Aviso: esta
resenha está toda trabalhada nos spoilers.
Portanto, se você ainda não leu a obra, sugiro que faça isso primeiro e depois
a gente conversa. Afinal, levar spoiler
de Agatha Christie é um crime mais grave do que aqueles criados por ela na
ficção. Está avisado(a).
Fonte: imagem criada por Inteligência Artificial.
Minha história com Agatha
Christie começou lá no início dos anos 2000, quando, ainda estudante do Ensino
Médio, apanhei um livro dela na biblioteca da escola. Não recordo o título da
obra, mas sei que foi lendo as orelhas e a contracapa que descobri que ela era tida
como a “Rainha do Crime” ou “Dama do Crime”. Curiosamente, não me lembro de ler
aquele exemplar, de modo que acredito havê-lo devolvido intacto à biblioteca.
Anos se passaram até
que, já um adulto em condições de comprar os meus próprios livros, adquiri, sem
muito critério, uma daquelas edições coloridas e em capa dura da HarperCollins,
nas Lojas Americanas. A ausência de critério foi tanta que, novamente, não me
lembro do título da obra. Lembro, porém, que iniciei a leitura, que, para minha
surpresa, não me conquistou — razão pela qual acabei incluindo o livro em uma
das minhas habituais doações.

É fato que essa última
experiência me levou a criar uma resistência à autora, levando-me a crer que
talvez a “Rainha do Crime” não fosse para mim. À época, eu não havia ainda
aderido a uma filosofia literária que muito me acompanha nos dias de hoje: cada
leitura tem o seu tempo. Muitos são os elementos que podem determinar o tempo
ideal desta ou daquela leitura: idade, maturidade, estado de humor, momento de
vida etc. São muitos os fatores que podem definir se determinada leitura é ou
não adequada para um dado momento, sendo deveras subjetiva a definição disso.
Por algum motivo, no
entanto, o nome de Agatha Christie voltou a despertar meu interesse
recentemente. E foi assim que, ao retornar à minha tão querida Biblioteca
Pública Estadual de Minas Gerais – outrora Biblioteca Pública Estadual Luiz de
Bessa – levei comigo dois livros: Assassinato
no Expresso do Oriente e E Não Sobrou
Nenhum, sendo a este último que nos deteremos aqui.
Parece-me conveniente
já começar “tirando o elefante da sala”: a mudança
do título — assunto que é do conhecimento de praticamente qualquer leitor
que se aproxime dessa obra. Desde já, vale esclarecer que tenho consciência de
não ter lugar de fala no que tange a questões raciais, de modo que ora detenho-me
a compartilhar minha opinião tão-somente na condição de leitor. E é como leitor
– e aspirante a escritor – que acredito que, embora a alteração do título
revele uma válida e louvável consciência da qual por muito tempo carecemos
enquanto sociedade, considero que modificar o título, além de não resolver os
problemas, acaba privando o leitor do contato com a intenção original da
autora, configurando-se, portanto, como um desrespeito a ambos.
É bem verdade que a
alteração do título de O Caso dos Dez
Negrinhos para E Não Sobrou Nenhum,
bem como a substituição da palavra “negrinhos” por “soldadinhos” no poema e ao
longo do texto, não traz mudanças para o enredo nem prejudica a compreensão da
trama. Por outro lado, porém, ela se apresenta como uma solução incoerente.
Explico: Alfredo Monte, em seu blog Monte de Leituras,
foi muito certeiro ao argumentar que, ao se deter à questão do racismo,
ignorou-se o machismo, o etarismo e até mesmo o antissemitismo sutilmente (às
vezes não tão sutilmente assim) presentes na obra, expressos no comportamento
dos personagens. A alteração do título, portanto, embora parta de uma
preocupação genuína, válida e urgente, acaba por se revelar tola e desatenta aos
demais problemas. Problemas esses que, aliás, hão de se fazer presentes em
qualquer expressão artística mais distante no tempo.
Logo, não é alterando o
título da obra da Agatha Christie (ou proibindo o acesso à obra do Monteiro
Lobato) que a gente transforma as coisas, mas, sim, mantendo como está o que
foi feito no passando, lançando-lhe um olhar devidamente crítico e, claro, tomando-o
como exemplo do que não fazer doravante. Afinal, o nosso norte está comumente
na contramão das nossas maiores falhas, e isso vale para nós tanto como
indivíduos quanto como sociedade. Logo, é bom que essas falhas estejam lá, para
que a gente as olhe e as tome como lembrete de que é tempo de ir por outra
direção.
Contudo, dentre os
argumentos contrários à alteração do título, não concordo com aquele que
crítica o suposto spoiler no título
atual. Veja bem: “e não sobrou nenhum” faz referência ao último verso da
cantiga infantil que nos é apresentada nos primeiros capítulos, logo que os desafortunados
personagens chegam à Ilha do Soldado. Logo, ainda que o título fosse outro, não
escaparíamos do suposto spoiler já no
capítulo 6 da segunda parte da estória. Não
há spoiler no título então adotado
para a obra, até porque a trama poderia ir (e vai) para muito além do
misterioso poema. E, se você vê spoiler
aí, devo concluir que passará longe de filmes como “Não Adianta Rezar” (2018)
ou “Ninguém Sai Vivo” (2021), certo? (Se bem que, de tão ruins que são, talvez
seja melhor passar longe mesmo...)
Seja como for, felizmente
nós temos as livrarias sebos e sites como a Estante Virtual, onde podemos
encontrar edições antigas, com o título original e, inclusive, com traduções de
qualidade superior.
Inclusive, no que tange
à edição lida por mim, temos aí um outro “elefante a ser tirado da sala”. A
edição que li foi a da Editora Globo, uma edição de bolso de 2009, com tradução
de Renato Marques de Oliveira. Tanto por ter visão subnormal como por julgá-las
esteticamente desagradáveis, eu não gosto de edições de bolso. No entanto, por
ser esta uma obra muito procurada pelos leitores da Biblioteca Pública, a
referida edição foi a única opção que me restava na estante.
De modo geral, não sou
muito atento a questões de tradução, revisões e afins. No entanto,
especificamente na página 21 desta edição, no capítulo 5 da parte 1, ao quarto
parágrafo, um erro de revisão me colocou numa pista errada. E digo “errada” não
por me tirar do encalço do verdadeiro assassino, mas por ser uma pista jamais
pretendida pela autora. Explico: o trecho “Armstrong devia ter dado com a
língua nos dentes, supôs”, dá a entender que o Gen. Macarthur e o Dr. Armstrong
(que inclusive nos é apresentado no capítulo seguinte) tinham alguma relação pregressa,
o que definitivamente não se verifica. E sabe quando fui chegar à conclusão de
que estava numa pista errada? Somente na página 116, no capítulo 5 da parte 5,
quando, ao nos ser revelado o passado do Gen. Macarthur, faz-se menção ao jovem
Armitage, um homem do passado do general. Veja
que um erro — um erro vulgar de revisão — prejudicou significativamente o meu trabalho
como leitor-investigador. E o mais revoltante é que, ao acessarmos a
amostra da 4ª
(2014) e da 5ª
(2021) edição da Editora Globo, disponibilizadas no site da Amazon, verificamos
que esse erro continua lá. Ou seja: reeditam a obra, fazem uma edição
comemorativa belíssima, de capa dura e, claro, preço elevado, sem, no entanto,
sequer submetê-la a uma nova revisão.
O supracitado Alfredo
Monte, em sua resenha crítica, foi um tanto duro em relação a essa tradução.
Eu, no entanto — seja por não ter mergulhado tão a fundo na questão da
tradução, na comparação com outras versões, ou, claro, por pura inaptidão —
devo dizer que, fora o erro mencionado, não vi grandes problemas. No geral, trata-se de uma edição competente
e que vai proporcionar a você, leitor, um mergulho sensacional nessa trama.
Portanto, se você tem consigo uma edição da Editora Globo com a tradução de
Renato Marques, não se desespere, pois, de modo geral, sua experiência não será
significativamente prejudicada.
Quanto ao livro, basta qualifica-lo
como simplesmente viciante. Comecei a lê-lo em um domingo e fui madrugada
adentro, movido não apenas por uma curiosidade ou por uma urgência de saber
quem era o grande vilão — até porque, no final das contas, todos ali são, de
alguma forma, vilões na história de outrem –, mas também por me ver
profundamente seduzido pela trama, vendo-me impossibilitado de interromper a
leitura, como se estivesse eu mesmo preso naquela ilha particular, cercado por
personagens de caráter duvidoso.
Antes mesmo de começar
a leitura propriamente dita, eu havia lido um comentário de uma leitora dizendo
que o início da história era um pouco confuso, devido à apresentação de cada
personagem e à dificuldade de decorar os traços de personalidade de todos de
uma só vez. E isso é verdade, num primeiro momento. No entanto, já nos
primeiros capítulos estamos completamente imersos naquela trama e na realidade
de cada personagem, de modo que essa confusão inicial não perdura por muito
tempo.
Um ponto interessante —
e talvez um pouco subjetivo — é que não
se trata de uma trama criada para que a gente torça por alguém. Eu,
particularmente, raramente me vi torcendo por algum personagem ou sentindo
compaixão pelo risco de morte no qual cada um se encontrava. A minha única
torcida, portanto, foi pelo assassino, vez que eu me pegava vibrando pela
próxima morte, ansioso por saber quem seria a próxima vítima e como, por
inspiração dos versos do poema, ela seria assassinada.
Curiosamente, se algum
sentimento de piedade me veio, ele foi direcionado para as vítimas daqueles dez
personagens: a pobre idosa supostamente morta pela negligência do casal Rogers;
o pequeno Cyril, morto quando aos cuidados de Vera Claythorne; o grupo de
nativos mortos pelo egoísmo de Philip Lombard; a jovem Beatrice, morta pela
hipocrisia religiosa de Emily Brent; o jovem Richmond, morto pelo ciúme doentio
do Gen. Macarthur; a paciente morta pelo alcoolismo do doutor Armstrong; o
casal de crianças morto pela irresponsabilidade de Antony Marston, entre
outros. Mas não me entenda mal: não sentir compaixão por esses personagens não
significa que eles sejam desprovidos de carisma — muito pelo contrário. Carisma
é o que lhes sobra. É impossível não se
interessar por eles, aproximar-se deles e desvendar-lhes os obscuros segredos.
Ouso dizer que uma
experiência completa e realmente prazerosa de E Não Sobrou Nenhum só é possível se o leitor, em vez de apenas
fazer uma leitura corrida, como quem cumpre um protocolo, mergulhar na trama
como um verdadeiro investigador — alguém disposto a desvendar o mistério que ali
paira. Eu mesmo, durante a leitura, quando mais da metade dos personagens ainda
estava viva, levantei a hipótese de que o assassino poderia ser algum dos
personagens supostamente mortos, alguém que retornaria revelando haver forjado
a própria morte. Levantei também a possibilidade de que um décimo primeiro
personagem surgisse, amarrando a trama de cada um dos dez. Trata-se de uma
sagacidade que vai sendo afinada sobretudo se você conjuga a leitura com o
hábito de assistir a filmes de terror, suspense e afins. E é muito prazeroso para um leitor chegar ao final da trama e verificar
que estava dando palpites corretos — mesmo tendo deixado muita coisa passar
despercebida ao longo do caminho.
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Uma das reflexões que
me ocorreram após a leitura — e que talvez seja uma conexão pouco usual — foi a
semelhança entre a trama de E Não Sobrou
Nenhum e a franquia de filmes Jogos
Mortais. Veja bem: no primeiro filme, por exemplo, o vilão Jigsaw, movido
por um senso de justiça distorcido, cria armadilhas elaboradas para testar as
falhas morais e os pecados de suas vítimas, muitas vezes julgando-as por ações
do passado. O juiz Wargrave, por sua vez, personagem central do livro, opera
sob uma lógica parecida: ele não mata por matar, mas porque vê em cada pessoa
ali um culpado, alguém que, aos seus olhos, escapou da justiça comum e,
portanto, merece punição. E, detalhe: tanto Jigsaw quanto Wargrave me despertam
imensa simpatia, por mais doentios que sejam os seus planos e visão de mundo.
Essa personalidade ambígua, a um só tempo sádica e
racional, que combina a ânsia de provocar dor com um senso quase fanático de
justiça, é fascinante e perturbadora. E o
mais impressionante: Wargrave não apenas arquitetou cada assassinato, como
planejou meticulosamente a própria morte, inclusive escrevendo a maneira exata
como seria encontrado. É uma genialidade que, junto à maestria narrativa de
Agatha Christie, transforma essa leitura em algo memorável.

Trata-se, enfim, de uma
leitura incrível, sendo o meu único arrependimento não tê-la feito antes. E,
embora seja clichê dizê-lo, o meu desejo agora é retomar a leitura, tentando me
atentar a todas as pistas que deixei passar, todos aqueles sinais que apontavam
para o juiz — sinais esses que, aliás, se fazem presentes já no primeiro
capítulo, nas páginas iniciais do livro. Trata-se, inclusive, de algo que pretendo
fazer num futuro próximo (espero!), já que acabei de adquirir, através da
Estante Virtual, um exemplar de O Caso
dos Dez Negrinhos, da minha saudosa Círculo do Livro, com a elogiada
tradução de Leonel Vallandro. Outra tarefa que reservo para breve é um mergulho
na aclamadíssima série da BBC, uma louvável e fiel adaptação da obra para a
televisão.
Como você vê, E Não Sobrou Nenhum é como uma isca por
meio da qual Agatha Christie acaba nos fisgando de vez, levando-nos a querer
mergulhar mais e mais em suas tramas envolventes, nos seus personagens dúbios e
caracterizados por uma ambiguidade que, de tão humana, se revela assustadora...
CHRISTIE, Agatha. E Não Sobrou Nenhum. Tradução de Renato
Marques. São Paulo: Globo, 2009.