claro, por pura inaptidão — devo dizer que, fora o erro mencionado, não vi grandes problemas. No geral, trata-se de uma edição competente e que vai proporcionar a você, leitor, um mergulho sensacional nessa trama. Portanto, se você tem consigo uma edição da Editora Globo com a tradução de Renato Marques, não se desespere, pois, de modo geral, sua experiência não será significativamente prejudicada.

Quanto ao livro, basta qualifica-lo como simplesmente viciante. Comecei a lê-lo em um domingo e fui madrugada adentro, movido não apenas por uma curiosidade ou por uma urgência de saber quem era o grande vilão — até porque, no final das contas, todos ali são, de alguma forma, vilões na história de outrem –, mas também por me ver profundamente seduzido pela trama, vendo-me impossibilitado de interromper a leitura, como se estivesse eu mesmo preso naquela ilha particular, cercado por personagens de caráter duvidoso.

Antes mesmo de começar a leitura propriamente dita, eu havia lido um comentário de uma leitora dizendo que o início da história era um pouco confuso, devido à apresentação de cada personagem e à dificuldade de decorar os traços de personalidade de todos de uma só vez. E isso é verdade, num primeiro momento. No entanto, já nos primeiros capítulos estamos completamente imersos naquela trama e na realidade de cada personagem, de modo que essa confusão inicial não perdura por muito tempo.

Um ponto interessante — e talvez um pouco subjetivo — é que não se trata de uma trama criada para que a gente torça por alguém. Eu, particularmente, raramente me vi torcendo por algum personagem ou sentindo compaixão pelo risco de morte no qual cada um se encontrava. A minha única torcida, portanto, foi pelo assassino, vez que eu me pegava vibrando pela próxima morte, ansioso por saber quem seria a próxima vítima e como, por inspiração dos versos do poema, ela seria assassinada.

Curiosamente, se algum sentimento de piedade me veio, ele foi direcionado para as vítimas daqueles dez personagens: a pobre idosa supostamente morta pela negligência do casal Rogers; o pequeno Cyril, morto quando aos cuidados de Vera Claythorne; o grupo de nativos mortos pelo egoísmo de Philip Lombard; a jovem Beatrice, morta pela hipocrisia religiosa de Emily Brent; o jovem Richmond, morto pelo ciúme doentio do Gen. Macarthur; a paciente morta pelo alcoolismo do doutor Armstrong; o casal de crianças morto pela irresponsabilidade de Antony Marston, entre outros. Mas não me entenda mal: não sentir compaixão por esses personagens não significa que eles sejam desprovidos de carisma — muito pelo contrário. Carisma é o que lhes sobra. É impossível não se interessar por eles, aproximar-se deles e desvendar-lhes os obscuros segredos.

Ouso dizer que uma experiência completa e realmente prazerosa de E Não Sobrou Nenhum só é possível se o leitor, em vez de apenas fazer uma leitura corrida, como quem cumpre um protocolo, mergulhar na trama como um verdadeiro investigador — alguém disposto a desvendar o mistério que ali paira. Eu mesmo, durante a leitura, quando mais da metade dos personagens ainda estava viva, levantei a hipótese de que o assassino poderia ser algum dos personagens supostamente mortos, alguém que retornaria revelando haver forjado a própria morte. Levantei também a possibilidade de que um décimo primeiro personagem surgisse, amarrando a trama de cada um dos dez. Trata-se de uma sagacidade que vai sendo afinada sobretudo se você conjuga a leitura com o hábito de assistir a filmes de terror, suspense e afins. E é muito prazeroso para um leitor chegar ao final da trama e verificar que estava dando palpites corretos — mesmo tendo deixado muita coisa passar despercebida ao longo do caminho.

Fonte: cinebuzz.

Uma das reflexões que me ocorreram após a leitura — e que talvez seja uma conexão pouco usual — foi a semelhança entre a trama de E Não Sobrou Nenhum e a franquia de filmes Jogos Mortais. Veja bem: no primeiro filme, por exemplo, o vilão Jigsaw, movido por um senso de justiça distorcido, cria armadilhas elaboradas para testar as falhas morais e os pecados de suas vítimas, muitas vezes julgando-as por ações do passado. O juiz Wargrave, por sua vez, personagem central do livro, opera sob uma lógica parecida: ele não mata por matar, mas porque vê em cada pessoa ali um culpado, alguém que, aos seus olhos, escapou da justiça comum e, portanto, merece punição. E, detalhe: tanto Jigsaw quanto Wargrave me despertam imensa simpatia, por mais doentios que sejam os seus planos e visão de mundo.

Essa personalidade ambígua, a um só tempo sádica e racional, que combina a ânsia de provocar dor com um senso quase fanático de justiça, é fascinante e perturbadora. E o mais impressionante: Wargrave não apenas arquitetou cada assassinato, como planejou meticulosamente a própria morte, inclusive escrevendo a maneira exata como seria encontrado. É uma genialidade que, junto à maestria narrativa de Agatha Christie, transforma essa leitura em algo memorável.

Trata-se, enfim, de uma leitura incrível, sendo o meu único arrependimento não tê-la feito antes. E, embora seja clichê dizê-lo, o meu desejo agora é retomar a leitura, tentando me atentar a todas as pistas que deixei passar, todos aqueles sinais que apontavam para o juiz — sinais esses que, aliás, se fazem presentes já no primeiro capítulo, nas páginas iniciais do livro. Trata-se, inclusive, de algo que pretendo fazer num futuro próximo (espero!), já que acabei de adquirir, através da Estante Virtual, um exemplar de O Caso dos Dez Negrinhos, da minha saudosa Círculo do Livro, com a elogiada tradução de Leonel Vallandro. Outra tarefa que reservo para breve é um mergulho na aclamadíssima série da BBC, uma louvável e fiel adaptação da obra para a televisão.

Como você vê, E Não Sobrou Nenhum é como uma isca por meio da qual Agatha Christie acaba nos fisgando de vez, levando-nos a querer mergulhar mais e mais em suas tramas envolventes, nos seus personagens dúbios e caracterizados por uma ambiguidade que, de tão humana, se revela assustadora...


CHRISTIE, Agatha. E Não Sobrou Nenhum. Tradução de Renato Marques. São Paulo: Globo, 2009.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

A carona da Bia

Dia desses, ao encerrar expediente, dei-me com a balbúrdia típica dos adolescentes ao final da aula. Para quem não sabe, eu trabalho dentro de um campus no qual estão situadas duas escolas: uma infantil, da rede municipal, e outra estadual, sendo esta o cenário do tumulto juvenil supracitado.

Encaminhando-me para a saída do campus, avistei uma jovem embarcando em um veículo sob o olhar atento de um colega, que, (falsamente) impressionado, se dirigiu a uma outra colega. “A Bia vai embora nesse carro?” E em seguida, fazendo coro com alguns outros colegas, gritou “Dá carona, Bia!”, enquanto o veículo se afastava.

Tal situação trouxe à tona uma situação similar da qual há muito não me recordava, mas que permanecia aqui, arquivada nos recônditos da memória. O ano era 1993. Eu cursava a terceira série e os meus pais foram me apanhar de carro na escola, o que, por ser desnecessário, era raro. Já dentro do automóvel – um Corcel branco que o meu pai teve nos anos 90 – ouvi o Renato gritando, animado: “Que carrão hein Alex!” Renato era um colega com o qual devo ter estudado entre 91 e 94. Tinha sobrancelhas espessas e, certa vez, rapou a cabeça, tornando-se alvo da zombaria dos colegas. Enquanto escrevo, fico me perguntando se Renato se recorda de mim e do meu nome tal como, por algum motivo, me recordo dele, embora nunca tenhamos sido amigos...

Fique claro que minha família morava em uma favela à época. Mamãe, que já lavara e passara para fora a fim de ajudar o papai com as despesas, começara a se arriscar como revendedora de roupas e afins, enquanto minha irmã e eu atravessávamos uma linha de trem diariamente para irmos à escola. Ou seja: a minha situação socioeconômica em nada era melhor que a dos meus colegas de turma. Fingir surpresa para constranger um colega pelos seus “privilégios”, porém, era regra naquele tempo e parece ser ainda hoje.

Fiquei pensando nessas coisas que nunca mudam: nesse espaço de 32 anos, o mundo testemunhou conquistas inimagináveis em 93. Hoje temos redes sociais, Inteligência Artificial e todas essas coisas nas quais a Bia e seus amigos são decerto mais habilidosos do que Renato e eu. A despeito disso, porém, continua a ser divertido fazer troça sobre o “carrão” do colega, o que é inofensivo. Diferentemente do bullying, da homofobia e afins, que deviam, sim, fazer parte de um passado distante...

Atravessei a avenida e fui para o meu ponto de ônibus tomado pela nostalgia, bem como pelo desejo de que a Educação de agora – a familiar e a formal – não falhe em formar seres humanos melhores, mais conscientes e empáticos do que a Educação do meu tempo, apesar dos seus muitos êxitos, logrou formar. Tomara que a Bia – além de se tornar uma adulta generosa que ofereça muitas caronas aos amigos – viva em um mundo cheio de possibilidades, que saiba votar, que entenda o valor do trabalho e do estudo, e, sobretudo, que leve consigo um profundo respeito por toda forma de vida.

“Dá carona, Bia!”, ainda ecoava na minha mente, enquanto eu me recostava no assento do ônibus e colocava os fones nos ouvidos. Enquanto isso, o carro da Bia se afastava, ligeiro, rumo a um futuro melhor. Rumo à vida extraordinária que ela tem pela frente...

 

 

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Trem de Maio


Eram 22h03 quando consultei o relógio. Na companhia de um querido amigo, eu voltava de metrô para casa depois de mais uma incursão pela Bienal Mineira do Livro. Falávamos sobre a necessidade de dizer “sim” à vida, encontrando um ponto pacífico entre a manutenção dos vínculos que nos são caros e o cultivo de nossa introspecção, privacidade e solitude.

Um repentino silêncio se havia estabelecido quando ele adentrou o vagão com a sua bicicleta, que, de costas para nós, acomodava contra a parede do trem. Trajava uma camiseta simples, bermuda e boné, sendo, portanto, um sujeito de uma simplicidade a despeito da qual fui imediatamente tomado de curiosidade a seu respeito.

Foi o gesto seguinte, porém, que mais me impactou: sem cerimônia, ele se sentou no chão, como quem já não tem pressa nem medo do olhar alheio, sabendo que o mundo é seu, sem script rígido a seguir. Havia leveza ali. Um tipo raro de liberdade que, de tão serena, quase me constrangeu.

Era só um rapaz com uma bicicleta. Mas naquele instante, ele parecia conter tudo o que me falta: espontaneidade, presença, um jeito de viver livre de amarras imaginárias.

Fiquei ali, dividido entre a admiração e a melancolia, dada a consciência do quanto engomo minha própria vida, privando-me dessa liberdade. Não a liberdade épica, grandiosa, mas a liberdade miúda — de pedalar à noite, voltar quando der vontade, sentar no chão do metrô se assim quiser.

Pouco mais que uma hora depois, já no terminal de ônibus – pois muita baldeação é necessária entre as regiões nordeste e sudoeste de BH – vi outro rapaz. Sentado na plataforma, bem onde os ônibus passam, ele não se moveu nem quando da aproximação do veículo – que, aliás, precisou frear a centímetros dos seus pés, como se o moço demarcasse o ponto exato em que o ônibus deveria parar.

Tal imagem também me atravessou, criando um inevitável contraste com a cena anterior. Enquanto o rapaz da bicicleta me despertara admiração e desejo de liberdade, aquele na plataforma me alertou quanto às possíveis consequências da irresponsabilidade. O primeiro me inspirou pela leveza; o segundo, me assustou pela falta de zelo consigo mesmo. Um sentou-se no chão como quem confia na vida; o outro, como quem a desafia sem medida.

Percebi, então, que, antes de romantizar qualquer gesto, vale reconhecer a linha tênue entre liberdade e descuido, sendo a consciência a divisa entre esses dois extremos.

Talvez seja isso que eu busque: um despojamento lúcido. Uma entrega que não seja imprudente, mas libertadora. E que comece, quem sabe, com um simples “sim”, ou com o gesto inesperado de sentar no chão e — entre o silêncio do vagão e o ronco ritmado dos trilhos — me perceber inteiro e cheio de vontade de viver.


segunda-feira, 7 de abril de 2025

Uma matuta na "zoropa", por Francisca Gomes

 

O texto de hoje é de autoria não apenas de uma escritora admirável, mas também de uma amiga querida. Autora de obras como Fragmentos: vidas, amores e verdades (Travassos, 2018) e Assim como a fênix (IDE, 2018) – que, vale o registro, já ganhou resenha por aqui – Francisca Gomes nos brinda hoje com o seu olhar atento, poético e – por que não dizer? – “matuto” sobre uma viagem de intercâmbio. Havendo recebido a honra de postar aqui no blog a crônica* de autoria dela, convido você, leitor, a embarcar com a autora cearense em uma aventura pelas “zoropa”. Afinal, não é justamente esta a função da literatura: proporcionar-nos viagens nas quais o texto é o único passaporte necessário? Então, se assim é, aperte o cinto e vamos nessa!

 

Lá estava meu nome na lista dos selecionados para o intercâmbio na Irlanda pelo Programa Professores sem Fronteiras da Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza, com mais 24 colegas de profissão. Exultante, contei a novidade à família e aos amigos. Oh, my God! Dali a um mês eu pisaria em terras europeias. Durante esse período, providenciar passaporte, casacos, luvas, gorro, “doleira”, ficar de olho no valor do Euro e atualizar o vocabulário básico do inglês se converteu em minha nova rotina.

Passar horas voando sobre o Atlântico seria a parte assustadora daquela novidade gigantesca, mas nem um friozinho na barriga senti durante as nove horas de voo a bordo de um Airbus da TAP Air Portugal com destino à Lisboa, ponto de conexão. Lá, passamos doze horas.

O primeiro detalhe impressionante, captado pelos meus sentidos aguçados, foi a mistura de idiomas das pessoas na fila da área de imigração. Lá estava eu, brasileiríssima, com cidadãos de diversas etnias e culturas.

À medida que avançava na fila enorme, que dava voltas e voltas dentro de um salão, discretamente observava os traços, gestos, trajes e vozes de homens, mulheres e crianças de vários países. Como Deus é criativo, pensei. A obra humana é magnífica! Somente neste orbe, quanta variedade étnica. Alguns exemplares estavam ali.

Chegada a Lisboa.

Sair do aeroporto com um pequeno grupo de colegas, aproveitando o bônus que a conexão de 12 horas nos favoreceu, foi eletrizante. Caminhar em solo europeu, pelos pontos turísticos de Lisboa, com a possibilidade fácil de comunicação, foi um presente da vida. Lá me senti uma turista internacional.

Na chegada ao aeroporto de Dublin, depois de uma viagem de quase três horas, meu corpo experimentou a temperatura baixa pela primeira vez. No mês de setembro, em pleno outono, o frio não era tão incômodo, mas para uma nordestina do sertão cearense, qualquer friozinho exige um agasalho. Precavida, lá experimentei a utilidade de uma segunda pele térmica.

Nosso destino era Limerick, 214 quilômetros distante da capital irlandesa. O percurso até à cidade universitária foi feito durante a madrugada num ônibus fretado e durou duas horas e meia. Logo que entrei no veículo, observei imediatamente o volante do lado direito. Que confuso para o meu juízo essa tal mão inglesa.

Acordar num hotel de uma cidade europeia parecia uma cena cinematográfica. Foi exatamente naquele momento, quando abri os olhos para aquele novo cotidiano, que tive a sensação de estar dentro de um filme. Enquanto eu acordava às 7h na Irlanda, minha família estava dormindo em fase REM total no Brasil. A legítima matuta que sobrevive em mim, a poetisa de nascença ou essas duas personalidades juntas, trataram de observar as peculiaridades daquele lugar em que nunca havia pensado visitar, muito menos com status de intercambista. Nos meus sonhos de menina que morou no interior do Ceará, da Bahia e do Piauí, não cabia a cidade interiorana de Limerick, sequer tinha conhecimento daquele lugar no planeta.

No Clayton Hotel.

Os sonhos turísticos de uma pessoa nascida no sertão são aqueles que comumente vemos na TV: Paris, Londres, Hong Kong... Comecei a assistir filmes gravados nessas metrópoles com 10 anos de idade, na tela em preto e branco de uma televisão pequena, na sala da minha modesta casa, na companhia dos meus pais e irmãos. Três décadas depois, naquele setembro de 2024, com 53 anos de idade, tinha à minha frente uma janela que dava para um rio de nome Shannon, que cruza o centro de uma cidade irlandesa, a 6.865 quilômetros da minha casa em Maracanaú, no meu Ceará. Aqui cabe um “orraaaaaaaaaa” bem cearense, mas eu expressei um “Uhuuuuuuu” quando abri as cortinas e me deparei com tamanha belezura e senti orgulho da minha conquista, que não veio tarde, pois acredito que tudo chega no tempo certo.

Antes de viajar, na arrumação das malas, duas amigas me ajudaram a organizar os looks de cada um dos 12 dias que passaria em Limerick, pois uma matuta como eu, que nunca havia “turistado”, e para tão longe de casa, estava deveras insegura nesse quesito. E, quando me vi no espelho do hotel, com um tipo de roupa que nunca tinha vestido, só senti vontade de rir. Eu estava muito elegante para os padrões cearenses. Já para o padrão europeu, era apenas uma estudante vestida adequadamente para ir à faculdade.

Chique demais para os padrões brasileiros. 😊

Caminhar pelas ruas da bonita Limerick com meu grupo de colegas, do Clayton Hotel à Mary Immaculate College, foi uma experiência encantadora em cada um daqueles dias, pois me extasiei com o design das casas com portas coloridas, a diversidade de roseiras em cada jardim, o silêncio cortado somente pelo grasnar dos corvos. Ver essa ave de pertinho é uma das saudades que sinto, pois é um dos animais que desejava conhecer antes de morrer. Para mim, os corvos não simbolizam maus presságios em razão de sua cor ou hábitos necrófagos, mas astúcia, sabedoria e cura. Seu corvejar é um som agradável, me proporcionava genuína alegria. Se era matutice cumprimentá-los cada vez que os via, sou matuta com muito “goxto”!

Os corvos.

Percorrer os corredores da MIC carregando uma mochila nas costas, assistir aulas com professores irlandeses, em salas de estrutura clássica e ainda almoçar no refeitório com universitários “gringos”, me transportava para uma daquelas séries de streaming boas de maratonar. E tenho certeza de que não era apenas eu que tinha essa sensação.

Na Faculdade.

Entrar em igrejas católicas de estilo gótico, era uma cena de filme épico. Conhecer a St. Mary's Cathedral, com sua arquitetura medieval, construída no coração de Limerick e inaugurada em 1.168, fez meu coração bater mais forte com a sensação de voltar a uma época em que certamente vivi.

Na igreja.

Já a sensação de subir à torre do King John’s Castle, construído em 1200, ao lado do rio Shannon, em Limerick, e participar da encenação turística de um banquete medieval no Bunratty Castle, construído em 1425, trouxe à minha mente a lembrança dos contos de fadas que lia na infância e dos filmes em desenho animado da Sessão da Tarde.

Por trás da beleza fascinante desses lugares que constituem o patrimônio cultural de Limerick, existe a história das batalhas, das conquistas sangrentas, da evolução daquele povo, cujos registros estão também nos museus e nas bibliotecas, mas ainda impregnados nas paredes e na energia dos ambientes mais sombrios. “Matutice braba” seria considerar apenas a superfície.

Com Megg.

Minha personalidade matuta vinha à tona principalmente no horário das refeições. Preferia apontar minha escolha no cardápio, para não passar vexame na pronúncia estrangeira e sempre depois de uma consulta ao Google para verificar se o prato escolhido não tinha pimenta e curry, temperos incompatíveis com meu paladar e fortemente presentes em quase todos os pratos da culinária irlandesa. Depois de muitos dias comendo batata, ingrediente usado em quase todas as receitas, senti falta do cuscuz e do baião de dois, típicos da minha terra.

King John's Castle.

O choro de emoção só veio com o contato mais íntimo com a natureza, quando visitei os Cliffs of Moher; quando fiz um passeio na Slea Head Drive, em Dingle, rota cênica que fez parte de muitos filmes; quando percorri o Lago Derg de barco; quando pisei na areia da praia de Lahinch; quando colhi pedrinhas na península, pétalas de rosas caídas das roseiras no People Park e folhas secas das árvores de plátano nas ruas de Limerick; e, muito especialmente, quando acariciei a crina de Megg, égua da raça Tinker, nas andanças pelos arredores do castelo de Bunratti, e a pelagem dos cães da raça Old English Sheepdog, quando seus tutores gentilmente me deram permissão. Nesses momentos, fui matuta sem cerimônia, sem vergonha, fui só a neta do Seu “Ontõi Gomi”, fui só uma filhinha de Deus com o coração transbordando de gratidão, diante da beleza exuberante que vi em outro ponto do planeta e que só o Autor da Vida foi capaz de criar.

Nos Clifs.

Durante as aulas na MIC e visitas a escolas, aplaudi o que tem qualidade excelente, reconhecendo a sorte daquele povo. A Irlanda é um país de economia altamente desenvolvida, com alto padrão de vida. Lá “professor tem valor”. Em contrapartida, senti orgulho dos professores que tive, da professora que me tornei, da aluna que fui e dos alunos que tenho. Intercâmbios profissionais servem para impulsionar reflexões e ideias. Voltei com a bagagem cheia de muitas.

Foram 15 dias consumindo em Euro. Lá não passei nenhum perrengue chique. Retornar ao Brasil e voltar a pagar as contas em Real me lembra a fala de João Grilo na obra de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida: “fica rica, fica pobre”. Mas também vi gente aperreada do juízo, pedintes e viciados. Esses males emocionais levam muitos deles a se despedirem da vida, mergulhando nas águas do rio Shannon.

Turistando...

Quando saímos do nosso mundo para visitar outras partes do Mundo, é que temos noção do nosso tamanho, do nível em que estamos, do que realmente já alcançamos, do quanto mais podemos crescer, do tanto que temos que agradecer.

O melhor de tudo, é que a viagem mais importante, aquela que ganhamos de bônus, é, na verdade, a viagem que fazemos para dentro de nós, algo que acontece espontaneamente e, quando nos damos conta, estamos nos vendo na perspectiva do outro, pois a todo momento analisamos a nós mesmos.

Nesse intercâmbio, fui mais criança do que adulta, senti-me mais professora do que aluna, fui mais matuta do que culta, fui muito mais eu.

Voltei dizendo sorry por qualquer besteirinha, muito mais educada pedindo please para tudo, acho que dizer excuse me parece muito mais elegante, é charmoso agradecer dizendo thank you very much. Mas, é só uma fase. Vou morrer dizendo “oxente”.


Francisca Gomes
Professora, escritora e poetisa
*Esta crônica faz parte do livro Farofa Nordestina, do grupo de escritores Os Tramaturgos.